08/10/10
Nóbeis para idealistas
Neste ano, o jugular Rui Herbon foi um dos primeiros a pegar em tão gasto testemunho: «Ora, quem recorda hoje os senhores Mommsen, Mistral, Spitteler, Rolland e Sillanpää? (...) E o que dizer da lista dos não agraciados, que inclui nomes como Proust, Conrad, Joyce, Musil, Borges ou Pessoa? A academia sueca parece cometer erros iguais ou semelhantes aos de qualquer júri de província, e não receber o Nobel, sobretudo quando se é um eterno candidato, talvez seja uma honra muito superior.»
Nem vale a pena repisar o óbvio acerca de Pessoa (desconhecido aquando da sua morte). Ou elencar razões já famosas para algumas ausências notórias e tão polémicas: Proust e a homossexualidade, Joyce e algumas passagens muito ousadas para os seus dias, Borges e o apoio à ditadura argentina, Kundera e a sua suposta misoginia, Kafka e a escassa divulgação dos seus romances, etc.
Quanto aos escritores que Herbon nomeia como totais desconhecidos, trata-se mais de um erro de paralaxe, pessoal e intransmissível. Por exemplo, Romain Rolland ainda hoje é lido e editado.
E se escritores como Sillanpää continuarem a ser lidos apenas na sua região? E se outros, como Mommsen, deverem a sua fama a uma só obra, de edição complicada (a monumental História de Roma) mas ainda praticada? E se Frédéric Mistral tiver escrito sobretudo num idioma hoje quase defunto? E se muitos nunca tiverem sido traduzidos para Português? Que prova tudo isto sobre a qualidade das suas obras ou sobre a justiça do tal “esquecimento” que as cobriu? Nada de nada. Talvez alguns venham a ser redescobertos, talvez alguns dos presentes ídolos do Rui conheçam em breve o olvido. Assim corre o tempo. (Isto sem menorizar absurdos patentes como a vitória dos juízes nobélicos Eyvind Johnson e Harry Martinson, num ano em que Nabokov era favorito.)
Mas falta ainda ressalvar algo que todas estas “análises” esquecem: o Nobel da Literatura não serve para premiar as melhores obras literárias. O testamento de Alfred Nobel fala sim no «mais saliente trabalho de tendência idealista».
Idealista; estão a ver? Esta condicionante política/programática está na raiz do prémio. E talvez explique muita coisa, de Pearl S. Buck a Winston Churchill.
Não basta!
Para que servirá a greve geral convocada para o dia 24 de Novembro? É muito provável que nessa altura o orçamento de Estado para 2011 (OE 2011) já esteja aprovado, pelo menos na generalidade. E suponho que os dirigentes sindicais são suficientemente lúcidos para não esperarem que, após a greve geral e por mais sucesso que esta tenha, o governo se coloque de joelhos e submeta, poucas semanas depois de aprovado, um orçamento rectificativo para 2011, expurgado das medidas mais nocivas do PEC III. Até parece que às centrais sindicais realmente não interessa parar o PEC III, mas apenas "fazer notar a sua insatisfação". Torna-se assim claro que as centrais sindicais que temos estão completamente institucionalizadas: tornaram-se parte do problema, subordinadas aos interesses que dominam os partidos e o Estado, e não uma via através da qual fosse possível construir um novo caminho.
Aliás, uma greve geral, limitada a apenas um dia, pouca utilidade tem, pois a disrupção económica provocada é reduzida, e nulo o dano político induzido. Hoje em dia, os políticos preocupam-se mais com os resultados das sondagens do que com a contabilidade dos desfiles. A não ser que estes últimos tenham real impacto. O que eu esperaria das centrais sindicais, se realmente quisessem forçar o governo a negociar, seria uma sequência interrupta de greves sectoriais. Conseguem imaginar o dano político e económico de greves sequenciais, cada de um dia? Por exemplo: nos transportes ferroviários; nas escolas; nos transportes rodoviários de passageiros; nos hospitais; nos transportes aéreos; nos bancos; nos transportes rodoviários de carga; na adminstração pública; etc. A disrupção económica seria tal que até a classe empresária pediria ao governo para ceder. Basta ver o que acontece quando as empresas de transporte rodoviário de carga ameaçam parar a actividade... e bloquear umas estradas.
Liberdade para Liu Xiaobo !
Os padres fundamentalistas (com o da Medicina) e o esquerdismo sectário e infantilizado (com os da Literatura e da Paz) andam com azar com os Nobel deste ano.(publicado também aqui)
07/10/10
Venha de lá esse abraço, Camarada Zé Neves!
O livro Comunismo e Nacionalismo em Portugal. Política, Cultura e História no Século XX (Lisboa, Tinta da CHINA, 2008) é um ensaio exemplar na área da história e da sociologia das ideias. Sem poder entrar aqui na análise do seu objecto, bastará dizer que, pondo à partida de lado quaisquer propósitos de neutralidade axiológica ou apoliticidade académica, o seu autor procede explicitando os valores ou convicções que são inseparáveis da investigação e método de abordagem da matéria estudada, ao mesmo tempo que os põe assim à prova e, provando-os, os renova. Se, cientificamente, estamos perante um contributo maior na área da historiografia de língua portuguesa, estamos também perante uma contribuição política de excepcional pertinência e alcance crítico fundamental no que se refere à racionalidade democrática e ao pensamento da autonomia - a partir da "ideia comunista"e da sua história.
