Uns dizem-nos que para distribuir a riqueza é preciso produzi-la e que, para a produzir eficazmente e sem crises que perturbem a eficácia produtiva, é necessário distribuí-la desigual e hierarquicamente, sob a direcção dos que já a possuem muito acima dos outros, porque são esses os mais capazes de a produzir cada vez mais.
Outros dizem-nos que para democratizar as instituições, eliminar a distinção entre governantes e governados, permitir a igualdade da participação de todos os cidadãos na deliberação das decisões e no exercício do poder político, é necessário, primeiro, educar as massas nesse sentido, prepará-las para que sejam capazes de o fazer devidamente, o que implica dirigi-las com uma autoridade forte e mão de ferro, se necessário, combatendo as falsas representações e falsas interpretações dos seus próprios interesses que se opõem ao amadurecimento, entre as mesmas massas, das condições da liberdade.
O problema desta maneira de ver as coisas é que a igualdade, a liberdade e a responsabilidade da autonomia ficam sempre para depois - ou para a prosperidade futura, ou para os amanhãs que cantam, enquanto estes, uma e outros, todos os dias matam o dia de hoje ou dia a dia nos matam. Acontece, de facto, que, nos termos em que é justificado, o adiamento é sempre justificado para sempre, é sempre eternamente justificado. Porque a riqueza produzida nunca será tanta que não possa ser maior antes de se começar a distribuí-la - do mesmo modo que as condições da democracia e a consciência das massas nunca estarão tão perfeitamente maduras que não seja possível, e por isso recomendável, torná-las mais perfeitas, melhorar a sua qualidade.
O mais razoável - e, nas condições do momento, sermos mais razoáveis é urgente se quisermos evitar o pior - será portanto deixarmos desde já de adiar a igualdade em nome da superioridade produtiva (de resto, indemonstrável) da desigualdade, e impormos desde já a extensão da participação, da responsabilidade e da organização democráticas contra a autoridade dos legítimos superiores e das direcções não mandatadas, onde quer que esta se exerça, se não queremos continuar a ser governados sem governar.
08/06/10
A classe operária ao poder
por
João Tunes
Um jogador útil porque eficaz e polivalente mas que raramente é brilhante, está destinado a servir assim. No Benfica deste ano, foi pau para quase toda a obra, reserva de cimento para tapar buracos, sem nunca ter direito ao epíteto de craque ou sequer de candidato a artista. Mas foi, seguramente e em balanço final, um dos que mais mereceu colocar a faixa de campeão a tiracolo. A não convocação de Ruben Amorim (a par de João Moutinho e Carlos Martins) para os seleccionados para o Mundial foi uma das provas maiores dos preconceitos que compõem a miopia “british” de Mr. Queiroz. Pelos imponderáveis, como é sina sua, Ruben Amorim vai tapar mais um “buraco”, agora na Selecção. Por razões infortunadas, vestindo o seu fato-macaco para substituir o brilho das lantejoulas do indiscutível artista Nani, cuja lamentável ausência forçada pode inclusive comprometer as aspirações maiores de Portugal neste Mundial, isto se forem os artistas a decidi-lo (Mourinho já demonstrou que nem sempre é assim).Alcunharam de "navegadores" esta equipa nacional da bola, num toque cultural "cavaquista" que casa bem com Mr. Queiroz, sobretudo quando este provinciano cosmoplita não tem parado de promover músicas anglófilas para que o povo, todo ele perito em "inglês técnico" aprendido nos domingos de osmose com o primeiro-ministro, as cante de cor e salteado enquanto apoia a Selecção. Se é assim que assim seja. E que o valente e porfiado grumete Ruben Amorim, marinheiro do convés, demonstre que nem todos os imediatos vestidos de gala fazem uma tripulação. É o que nos resta. Porque a esperança traduz-se sempre por "terra à vista".
(também publicado aqui)
A passagem do 8º para o 10º ano
por
Miguel Madeira
Anda muita gente indignada com a possibilidade de alunos com mais de 15 anos que estejam no 8º ano puderem fazer os exames do 9º ano e, se aprovados, passar para o 10º.
Eu, sinceramente, não vejo onde está o problema - reconheço que é pouco provável que um aluno que chumbou no 8º ano consiga passar aos exames do 9º ano; mas, se conseguir, porque não há de poder passar para o 10º? Afinal, frequentar o 9º ano (ou outro qualquer...) não é suposto ser um fim em si mesmo, mas sim um meio para aprender a matéria; ora se os alunos a conseguirem aprender de qualquer maneira, que necessidade há de frequentarem o ano?
Quanto às alegações de facilitismo - há anos que os anti-facilitistas fazem a apologia dos exames (implicitamente, considerando que são mais rigorosos que a "avaliação continua"); mas agora, pelos vistos, acham que passar a um exame é facílimo.
Uma nota pessoal - eu chumbei a Português no 10º ano, no ano lectivo de 1988/89; no final do ano lectivo de 1989/90, fui a exame de 10º e 11º ano e passei, tendo ficado com 11º completo (embora nunca tivesse frequentado formalmente a disciplina de Português do 11º ano). No fundo, é quase a mesma situação.
Eu, sinceramente, não vejo onde está o problema - reconheço que é pouco provável que um aluno que chumbou no 8º ano consiga passar aos exames do 9º ano; mas, se conseguir, porque não há de poder passar para o 10º? Afinal, frequentar o 9º ano (ou outro qualquer...) não é suposto ser um fim em si mesmo, mas sim um meio para aprender a matéria; ora se os alunos a conseguirem aprender de qualquer maneira, que necessidade há de frequentarem o ano?
Quanto às alegações de facilitismo - há anos que os anti-facilitistas fazem a apologia dos exames (implicitamente, considerando que são mais rigorosos que a "avaliação continua"); mas agora, pelos vistos, acham que passar a um exame é facílimo.
Uma nota pessoal - eu chumbei a Português no 10º ano, no ano lectivo de 1988/89; no final do ano lectivo de 1989/90, fui a exame de 10º e 11º ano e passei, tendo ficado com 11º completo (embora nunca tivesse frequentado formalmente a disciplina de Português do 11º ano). No fundo, é quase a mesma situação.
07/06/10
A gestão do negócio dos ópios dos povos
por
João Tunes
A propósito do Beato Popieluszko, neste post, passei pelas brasas a relação das experiências de comunismo estatal com as igrejas condutoras das religiões, centrando-me no caso polaco, cujo interesse maior tem a ver com o facto de a Polónia ter sido, entre os países governados por partidos comunistas, aquele em que a religião se conservou com mais força e poder, tanto que conseguiu dar um Papa. Mas o tema, dos pontos de vista histórico e político, comporta um interesse a pedir estudo e investigação para que se possam extrair conclusões com base numa interpretação sistémica. Até lá, só se poderão adiantar perplexidades. Que são tantas que o difícil é escolher.A formulação marxista acerca do problema religioso foi claríssima e sintetizou-se no anátema genial e imortal de se considerar a religião como “o ópio dos povos”. As práticas leninistas, depois estalinistas, de exercício do poder foram correspondentes e consequentes com o diagnóstico de Marx. A religião e os religiosos foram tratados como inimigos de classe, sujeitos assim ao terrorismo do proletariado. Os padres e as religiosas ou levaram chumbo para dentro do corpo ou foram pregar para o Gulag. Catedrais e igrejas foram dinamitadas ou reconvertidas para casas de interesse colectivo. Nas escolas e nos cursos de formação política de bons e porfiados comunistas, o “ateísmo científico” era disciplina nuclear. Mas o certo é que, como se viu na após implosão comunista, apesar de tanto e de tudo, a fé comunista, mesmo patrocinadora de um poder absoluto, não venceu a fé religiosa.
O grande ponto de viragem táctica do poder comunista face ao poder religioso deu-se na Segunda Guerra Mundial na fase crucial do enfrentamento soviético-nazi. Para mobilização do povo soviético para o contra-ataque (1941-42), em Leninegrado, Estalinegrado e Smolensk, que exigia um nível de sacrifícios extremo e a mobilização de todas as energias, Estaline transigiu com as exigências de formulações ideológicas inscritas na sua formulação oficial do marxismo-leninismo, recuperando, para a mobilização, todo o rosário dos símbolos e das metáforas que incorporassem os apelos à resistência e à vingança, incluindo os ancestrais. Ou seja, o patriotismo (mesmo na versão chauvinista e grã-russa), a herança da cultura imperial czarista (Alexandre Nevsky foi re-deificado), o sentido nacionalista (da Mãe Pátria) integrado na comunicação comunista que baptizou a contra-ofensiva contra a ocupação nazi como “grande guerra patriótica”, a religiosidade foi vista como modo potente e acelerador da fé russo-patriótica.
Mesmo o terror mais brutal tem a capacidade de se sofisticar. Porque nem sempre a prática da repressão e de crimes é apanágio exclusivo dos estúpidos. Quando o império soviético se estendeu pela Europa central e do leste, já a prática comunista tinha incorporado experiências longas e trabalhadas de lidar com a religião através da repressão pela força bruta mas também de, com enormes vantagens, a incorporar em desígnios de Estado. As polícias políticas locais (nacionais) - espinhas dorsais de Estados vitalmente policiais -, coordenadas pela Mãe KGB, afastados e eliminados os elementos mais recalcitrantes das estruturas religiosas, valorizaram depois a técnica da chantagem e da infiltração. Os próceres comunistas perceberam que melhor que igrejas reprimidas e resistentes, seria terem igrejas controladas pela infiltração que, no imediato, proporcionava a docilidade irmã da corrupção, da dependência e do medo. Assim foi feito por toda a parte, com a igreja ortodoxa na Rússia e na Bulgária, as igrejas protestantes na RDA, a igreja católica na Polónia e na Hungria, etc e etc.
Também em Cuba, uma subsistência da aberração do poder comunista absoluto, a relação do castrismo com a religião tem conhecido fases diferentes. Na fase primeira do período revolucionário, os activistas limpavam os altares das igrejas católicas da tralha litúrgica para colocar no seu lugar o retrato de Fidel. Com o desmoronar do império soviético, Fidel percebeu que havia que dar a mão, usando isso para o compromisso e a legitimação do regime, ao Vaticano e à sua sucursal cubana. A visita solene do Papa a Cuba foi o acto celebrante de uma nova “detente” entre o regime e a igreja católica. A partir daí, os cultos restabeleceram-se na plenitude, a igreja integrou-se dentro do regime e assimilou alguma da sua retórica nacionalista e anti-imperialista. E é sintomático que a ditadura cubana, aparentando uma imunidade de aço face aos apelos democratizantes e humanizantes vindos de quase todo o mundo e das mais variadas instituições, particularmente quanto aos direitos humanos e à situação dos presos políticos, se disponha a abrir mão das condições mais brutais de aprisionamento dos encarcerados por delitos de opinião e de consciência, exclusivamente atendendo à intercepção da igreja católica cubana. Está anunciado o fim de uma das práticas mais cruéis para com os presos políticos cubanos – serem colocados em prisões distantes das suas províncias para dificultar ao máximo o contacto e o apoio das suas famílias. E fala-se, com insistência, que os presos sofrendo de doenças graves possam vir a ser transferidos para hospitais sob prisão. São duas medidas mínimas numa escala de exigência humanitária. Mas sempre antes negadas porque para “mercenários” e “gusanos”, portanto “não pessoas”, o tratamento prisional humano era um luxo que desarmava o regime face aos perigos que o ameaçam. A pedido de um séquito de cardeal e bispos, o apelo ganha outro sentido, atendível porque proporciona uma troca de favores entre instituições que se querem cúmplices, talvez irmãs na gestão do negócio dos “ópios dos povos”.
(publicado também aqui)
Sobre uma Crónica de Ana Benavente
por
Miguel Serras Pereira
Compare-se, por contraste com as aqui referidas declarações politicamente nulas de Paulo Pedroso - que de momento parece preocupar-se apenas com o problema de saber como poderá o PS manter-se partido de governo, sem se dar ao trabalho de se perguntar sequer para que outra coisa que não seja garantir ao aparelho o benefício da governamentalidade - o que Ana Benavente escreve hoje no Público, identificando pelo menos uma parte substancial dos problemas graves do PS e, por extensão, do esatdo de privação democrática que caracteriza a paisagem política e social do país.
