13/11/10

Medidas anti-corrupção ao serviço da corrupção da democracia

Um dos traços paradoxais do novo espírito do capitalismo e da despolitização/privatização de massa que promove é substituir à crítica social e política a denúncia da corrupção individual, numa manobra de absolvição e esquiva à crítica dos princípios de funcionamento do regime, ao mesmo tempo que promove  ou absolve a corrupção contanto que bem sucedida, fazendo do dinheiro e da capacidade competitiva de auto-empresialização e enriquecimento de cada um o valor dos valores e, de facto, o valor que conta cima de tudo.
Entre tantos outros exemplos, pudemos ouvir assim, há meses, um ex-ministro afirmar que, "enquanto cidadão pode discordar de uma política [a aposta no nuclear]; mas, enquanto empresário, pode aproveitar as oportunidades de negócio dessa mesma política". Ou, há dias, o presidente de uma fundação de sucesso explicar que, quando atrapalham a recuperação ou salubrização das finanças, não faz sentido manter princípios, a não ser "congelados".
Mas a cereja em cima do bolo local nesta matéria são as medidas de corrupção dos direitos e garantias fundamentais,  promovidas a pretexto de  combate à corrupção pelo Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP), legalizando a denúncia confidencial e garantindo o anonimato dos denunciantes. Estas medidas são exemplares, não só porque inocentam a política económica e a economia política em vigor, mas porque estipulam que a defesa da sua ordem está acima das garantias fundamentais e dos princípios de qualquer ética comum. Legitimam a denúncia anónima tendendo a torná-la mais um recurso competitivo da guerra de todos contra todos ao serviço do sucesso como único valor "comum". Declaram guerra à corrupção através da corrupção da democracia.
O problema é que pode acontecer — e só de nós isso depende — que nem tudo venham a ser rosas nesta tentativa de corrupção do espírito democrático ao serviço da oligarquia. Basta que, num sobressalto de cidadania activa, uns quantos cidadãos resolvam entender-se para sabotar o sistema agora disponibilizado pela Internet, denunciando e repetidamente nele suspeitas e acusações de corrupção visando, além (para começar) dos responsáveis, também, por exemplo, e apenas a esse título, o demónio e o bom deus, os assalariados e os criadores de (des)emprego, os oficiais da GNR e os pastores adventistas, os bispos e futebolistas em voga, o Ricardo Espírito Santo Salgado e o Noronha, os funcionários das finanças e os contribuintes, os líderes partidários e os vizinhos do lado, o Vítor Dias e o João Tunes, os dirigentes sindicais e os precários sem sindicato,  os promotores imobiliários e os trabalhadores da construção civil…

1 comentários:

Ricardo Noronha disse...

Que rica companhia me deste entre vírgulas. Só me falta um pai para compor uma santíssima trindade...