Assim escreveu Vargas Llosa
Em “El País”, em Abril deste ano:Le dije que le creía y que estaba seguro que ni yo ni aficionado alguno a la fiesta de los toros obligaría jamás ni a ella ni a nadie a ir a una corrida. Y que lo único que nosotros pedíamos era una forma de reciprocidad: que nos dejaran a nosotros decidir si queríamos ir a los toros o no, en ejercicio de la misma libertad que ella ponía en práctica comiéndose langostas asadas vivas o cangrejos mutilados o vistiendo abrigos de chinchilla o zapatos de cocodrilo o collares de alas de mariposa. Que, para quien goza con una extraordinaria faena, los toros representan una forma de alimento espiritual y emotivo tan intenso y enriquecedor como un concierto de Beethoven, una comedia de Shakespeare o un poema de Vallejo. Que, para saber que esto era cierto, no era indispensable asistir a una corrida. Bastaba con leer los poemas y los textos que los toros y los toreros habían inspirado a grandes poetas, como Lorca y Alberti, y ver los cuadros en que pintores como Goya o Picasso habían inmortalizado el arte del toreo, para advertir que para muchas, muchísimas personas, la fiesta de los toros es algo más complejo y sutil que un deporte, un espectáculo que tiene algo de danza y de pintura, de teatro y poesía, en el que la valentía, la destreza, la intuición, la gracia, la elegancia y la cercanía de la muerte se combinan para representar la condición humana.
Nadie puede negar que la corrida de toros sea una fiesta cruel. Pero no lo es menos que otras infinitas actividades y acciones humanas para con los animales, y es una gran hipocresía concentrarse en aquella y olvidarse o empeñarse en no ver a estas últimas. Quienes quieren prohibir la tauromaquia, en muchos casos, y es ahora el de Cataluña, suelen hacerlo por razones que tienen que ver más con la ideología y la política que con el amor a los animales. Si amaran de veras al toro bravo, al toro de lidia, no pretenderían prohibir los toros, pues la prohibición de la fiesta significaría, pura y simplemente, su desaparición. El toro de lidia existe gracias a la fiesta y sin ella se extinguiría. El toro bravo está constitutivamente formado para embestir y matar y quienes se enfrentan a él en una plaza no sólo lo saben, muchas veces lo experimentan en carne propia.
Por otra parte, el toro de lidia, probablemente, entre la miríada de animales que pueblan el planeta, es hasta el momento de entrar en la plaza, el animal más cuidado y mejor tratado de la creación, como han comprobado todos quienes se han tomado el trabajo de visitar un campo de crianza de toros bravos.
Pero todas estas razones valen poco, o no valen nada, ante quienes, de entrada, proclaman su rechazo y condena de una fiesta donde corre la sangre y está presente la muerte. Es su derecho, por supuesto. Y lo es, también, el de hacer todas las campañas habidas y por haber para convencer a la gente de que desista de asistir a las corridas de modo que éstas, por ausentismo, vayan languideciendo hasta desaparecer. Podría ocurrir. Yo creo que sería una gran pérdida para el arte, la tradición y la cultura en la que nací, pero, si ocurre de esta manera -la manera más democrática, la de la libre elección de los ciudadanos que votan en contra de la fiesta dejando de ir a las corridas- habría que aceptarlo.
Lo que no es tolerable es la prohibición, algo que me parece tan abusivo y tan hipócrita como sería prohibir comer langostas o camarones con el argumento de que no se debe hacer sufrir a los crustáceos (pero sí a los cerdos, a los gansos y a los pavos). La restricción de la libertad que ello implica, la imposición autoritaria en el dominio del gusto y la afición, es algo que socava un fundamento esencial de la vida democrática: el de la libre elección.
La fiesta de los toros no es un quehacer excéntrico y extravagante, marginal al grueso de la sociedad, practicado por minorías ínfimas. En países como España, México, Venezuela, Colombia, Ecuador, Perú, Bolivia y el sur de Francia, es una antigua tradición profundamente arraigada en la cultura, una seña de identidad que ha marcado de manera indeleble el arte, la literatura, las costumbres, el folclore, y no puede ser desarraigada de manera prepotente y demagógica, por razones políticas de corto horizonte, sin lesionar profundamente los alcances de la libertad, principio rector de la cultura democrática.
Prohibir las corridas, además de un agravio a la libertad, es también jugar a las mentiras, negarse a ver a cara descubierta aquella verdad que es inseparable de la condición humana: que la muerte ronda a la vida y termina siempre por derrotarla. Que, en nuestra condición, ambas están siempre enfrascadas en una lucha permanente y que la crueldad -lo que los creyentes llaman el pecado o el mal- forma parte de ella, pero que, aun así, la vida es y puede ser hermosa, creativa, intensa y trascendente. Prohibir los toros no disminuirá en lo más mínimo esta verdad y, además de destruir una de las más audaces y vistosas manifestaciones de la creatividad humana, reorientará la violencia empozada en nuestra condición hacia formas más crudas y vulgares, y acaso nuestro prójimo. En efecto, ¿para qué encarnizarse contra los toros si es mucho más excitante hacerlo con los bípedos de carne y hueso que, además, chillan cuando sufren y no suelen tener cuernos?
(publicado também aqui)
Da decomposição
É inegável que existe um bloco central inorgânico na política portuguesa, que defende interesses privados ilegítimos e permite a acumulação de altos e bem pagos cargos na administração do Estado e nas empresas do regime.