Por exemplo: "O problema são as pessoas, sempre as pessoas, a quererem saúde e educação, e paz e pão também, não?? E habitação, já agora. Querem tudo. Será por isso que votaram no PS? E o que lhes deu o meu partido? Contradições e desacertos, e políticas que teriam ficado menos mal no anterior PSD. O próximo vai ser pior. Este que concorda discordando e discorda concordando. Não percebem? É pelo país, pelo país. Por isso o futuro se assombra. Agora, dizem PS e PSD , dizem tantos comentadores, em vários tons e vozes desafinadas, agora estamo-nos a afogar. Não há mais conversa nem discussão. Nada a fazer. É uma fatalidade. Não, não é, o presente e o futuro somos nós que os construímos. Vamos aceitar a fatalidade que nos querem impor?"
Ou ainda: "Nunca se lembraram as autoridades de pensar que quando se fecha uma escola se fecha uma aldeia, que o fecho das escolas reforça a desertificação, acaba com comunidades, isola as crianças e dissolve-as no anonimato de pequenas cidades onde passam o dia sem amigos nem vizinhos nem família, de manhã à noite.É isso que está a acontecer: os mais novos e os mais velhos a viver em instituições. Os da idade activa em liberdade vigiada. Não quero uma sociedade assim. Criminoso, fechar todas as escolas com menos de 21 alunos. Vamos deixar que isso aconteça?"
E também: "Serei só eu que vejo no Governo pessoas do PS em quem não acredito? Que falam com chavões cansados e usam retóricas como quem repete uma fórmula já gasta? Sem alma? E que será do PS quando deixar de ser Governo? Travessias do deserto são normais, afirmam. Não concordo. Os coveiros do partido são conhecidos. Depois, ficará o pior de todos nós, dentro e fora. Solidários e caridosos, sempre fomos. Mas a liberdade, a fraternidade, a esperança, por onde andam? PS, que lhes fizeste? (…) Quero viver agora, aqui ou noutro lado, convosco, como sempre fizemos (…). Este país, no mundo, é nosso. De cada cidadão que nele habita. (…) A luta continua... e agora quem vai para a rua? Nós? Todos?"
Dir-se-á que esta interpelação não dá o passo decisivo de encarar alternativas para os males que denuncia. Ou que a sua autora deixa por formular perguntas tão indispensáveis como: Que atitude tomar em relação ao PS, dentro e/ou fora dele? Como não desistir da democratização garantindo aos cidadãos o poder (político) de mudar e decidir, sem o qual a canção dizia que não há "liberdade a sério" - e tendo em conta que a mesma "liberdade a sério" requer a transformação radical do "poder político" que é a direcção da economia? Como deve um partido ou movimento organizado e responsável lutar ao lado dos cidadãos pela democratização necessária, sem pretender substituir à sua participação directa formas de representação que, à partida, pressupõem a expropriação das suas capacidades políticas governantes? Mas, ainda que não as explicitando nem, por maioria de razão, especificando que começos de resposta poderemos propor para elas nas circunstâncias presentes, Ana Benavente dá voz a um mal-estar e a uma revolta que, politicamente assumidos, só podem pô-las na ordem do dia. Com o PS ou sem ele, por um movimento, socialista porque democrático, que reanime a sua área de influência, e pelos que, nessa área ou tradição, ainda não desistiram de tornar a expressão "socialismo democrático" algo mais do que uma mistificação, para efeitos decorativos, invocada por políticos e governantes ao serviço de todas as "reformas" reclamadas pelos interesses da ordem económica estabelecida à escala global.
Por exemplo: "O problema são as pessoas, sempre as pessoas, a quererem saúde e educação, e paz e pão também, não?? E habitação, já agora. Querem tudo. Será por isso que votaram no PS? E o que lhes deu o meu partido? Contradições e desacertos, e políticas que teriam ficado menos mal no anterior PSD. O próximo vai ser pior. Este que concorda discordando e discorda concordando. Não percebem? É pelo país, pelo país. Por isso o futuro se assombra. Agora, dizem PS e PSD , dizem tantos comentadores, em vários tons e vozes desafinadas, agora estamo-nos a afogar. Não há mais conversa nem discussão. Nada a fazer. É uma fatalidade. Não, não é, o presente e o futuro somos nós que os construímos. Vamos aceitar a fatalidade que nos querem impor?"
Ou ainda: "Nunca se lembraram as autoridades de pensar que quando se fecha uma escola se fecha uma aldeia, que o fecho das escolas reforça a desertificação, acaba com comunidades, isola as crianças e dissolve-as no anonimato de pequenas cidades onde passam o dia sem amigos nem vizinhos nem família, de manhã à noite.É isso que está a acontecer: os mais novos e os mais velhos a viver em instituições. Os da idade activa em liberdade vigiada. Não quero uma sociedade assim. Criminoso, fechar todas as escolas com menos de 21 alunos. Vamos deixar que isso aconteça?"
E também: "Serei só eu que vejo no Governo pessoas do PS em quem não acredito? Que falam com chavões cansados e usam retóricas como quem repete uma fórmula já gasta? Sem alma? E que será do PS quando deixar de ser Governo? Travessias do deserto são normais, afirmam. Não concordo. Os coveiros do partido são conhecidos. Depois, ficará o pior de todos nós, dentro e fora. Solidários e caridosos, sempre fomos. Mas a liberdade, a fraternidade, a esperança, por onde andam? PS, que lhes fizeste? (…) Quero viver agora, aqui ou noutro lado, convosco, como sempre fizemos (…). Este país, no mundo, é nosso. De cada cidadão que nele habita. (…) A luta continua... e agora quem vai para a rua? Nós? Todos?"
Dir-se-á que esta interpelação não dá o passo decisivo de encarar alternativas para os males que denuncia. Ou que a sua autora deixa por formular perguntas tão indispensáveis como: Que atitude tomar em relação ao PS, dentro e/ou fora dele? Como não desistir da democratização garantindo aos cidadãos o poder (político) de mudar e decidir, sem o qual a canção dizia que não há "liberdade a sério" - e tendo em conta que a mesma "liberdade a sério" requer a transformação radical do "poder político" que é a direcção da economia? Como deve um partido ou movimento organizado e responsável lutar ao lado dos cidadãos pela democratização necessária, sem pretender substituir à sua participação directa formas de representação que, à partida, pressupõem a expropriação das suas capacidades políticas governantes? Mas, ainda que não as explicitando nem, por maioria de razão, especificando que começos de resposta poderemos propor para elas nas circunstâncias presentes, Ana Benavente dá voz a um mal-estar e a uma revolta que, politicamente assumidos, só podem pô-las na ordem do dia. Com o PS ou sem ele, por um movimento, socialista porque democrático, que reanime a sua área de influência, e pelos que, nessa área ou tradição, ainda não desistiram de tornar a expressão "socialismo democrático" algo mais do que uma mistificação, para efeitos decorativos, invocada por políticos e governantes ao serviço de todas as "reformas" reclamadas pelos interesses da ordem económica estabelecida à escala global.
Bhopal continua tóxico
por
João Tunes
Os responsáveis da multinacional Union Carbide no acidente que provocou milhares de mortos (3.000 indianos morreram imediatamente e, mais tarde, devido aos efeitos mais lentos e secundários, sucumbiram outras 25.000, após uma fuga, por negligência, no fabrico de pesticidas) em Bhopal (Índia), só julgados ao fim de vinte e seis anos, foram agora condenados a penas simbólicas (dois anos de prisão e 2.100 dólares de multa). Uma vergonha. A impunidade tóxica continua, agora através da justiça temerosa perante os criminosos poderosos.Na altura do enorme escândalo pelo acidente de Bhopal, lembro-me, não só a imagem da Union Carbide foi fortemente afectada como se gerou, em consequência, um novo paradigma no manuseamento e produção de produtos tóxicos. As empresas químicas passaram a ter novas preocupações ambientais e os seus produtos foram sujeitos a um rastreamento muito mais exigente, multiplicando-se a regulamentação restritiva e preventiva. Algo de parecido com o que depois se passou com a energia nuclear após Chernobyl. Neste sentido, as vítimas de Bhopal funcionaram como mártires da irresponsabilidade químico-industrial e aos seus sacrifícios involuntários e criminosos se devem muitos dos posteriores procedimentos mais exigentes quanto à poluição industrial, sobretudo a que comporta o manuseamento e produção de substâncias perigosas. Mas tal como quanto a Chernobyl e ao actual derrame da BP no golfo do México, e outros, um acidente que provoca vítimas nas populações e no meio ambiente, sendo um crime, implica a responsabilização dos criminosos (que têm nomes e a maior parte das vezes fortunas). As condenações ridículas dos criminosos de Bhopal vão ao arrepio de um acto decente de justiça. E funcionam muito mal em termos de responsabilização dos gestores e outros responsáveis. Estes não servem, não podem servir, apenas para recolher gordos salários e chorudos prémios por lucros muitas vezes obtidos selvaticamente e a qualquer custo do ambiente e da saúde pública. Quando cometem crimes ou são seus cúmplices por negligências ou omissões, devem pagar segundo a dimensão dos crimes cometidos e das vítimas. A indignação dos familiares das vítimas de Bhopal perante estas sentenças miseráveis é justificável e merece todo o apoio. Pelas memória das vítimas, pelo ambiente, pela saúde pública, pelo planeta. Sendo nosso dever exigir sucesso aos recursos que vão ser apresentados perante a toxicidade infame destas sentenças.
(publicado também aqui)
Uma Racionalidade de Gestor
por
Miguel Serras Pereira
Numa entrevista dada ao Público, Paulo Pedroso começa por afirmar: "Há dois anos, a maioria dos Governos eram socialistas e hoje, salvo Portugal, Espanha e Grécia, os partidos socialistas saíram do poder. E saíram do poder num contexto de uma crise programática em que é muito claro que as alternativas de Governo pela esquerda perderam popularidade e adesão. Surgiram partidos a competir com os partidos socialistas, o que de algum modo foi inesperado e poderia ter sido evitado. Em Portugal estamos já com um ciclo com alguma duração de poderes e eu não vejo que a renovação programática esteja nas preocupações".
Começo pouco prometedor, uma vez que Paulo Pedroso se esquece de precisar que "os partidos socialistas saíram do poder" depois de o terem usado para reformar o "Estado social" em detrimento das garantias democráticas cujo reconhecimento lhe fora imposto por sucessivas reivindicações populares e dos trabalhadores - bem como não menciona que "as alternativas [socialistas e social-democratas] … perderam popularidade e adesão" no termo de um período em que nada de substancial tentaram fazer, além de levar a cabo a transferência de competências políticas, outrora prerrogativas explícitas e identificáveis dos governos, para as instâncias oligárquicas globais da esfera económica, cuja organização e regime de funcionamento actual (neoliberal e monetarista), cada vez mais antidemocrático e furtado ao escrutínio público, os mesmos partidos social-democratas e socialistas naturalizaram e/ou sacralizaram.
Mas o mais confrangedor vem depois, quando descobrimos que, embora repita várias vezes (e quanto mais o repete) que, se não se renovar programaticamente, o PS poderá conhecer, no contexto da crise, mais um período de perda de influência, Paulo Pedroso não adianta rigorosamente uma só ideia que seja sobre a orientação, as razões ou os propósitos dessa mudança que estipula. De acordo, exagero. Paulo Pedroso adianta uma orientação, razões e propósitos, mas por meio de uma que é sempre a mesma e só ideia já referida: evitar que o PS perca influência. Quando muito, a certa altura, acrescenta outra meia-ideia: "Assim como nós precisámos de um programa para responder à entrada na União Europeia, precisamos de um programa para responder à entrada no euro e isso falha-nos".
