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13/03/13

Ainda sobre Chavez - I - o irracionalismo

A propósito da morte de Chavez, tenho encontrado aqui e ali algumas declarações elucidativas da abordagem com que muita gente que se considera de esquerda endereça ao ex-presidente venezuelano. Escolho duas delas: "Oh, ainda hoje chorei pelo falecimento do Chavez. Que não desapareça nunca! Que tudo o que o povo venezuelano tem mostrado nestes dias se prolongue por milénios!"; "Choramos a partida de El Protector". Também na caixa de comentários do blog de um destacado militante do PCP se encontra a inscrição de que haveria "mortos que não morrem". Dentre o rol de características totalmente opostas a uma noção democrática, ponderada e autónoma de lutas sociais (e, por isso mesmo, totalmente opostas ao princípio internacionalista de que "a emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores") encontram-se: a solidariedade lacrimosa com o dirigente; a santificação de figuras políticas; a evolução de um processo político colocada nas mãos de um líder protector; a eternidade do líder enquanto o real portador de um projecto político.

Curiosa e tristemente, é na esquerda "revolucionária" e nacionalista dos últimos 100 anos que as manifestações de maior fervor emocional pelo falecimento de líderes paternalistas e protectores mais se fez sentir. Se os fascistas se notabilizaram por enaltecer a morte numa operação de profundo desprezo pela vida (quem não se lembra do delirante "Viva la muerte"?), a esquerda nacionalista de raiz leninista e/ou terceiro-mundista prefere canonizar os seus líderes entretanto falecidos. Se há óbvias diferenças, também há um campo comum irracionalista. Quando os mortos são o farol da vida então é porque a política já transporta algum grau de redenção escatológica. Claro que é legítimo cada um ver a política e a vida como melhor lhe aprouver. Duvido é que, por este caminho, alguma coisa se possa modificar nos fundamentos sociais do capitalismo, da exploração económica e da opressão política.

Quando um dirigente da esquerda é recordado fundamentalmente a partir de aspectos estritamente emotivos, então já se está no plano do irracional. A transformação que o "povo de esquerda" faz dos seus líderes em ícones religiosos e dos respectivos destinos post mortem em celebrações litúrgicas, só demonstra a penetração do irracionalismo no seu seio.

Há uns anos atrás a moda na esquerda era "ser-se ético". Hoje, com a deflagração da crise económica, e com o fim da panaceia do "capitalismo de rosto humano", há que distribuir fé em abundância onde a racionalidade parece escassear. Da moral dos "valores" à moral da fé há todo um cardápio de possibilidades e de imagens a escolher...

No entretanto, a reflexão crítica da ligação de Chavez (e de outros processos políticos) a temas, práticas e personalidades da direita mais extrema continua de fora do circuito de preocupações da esquerda... Para quê reflectir sobre isso se só faltam terços e cruzes para canonizar o santo venezuelano?

(cont.)

12/01/13

O irracionalismo e as campainhas de Pavlov: um exemplo


 
Nos últimos dias ocorreu no 5 dias mais uma polémica um tanto ou quanto paradigmática de sectores da esquerda portuguesa. A propósito de um concurso de blogues, o Renato Teixeira apelou ao voto naquele blog recorrendo a um vitral com Marx, Engels, Lenine e… Trotsky. Não vou comentar a figura do Trotsky que aparte a sua criatividade nos primeiros anos do século XX (vd. primeira versão da revolução permanente) e da épica "História da Revolução Russa", não me inspira propriamente admiração ou simpatia. Aliás, para quem se interessa sobre as concepções que Trotsky praticou nos primeiros anos da Revolução soviética e em que as experiências de militarização do trabalho foram só um aspecto entre outros basta ler a obra “Terrorismo e comunismo”, em especial o capítulo intitulado “Problemas da organização do trabalho”.

Mas o que me interessa realmente comentar e identificar são três aspectos de como a esquerda nacionalista e trauliteira aborda as questões políticas, o património das várias correntes e a materialidade dos processos sociais e políticos. E, a este título, as respostas na caixa de comentários são cristalinas sobre o que realmente motiva os stalinistas na sua actuação quotidiana.

1) Em primeiro lugar, toda a discussão que a esmagadora maioria dos comentadores levou a cabo é puramente iconoclasta. Isto é, a discussão política é substituída pelos insultos e pelo valor facial da imagem de um qualquer “renegado” que tanto podiam ser figuras tão diferentes como o Trotsky, o Malatesta ou o Makhno. Basta aparecer a “fuça” de uma qualquer persona non grata para que as campainhas de Pavlov toquem… Uma discussão de café sobre futebol consegue ser mais racional e sensata.

2) Por outro lado, a abordagem às figuras históricas e aos processos políticos do passado (e do presente) é claramente sectária e fanática. Quando os comentadores se atiram enraivecidamente só porque se colocou a imagem de alguém que não cabe na curta caderneta de cromos dos sectários isso só demonstra uma atitude de cega guarda ao seu Graal. Como comecei por apontar acima, nem se trata aqui do Trotsky, mas dos urros proferidos pelos que orgasticamente rejubilam com assassinatos e perseguições. Se esta gente estivesse no poder ficaríamos a saber qual o destino da esquerda anti-burocrática.

3) O cruzamento da abordagem iconoclasta com a sectária resulta numa ausência de reflexão sobre o que realmente foi a economia e a política da URSS e das experiências socialistas. Para os stalinistas a análise histórica confunde-se com a geopolítica e com a glorificação da liderança suprema de Stáline. Como a riqueza foi produzida, apropriada e distribuída ou como funcionaram os mecanismos de tomada de decisões políticas, nada disso lhes interessa. Como nada lhes interessa que as experiências no Leste se alicerçaram na repressão das iniciativas democráticas e de controlo da produção pelos trabalhadores.
O irracionalismo chega para preencher os buraquinhos daqueles cerebrozinhos de queijo.