Sindicatos, segundo Chaparro
A perplexidade mais assinalada perante a anunciada destruição massiva de postos de trabalho em Cuba (centenas de milhar - e que pode atingir um terço da população trabalhadora – e que se programa transferir para o mercado “privado” ali designado como “por conta própria”) é o papel cúmplice com estas medidas por parte dos sindicatos cubanos oficiais. Como imaginar que uma central sindical, para mais num país em que se declara que são os operários e os camponeses que estão no poder, possa ser um parceiro do governo em medidas que declaram a intenção de proceder a um tal sismo social? Arriscamos a afirmar, até, que a história do sindicalismo amarelo e da central mais ranhosa no colaboracionismo de classe jamais registou uma idêntica traição aos trabalhadores representados através de uma sujeição tamanha à vontade de um Estado-patrão.Naturalmente, o PCP, tão cioso do respeito pelos direitos laborais e campeão das lutas sindicais, não terá deixado de integrar o grupo dos perplexos perante a monstruosidade da traição sindical cubana. E uma delegação de dirigentes do PCP foi a Cuba ouvir explicações acerca das enormidades sociais cubanas. Quanto ao resultado, leiam-se então os esclarecimentos prestados ao “Avante” pelo seu dirigente Chaparro no regresso da “visita de estudo” a Cuba e que constitui uma pérola de discurso burocrático típico do funcionário comunista imbecilizado e que mistura dois seguidismos – o dos sindicatos cubanos para com a ditadura cubana e o do PCP para com o mesmo regime – resultando numa sopa de letras tão estúpida quanto ridícula:
O seu papel [da CTC – Central dos Trabalhadores Cubanos] é envolver todo o povo no processo de consulta sobre as medidas propostas, visando construir um consenso político em torno das decisões a tomar pela Assembleia do Poder Popular, que, contrariamente à ideia que passou em Portugal, ainda não legislou sobre o conjunto das medidas. A CTC tem um papel central. Desde logo pelo seu «peso» político. Num país onde a sindicalização é uma decisão individual e livre de cada trabalhador, os filiados nos sindicatos da CTC representam 95% dos trabalhadores. Quer isto dizer que a CTC está neste momento a discutir directamente com cerca de três milhões e quatrocentos mil trabalhadores as medidas propostas e a sua aplicação concreta em cada local de trabalho. Mas a CTC não discute apenas com os seus filiados, promove o debate com todos os trabalhadores, à semelhança do Partido e de muitas outras organizações de massas, como os Comités de Defesa da Revolução. Mas não é só a capacidade mobilização que dita a importância da CTC neste processo. A Central tem tido, como estrutura sindical, uma participação directa no estudo e definição das medidas, garantindo à partida que os direitos laborais e o controlo operário da economia não são tocados com estas medidas e que os trabalhadores são quem discute e decide da sua aplicação em cada local de trabalho, através da eleição de comités com a participação de um elemento da administração, um do movimento sindical e mais 6 trabalhadores eleitos pelos seus pares. Ou seja, o papel da CTC é o de assegurar que a participação dos trabalhadores é garantida, e mais que isso, determina o resultado final deste processo.
(publicado também aqui)
"Bateau en Carton" no DocLisboa
O filme de José Vieira, « Le bateau de carton », sobre os Roms de Paris vai ser projectado no Festival DocLisboa (de 17 a 25 outubro). Está programado, salvo erro, para os dias 20 e 21 de Outubro.E é um filme que deve ser visto.
José Vieira é um homem do contra, tem mau carácter e nem sequer acredita na possibilidade de moralizar o capitalismo. Imagine-se !
Em 2005, ele escreveu um texto destinado a apresentar uma série de pequenos filmes sobre a sua própria memória de criança e as memórias de Portugueses que fugiram para França nos anos 60 (Gens du salto/ Gente do salto).
Dizia ele,
« Eramos perto de 1 000 pessoas a partilhar o mesmo endereço : 16 route de Chilly em Massy. Um condomínio estranho, que crescera num terreno desocupado e pantanoso, debaixo das linhas de alta tensão. Em certos Invernos o fogo devorava algumas barracas. A violência de uma vida precária, feita de zaragatas e de burlas, coexistia com o calor das tabernas e dos bailes, com a entreajuda ou os jogos das crianças. […] Aquecíamo-la com um fogão a lenha e a luz provinha de um candeeiro a petróleo. […] As nossas barracas davam para o chamado Grand Ensemble de Massy, com os seus milhares de alojamentos e o maior centro comercial da Europa. A abundância provocava-nos. »
Foi assim que o José Vieira começou a mexer num capítulo da memória oculta de uma sociedade que persiste a desinfectar o passado. Em França, o trabalho sério e sem concessões de José Vieira é respeitado e ganhou alguma notoriedade. Contra ventos e marés, ele continua a fazer arqueologia das memórias, das vidas partidas, pisadas, da emigração ; das vidas revoltadas também, onde reaparecem os valores emancipadores, do regresso impossível a um país que só já existe em mito, das experiências do povo, o salazarismo, a guerra colonial, a emigração. Em Portugal os seus filmes são ignorados, quase considerados como acções de desestabilização da harmonia modernista. O seu último filme sobre o assunto, Les émigrés (2009), não encontrou distribuidor. Na verdade o José Vieira levanta questões que chateiam. Como por exemplo : os estragos humanos provocados pela emigração não terão sido superiores às vantagens económicas obtidas ? E obtidas ao benefício de quem ?
Porque ele construiu a sua humanidade nesta experiência violenta da emigração, José Vieira coloca a saga da emigração portuguesa numa perspectiva universal, parte do constante movimento de trabalhadores à procura de mercado para vender a sua força de trabalho ao melhor preço. Histórias de mulheres, homens e crianças de saco às costas que fazem parte da história do capitalismo contemporâneo. Foi assim que, inevitavelmente, o José Vieira descobriu a convergência da sua história com a dos Roms. Que são apenas uns primos afastados, com percursos e culturas diferentes, que vivem en condições diferentes cenários semelhantes.