E daqui não sai. Por exemplo, quando refere que "O PS fez a certa altura, nos anos 80, um programa para modernizar Portugal e esse é o programa que ainda usa hoje. No fundo, o PS está no seu segundo ciclo de poder com esse programa. (...) Só que esse programa começou numa altura em que os problemas estruturais do país não eram bem os actuais e à medida que vamos caminhando para concretizar esse programa ele vai precisando de ser substituído", para justificar a necessidade de responder à "entrada no euro", não diz uma palavra sobre o acerto ou desacerto, os efeitos ou defeitos, o conteúdo social e o tipo de pressupostos económicos, os objectivos em termos de modelo de sociedade ou de projecto social, da modernização empreendida, do mesmo modo que não esboça sequer uma interrogação sobre as relações que esse programa modernizador teve, deveria ter tido ou deverá vir a ter com uma ou outra concepção e prática de democracia ou de socialismo. E, quando se refere à crise internacional dos partidos socialistas e social-democratas, mantém a mesma circunspecção: "ou os partidos socialistas conseguem capacidade para formar uma resposta autónoma, ou aparecerão às pessoas apenas com respostas velhas. Estou convencido que a política pode mudar quando o mundo sair desta crise e se os partidos socialistas e sociais-democratas não tiverem sabido protagonizar um novo discurso e encontrar algo para o novo ciclo, é muito possível que passem por um período de perda de influência". Nem uma palavra, a sombra de uma ideia, acerca do que é, afinal, preciso "encontrar para o novo ciclo", desenvolver como "resposta autónoma". A única necessidade aduzida e a grande prioridade continuam a ser evitar que PS e os seus congéneres europeus conheçam "um período de perda de influência".
Assim, dir-se-ia, os partidos socialistas e social-democratas não existem para apresentar propostas de resposta às questões políticas - isto é, de organização do poder político e da esfera económica que, informalmente embora, é sua sede decisiva - endereçadas aos cidadãos como outros tantos convites à intervenção política visando as transformações necessárias à solução democrática dos seus próprios problemas. Não, são os cidadãos que são reduzidos a consumidores cuja procura deve ser estimulada a partir de um marketing adequado para assegurar a prosperidade eleitoral, assim empresarialmente redefinida, dos partidos social-democratas e socialistas.
Que tem esta racionalidade de gestor, cuja lógica Paulo Pedroso tão estritamente observa nesta entrevista e o leva a evitar cuidadosamente qualquer questão política de fundo, a ver com o socialismo, o qual, com efeito, nada será - além de um vago estado de alma, paternalista e compassivo, perante "os mais desfavorecidos", mas sem pôr em causa os factores sistémicos das situações individuais "desfavorecidas" - se não for um movimento de democratização, via cidadania activa, dos que entendem que a liberdade e a igualdade se pressupõem, conquistam e generalizam a par uma da outra, que não há liberdade democrática sem igualdade de poder entre os cidadãos e que a organização e funcionamento da actividade económica são um terreno político decisivo?
Começo pouco prometedor, uma vez que Paulo Pedroso se esquece de precisar que "os partidos socialistas saíram do poder" depois de o terem usado para reformar o "Estado social" em detrimento das garantias democráticas cujo reconhecimento lhe fora imposto por sucessivas reivindicações populares e dos trabalhadores - bem como não menciona que "as alternativas [socialistas e social-democratas] … perderam popularidade e adesão" no termo de um período em que nada de substancial tentaram fazer, além de levar a cabo a transferência de competências políticas, outrora prerrogativas explícitas e identificáveis dos governos, para as instâncias oligárquicas globais da esfera económica, cuja organização e regime de funcionamento actual (neoliberal e monetarista), cada vez mais antidemocrático e furtado ao escrutínio público, os mesmos partidos social-democratas e socialistas naturalizaram e/ou sacralizaram.
Mas o mais confrangedor vem depois, quando descobrimos que, embora repita várias vezes (e quanto mais o repete) que, se não se renovar programaticamente, o PS poderá conhecer, no contexto da crise, mais um período de perda de influência, Paulo Pedroso não adianta rigorosamente uma só ideia que seja sobre a orientação, as razões ou os propósitos dessa mudança que estipula. De acordo, exagero. Paulo Pedroso adianta uma orientação, razões e propósitos, mas por meio de uma que é sempre a mesma e só ideia já referida: evitar que o PS perca influência. Quando muito, a certa altura, acrescenta outra meia-ideia: "Assim como nós precisámos de um programa para responder à entrada na União Europeia, precisamos de um programa para responder à entrada no euro e isso falha-nos".
E daqui não sai. Por exemplo, quando refere que "O PS fez a certa altura, nos anos 80, um programa para modernizar Portugal e esse é o programa que ainda usa hoje. No fundo, o PS está no seu segundo ciclo de poder com esse programa. (...) Só que esse programa começou numa altura em que os problemas estruturais do país não eram bem os actuais e à medida que vamos caminhando para concretizar esse programa ele vai precisando de ser substituído", para justificar a necessidade de responder à "entrada no euro", não diz uma palavra sobre o acerto ou desacerto, os efeitos ou defeitos, o conteúdo social e o tipo de pressupostos económicos, os objectivos em termos de modelo de sociedade ou de projecto social, da modernização empreendida, do mesmo modo que não esboça sequer uma interrogação sobre as relações que esse programa modernizador teve, deveria ter tido ou deverá vir a ter com uma ou outra concepção e prática de democracia ou de socialismo. E, quando se refere à crise internacional dos partidos socialistas e social-democratas, mantém a mesma circunspecção: "ou os partidos socialistas conseguem capacidade para formar uma resposta autónoma, ou aparecerão às pessoas apenas com respostas velhas. Estou convencido que a política pode mudar quando o mundo sair desta crise e se os partidos socialistas e sociais-democratas não tiverem sabido protagonizar um novo discurso e encontrar algo para o novo ciclo, é muito possível que passem por um período de perda de influência". Nem uma palavra, a sombra de uma ideia, acerca do que é, afinal, preciso "encontrar para o novo ciclo", desenvolver como "resposta autónoma". A única necessidade aduzida e a grande prioridade continuam a ser evitar que PS e os seus congéneres europeus conheçam "um período de perda de influência".
Assim, dir-se-ia, os partidos socialistas e social-democratas não existem para apresentar propostas de resposta às questões políticas - isto é, de organização do poder político e da esfera económica que, informalmente embora, é sua sede decisiva - endereçadas aos cidadãos como outros tantos convites à intervenção política visando as transformações necessárias à solução democrática dos seus próprios problemas. Não, são os cidadãos que são reduzidos a consumidores cuja procura deve ser estimulada a partir de um marketing adequado para assegurar a prosperidade eleitoral, assim empresarialmente redefinida, dos partidos social-democratas e socialistas.
Que tem esta racionalidade de gestor, cuja lógica Paulo Pedroso tão estritamente observa nesta entrevista e o leva a evitar cuidadosamente qualquer questão política de fundo, a ver com o socialismo, o qual, com efeito, nada será - além de um vago estado de alma, paternalista e compassivo, perante "os mais desfavorecidos", mas sem pôr em causa os factores sistémicos das situações individuais "desfavorecidas" - se não for um movimento de democratização, via cidadania activa, dos que entendem que a liberdade e a igualdade se pressupõem, conquistam e generalizam a par uma da outra, que não há liberdade democrática sem igualdade de poder entre os cidadãos e que a organização e funcionamento da actividade económica são um terreno político decisivo?
Chorai famílias, chorai
por
João Tunes
A partir de hoje, as famílias, as boas famílias portuguesas, ameaçam ruína. Muitos casais se vão separar, muitas crianças vão ficar órfãs de liderança mista. Porque os exemplos pegam-se, são como a sarna. Muitas esposas vão querer trocar os esposos pelas suas amigas do peito. E muitos varões vão saltar do leito conjugal para receberem, na Conservatória, as carícias do melhor amigo que tiveram no primeiro ciclo. Santana Lopes, zangado, vai desistir de celebrar, numa discoteca, o seu décimo matrimónio. César das Neves, enojado com os orgasmos homo, decerto vai deixar de escrever, dar aulas e pregar. Cavaco nunca mais vai levar Maria a Capadócia. Dom José Policarpo vai deixar de fumar para poder ser Papa e tudo meter na ordem. Como se a crise não bastasse, Helena Paixão e Teresa Pires acrescentaram a cerimónia da desordem final. Porque há milhões de portugueses que, imitativos que somos, vão querer experimentar o sentido lúdico da sua exibição simbólica e mediática. Com uma dívida pública descomunal, um défice difícil de domar, cinto além do último furo e já transformado em cordel de segurar as calças abaixo do estômago vazio, com férias confinadas a uma tenda num parque de campismo cá dentro, Cavaco ainda em Belém, Sócrates ainda em São Bento, uma esquerda entregue à pastorícia de José, Francisco e Jerónimo, acabando-nos com o deus-pátria-família, o que nos resta?(publicado também aqui)
Do Bufo ao Beato
por
João Tunes
O clero polaco foi um dos mais influentes e conservadores no catolicismo europeu. E profundamente contraditório no exercício do seu enorme poder eclesiástico. A poderosa Igreja polaca, enquanto cometia a proeza de meter um Papa em Roma (João Paulo II), eminentemente apostólico e carismático, com a alta missão de ajudar a destruir o comunismo e recuperar o conservadorismo ideológico na expressão da fé católica, praticava, portas dentro, uma cumplicidade gritante com a ditadura comunista para garantir a sua sobrevivência e privilégios. Entretanto, o poder comunista polaco cobrava à Igreja esse seu desejo de sobrevivência e sustentação, infiltrando o clero através da sua polícia política (15% dos bispos e padres católicos polacos eram agentes ou informadores da polícia política ao serviço do governo comunista). Entre estes colaboradores, o mais famoso (desmascarado em 2007, após a reconversão democrática da Polónia) foi o arcebispo de Varsóvia, Stanislaw Wielgus, que renunciou ao seu cargo após se descobrir o seu passado como bufo da polícia comunista.Desde que a Polónia perdeu o seu Papa, com a morte de João Paulo II, e com a denúncia da colaboração profunda do clero católico polaco com o aparelho repressivo comunista, o catolicismo entrou naquele país numa crise profunda. Assim, precisava urgentemente, para recuperar balanço pastoral, de um mártir anticomunista beatificável e santificável com um sinal contrário ao do colaboracionismo com a ditadura marxista-leninista que manchava a reputação da Igreja polaca. Para isso, nada melhor que o Padre Jerzy Popieluszko (Capelão do “Solidaridade”, assassinado em 1984, quando tinha 37 anos, por três agentes da polícia política, a mesma que, entretanto, “controlava” o seu colega e “bófia” Stanislaw Wielgus). E Bento XVI, muito atento a tácticas e estratégias, foi célere nas decisões. O Padre Jerzy Popieluszko já é oficialmente Beato e em breve será Santo. Para que a Igreja Católica, na Polónia, possa, finalmente, lamber a ferida “Stanislaw Wielgus” e dos seus camaradas agentes e bufos ao serviço do “terror vermelho”. Com sucesso garantido, pois 150.000 católicos polacos reuniram-se imediatamente em Varsóvia num acto religioso celebrando a beatificação de Jerzy Popieluszko (foto).
(também publicado aqui)
06/06/10
Sobre o Anticomunismo - uma ou duas reflexões preliminares
por
Miguel Serras Pereira
Um post do João Tunes, aqui publicado há dias, deu origem a uma discussão em que alguns usaram e abusaram do termo "anticomunismo, sem nunca se terem dado ao cuidado de explicar o que entendem por ele. Convém, talvez, e tendo em conta futuras discussões, procurar esclarecer um pouco as coisas.
O termo é aplicado aos que criticam ou atacam determinada palavra de ordem, atitude política concreta do PCP, ou, indo mais, longe contestam a sua orientação ou linha geral. Ou também, e por maioria de razão, aos que entendem que a prática do PCP, as suas concepções expressas teoricamente ou na linguagem da acção, prefiguram ou actualizam certos traços incompatíveis com a construção de uma sociedade sem distinções ou hierarquia de classe, governada por cidadãos livres e iguais, organizados em vista do exercício da direcção política e económica através da participação democrática nos processos de deliberação e decisão das questões comuns.
Mas serão "anticomunistas" os que sustentam estas críticas e posições? Dir-se-ia que não, quando se considere, pelo menos, que a "construção social" que acima resumi, em termos deliberadamente diferentes dos mais frequentemente utilizados para descrever o comunismo, se limitam no essencial a repetir as exigências fundamentais da democratização socialista que se confunde com a abertura da via que conduziria ao comunismo.
