03/02/11

Na cama com o socialismo democrático


Espero ansiosamente o dia em que jornalistas e entrevistadores  perguntarão a José Sócrates, Vitalino Canas, Augusto Santos Silva e outros entusiastas do «socialismo democrático» (o Jugular também serve, para começar), o que pensam dos seus camaradas tunisinos e egípcios que estiveram no poder durante  tantas décadas. Aliás, e uma vez que ninguém tem pejo em falar da «China comunista», penso que começaria a fazer sentido falar do colapso eminente do «Egipto socialista democrático». 
O que pensará Soares do assunto? O que pensa Juventude Socialista do assunto, quando não está ocupada com a questão candente dos estágios na administração local ?  O que pensa o «jovem» secretário-geral, Duarte Cordeiro, na frescura dos seus 32 anos de idade? O que queria Basílio Horta dizer quando afirmou o seguinte: "São países com grande potencialidade e onde nós temos grande capacidade competitiva. Por outro lado, são países onde os negócios são tanto mais fáceis quanto mais fáceis forem as relações políticas. E a relação política entre Portugal e os países do Magrebe tem sido muito positiva".
O que pensarão eles de todos esses regimes onde se torturava e executava para que o clã presidencial pudesse viver à altura das suas ambições, onde a CIA despejava os prisioneiros que já não podia manter em Guantánamo?
Quem condena, quem sempre condenou, quem se distancia, quem compreende, quem gagueja, quem "desdramatiza" e quem nunca quis saber? Eis  o que poderia ser um bom pedaço de jornalismo. Isso e saber o que segredou Ben Ali aos ouvidos de Sócrates, ainda não há um ano.

9 comentários:

josé manuel faria disse...

É a vergonhosa "real politik" do Magrebe à China.

A quem interessa essa coisa dos "direitos Humanos "

Miguel Serras Pereira disse...

Pois é, caro José Manuel Faria. Mas, embora compreenda e aprove o seu protesto, é preciso ver que aquilo que assusta o Magrebe e a China, sem dúvida, mas também a UE e os EUA, é o espectro da democracia, o seu potencial revolucionário instituinte. É a reivindicação, anti-oligárquica e anti-classista, de plena cidadania activa, de participação igualitéria. São as mulheres e homens que saem ara a rua e tomam a seu cargo, tornam responsabilidade sua, a conquista de direitos e liberdades. Há em embrião aqui uma figura alternativa de forma de governo, de exercício do poder, de relação com as instituições. Uma figura alternativa que, na medida em que se afirma e desenvolva e faça o seu caminho, torna obsoletos e parasitários os privilégios e superioridade hierárquica de todo o tipo de governo - da economia à política - que não seja exercido pelos governados, conduzido pelas suas deliberações e decisões responsáveis e entre iguais. Subjacente à vergonhosa dupla moral das classes governantes, está o velho medo da revolução sempre latente na iniciativa democrática da gente comum.

Cordias saudações solidárias

msp

Anónimo disse...

MSP: mas tudo isso morre nas eleições de Setembro.

Vermelhos disse...

MPLA também integra a Internacional Socialista, em vermelhos.net

Miguel Serras Pereira disse...

Anónimo das 22 e 41

na realidade, se o processo não criar qualquer coisa mais do que as eleições de Setembro, não conseguir instaurar formas de participação alternativa à representação (centrada na escolha de governantes que tem por condição prévia a renúncia ao autogoverno), que, pelo menos, não deixem a segunda monopolizar a actividade política e neutralizá-la entre a gente comum, você terá razão. Mas, até ao lavar dos cestos, é vindima. E, apesar de tudo, nunca se sabe. Que mais não seja porque as coisas não se limitarão ao Egipto nem à região; exercerão efeitos imprevisíveis, porque dependerão das respostas e iniciativas dos próximos tempos, também aqui, na UE, e no resto do mundo; exasperarão a crise e/ou introduzirão nelas novos termos e perspectivas potenciais; oferecerão verosimilmente nvas ocasiões e incitamentos à vontade democrática; deixarão, em todo o caso, a memória de experiência feita de que é possível mudar, de que não tem de ser sempre assim; minará um pouco ou muito, mas sempre mais do que nada, as relações de poder da dominação. Isto, bem entendido, se não for possível mais e melhor. Por enquanto.

msp

César disse...

Para já, temos este artigo de um tal de Paulo Pisco que é deputado do PS:

http://www.ionline.pt/conteudo/102351-as-revolucoes-e-o-islamismo

Digam lá se não é esclarecedor:

"É também por isso que uma fuga ou uma saída de cena de Mubarak semelhante à de Ben Ali poderia ter péssimas consequências, por dificultar a preparação de uma transição que procurasse evitar o ressurgimento no futuro de um governo de pendor mais radical, com tudo o que isso representa de aumento das tensões políticas e militares a nível regional."

Fernando disse...

MSP: é com alguma pena que o vejo escrever pouco sobre este assunto. Penso que hoje é um dia decisivo para o Mundo, em que pode nascer uma época em que a revolução se faz sem o partido revolucionário. Nesse caso, será a intuição popular suficiente para reivindicar a auto-organização do trabalho em geral e político em particular, ou isso é uma miragem que vai acabar em eleições para um parlamento e, no fundo, ficar tudo como está?

Ricardo Noronha disse...

Como está não fica. Uma borboleta bateu as asas algures.

Miguel Serras Pereira disse...

Caro Fernando,

a revolta na Tunísia e no Egipto é admirável pelos motivos que resumi num comentário acima, a propósito da intervenção do JMF. Só podemos desejar que, além de derrubar os ditadores, logre criar órgãos e conquistar direitos de intervenção directa nas decisões políticas e de direcção da economia que persistam para além das eventuais eleições para uma assembleia constituinte daqui a alguns meses. Claro que se esses órgãos puderem ter força e lucidez para tanto, como o Fernando desejaria, talvez as eleições constituintes pudessem emancipar-se da lógica parlamentar e representativa que perpetua a distinção estrutural e permanente entre governantes e governados. Mas devemos reconhecer que, até ao momento, ainda não emergiu no terreno da luta um projecto claramente articulado e colectivamente investido no sentido dessa transformação revolucionária, porque radicalmente democrática. Vamos ver.
Dito isto, essa transformação revolucionária, que creio que você tem em vista, se seria um excelente programa para o Egipto, não o seria menos aqui, onde, de resto, se assim podemos falar, as condições objectivas parecem mais favoráveis. É justo e saudável que nos solidarizemos com as revoltas de Tunes e do Cairo, que nos regozijemos com elas, mas acho que estará de acordo comigo para recomendar que não devemos procurar satisfazer nelas por procuração a nossa própria vontade radical de democracia. Aliás, a melhor solidariedade que podemos manifestar aos insurrectos do Magrebe é a de lutarmos pela democratização dos regimes que aqui nos governam, começando por travar, contra-atacando, a ofensiva oligárquica e socialmente regressiva que por estas bandas se faz cada vez mais sentir também.

Cordiais saudações democráticas

msp