Ele conta,
« Foi ao passar na autoestrada que descobri este estranho campo de refugiados habitado por Roms da Roménia. Ali estava um bairro da lata, no meio das arvores, entalado entre os accessos da autoestrada. Durante um momento pensei ver um flash-back. Mas não, era apenas a actualidade de uma história que nunca acaba : a história das pessoas que são obrigadas de abandonar tudo para fugir à miséria. Eu queria compreender que êxodo era este, de onde vinham as pessoas que ali viviam, quem eram estes « estranhos estrangeiros », como o tinham sido antes os Portugueses e os Argelinos vivendo nas barracas nos arredores de Paris. »
José Vieira mostra a continuidade da pobreza e da injustiça social. Mostra também que o esquecimento da pobreza do passado permite ignorar a pobreza de hoje, ajuda justamente à sua perpetuação. O Portugal do desenvolvimento a crédito pensou esquecer estas páginas da sua história contemporânea para se dedicar ao consumo e glorificar o presente. Só que hoje é a pobreza que está de volta e promete ter futuro. Os filmes de José Vieira não são didácticos, não são divertidos nem tristes ; são animados por uma visão crítica do mundo que respeita a inteligência de quem os vê.
Quem é a "classe média"?
It’s being widely claimed that the cut in child benefit for higher-rate taxpayers will lead to “real hardship” for the “middle-middle class.”Isto faz lembrar a discussão entre o Luis Aguiar-Conraria, a Fernanda Câncio e participantes conexos sobre quem é classe média. No entanto Dillow faz outra observação:
My immediate reaction to this is: get a grip. A two-adult, two-child household with an income of £50,000 a year is better off than 63% of the population. You can call this middle if you like, but I doubt if a fund manager who out-performs 63% of his peers would advertise his performance as middling.
Why, then, do we think of such people - and those earning significantly more - as “middle class”?
But I suspect that something else is going on as well. The reason we don’t describe people on relatively high incomes as upper-class is that they lack something a true upper-class has - power.Uma possível resposta é que não há nenhum movimento significativo para dar poder aos trabalhadores no local de trabalho (o que a maior parte da esquerda actual defende é que o despotismo supostamente malevolente dos patrões seja compensado pelo despotismo supostamente benevolente do Estado), assim como é que a classe média se poderia identificar com esse movimento (inexistente) mesmo que quisesse?
Many - most - people on around £50,000 a year lack control over their fate. They are vulnerable to the sack; they can’t choose how long they work (it’s a cliché that “middle class” women are frowned upon if they take time off to look after the kids); and presenteeism traps them into long commutes.
In these respects quite high earners have more in common with minimum wage workers than they do with (some? many?) bosses.
What we think of as the “middle class” is instead - to borrow Erik Olin Wright’s phrase - a contradictory class location. Such people score highly for incomes, but lowly for power.
This, though, raises questions. Why is there so little political demand among the “middle class” for greater empowerment at work? Why are such people so reluctant to identify themselves with others who also lack power?
Por outro lado, movimentos que pretendem efectivamente dar poder aos trabalhadores, como os anarquistas e os comunistas de conselhos (poderiamos também incluir os trotskistas, quando estes defendiam o controle operário em vez de funcionarem como uma espécie de social-democratas subsitutos) realmente costumvam ser relativamente populares entre a classe média (ou pelos menos entre as suas crias).
06/10/10
Laicidade por vir
Um dissonante no pântano do situacionismo socrático
Henrique Neto, socialista, empresário, em recente entrevista ao “Público”:• Pelo que se ficou a saber, certo é apenas que os portugueses pagarão, em 2011 e nos anos seguintes, os erros, a imprevidência e a demagogia acumulada em cinco anos de mau Governo. É por isso que, nestas circunstâncias, falar da coragem do primeiro-ministro e do ministro das Finanças, como alguns têm feito, é um insulto de mau gosto a todos os portugueses que trabalham, pagam os seus impostos e vêem defraudadas as suas expectativas de uma vida melhor. As medidas propostas, sendo inevitáveis, dada a dimensão da dívida e a desconfiança criada pelo Governo junto dos credores internacionais, não tocam no essencial da gordura do aparelho do Estado e nos interesses da oligarquia dirigente. Mas o pior é que estas medidas, pela sua própria natureza, não são sustentáveis no futuro e não é expectável que, com este Governo, se consiga o crescimento sustentado da economia.
• Tanto quanto se sabe, o Governo não cumpriu as medidas acordadas com o PSD, do lado da despesa, no PEC (Plano de estabilidade e Crescimento) 1 e no PEC 2. Mas, como todos sabemos, a contabilidade governamental é elástica e algumas das medidas agora apresentadas terão efeito ainda este ano, pelo que seria um absurdo indesculpável o Governo não cumprir o objectivo do défice para 2010.
• Os livros de Economia ensinam que estas medidas matam qualquer economia, e essa é uma razão adicional para as evitar em tempo útil, com bom senso e boa governação. Em qualquer caso, temos a vantagem de ser um pequeno país e acredito que as empresas têm condições para salvar a economia portuguesa. Mas, para isso, precisam de uma estratégia nacional clara e coerente, um Estado sério e competente que defenda o interesse geral e uma profunda reforma ao nível da exigência educativa. O objectivo principal terá de ser subir na cadeia de valor através da inovação e de recursos humanos mais qualificados.
• Um Governo que deixou chegar as finanças à presente situação, dificilmente evitará a vinda do FMI.
• A consolidação das contas públicas é uma condição necessária mas não suficiente. Apenas o crescimento sustentado da economia abrirá novas perspectivas aos portugueses. Mas, neste domínio, José Sócrates iludiu, durante cinco longos anos, todos os reais problemas da economia através de um optimismo bacoco e inconsciente.