É verdade que se levanta aqui o problema de saber se a fase superior desta democratização - a realização do comunismo - é concebível nos termos em que a tradição marxista clássica, o movimento anarquista histórico, etc. a definiram como meta. Ou seja, será possível e/ou desejável afirmarmos, em termos de racionalidade democrática, a ideia condutora de uma sociedade sem instituições nem leis, sem governo nem direcção económica, sem necessidade? A verdade é que creio que a adopção de tal meta, e do seu horizonte meta-histórico - ou seja, a adopção do fim da história como meta - é logicamente inconsistente e tende a funcionar como um mito de justificação e compensação ou das insuficiências da democratização socialista (dita primeira fase ou fase inferior do comunismo) ou de projectos políticos aos quais o mito do paraíso futuro serve de álibi para a recusa da organização/instituição igualitária e livre da direcção política presente e para a reprodução de formas que perpetuam a hierarquia classista e as formas de divisão do trabalho político que correspondem à opressão e à exploração da maioria dos que continuam a ser governados e excluídos de direitos e responsabilidades propriamente governantes.
Mas, embora me pareça, pois, que a adopção do comunismo, assim entendido, enquanto meta meta-histórica, é uma auto-mistificação dos dominados ou um mito que justifica a dominação, isso em nada restringe, bem pelo contrário, o alcance, a urgência e as boas razões da vontade de democratização que o projecto comunista historicamente nos transmitiu.
Ora - libertando de metas míticas a imaginação instituinte não reconhecida nem assumida como tal e que justamente a fixação mítico-instituída e a negação mítico-instituída do tempo e da história nos impedem de reconhecer como criação histórica incolmatável por metas finais e antecipadamente definidas -, estar decidido a manter como alternativa política viva aquilo que na "hipótese comunista", como gostam de dizer o Ricardo Noronha e o Zé Neves, pode ser politicamente proposto e passar à acção política, requer como condição de possibilidade que a acção alternativa actualize a livre deliberação e decisão das suas formas pelos seus agentes, e que estes assumam que a afirmação e a conquista da cidadania democrática se faz realizando-a no contexto imediato e particular de cada passo de um caminho que só andando colectivamente se faz, ainda que este fazer colectivo não exclua, mas antes pressuponha e encoraje a iniciativa individual de propostas quanto à direcção dos trilhos que se vão abrindo.
Voltando ao princípio destas linhas: a organização do combate democrático cuja extensão se confunde com a "construção do socialismo" deve ela própria ser democrática e socialista, deve ela própria ser expressão do auto-governo e da autonomia colectivos, os quais, pelo seu lado, estipulam e afirmam a autonomia e a responsabilidade dos indivíduos seus agentes, cidadãos apostados em dar-se, por sua conta e risco próprios, e sabendo que o fazem, a sua própria lei. Nessa medida, o compromisso com a dimensão política do "horizonte do comunismo" (Daniel Bensaïd), da "hipótese comunista" ou da "revolução social", não reconhece direcções superiores nem exteriores ao desenvolvimento da participação, em condições de igualdade de poder, exercida pelos interessados. E a recusa de reconhecer qualquer competência, estatuto, legitimidade ou superioridade de comando ao PCP, como a qualquer outra organização partidária, que se declare proprietária ou instância de administração e condução profissional do "movimento comunista", é bem menos "anticomunista" do aqueles que, em defesa da ordem hierárquica que instituíram em proveito da sua condição de representantes ou dirigentes e candidatos a governantes "mais justos" das "massas" oprimidas e exploradas, não se cansam de denunciar o "anticomunismo" de quem não lhes bate a pala nem, diante deles, se perfila de medo, ou acede a prestar-lhes serviços de sacristia.
Se, no debate sobre os "porcos com asas, que figuram na epígrafe deste blogue, o cepticismo pode invocar argumentos não despiciendos, é, em contrapartida, fora de toda a dúvida que, sobre os usos do termo "anticomunismo", talvez tenhamos ainda de voltar a falar, começando por fazê-lo, por exemplo, com os que, militando no PCP, mantêm viva essa vontade efectiva, anti-classista, anti-burocrática e anti-hierárquica, de liberdade, igualdade e "livre associação" governante que, um dia, os levou a adoptarem como sua a "hipótese comunista".
O termo é aplicado aos que criticam ou atacam determinada palavra de ordem, atitude política concreta do PCP, ou, indo mais, longe contestam a sua orientação ou linha geral. Ou também, e por maioria de razão, aos que entendem que a prática do PCP, as suas concepções expressas teoricamente ou na linguagem da acção, prefiguram ou actualizam certos traços incompatíveis com a construção de uma sociedade sem distinções ou hierarquia de classe, governada por cidadãos livres e iguais, organizados em vista do exercício da direcção política e económica através da participação democrática nos processos de deliberação e decisão das questões comuns.
Mas serão "anticomunistas" os que sustentam estas críticas e posições? Dir-se-ia que não, quando se considere, pelo menos, que a "construção social" que acima resumi, em termos deliberadamente diferentes dos mais frequentemente utilizados para descrever o comunismo, se limitam no essencial a repetir as exigências fundamentais da democratização socialista que se confunde com a abertura da via que conduziria ao comunismo.
É verdade que se levanta aqui o problema de saber se a fase superior desta democratização - a realização do comunismo - é concebível nos termos em que a tradição marxista clássica, o movimento anarquista histórico, etc. a definiram como meta. Ou seja, será possível e/ou desejável afirmarmos, em termos de racionalidade democrática, a ideia condutora de uma sociedade sem instituições nem leis, sem governo nem direcção económica, sem necessidade? A verdade é que creio que a adopção de tal meta, e do seu horizonte meta-histórico - ou seja, a adopção do fim da história como meta - é logicamente inconsistente e tende a funcionar como um mito de justificação e compensação ou das insuficiências da democratização socialista (dita primeira fase ou fase inferior do comunismo) ou de projectos políticos aos quais o mito do paraíso futuro serve de álibi para a recusa da organização/instituição igualitária e livre da direcção política presente e para a reprodução de formas que perpetuam a hierarquia classista e as formas de divisão do trabalho político que correspondem à opressão e à exploração da maioria dos que continuam a ser governados e excluídos de direitos e responsabilidades propriamente governantes.
Mas, embora me pareça, pois, que a adopção do comunismo, assim entendido, enquanto meta meta-histórica, é uma auto-mistificação dos dominados ou um mito que justifica a dominação, isso em nada restringe, bem pelo contrário, o alcance, a urgência e as boas razões da vontade de democratização que o projecto comunista historicamente nos transmitiu.
Ora - libertando de metas míticas a imaginação instituinte não reconhecida nem assumida como tal e que justamente a fixação mítico-instituída e a negação mítico-instituída do tempo e da história nos impedem de reconhecer como criação histórica incolmatável por metas finais e antecipadamente definidas -, estar decidido a manter como alternativa política viva aquilo que na "hipótese comunista", como gostam de dizer o Ricardo Noronha e o Zé Neves, pode ser politicamente proposto e passar à acção política, requer como condição de possibilidade que a acção alternativa actualize a livre deliberação e decisão das suas formas pelos seus agentes, e que estes assumam que a afirmação e a conquista da cidadania democrática se faz realizando-a no contexto imediato e particular de cada passo de um caminho que só andando colectivamente se faz, ainda que este fazer colectivo não exclua, mas antes pressuponha e encoraje a iniciativa individual de propostas quanto à direcção dos trilhos que se vão abrindo.
Voltando ao princípio destas linhas: a organização do combate democrático cuja extensão se confunde com a "construção do socialismo" deve ela própria ser democrática e socialista, deve ela própria ser expressão do auto-governo e da autonomia colectivos, os quais, pelo seu lado, estipulam e afirmam a autonomia e a responsabilidade dos indivíduos seus agentes, cidadãos apostados em dar-se, por sua conta e risco próprios, e sabendo que o fazem, a sua própria lei. Nessa medida, o compromisso com a dimensão política do "horizonte do comunismo" (Daniel Bensaïd), da "hipótese comunista" ou da "revolução social", não reconhece direcções superiores nem exteriores ao desenvolvimento da participação, em condições de igualdade de poder, exercida pelos interessados. E a recusa de reconhecer qualquer competência, estatuto, legitimidade ou superioridade de comando ao PCP, como a qualquer outra organização partidária, que se declare proprietária ou instância de administração e condução profissional do "movimento comunista", é bem menos "anticomunista" do aqueles que, em defesa da ordem hierárquica que instituíram em proveito da sua condição de representantes ou dirigentes e candidatos a governantes "mais justos" das "massas" oprimidas e exploradas, não se cansam de denunciar o "anticomunismo" de quem não lhes bate a pala nem, diante deles, se perfila de medo, ou acede a prestar-lhes serviços de sacristia.
Se, no debate sobre os "porcos com asas, que figuram na epígrafe deste blogue, o cepticismo pode invocar argumentos não despiciendos, é, em contrapartida, fora de toda a dúvida que, sobre os usos do termo "anticomunismo", talvez tenhamos ainda de voltar a falar, começando por fazê-lo, por exemplo, com os que, militando no PCP, mantêm viva essa vontade efectiva, anti-classista, anti-burocrática e anti-hierárquica, de liberdade, igualdade e "livre associação" governante que, um dia, os levou a adoptarem como sua a "hipótese comunista".
O sectarismo do PCP segundo um que esteve lá, nos andares mais altos
por
João Tunes
"
1. O jornal Ávante!, órgão central do PCP, consegue a proeza na edição de hoje de publicar uma extensa notícia sobre a poderosa manifestação nacional da CGTP do sábado passado, sem incluir a referência a uma linha do texto da intervenção central da iniciativa, realizada pelo secretário-geral dessa central, Carvalho da Silva. Mas critica no seu relato o tratamento noticioso dado por alguns órgãos de comunicação à manifestação, considerando-o redutor. Ou seja, lesto a ver a trave no olho do vizinho, mas incapaz de enxergar o argueiro no próprio olho. Como contributo para o conhecimento dessa excelente intervenção, ver aqui o texto que o Ávante! ignorou."
"2. O CPPC (Conselho Português para a Paz e Cooperação), convocou para hoje uma concentração de solidariedade com a causa palestiniana e contra o criminoso ataque israelita aos activistas e barcos que transportavam apoio hunanitária para o flagelado povo de Gaza. Mas, contrariamente a iniciativas anteriores por esta causa em que havia pelo menos a preocupação de diversificar o leque de organizações convocantes para alargar a base de apoio, desta vez são claramente excluídas organizações sociais e forças políticas. O único partido que consta da convocatória (ver aqui a convocatória), é o PCP, enquanto a ATTAC, o CIDAC, o Fórum pela Paz, a Comissão Nacional de Apoio ao Tribunal Russell para a Palestina (que entre os seus membros integra dirigentes da CGTP, como Carvalho da Silva e Ulisses Garrido e uma grande pluralidade na sua composição), etc., foram ignorados. "
(De um texto de Henrique de Sousa, que foi membro do Comité Central do PCP e do seu Secretariado, depois auto-afastando-se do PCP, datado de 2/6/2010)
(O acesso ao blogue de Henrique de Sousa foi-me proporcionado através da diligente e eficiente Joana Lopes)
(publicado também aqui)
1. O jornal Ávante!, órgão central do PCP, consegue a proeza na edição de hoje de publicar uma extensa notícia sobre a poderosa manifestação nacional da CGTP do sábado passado, sem incluir a referência a uma linha do texto da intervenção central da iniciativa, realizada pelo secretário-geral dessa central, Carvalho da Silva. Mas critica no seu relato o tratamento noticioso dado por alguns órgãos de comunicação à manifestação, considerando-o redutor. Ou seja, lesto a ver a trave no olho do vizinho, mas incapaz de enxergar o argueiro no próprio olho. Como contributo para o conhecimento dessa excelente intervenção, ver aqui o texto que o Ávante! ignorou.""2. O CPPC (Conselho Português para a Paz e Cooperação), convocou para hoje uma concentração de solidariedade com a causa palestiniana e contra o criminoso ataque israelita aos activistas e barcos que transportavam apoio hunanitária para o flagelado povo de Gaza. Mas, contrariamente a iniciativas anteriores por esta causa em que havia pelo menos a preocupação de diversificar o leque de organizações convocantes para alargar a base de apoio, desta vez são claramente excluídas organizações sociais e forças políticas. O único partido que consta da convocatória (ver aqui a convocatória), é o PCP, enquanto a ATTAC, o CIDAC, o Fórum pela Paz, a Comissão Nacional de Apoio ao Tribunal Russell para a Palestina (que entre os seus membros integra dirigentes da CGTP, como Carvalho da Silva e Ulisses Garrido e uma grande pluralidade na sua composição), etc., foram ignorados. "
(De um texto de Henrique de Sousa, que foi membro do Comité Central do PCP e do seu Secretariado, depois auto-afastando-se do PCP, datado de 2/6/2010)
(O acesso ao blogue de Henrique de Sousa foi-me proporcionado através da diligente e eficiente Joana Lopes)
(publicado também aqui)
05/06/10
Sobre o pecado de se citarem os Cardeais
por
João Tunes
Pense-se o que se pensar sobre a utilização mais frequente das “caixas de comentários” dos blogues, eles são curiosos e reveladores, em termos de sociologia cultural, sobre o estado do recalque político entre os incontinentes do insulto. Mas têm de ser considerados na sua escala e com o devido desconto porque, felizmente, não se podem extrapolar para todo o estado cívico da Nação. O recurso fácil ao anonimato (tout court ou pela multiplicação de pseudónimos) e a excitação do teclar fácil, rápido e fulminante, incrementam o funcionamento dos neurónios mais para os lados do ódio, do insulto, do preconceito, do estereótipo e da prosápia, enfim da preguiça e da degradação intelectual, que para o exercício do humor, do debate e do prazer do contraditório pela aferição com risco do fundamento das certezas de cada um. Mas sempre foi assim, disparar e ofender foi sempre mais fácil que rebater com argumentos, respeitando o adversário político. E o que a blogosfera acrescentou à ancestral atracção pela facilidade no panorama de uma culturalização recente e lenta foi a rapidez e a impunidade. Portanto, não é um drama, é uma evidência. Ou, se preferirem, uma “evolução tecnológica” no pior da nossa idiossincrasia, mas que é parte dela, sem dúvida.Por exemplo, os comentários pendurados neste post são bons exemplos sobre as campaínhas tresloucadas que atormentam os cérebros dos blogo-tchekistas. Uma transcrição (não comentada nem classificada ou adjectivada) de um parágrafo de um artigo do “Avante” (um “artigo de opinião” subscrito por um alto dirigente do PCP), com link a facilitar o acesso ao texto integral, desencadeou uma cadeia de insultos (o menos grave) mas, espantosamente, a atribuição ao acto de transcrição de revelação e confirmação de um infernal anticomunismo. Ou seja, por péssima consciência decerto, citar o “Avante” é olhado, pelos mais genuínos (ou esquizofrénicos) vigilantes da ortodoxia partidária marxista-leninista, como uma expressão ignóbil de ódio ao PCP. Ao que chegámos. Razão alguma terá Jerónimo de Sousa quando, no mesmo número do “Avante” - pedindo eu, desde já, antecipada desculpa pela reincidência no crime de transcrição -, disse em entrevista:
“Persistem dificuldades e atrasos, designadamente na compreensão política sobre a situação financeira ou sobre a importância da imprensa do Partido.”
Destas palavras com a autoridade de virem do SG do PCP constata-se, pois, que não só há gente (demais) que fala e fala mas não paga as quotas como nem todos os que escrevem no "Avante" têm boa conta da importância do orgão. Por dificuldades e atrasos. Nem mais.
Aproveitando o momento...
por
Diana Andringa
... da saída do Rui e da Joana,também me vou apear aqui. Parece-me claro - e aos eventuais leitores certamente também - que a blogosfera não é meio em que me sinta como peixe na água, nem o meu ritmo o mais adequado. Aos companheiros desta aventura, agradeço o convite, a camaradagem e a paciência demonstrada perante a minha fraca militância. Aos restantes, obrigada pelas vezes em que me terão lido. Talvez um dia aprenda a mover-me nestas águas. Até lá, guardo-me para outras lides.
Diana Andringa
Diana Andringa
Sem Tirar nem Pôr
por
Miguel Serras Pereira
Maré alta (da racionalidade democrática) para este post do João Torgal no 5dias. A ler na íntegra:
Neste contexto, cada vez mais me irrita uma certa esquerda que protege ou desvaloriza os regimes fundamentalistas islâmicos, castradores de liberdades individuais, de expressão, de escolha religiosa ou direitos das mulheres (como é que certos feministas defendem estas sociedade, é algo que simplesmente não percebo). Quando não se alega, de modo surreal, que estes regimes são democráticos, o argumento muitas vezes apresentado é de que era bom que a resistência na região fosse progressista, mas que não sendo, há que defender a que existe. A questão essencial é que não é só o bem-estar das populações da região que está em causa (o que, para mim, já seria motivo suficiente para a condenação veemente destes modelos de sociedade), mas também o contexto geopolítico mundial. O que aconteceria se estes regimes de extrema-direita teocráticos tivessem um poder proporcionalmente muito maior do que têm hoje? Teríamos nós (o Mundo na sua globalidade) uma realidade mais segura e pacífica do que com o domínio do imperialismo americano?
Neste contexto, cada vez mais me irrita uma certa esquerda que protege ou desvaloriza os regimes fundamentalistas islâmicos, castradores de liberdades individuais, de expressão, de escolha religiosa ou direitos das mulheres (como é que certos feministas defendem estas sociedade, é algo que simplesmente não percebo). Quando não se alega, de modo surreal, que estes regimes são democráticos, o argumento muitas vezes apresentado é de que era bom que a resistência na região fosse progressista, mas que não sendo, há que defender a que existe. A questão essencial é que não é só o bem-estar das populações da região que está em causa (o que, para mim, já seria motivo suficiente para a condenação veemente destes modelos de sociedade), mas também o contexto geopolítico mundial. O que aconteceria se estes regimes de extrema-direita teocráticos tivessem um poder proporcionalmente muito maior do que têm hoje? Teríamos nós (o Mundo na sua globalidade) uma realidade mais segura e pacífica do que com o domínio do imperialismo americano?
04/06/10
A sorte de Júlio Aparício e uma inutilidade póstuma de Garcia Lorca
por
João Tunes
Em 21 de Maio, Madrid, o andaluz Júlio Aparício foi colhido por um touro Domecq. A cornada trespassou-lhe a boca, perfurando a língua e destruindo parcialmente os dois maxilares. O seu estado foi considerado gravíssimo, sob morte eminente. E Júlio Aparício não tinha Garcia Lorca - outro andaluz - ainda vivo para o cantar e imortalizar como fizera relativamente a Ignacio Sánchez Mejías (*). Lorca deixou-nos há muito, ainda a guerra civil em Espanha estava a começar nos seus combates de ódios intensos, continuando ainda hoje com a sua herança em ossos perdida em terrenos baldios perto de Granada onde os falangistas o fuzilaram, mas sem que os seus poemas se percam da imaginação e dos sonhos dos povos. Júlio Aparício não teria direito a um novo canto de Lorca mas teve uma equipa médica que procedeu a várias operações, incluindo a reconstrução dos maxilares destruídos, e o salvou para a vida e a sua arte. Por uma vez, celebre-se a inutilidade do genial talento de Lorca.(*) Poema de Lorca dedicado a Ignacio Sánchez Mejías, toureiro que viu morrer na arena:
A las cinco de la tarde.
Eran las cinco en punto de la tarde.
Un niño trajo la blanca sábana
a las cinco de la tarde.
Una espuerta de cal ya prevenida
a las cinco da la tarde.
Lo demás era muerte y sólo muerte
a las cinco de la tarde.
.
El viento se llevó los algodones
a las cinco de la tarde.
Y el óxido sembró cristal y níquel
a las cinco de la tarde.
Ya luchan la paloma y el leopardo
a las cinco de la tarde.
Y un muslo con un asta desolada
a las cinco de la tarde.
Comenzaron los sones del bordón
a las cinco de la tarde.
Las campanas de arsénico y el humo
a las cinco de la tarde.
En las esquinas grupos de silencio
a las cinco de la tarde.
¡Y el toro solo corazón arriba!
a las cinco de la tarde.
Cuando el sudor de nieve fue llegando
a las cinco de la tarde,
Cuando la plaza se cubrió de yodo
a las cinco de la tarde,
la muerte puso huevos en la herida
a las cinco de la tarde.
A las cinco de la tarde.
A las cinco en punto de la tarde.
.
Un ataúd con ruelas es la cama
a las cinco de la tarde.
Huesos y flautas suenan en su oídeo
a las cinco de la tarde.
El toro ya mugía por su frente
a las cinco de la tarde.
El quarto se irisaba de agonía
a las cinco de la tarde.
A los lejos ya viene la gangrena
a las cinco de la tarde.
Trompa de lirio por las verdes ingles
a las cinco de la tarde,
Las heridas quemaban como soles
a las cinco de la tarde,
y el gentío rompía las ventanas
a las cinco de la tarde.
A las cinco de la tarde.
¡Ay qué terribles cinco de la tarde!
¡Eran las cinco en todos los relojes!
¡Eran las cinco en sombra de la tarde!
Federico García Lorca
(publicado também aqui)
Há 21 anos atrás
por
Miguel Madeira
Os tanques massacravam os estudantes chineses, Khomeini falecia e o Solidariedade ganhava uma espécie de eleições na Polónia.
Gazastrophe
por
Ricardo Noronha
«Gaza-strophe» é um documentário filmado por Samir Abdallah e Khéridine Mabrouk, imediatamente a seguir ao ataque levado a cabo pelo exército israelita entre Dezembro de 2008 e Janeiro de 2009.
Eis o texto de apresentação: "Captámos estas imagens de Gaza, Palestina, esse país que se assemelha cada vez mais a uma metáfora. Reentrámos em Gaza no dia a seguir à última guerra e descobrimos, com os nossos amigos, delegados palestinianos dos direitos humanos, a dimensão da «gaza-strofe». Os relatos de dezenas de testemunhos da guerra israelita contra Gaza fizeram-nos entrar no pesadelo palestianiano. Apesar de tudo isso, os nossos amigos Gazaoui ofereceram-nos poemas, cantos, e até anedotas..."
Mais informações sobre o filme e as condições de exibição (em solidariedade com a luta dos palestinianos) podem ser encontradas aqui. Noutro registo, vale a pena ler o texto de João Bernardo publicado no Passa Palavra, De perseguidos a perseguidores: a lição do sionismo, bem como o de António Louçã, Gaza e o Ghetto de Varsóvia – um inventário de analogias mencionados aqui pelo Renato.
Como se calam falcões
por
Miguel Cardina
O recente ataque de Israel a um navio a caminho de Gaza com ajuda humanitária voltou a colocar o conflito israelo-palestiniano em cima da mesa - de onde aliás teima em não sair há vários anos. Diante da desproporcional brutalidade aplicada pelos israelitas, alguns optam por assobiar para o lado e continuar a polir a sua armadura fanática. Felizmente que o mundo não é só dos cínicos, como nos prova a lúcida nota que Miguel Portas colocou no seu facebook e que não resisto a transcrever:
03/06/10
Noémia, Bucuane, Rangel, Balamanja, M’Boa, Malangatana, Mulenza, Nogar, Manganhela e Mabote
por
João Tunes
O livro (*) em que se salvaguarda a memória de dez nacionalistas moçambicanos (Noémia, Bucuane, Rangel, Balamanja, M’Boa, Malangatana, Mulenza, Nogar, Manganhela e Mabote) tem desde logo o mérito de compensar as óbvias carências que naquele país africano existem para o registo histórico e se prestar o devido preito aos que sofreram na carne o ódio colonial. Através dele, encontramo-nos com diversos personagens – artistas, poetas, religiosos, militantes e guerrilheiros – a contas com uma repressão selvática com que o regime colonial e o seu braço repressivo (a PIDE) respondiam aos anseios autonomistas, mesmo a "mais suave". As imagens das brutalidades a que foram sujeitos, a forma sinistra como o aparelho repressivo colonial triturava o assomo de dignidade, dão uma face que não pode ser esquecida, nesta época de negacionismo face ao colonialismo e à descolonização, que vai até ao assomo de se pretender tingir de patriotismo vero as iníquas guerras coloniais, da forma como o colonialismo português, até cair sob a mira das armas dos que o regime fardou para ser o seu braço armado em África, usou a brutalidade mais cruel e sanguinária para impossibilitar “outra descolonização” que não a verificada, a que assentou na vitória dos movimentos guerrilheiros nacionalistas com os dramas que lhe estiveram associados. Na altura, as carpideiras que depois choraram a descolonização, não levantaram a voz, não deram um grito, não imprimiram um panfleto, para dizerem basta aos crimes da PIDE e do colonialismo, não agarraram um braço assassino antes de consumarem os seus crimes contra os povos africanos, não exigiram negociações e acordos, nem direitos e dignidade. Essa “pátria” dormia então o sono da cumplicidade com a ordem estabelecida. E hoje é essa mesma “pátria” que muito chora porque nenhuma opressão é eterna. Guardaram tantas lágrimas justas e então necessárias que hoje choram como crocodilos em cima da amnésia que se foi construindo. Mas não passam de gente pequena ao pé de Noémia, Bucuane, Rangel, Balamanja, M’Boa, Malangatana, Mulenza, Nogar, Manganhela e Mabote.(*) – “Nacionalistas de Moçambique”, Dalila Cabrita Mateus e Álvaro Mateus, Edições Texto.