Não o fez apenas por ignorância, mas para servir os interesses da oligarquia do regime, através da especulação fundiária e imobiliária, das parcerias público-privadas, dos concursos públicos a feitio, das revisões de preços e de uma miríade de empresas, institutos, fundos e serviços autónomos, além das empresas municipais. Regabofe pago com recurso ao crédito e sem nenhum respeito pelas gerações futuras.
• (…) a dívida pública que os últimos governos deixaram acumular deveria constituir crime público. Porque nos tornou dependentes dos credores internacionais e coloca em causa o bem mais precioso de qualquer país, que é a independência nacional. Que, no caso de Portugal, tem mais de oito séculos e custou muito sofrimento. Aliás, por isso, e talvez não por acaso, infelizmente, são cada vez mais frequentes as tiradas vindas de alguns sectores apregoando que o país não é viável e que os portugueses não se sabem governar, ou que a solução dos nossos problemas passaria por uma qualquer união ibérica.
• Teria sido possível [cumprir as metas orçamentais] se a previsão fizesse parte do léxico do Governo de José Sócrates. Mas como, a três meses do final do ano, o ministro das Finanças ainda precisa de medidas adicionais e pede à oposição que lhe indique onde cortar na despesa, a resposta é não, no curto prazo, os impostos adicionais são inevitáveis.
• A ideia com que se fica é que o primeiro-ministro não leva em conta o interesse nacional, mas os interesses dos grupos de pressão dos sectores financeiro e das obras públicas, o que é a única explicação para a dimensão dos erros cometidos. Estamos a construir mais auto-estradas que ficam vazias e sem carros e um TGV com um traçado que não favorece a economia, ao mesmo tempo que nada foi feito para termos um porto de transhipment e transporte ferroviário de mercadorias para a Europa, investimentos cruciais em logística, para podermos ambicionar atrair mais investimento estrangeiro e desenvolver uma verdadeira capacidade exportadora. Em qualquer caso, contra toda a sanidade económica e financeira, o Governo não parou a maioria das obras programadas e utilizará o fantasma das indemnizações aos empreiteiros para as não parar.
• Infelizmente, Portugal está na senda de escolher jovens primeiros-ministros que não sabem do que falam. O que é agravado pela inexistência de uma estratégia nacional integradora das grandes decisões de investimento público. Desta forma, os investimentos são encarados como obra pública avulsa, o que conduz a cada cabeça cada sentença. Pedro Passos Coelho é parte desse problema, que, além disso, permite as constantes mudanças de opinião.
• É inegável que existe um bloco central inorgânico na política portuguesa, que defende interesses privados ilegítimos e permite a acumulação de altos e bem pagos cargos na administração do Estado e nas empresas do regime. O que é facilitado pelo chamado centralismo democrático praticado nos diversos partidos políticos e pela habitual passividade e clubismo do povo português. Nesse capítulo, atingimos o ponto zero da moralidade pública e não vejo como será possível colocar a economia portuguesa no caminho do progresso e do crescimento, com algumas das principais empresas e grupos económicos a poderem ter relações privilegiadas com o poder político e a ser-lhes permitido fugir da concorrência e dos mercados externos, por força do clima de facilidade e de privilégio que detêm no mercado interno.
• Não sei quando é que os portugueses dirão "basta!". Mas sei que o maior problema resultante da imoralidade das classes dirigentes é a pedagogia de sinal negativo que isso comporta. Infelizmente, muitos portugueses têm a tentação de pensar que, se alguns enriquecem de forma fácil e rápida por via da sua actividade política, isso também lhes pode acontecer a eles no futuro. Fenómenos como o BPN e o BPP têm muito a ver com esta amoralidade geral reinante. Por outro lado, como pode o cidadão comum combater a corrupção, se o próprio Governo não fizer o que deve e pode para encabeçar esse combate, como ainda aconteceu recentemente?
(publicado também aqui)
Intervalo Publicitário: Só vamos saber o que é o comum no dia 11 de Outubro
American Dystopia
Retrato duma sociedade em desagregação. Infelizmente, já vimos o processo ocorrer antes. E acaba no fascismo. Não estou optimista.
Guennadi Ianaiev (1937-2010), coveiro da URSS e do PCUS
A associação imediata relacionada com Guennadi Ianaiev (ao centro, na foto), agora falecido na Rússia, é a de que se tratou de um individuo que pertenceu ao "grupo" dos grandes desleais. De facto, enquanto Vice-Presidente da URSS, chefiou o golpe que visava destituir Gorbatchov da presidência da URSS e da direcção suprema do PCUS (em Agosto de 1991). Um equivalente à traição praticada por Pinochet contra Allende, em 1973, utilizando a posição de Chefe das Forças Armadas Chilenas.Já na fase terminal do regime comunista, em que a inépcia trapalhona dos golpistas foi evidente, Ianaiev tomou a cabeça do golpe mais pelo grau da sua posição na hierarquia da URSS que pela sua aptidão para efectivar golpes de estado em que mostrava que esta competia com a apetência pelo consumo imoderado de vodka. Visando o recuo da perestroika através de um neo-brejnevismo (mas que levou, antes, ao fim da URSS e do PCUS), Ianaiev (que fizera carreira no PCUS nas mais altas responsabilidades, nomeadamente à frente das Juventudes e dos Sindicatos) deu a cara juntamente com outros cabecilhas: Vladimir Krioutchkov, chefe da KGB; Dimitri Yazov, ministro da Defesa; Boris Pugo, ministro do Interior.
Em termos objectivos, Ianaiev, com o golpe falhado de que foi formalmente o seu chefe, reparte com Ieltsin (que cavalgou o contra-golpe), ambos a cilindrarem Gorbatchov, a responsabilidade política pelo fim da URSS e do PCUS, bem como o fechar de portas do sistema comunista mundial. Quem certamente não contava com o desfecho verificado no golpe dos aparatchicks soviéticos foi a direcção então instalada no PCP e que precocemente embandeirou em arco e emitiu, logo a seguir à conferência de imprensa dos chefes golpistas, um comunicado da sua alta direcção exprimindo a confiança na vitória dos golpistas (comunicado este que provocou a repulsa de muitos militantes do PCP, tendo havido inclusive um grupo que tomou posição pública contra o seguidismo do PCP relativamente aos golpistas soviéticos – na linha do que o mesmo PCP havia feito em 56 com a invasão da Hungria, em 68 com a invasão da Checoslováquia, em 79 com a invasão do Afeganistão, em 80 com o estado marcial na Polónia - e a que a direcção do PCP respondeu com a expulsão do partido).
(publicado também aqui)
05/10/10
Petição pelo pluralismo de opinião no debate político-económico
As medidas de austeridade recentemente anunciadas pelo governo vieram mostrar, uma vez mais, a persistência de um fenómeno que corrói as bases de um sistema democrático. Nas horas e dias que se seguiram à conferência de imprensa de José Sócrates e de Teixeira dos Santos, os órgãos de comunicação social, nomeadamente as televisões, empenharam-se mais em tornar as referidas medidas inevitáveis do que em promover efectivos espaços de debate em torno das grandes opções político-económicas.
De facto, os diferentes painéis de comentadores televisivos convidados para analisar o chamado PEC III foram sistematicamente constituídos a partir de um leque apertado e tendencialmente redundante de opiniões, que oscilou entre os que concordam e os que concordam, mas querem mais sangue; ou entre os que acham que o PEC III vem tarde e os que defendem ter surgido no timing certo. Para lá destas balizas estreitas do debate, parece continuar a não haver lugar para quem conteste, critique ou problematize o quadro conceptual que está em jogo e as intenções de fundo, ou o sentido e racionalidade dos caminhos que Portugal e a Europa têm vindo a seguir, em matéria de governação económica.
Por ignorância, preguiça, hábito, desconsideração deliberada ou manifesto servilismo, os canais televisivos têm sistematicamente tratado a análise da crise económica como se o intenso debate quanto aos fundamentos doutrinários e às opções políticas que estão em jogo pura e simplesmente não existisse. Com a particular agravante de a crise financeira, iniciada em 2008, ter permitido uma consciencialização crescente em relação às diferentes perspectivas, no seio do próprio pensamento económico, no que concerne às responsabilidades da disciplina na génese e eclosão da crise.
Com efeito, diversos sectores político-sociais e reputados economistas têm contestado a lógica das medidas adoptadas, alertando para o resultado nefasto de receitas semelhantes aplicadas em outros países e denunciado a injusta repartição dos sacrifícios feita por politicas que privilegiam os interesses dos mercados financeiros liberalizados. Mas a sua voz permanece, em grande medida, ausente dos meios de comunicação de massas.
Não se trata de criticar o monolitismo das opiniões convocadas para o debate, partindo do ponto de vista de quem nelas não se revê. Uma exclusão daqueles que têm tido o privilégio quase exclusivo de acesso aos meios de comunicação seria igualmente preocupante. O problema de fundo reside em ignorar, nos dias que correm, o pluralismo de interpretações e perspectivas sobre a crise, sobre os seus impactos e sobre as opções de superação.
Somos cidadãos e cidadãs preocupados com este silenciamento e monolitismo. E por isso exigimos aos órgãos de comunicação social – em particular às televisões, e sobretudo àquela a quem compete prestar “serviço público” – que respeitem o pluralismo no debate político-económico de modo a que se possa construir uma opinião pública mais activa e informada. Menos do que isso é ficar aquém da democracia e do esclarecimento.
Será dado conhecimento da presente petição, e dos respectivos subscritores, às direcções de informação dos canais televisivos portugueses e restantes meios de comunicação social; a responsáveis por programas de televisão que abordam questões político-económicas; aos grupos parlamentares com representação na Assembleia da República e à Entidade Reguladora para a Comunicação Social.
Para informações e contactos: pluralismonodebate@gmail.com
Como funcionava a monarquia portuguesa
- No entanto, o rei era apenas o poder moderador.
- O rei era apenas o poder moderador, mas por ser o poder moderador era muita coisa. A figura do rei é hoje difícil de imaginar. Não é o rei absoluto de quem tudo depende, mas também não é a rainha de Inglaterra ou até o rei de Espanha, sobretudo figuras de cerimónia do Estado, da pompa. O rei português não era um rei absoluto, mas tinha um papel político. Parece-se muito com o Presidente da República quer do Estado novo, quer da Constituição de 1976: alguém que acaba por desempenhar um papel determinante, em ultima instância, no processo politico. Mas o rei tinha mais poderes do que hoje o Presidente da República: como as eleições não eram consideradas por nenhum dos actores políticos como legitimas e correctas, representativas da vontade da nação - todos as achavam uma farsa - era o rei que accionava o mecanismo de alternância do poder. Os partidos que estavam no poder chegavam lá porque o rei queria que chegassem. O rei não governava, mas ninguém governava sem que o rei lhe criasse condições. E o rei criava condições nomeando alguém primeiro-ministro, dando-lhe a possibilidade, através da dissolução da Câmara dos Deputados, de fazer eleições que ganhava sempre - todos os governos ganhavam as eleições. Além disso, nomeava-lhes pares do reino para uma segunda câmara, conseguindo maioria também nessa instância. Portanto, se o rei não quisesse nomear alguém primeiro-ministro, se mesmo tendo sido obrigado a nomeá-lo por qualquer razão depois não quisesse dissolver o Parlamento... D. Carlos discute os elencos dos ministérios com o primeiro-ministro, discute uma grande parte das medidas do Executivo, recebe os telefonemas das embaixadas e às vezes redige as respostas, e tem um papel predominante na Defesa. Os governos dependem do rei, nada fazem sem enviar o projecto de lei ao rei.