(publicado também aqui)
Os “anticapitalistas” são continuadores de Vital?
por
João Tunes
(versão corrigida para identificação correcta do autor deste "artigo de opinião")Note-se a tentativa - derrotada - de repetir «incidentes» como o de V. Moreira, no 1.º de Maio de 2009, com a (contra) manifestação sectária do BE, a provocação dum grupelho de «anarcas», ou os «empurrões com a polícia», encenados para uma câmara de televisão, cuidadosamente colocada numa rua afastada do percurso da manifestação.
(Carlos Gonçalves, da Comissão Política do PCP, no último “Avante”)
Vou andando...
por
Joana Lopes
A partir de hoje, estarei apenas no meu blogue pessoal. A criação do «Vias de Facto», e os quase três meses em que por aqui andei, foram muito estimulantes e mais uma experiência de vida importante. Aprendi muitas coisas, entre as quais uma absolutamente fundamental: é que não basta voluntarismo para que paralelas se intersectem, elas só se tocam mesmo no infinito. E o infinito é algo de muito longínquo para a minha impaciência.
Podem encontrar-me por aqui.
Podem encontrar-me por aqui.
Em viagem
por
Rui Bebiano
A partir de hoje deixo de participar neste blogue. Os motivos podem resumir-se: acredito que num blogue de opinião e intervenção, apesar da desejável diversidade, a imagem do todo compromete todos. Neste caso, porém, não me tenho andado a rever muito bem nesse todo. O que nada tem a ver com escaramuças, rasteiras ou desquites. Escolhas e nada mais do que isso. Vemo-nos por aí.
Feriados, Tolerâncias de Ponto e Pontes
por
Miguel Madeira
Hoje em vários noticiários apareceu (a propósito da proposta das deputadas democratas-cristãs do PS de abolir 3 ou 4 feriados, e provavelmente também por ser feriado) a noticia de que "Portugal tem muitos feriados", e que "os 14 feriados mais as tolerâncias de ponto são 22 dias de trabalho que se perdem".
Sinceramente, não estou a ver como fazem essas contas - quantas "tolerâncias de ponto" costuma haver (e, em principio, só se aplicam à administração pública)? No máximo 4 no Natal e Ano Novo (e mesmo esses muitas vezes pelo sistema de 50% gozam num dia, 50% no outro) e mais a Terça-Feira de Carnaval - o que dará menos 19 dias de trabalho; estarão a contar também com as 3 tolerâncias papais (que foram extraordinárias e, de qualquer forma, só num dia se aplicaram ao país todo)? E, já agora, e todos os feriados que "desaparecem" porque calham ao fim de semana (neste ano, tivemos/teremos a Páscoa*, o 25 de Abril, o 1º de Maio, o 15 de Agosto, o 11 de Dezembro** e o Natal - 6 feriados, mais do que as tolerâncias de ponto)?
O que me dá a ideia é que neste conversa confunde-se muito os conceitos de "tolerância de ponto" e de "ponte" (o facto de em grande parte do país - bem, pelo menos onde eu vivo... - "ponto" e "ponte" pronunciarem-se da mesma maneira na linguagem oral provavelmente contribui para a confusão), e quando se fala dos dias "perdidos" como "tolerâncias de ponto" estão na verdade falando de dias de "ponte" - i.e. dias de férias metidos à segunda ou a sexta quando há um feriado na terça ou na quinta. Mas uma "ponte" mais não é que um dia de férias, que seria gozado noutro dia qualquer se não fosse nesse, logo não há nenhum "perda" de dias de trabalho.
*aliás, o Domingo de Páscoa já por vários anos consecutivos que tem calhado ao fim-de-semana; talvez em 2011 calhe a uma terça-feira?
** aniversário da elevação de Portimão a cidade; aliás, o 13 de Junho também calha ao fim-de-semana
Sinceramente, não estou a ver como fazem essas contas - quantas "tolerâncias de ponto" costuma haver (e, em principio, só se aplicam à administração pública)? No máximo 4 no Natal e Ano Novo (e mesmo esses muitas vezes pelo sistema de 50% gozam num dia, 50% no outro) e mais a Terça-Feira de Carnaval - o que dará menos 19 dias de trabalho; estarão a contar também com as 3 tolerâncias papais (que foram extraordinárias e, de qualquer forma, só num dia se aplicaram ao país todo)? E, já agora, e todos os feriados que "desaparecem" porque calham ao fim de semana (neste ano, tivemos/teremos a Páscoa*, o 25 de Abril, o 1º de Maio, o 15 de Agosto, o 11 de Dezembro** e o Natal - 6 feriados, mais do que as tolerâncias de ponto)?
O que me dá a ideia é que neste conversa confunde-se muito os conceitos de "tolerância de ponto" e de "ponte" (o facto de em grande parte do país - bem, pelo menos onde eu vivo... - "ponto" e "ponte" pronunciarem-se da mesma maneira na linguagem oral provavelmente contribui para a confusão), e quando se fala dos dias "perdidos" como "tolerâncias de ponto" estão na verdade falando de dias de "ponte" - i.e. dias de férias metidos à segunda ou a sexta quando há um feriado na terça ou na quinta. Mas uma "ponte" mais não é que um dia de férias, que seria gozado noutro dia qualquer se não fosse nesse, logo não há nenhum "perda" de dias de trabalho.
*aliás, o Domingo de Páscoa já por vários anos consecutivos que tem calhado ao fim-de-semana; talvez em 2011 calhe a uma terça-feira?
** aniversário da elevação de Portimão a cidade; aliás, o 13 de Junho também calha ao fim-de-semana
Sobre Israelitas, Palestinianos, Extrema-Direita e Anti-Semitismo
por
Miguel Serras Pereira
Não preciso de "linkar" aqui os múltiplos posts e outros textos que nos últimos dias têm analisado em termos que, no essencial, subscrevo o carácter ao mesmo tempo criminoso e suicidário da política do governo de Israel. O Ricardo Noronha, o João Tunes e o Miguel Madeira, aqui na csasa; o Rui Bebiano e a Joana Lopes, nos seus blogues pessoais; o Rui Tavares, na sua coluna do Público; o Nuno Ramos de Almeida no 5dias, e por certo muitos outros em muitas outras sedes derem bem conta dos dois gumes do acto de pirataria cometido pelas autoridades israelitas. Dir-se-ia estarmos perante uma acção desencadeada por agentes duplos comandados por inimigos cínicos e sem escrúpulos do povo de Israel, mas, para maior desgraça deste, a verdade é que estamos perante a execução de ordens dos seus governantes.
Mas os actos dos "falsos amigos dos israelitas" não devem fazer-nos esquecer a necessidade de mantermos a denúncia igualmente intransigente dos "falsos amigos dos palestinianos" e outros povos da região, que, agora à boleia do repúdio generalizado dos actos dos primeiros, aproveitam a oportunidade para obter apoios, reconhecimentos e legitimação de regimes e organizações que, em defesa das suas posições e/ou ambições políticas, continuam, não só a fazer guerra ao seu próprio povo e a impor-lhe condições abjectas de servidão material e "ideológica", mas a protagonizar um anti-semitismo que faz, não do governo israelita, mas dos israelitas, enquanto tais e porque judeus, o inimigo a abater.
Basta reparar na frequência com que certos comentadores, blogosféricos ou não, escrevem "os israelitas", em vez de "o governo israelita" ou mesmo "o regime israelita", quando se juntam ao coro dos protestos - mais do que imperiosamente justificados, repito - contra este sangrento acto de pirataria, utilizando-o como argumento para apelar à destruição de Israel e legitimar esse objectivo como exigência de qualquer "anti-imperialismo consequente".
Os seus argumentos não inovam, a não ser por algumas pinceladas de cor local, quando os comparamos com os do anti-semitismo da extrema-direita em vias de reciclagem no nosso próprio país (ver o post da Joana sobre o assunto, Deus, Trabalho e Família, publicado no Brumas). "São os judeus que nos ameaçam e nós não fazemos senão defendermo-nos", "São os judeus que governam o governo dos Estados Unidos e os seus projectos imperialistas", "São os judeus que, graças ao poder financeiro de que dispõem, perpetuam o atraso e as situações neo-coloniais de grande parte do mundo", "São os judeus que minam a fé na verdadeira religião e contrariam a sua mensagem de paz e justiça verdadeiras" (aqui a "verdadeira religião" depende de quem fala, e é ora a da "Europa cristã", ora o islamismo cujos projectos de expansão são tomados como sinónimos de combate ao imperialismo). Ou nos termos em que formula a questão um ideólogo do catolicismo integrista da região portuguesa:
"Sempre prontos a encontrar uma brecha por onde possam entrar e dividir, os líderes judeus de toda a Europa - no mesma semana da canonização dos mortos [do campo franquista durante a Guerra Civil] pela Santa Sé - reuniram-se em Madrid para lembrarem os mortos da Inquisição espanhola (…) entre os grandes advogados da laicidade do Estado no Ocidente estão frequentemente intelectuais judeus, e compreendem-se as razões. (…) foi na Península Ibérica que os judeus foram melhor acolhidos e tratados ao longo de toda a sua longa história, por entre os múltiplos povos e lugares em que viveram. É claro que, mesmo aqui, acabaram por dar motivos para serem expulsos, primeiro de Espanha (1492), e depois de Portugal (1521). Mas isso foi o que eles fizeram em todos os países que os receberam durante a sua história de milénios. E que voltam agora a fazer em Espanha, mais de cinco séculos depois. Está-lhes literalmente na massa do sangue".
Contra a fascização e a discriminação em Israel e contra os "falsos amigos" de judeus e palestinianos; pela criação de condições que permitam que os israelitas, os palestinianos e os membros dos outros povos da região possam viver como cidadãos iguais em territórios partilhados ou vizinhos, o combate é o mesmo que contra os que localmente não só combatem todas as tentativas de democratização da ordem política europeia, como visam reformar autoritariamente os actuais regimes europeus. E deve ser travado em simultâneo, através da coerência das intervenções nas várias frentes.
Mas os actos dos "falsos amigos dos israelitas" não devem fazer-nos esquecer a necessidade de mantermos a denúncia igualmente intransigente dos "falsos amigos dos palestinianos" e outros povos da região, que, agora à boleia do repúdio generalizado dos actos dos primeiros, aproveitam a oportunidade para obter apoios, reconhecimentos e legitimação de regimes e organizações que, em defesa das suas posições e/ou ambições políticas, continuam, não só a fazer guerra ao seu próprio povo e a impor-lhe condições abjectas de servidão material e "ideológica", mas a protagonizar um anti-semitismo que faz, não do governo israelita, mas dos israelitas, enquanto tais e porque judeus, o inimigo a abater.
Basta reparar na frequência com que certos comentadores, blogosféricos ou não, escrevem "os israelitas", em vez de "o governo israelita" ou mesmo "o regime israelita", quando se juntam ao coro dos protestos - mais do que imperiosamente justificados, repito - contra este sangrento acto de pirataria, utilizando-o como argumento para apelar à destruição de Israel e legitimar esse objectivo como exigência de qualquer "anti-imperialismo consequente".
Os seus argumentos não inovam, a não ser por algumas pinceladas de cor local, quando os comparamos com os do anti-semitismo da extrema-direita em vias de reciclagem no nosso próprio país (ver o post da Joana sobre o assunto, Deus, Trabalho e Família, publicado no Brumas). "São os judeus que nos ameaçam e nós não fazemos senão defendermo-nos", "São os judeus que governam o governo dos Estados Unidos e os seus projectos imperialistas", "São os judeus que, graças ao poder financeiro de que dispõem, perpetuam o atraso e as situações neo-coloniais de grande parte do mundo", "São os judeus que minam a fé na verdadeira religião e contrariam a sua mensagem de paz e justiça verdadeiras" (aqui a "verdadeira religião" depende de quem fala, e é ora a da "Europa cristã", ora o islamismo cujos projectos de expansão são tomados como sinónimos de combate ao imperialismo). Ou nos termos em que formula a questão um ideólogo do catolicismo integrista da região portuguesa:
"Sempre prontos a encontrar uma brecha por onde possam entrar e dividir, os líderes judeus de toda a Europa - no mesma semana da canonização dos mortos [do campo franquista durante a Guerra Civil] pela Santa Sé - reuniram-se em Madrid para lembrarem os mortos da Inquisição espanhola (…) entre os grandes advogados da laicidade do Estado no Ocidente estão frequentemente intelectuais judeus, e compreendem-se as razões. (…) foi na Península Ibérica que os judeus foram melhor acolhidos e tratados ao longo de toda a sua longa história, por entre os múltiplos povos e lugares em que viveram. É claro que, mesmo aqui, acabaram por dar motivos para serem expulsos, primeiro de Espanha (1492), e depois de Portugal (1521). Mas isso foi o que eles fizeram em todos os países que os receberam durante a sua história de milénios. E que voltam agora a fazer em Espanha, mais de cinco séculos depois. Está-lhes literalmente na massa do sangue".
Contra a fascização e a discriminação em Israel e contra os "falsos amigos" de judeus e palestinianos; pela criação de condições que permitam que os israelitas, os palestinianos e os membros dos outros povos da região possam viver como cidadãos iguais em territórios partilhados ou vizinhos, o combate é o mesmo que contra os que localmente não só combatem todas as tentativas de democratização da ordem política europeia, como visam reformar autoritariamente os actuais regimes europeus. E deve ser travado em simultâneo, através da coerência das intervenções nas várias frentes.
"A única democracia do Médio Oriente"
por
Miguel Madeira
Um dos argumentos que os defensores de Israel usam frequentemente é que é "a única democracia do Médio Oriente".
Bem, e se fosse? Imagine-se que eu sou agredido por um grupo de individuos; que diferença me faz a mim se eles têm um chefe incontestável que mandou agredir-me ou se decidiram por votação democrática agredir-me? O facto de uma organização ser ou não uma democracia pode ser relevante no que diz respeito à forma como a organização trata os seus membros; quando estamos a falar das relações dessa organização com elementos exteriores, a forma como internamente a organização funciona parece-me irrelevante para decidir quem tem razão.
Mas será que Israel é mesmo "a única democracia do Médio Oriente"? E o Líbano, também não é uma democracia (é verdade que o sistema eleitoral libanês é um bocado estranho, e nas ultimas eleições o bloco eleitoral mais votado ficou em minoria no parlamento, mas isso também aconteceu nos EUA nas eleições de 2000)?
E, mais importante ainda, não me digam que afinal o Iraque não é uma democracia? Eu pensei que era...
Além disso, se definirmos "democracia" como um sistema em que "o governo é escolhido pelos governados", Israel não é uma democracia - os árabes dos territórios ocupados estão submetidos à autoridade do governo israelita mas não votam para ele (atenção, estou a falar dos árabes dos "territórios", não dos de "Israel dentro da linha de cessar-fogo de 1948") - considerar Israel um democracia é um pouco como considerar a antiga África do Sul uma "democracia", em que o governo também era eleito em eleições competitivas, pelas pessoas que consideradas "cidadãos", mas em que havia uns milhões de não-cidadãos sem direito a voto que também estavam submetidas a esse governo (essa contradição notava-se mais na África do Sul por os não-cidadãos serem demograficamente mais que os cidadãos, ao contrário do que se passa em Israel).
E, para finalizar, será que as pessoas que são a favor de Israel porque "Israel é a única democracia do Médio Oriente", durante a guerra de 1947/49 estariam contra Israel (OK, ainda não eram nascidos provavelmente, mas nas discussões sobre o conflito do Médio Oriente são recorrentes os argumentos "isto é justo porque, na guerra de [1948/1956/1967/1973/1982/etc.] alguém fez aquilo", logo a opinião sobre guerras passadas acaba por ser relevante)? Afinal, em 1948 a Síria e o Líbano eram democracias, enquanto Israel tinha um governo em larga medida auto-nomeado (a "Agência Judaica" basicamente proclamou-se "governo provisório de Israel", estilo "movimento de libertação").
Bem, e se fosse? Imagine-se que eu sou agredido por um grupo de individuos; que diferença me faz a mim se eles têm um chefe incontestável que mandou agredir-me ou se decidiram por votação democrática agredir-me? O facto de uma organização ser ou não uma democracia pode ser relevante no que diz respeito à forma como a organização trata os seus membros; quando estamos a falar das relações dessa organização com elementos exteriores, a forma como internamente a organização funciona parece-me irrelevante para decidir quem tem razão.
Mas será que Israel é mesmo "a única democracia do Médio Oriente"? E o Líbano, também não é uma democracia (é verdade que o sistema eleitoral libanês é um bocado estranho, e nas ultimas eleições o bloco eleitoral mais votado ficou em minoria no parlamento, mas isso também aconteceu nos EUA nas eleições de 2000)?
E, mais importante ainda, não me digam que afinal o Iraque não é uma democracia? Eu pensei que era...
Além disso, se definirmos "democracia" como um sistema em que "o governo é escolhido pelos governados", Israel não é uma democracia - os árabes dos territórios ocupados estão submetidos à autoridade do governo israelita mas não votam para ele (atenção, estou a falar dos árabes dos "territórios", não dos de "Israel dentro da linha de cessar-fogo de 1948") - considerar Israel um democracia é um pouco como considerar a antiga África do Sul uma "democracia", em que o governo também era eleito em eleições competitivas, pelas pessoas que consideradas "cidadãos", mas em que havia uns milhões de não-cidadãos sem direito a voto que também estavam submetidas a esse governo (essa contradição notava-se mais na África do Sul por os não-cidadãos serem demograficamente mais que os cidadãos, ao contrário do que se passa em Israel).
E, para finalizar, será que as pessoas que são a favor de Israel porque "Israel é a única democracia do Médio Oriente", durante a guerra de 1947/49 estariam contra Israel (OK, ainda não eram nascidos provavelmente, mas nas discussões sobre o conflito do Médio Oriente são recorrentes os argumentos "isto é justo porque, na guerra de [1948/1956/1967/1973/1982/etc.] alguém fez aquilo", logo a opinião sobre guerras passadas acaba por ser relevante)? Afinal, em 1948 a Síria e o Líbano eram democracias, enquanto Israel tinha um governo em larga medida auto-nomeado (a "Agência Judaica" basicamente proclamou-se "governo provisório de Israel", estilo "movimento de libertação").
02/06/10
O almirante hedonista
por
João Tunes
Rosa Coutinho era o militar que aparentava um ar mais satisfeito, lúdico até, por estar na crista de uma revolução, a nossa. Talvez por isso, por ser o militar revolucionário mais feliz em o ser, o que só uma paz com a consciência proporciona a par de uma relação descontraída com as missões, foi o mais caluniado entre todos os militares de Abril. Mas nenhuma ofensa lhe perturbou a maior proximidade do riso e da demonstração da evidência dos factos que do carregar as sobrancelhas. Rijo, firme, inesquecível, este almirante hoje desaparecido.(publicado também aqui)
Os produtos que Israel deixa e não deixa entrar em Gaza
por
Miguel Madeira
À la claire fontaine *
por
Miguel Serras Pereira
Il y a longtemps que je t'aime
jamais je ne t'oublierai
Na água da fonte clara
nunca te esquecerei
não esquecerei a noite desdobrada
onde contigo embarquei
nas ondas do fumo calmo
com a cor do nevoeiro
subindo do tabaco que fumávamos
na coberta do veleiro
cujas velas são asas
se na tua cama me deitas
ou mudamos de viagem
aos tropeções em terra de ninguém
antes de tornarmos de rastos
ao abrigo nas trincheiras
da frente de aragão onde tombámos
na espanha de trinta e seis
para por fim alcançarmos
o ancoradouro dos salgueiros
em frente da casa fechada
e cuja promessa incendeia
os meus passos no encalço
da capa negra e vermelha
que ias fazendo dançar
e que despiste entre espelhos
para me concederes o vagar
da consagração dos teus seios
antes da senda entre as nádegas
que capitulando singrei
até ao rio do naufrágio
estranha memória estrangeira
onde perco a rua alma a alma
de cada um dos teus beijos
suspenso do vão de uma vaga
para que ardas primeiro
e me tenhas a suplicar-te
tu sobre mim de joelhos
que forces a luz transtornada
das estrelas do meu desejo
agora que volto atrás
ou dito de outra maneira
ao fim de manhã que apesar
das conciliações mais rasteiras
prometia para a tarde
em vez de só aguaceiros
a fonte de água clara
que me tornou marinheiro
de ti em ti arrancado
às valas da morte nas veias
para consumar a verdade
das lágrimas em armas que amei
um pouco por toda a parte
como nesta bruxelas vê bem
onde iludindo por artes
escondidas aos esbirros de el-rei
todos os horários mais farpados
das ruas da sua lei
fizeste navio ao largo
toda a vida só meia
que não queiras sequer tu sonhar
eu seria a vida inteira
não fora tomares-me de assalto
nesta esquina onde parei
como se te dissesse oxalá
se aqui me fazes vir venhas
ou leves a bordo no mar
do que de ti nem tu tens
* Inédito de uma série chamada "Música Francesa", em que cada poema tem o título de uma canção. As canções visitadas recorrem não só ao repertório "popular" e "tradicional", mas também a composições "ligeiras" que estiveram em voga, sobretudo nos anos 60, e a outras não tão em voga desse mesmo período, ou do imediatamente anterior, e dos tempos que depois foram.
O livrinho que devia ser vermelhinho
por
João Tunes
Podia ter saído em edição tipo “livrinho vermelho” com capa resistente para se ler até no duche e de punho levantado. Mas não, saiu em ediçãozinha acanhada, com vivo azul, quase sem margens e trabalhoso para se manusear. Enfim, terá sido o que se pode arranjar para que o excelente conteúdo do livrinho de Miguel Cardina sobre a “esquerda radical” (*) aí estivesse para nossa informação e discussão. E ainda bem porque esta resenha fundamentada é útil e era necessária.Os grupos que à margem do PCP, durante a resistência, sobretudo aqueles que foram as filiais lusitanas do diferendo sino-soviético (embora muitos outros grupos e organizações se tenham incluído na família da “esquerda radical”, nomeadamente o trotsquismo, os adeptos do guevarismo, da autogestão e os católicos radicalizados, a que Cardina também dá a devida atenção) cresceram e multiplicaram-se, entremeando ofensivas, normalmente através do panfleto, contra a ditadura (o “fascismo”) e a hegemonia resistente do PCP (o “social-fascismo”), mereciam um lugar adequado na história política, tanto mais que marcaram a própria revolução que se seguiu ao 25 de Abril e ainda bastantes dessas personagens recheiam as hostes bloquistas, embora radicalmente “transformados”, enquanto o grosso aderiu, precocemente e sem preconceito, à social-democracia e ao PSD, marcando ainda forte presença nos aparelhos governamentais e partidários, na academia e no jornalismo. Pela natureza grupuscular, cisionista e fraccionária destes grupos, a sua visão global constitui uma autêntica charada para os interessados no conhecimento das suas géneses e caminhos de multiplicação. E, neste aspecto, o livro de Miguel Cardina, ao sistematizar o “caos orgânico” dos grupos “m-l”, é, desde logo, de uma enorme utilidade orientadora. Mas o livro é mais do que isso. Além de uma escrita fresca e clara que se orienta bem no referido “caos”, Miguel Cardina tipifica os caminhos e motivações da “dupla contestação” (à ditadura e ao PCP), evidenciando ainda as motivações culturais e nos costumes que animavam os cortes destes activistas (sobretudo estudantes), os da ressaca de “68”, através de uma militância que pretendia ser, em simultâneo, inconformista perante a velha ditadura cheia de bolor conservador e o outro conservadorismo, o ideológico e petrificado dos “pró-soviéticos” (o que não os inibia de, na maior parte das vezes, competirem com estes nos rituais espartanos das vidas partidárias e parodiarem as “proletarizações”).