04/10/10
Heloísa Helena
Heloísa Helena foi candidata a presidente do Brasil em 2006, apoiada numa frente de partidos de Esquerda (PSOL, PSTU, PCB). Obteve então quase 7% dos votos. Heloísa Helena foi senadora pelo estado de Alagoas entre 1999 e 2007 (os mandatos são de 8 anos). Eleita com o apoio do PT, foi expulsa do partido em 2003, por ter votado contra várias propostas do governo de Lula da Silva. Ajudou então a fundar o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), do qual é presidente. Preferiu re-candidatar-se ao senado, em vez de concorrer de novo à presidência, em parte porque apoiou a candidatura de Marina Silva. Depois de negociações com o Partido Verde, pelo qual se candidatava Marina Silva, o PSOL decidiu apresentar Plínio de Arruda Sampaio, quarto mais votado nas eleições de ontem, com 0.9% dos votos. Infelizmente, Heloísa Helena não conseguiu voltar ao senado brasileiro, apesar do PSOL ter conseguido eleger senadores pelo Amapá e Pará.
O PSOL foi o desenvolvimento mais interessante da esquerda brasileira nos últimos 5 anos. Conseguiu vitórias importantes, apesar de alguns revezes, nas eleições (que não foram apenas presidenciais) de ontem. Mas, claramente, não conseguiu potenciar os votos que Heloísa Helena obteve em 2005. Provavelmente, muitos destes foram ontem para Marina Silva. Esta não se apresentou como candidata de Esquerda, apesar da sua militância política ter sido sempre à Esquerda, e do Partido Verde (um pequeno partido), pelo qual concorre, se assumir como estando à Esquerda. Preferiu enfatizar a aposta num novo modelo de desenvolvimento, distinto do produtivismo que desde sempre domina o discurso político no Brasil.
Marina Silva não é perfeita, e terá opiniões distintas das que habitualmente se identificam com a Esquerda. Mas conseguiu mobilizar 20 milhões de brasileiros em torno dum projecto que rompe, de modo mais profundo do que possa parecer à primeira vista, com o paradigma sócio-económico vigente no Brasil. Teria conseguido mobilizar essas pessoas se se tivesse apresentado como candidata do PSOL?
Marina a Presidente
Marina Silva teve quase 20 por cento dos votos nas eleições presidenciais brasileiras que ontem se realizaram. Com uma campanha eleitoral ancorada firmamente à Esquerda, assente na defesa do desenvolvimento ambiental e socialmente sustentável, conseguiu impedir Dilma Rousseff, a herdeira coroada por Lula, de ser eleita presidente na primeira volta. Surge agora a esperança duma verdadeira alternativa de Esquerda no Brasil, transformadora duma das sociedades mais desiguais do planeta, capaz de desalojar a oligarquia à qual Lula se aliou para governar.
E se convidassemos Marina para se candidatar ao nosso cargo de Presidente? Votava nela.
Cada povo tem o Tiririca que merece

Só a liberdade pode defender a liberdade
Se da la circunstancia de que los fiscales no han visto indicios de delito en las soflamas del político, que califica de "ola islamizadora que atenta contra nuestra cultura, corazón e identidad" la presencia de inmigrantes de dicha fe en el país. Tampoco el hecho de que llamara al Corán "un libro fascista como el Mein Kampf", de Hitler, les pareció extremo. Los jueces, por el contrario, consideran dicho símil excesivo y ordenaron que siguiera adelante la instrucción. La acusación particular del caso la forman asociaciones de inmigrantes turcos, antillanos y marroquíes y el grupo antirracista Holanda Bekent Kleur (Holanda reconoce la diversidad).
Escuso de dizer que as ideias políticas de Geert Wilders são abomináveis e inquietante a audiência de que gozam num país como a Holanda. Mas há que distinguir as coisas, se não quisermos, cedendo ao utilitarismo táctico imediato, deixar a defesa da liberdade de expressão aos que a prazo, se levassem a sua por diante, seriam seu coverios e algozes. Ou melhor, talvez: se não quisermos sofrer a apagada e vil tristeza do destino que Kundera mostra bem nalgumas páginas de A Imortalidade ser irremediavelmente os dos (mais ou menos) "brilhantes aliados dos seus próprios coveiros".
Assim, não podemos equiparar o recurso ao que é blasfémia aos olhos de quaisquer crentes — as afirmações ofensivas contra os livros sagrados de qualquer religião, a sua caricatura, ou sátira e rejeição ainda que sumárias e grotescas — ao incitamento à perseguição racial ou à violação da liberdade de consciência.
Pouco importa que a comparação do Corão com a bíblia hitleriana seja disparatada, monstruosamente anacrónica e o mais que se queira dizer. O que atenta contra a liberdade de consciência e de expressão, o que corrói e abre precedentes graves, podendo facilitar o caminho à legitimação de restrições ao debate político e das ideias — do tipo das advogadas, por exemplo, e cada vez mais insistentemente, por Ratzinger — não é a possibilidade de se exprimirem opiniões ou convicções blasfemas e desrespeitosas em relação a uma fé, mas a mistificação que consiste em fazer pensar a sua censura por garantia da liberdade ou defesa de direitos fundamentais.