Numa etapa impensável tempos atrás, em que o PCP viu falecer-lhe o principal aliado, apoio e inspirador (a fonte do “burocratismo revisionista” segundo os contestários de outrora), fez as pazes com o simbolismo guevarista e cubano (antes, mais um problema que uma identidade), aproximou-se da China (tendo, primeiro, esperado que esta passasse do comunismo radical para o capitalismo selvagem), adoptando muita da linguagem política e partidária muito mais próxima do panfletismo maoísta de antanho que da grave e solene análise e oratória de Cunhal, estreitando a estratégia política no activismo e sindicalismo “de rua”, contaminado pela “impaciência grega” e desejo de alianças com o terrorismo do fascismo islâmico, o livro de Cardina ajuda, ainda, a iluminar como quase tudo em política muda e se transforma. Por vezes, absorvendo as heterodoxias mais radicais. Mas como tudo tem a sua data de nascimento e gestação, o “A Esquerda Radical” tornou-se, automaticamente, numa obra de referência, indispensável.
Feitos os elogios, sobra uma insatisfação. Miguel Cardina envolveu-se e envolveu-nos na viagem por dentro da esquerda radical e por aí se ficou. Faltou, a meu ver, embora tudo tenha o seu tempo, um estudo comparativo com as movimentações e dimensão do principal grupo competitivo do “maoísmo estudantil” (os agrupamentos juvenis do PCP, particularmente a UEC – União dos Estudantes Comunistas – após a sua formação). Essa medida dos pesos e influências relativas (muitas delas repartidas por faculdades politicamente hegemonizadas ora por uns ora por outros) seria a medida mais aproximada e interessante para aferir em que medida real, a de penetração, onde ganharam uns e onde ganharam outros e, ainda, o saldo final de uma luta bem renhida e muitas vezes incluindo o confronto físico. Sendo verdade que nenhum livro esgota os livros, aguardemos as peças em falta.
(*) – “O Essencial sobre a Esquerda Radical”, Miguel Cardina, Edições angelus novus.
(publicado também aqui)
Profecia de Jobs
por
João Tunes
Find Your Philosophy Quiz
por
Miguel Madeira
No Center for a Stateless Society:
Os meus resultados:
The Find Your Philosophy quiz currently consists of 106 questions which aim to measure your views along five different axes: Economic Leftist/Economic Rightist, Civil Libertarian/Civil Authoritarian, Socio-Cultural Liberal/Socio-Cultural Conservative, Anti-Militarist/Pro-Militarist and Anarchist/Statist.
Os meus resultados:
01/06/10
Política da arte: pistas para um debate a haver
por
João Pedro Cachopo
Inaesthetik é uma publicação anual bilingue (em alemão e inglês). Ao nº 0, “Theses on Contemporary Art”, seguiu-se, em 2009, o nº 1 sobre “política da arte”.
O facto de a revista ter por título o conceito de “inestética” (proposto por Alain Badiou), não traduzindo necessariamente a inscrição do seus contributos – de resto, bastante heterogéneos – no pensamento deste filósofo, realça sobretudo a afinidade entre o(s) pensamento(s) da arte e da filosofia e os seus modos de aflorar a verdade – uma afinidade para que aponta o conceito de “inestética” e que norteia os muito variados textos da publicação.
O facto de a revista ter por título o conceito de “inestética” (proposto por Alain Badiou), não traduzindo necessariamente a inscrição do seus contributos – de resto, bastante heterogéneos – no pensamento deste filósofo, realça sobretudo a afinidade entre o(s) pensamento(s) da arte e da filosofia e os seus modos de aflorar a verdade – uma afinidade para que aponta o conceito de “inestética” e que norteia os muito variados textos da publicação.
Não estando ainda on-line, deixo alguns excertos do editorial deste nº 1, por Tobias Huber e Marcus Steinweg onde se perfilam questões, impasses, pistas para/de um debate a haver:
«The latest edition of INAESTHETIK is all about the politics of art. Do works of art have a political mandate? How does a work of art place itself in the social domain? How do art production, art criticism, art theory and philosophy interact? Does art have to be critical – critical of institutions, the market, and ideologies? Or does the work of art set limits to criticism and the good conscience of critics, who turn art into a practice that is risky and perhaps necessarily affirmative? Is the whole point of resistance and subversion, categories constantly being linked to works of art, not a kind of tranquilizer, allowing artists to take part in the political game without a real commitment to it, making political conscience a form of unacknowledged depoliticization? How affirmative does a work of art have to be in order to be subversive or political?
Any convincing work of art must possess a critical force that reflects the conditions under which it was made. At the same time it cannot be limited to reflexive intelligence, because – like every postulation, assertion of form, and decision – it also contains a moment of proflexive blindness in which it escapes its own identity and sense of self-assurance. (...) Of course, art has little to do with mistrust, culpability, and the zealous practice of policing. Its critical force always contains a certain degree of affirmation, comparable to a kind of ontological acquiescence. (...)
The political in art lies in addressing both moments equally: refusing, on the one hand, to let its critical force be neutralized in blind affirmation while remaining certain, on the other hand, that there is no art which can or, indeed, should renounce its blindness, because it is blindness that opens a work of art to the new and unknown. (...)
The vigilance and concern of art – its own unique politicality – becomes visible in its affirmative resistance to the temptation of self-journalization, in its resistance to the power of facts, on the one hand, and to its aesthetic and always idealistic inadequacy in the phantasm of pure art, on the other. Art can only be found in the sphere of economic, cultural, social and political overdeterminacy. This is where it must articulate its distance from everything that limits its claim to autonomy.»
Estética e política em debate
por
João Pedro Cachopo
No próximo sábado (5 de Junho) terá lugar às 18h o debate com que encerrará o curso sobre “estética e política” que a Unipop organizou na Fábrica do Braço de Prata durante os últimos dois meses.
Contará com a presença de Manuel Gusmão, Mário Vieira de Carvalho e Silvina Rodrigues Lopes – e de todos aqueles que tiverem interesse em participar.
A entrada é livre, estando apenas condicionada pela disponibilidade de lugares.
o autor enquanto produtor
por
Ricardo Noronha
A conferência de Walter Benjamin, ‘O Autor como Produtor’ (1934), serve de mote a três sessões de leitura e debate que procurarão realçar e repensar os passos mais significativos da sua argumentação.
Para Benjamin, o potencial transformador da arte só é pensável à luz dos dispositivos técnicos e políticos em que está inserida. Só através de uma mudança destes, que ultrapasse a inovação formal ou o conteúdo crítico, se poderá cumprir o imperativo de uma produção cultural radicalmente democrática, ou seja, que mine as barreiras entre produtores e consumidores.
Escolhemos uma constelação de textos – de Bertolt Brecht, Theodor Adorno, Guy Debord e Jacques Rancière – para ler à luz das problemáticas lançadas por Benjamin, e no confronto com os quais as suas interrogações possam ser alargadas e recontextualizadas. A partir de um olhar crítico sobre as divisões habituais entre produtores e consumidores de cultura, bem como a separação entre as esferas do estético e do político, do lúdico e do produtivo, procuraremos encontrar pontos de entrada para novas interpretações dos textos em causa bem como do campo cultural contemporâneo.
Para Benjamin, o potencial transformador da arte só é pensável à luz dos dispositivos técnicos e políticos em que está inserida. Só através de uma mudança destes, que ultrapasse a inovação formal ou o conteúdo crítico, se poderá cumprir o imperativo de uma produção cultural radicalmente democrática, ou seja, que mine as barreiras entre produtores e consumidores.
Escolhemos uma constelação de textos – de Bertolt Brecht, Theodor Adorno, Guy Debord e Jacques Rancière – para ler à luz das problemáticas lançadas por Benjamin, e no confronto com os quais as suas interrogações possam ser alargadas e recontextualizadas. A partir de um olhar crítico sobre as divisões habituais entre produtores e consumidores de cultura, bem como a separação entre as esferas do estético e do político, do lúdico e do produtivo, procuraremos encontrar pontos de entrada para novas interpretações dos textos em causa bem como do campo cultural contemporâneo.
As Oficinas de Leitura da Unipop destinam-se a promover a discussão pública e atenta de textos influentes mas com pouco eco fora do espaço académico, de modo a realçar a sua relevância para pensar o presente.
Procurar-se-á olhar os textos à lupa, tendo em atenção as suas especificidades históricas e conceptuais, e simultaneamente colocar os temas por eles apresentados em confronto com textos e contextos que os problematizem, desfamiliarizem e reinventem. Com isto pretendemos renovar não só a legibilidade dos textos, mas a legibilidade do campo político que nos circunda e das práticas e agentes que o compõem.
Procurar-se-á olhar os textos à lupa, tendo em atenção as suas especificidades históricas e conceptuais, e simultaneamente colocar os temas por eles apresentados em confronto com textos e contextos que os problematizem, desfamiliarizem e reinventem. Com isto pretendemos renovar não só a legibilidade dos textos, mas a legibilidade do campo político que nos circunda e das práticas e agentes que o compõem.
Sionistas empedernidos
por
Ricardo Noronha
Ainda não consegui perceber porque razão os intransigentes defensores das forças armadas israelitas (por exemplo, aqui e aqui) insistem em parecer-se tanto com Muhammed Saeed al-Sahaf. Mas suponho que todas as causas perdidas necessitem de um rosto que personifique o seu delírio. Como dizia o outro, primeiro na forma de tragédia depois na forma de farsa.
Ser ou não ser gay
por
Zé Neves
Não estou a conseguir acompanhar com exactidão todo o debate suscitado por este post do Miguel Serras Pereira. Mas há uma coisa que me parece importante dizer no meio de tão animado debate: pretender criticar uma identidade estabelecida com base em questões naturais a partir de uma identidade estabelecida com base em questões culturais (isto é, pretender criticar o critério do "sexo" através da defesa da superioridade do critério de "identidade de género") tem várias vantagens mas também tem alguns inconvenientes: em primeiro lugar, não facilita que se perceba que são justamente as fronteiras entre natureza e cultura que devem ser colocadas em causa; em segundo lugar, não resolve o problema das políticas de identificação - que não é por serem políticas críticas da identificação estatal dominante que deixam de ser políticas de identificação.
Em relação a isto, vejo que, no discurso de movimentos lgbt, a ideia de que "não se escolhe ser gay" ainda tem, muitas vezes, primazia. Percebo isso, na medida em que se visa, dessa maneira, mostrar a necessidade do debate em torno da homofobia; mas a questão não estará, verdadeiramente, em buscar uma alternativa quer à "natureza" (nascemos gays) quer à "cultura" (escolhemos ser gays)?
Em relação a isto, vejo que, no discurso de movimentos lgbt, a ideia de que "não se escolhe ser gay" ainda tem, muitas vezes, primazia. Percebo isso, na medida em que se visa, dessa maneira, mostrar a necessidade do debate em torno da homofobia; mas a questão não estará, verdadeiramente, em buscar uma alternativa quer à "natureza" (nascemos gays) quer à "cultura" (escolhemos ser gays)?
O totalitarismo do orgasmo como ameaça à ejaculação precoce dos extremistas dos velhos costumes
por
João Tunes
César das Neves de púlpito no “DN”:Esta lei não surgiu do nada. Ela constitui apenas o mais recente passo de uma vasta campanha de promoção do erotismo, promiscuidade e depravação a que se tem assistido nos últimos anos. Por detrás de leis como o aborto, divórcio, procriação artificial, educação sexual e outras está o totalitarismo do orgasmo. Parece que o deboche agora se chama "modernidade".
(publicado também aqui)
Condenação dentro, também
por
João Tunes
O “Público” (espanhol) dá conta das fortes reacções da imprensa israelita ao desatino da “batalha naval”:"Siete idiotas en el Gobierno", "¿Dónde tenía la cabeza?", "Puño de fuerza", "Los desaguisados como método de acción", "Completa estupidez", "Liderazgo de tontos", "El precio de una política deficiente" o "Fiasco en alta mar", son algunos de los muchos artículos de opinión y editorialesde los diarios israelíes hoy. Unos ejemplares que critican con una fuerza inusual al ejecutivo de Benjamin Netanyahu y a sus ministros.
(publicado também aqui)
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