A ideia, muito badalada, de que "devemos respeitar as ideias dos outros" é, além de piamente estúpida, uma ameaça particularmente insidiosa à racionalidade democrática. O que devemos respeitar é a liberdade de cada cidadão, liberdade de dizer o que pensa, de expor e propor as suas ideias, de declarar o que considera justo ou, pelo contrário, aberração supersticiosa ou irracional. O que implica a recusa de argumentos de autoridade — de índole religiosa ou outra — e do reconhecimento de limites confessionais à palavra de cada um.
Só a liberdade pode defender a liberdade. Já se terá pensado bem no que seria termos de respeitar as ideias de Geert Wilders? Talvez os tempos que vivemos comecem a justificar que façamos da blasfémia um exercício cívico e uma obrigação democrática.
03/10/10
Da resistência à ousadia
Trata-se, na realidade, de não dissociar os dois momentos, de não limitar a luta à restauração de um utópico e mítico equilíbrio da acção governativa ou dos interesses tal como os definem e institucionalizam os aparelhos hierárquicos do regime estatal e económico governante.
Assim, que resposta imediata exige a situação actual na Europa e no mundo? Se quisermos começar pelo começo, torna-se necessário multiplicar os protestos e acções de recusa que obriguem as forças governantes a recuar e a ceder, travando a sua ofensiva — multiplicar os protestos e as acções que tornem impossível qualquer normalização.
Em segundo lugar, mantendo a prova de forças e reiterando os curtos-circuitos da normalidade governativa e do funcionamento da máquina económica, impor na prática o controlo do conjunto dos cidadãos e das suas organizações directas, democraticamente dirigidas, sobre as decisões que os afectam nos locais de trabalho, assim conquistados passo a passo para um espaço público renovado, e a todos os outros níveis em que a regulação colectiva seja necessária, tornando-a objecto de deliberação e decisão comuns.
O terceiro e último passo será a extensão instituinte dos resultados e conquistas indicados nos dois pontos anteriores: a democratização (a que poderíamos, por uma vez a justo títuilo, chamar "revolucionária") do regime — a substituição das relações de poder oligárquicas pela participação igualitária e responsável de todos nas leis e decisões que (n)os governam.
Para quem considere, com o olhar lavado de superstições, o que se passa, poderá haver coisa mais simples?
Os nossos deputados andam à beira da fome
Depois de Sócrates, adivinha-se mais lixo a dar à costa
Mais um obamaníaco desiludido?
02/10/10
Greve ofensiva
O lado de fora da blogosfera
É fácil imaginar o simpático mas coriáceo Filipe Moura a impressionar colegas por todo o mundo com as suas ideias sobre buracos negros e teoria da corda heterótica. A militantemente anti-clerical Palmira também deixa rastos mui sérios e elevados. Recomendo sobretudo o seu trabalho sobre as furanocromonas (whatever that may be).
Fascinante é topar o autor de um dos mais líricos estaminés da nossa blogosfera (além de ser um dos mais brilhantes e ignorados ficcionistas cá do burgo) a expandir os horizontes da imagiologia cerebral. Já o histriónico e multifacetado Carlos Vidal surge transformado numa criatura discreta, não se lobrigando grandes ecos da sua obra. Aqui da casa, investiguei o Miguel Cardina; descobri que este camarada de blogue consegue escrever artigos de títulos entendíveis e até há quem o cite.
Passando para o lado dos adversários, constatei que o João Galamba ainda não teve tempo para publicar as suas originalíssimas ideias sobre Marx e a luta de classes. E que andará o João Miranda a tramar pelo reino da microbiologia? Não sei bem; mas espero que nesse reino trate os factos e os números com uma dose acrescida de esmero.
E muito mais haveria para espiolhar. Não faltam encéfalos distintos e produtivos por esses blogues afora. Mas que os nossos leitores soterrados na massa dos hoi polloi não desanimem: nos dias que correm, qualquer postezito corre riscos de se ver citado no mundo académico...
01/10/10
Dois ou três pontos preliminares para a construção de uma plataforma alternativa — a partir de um post do Rui Bebiano
[Q]uem está no poder, moldado no compromisso, não é já capaz de vislumbrar outras medidas que não as agora impostas. E a saída, para quem procure combater este plano com uma alternativa capaz, não pode ser a da «luta» pela luta, gaguejada num sonoro mantra por essa grande fatia da esquerda que sabe desmantelar mas não construir.
O seu problema é que não consegue gerar uma alternativa. Apesar de ainda precisar crescer politicamente, o BE tem-se esforçado por denunciar e encontrar soluções, dentro do que é possível integrar no âmbito de uma intervenção essencialmente reivindicativa. Mas é necessário muito mais: é preciso romper, mudar, alterar o paradigma dominante de desenvolvimento e de gestão, e não se vê quem o possa fazer de maneira programática. O PS apenas gere medrosamente a «política do possível», o PCP continua a ser um partido meramente reivindicativo, sem um modelo atraente e mobilizador de sociedade, os «alegristas» só jogam à defesa. O drama é este: não existe uma opção forte capaz de agregar sinergias para descobrir uma saída governativa que não seja a da capitulação perante o universo da especulação financeira. É este o desgraçado, o dramático, ponto a que chegámos. «A luta» possível tem pois, necessariamente, que procurar reduzir os danos mais gravosos sobre a vida dos trabalhadores. Mas precisa acima de tudo, urgentemente, desesperadamente, de se associar a uma alternativa credível e agregadora. Um projecto que traduza uma mudança de prioridades e de políticas. «A luta» e a rua podem até ser um caminho, podem até dar um empurrão, mas jamais serão a solução. É preciso mais: pensar, falar, unir e propor para mobilizar as pessoas comuns. Uma tarefa que não pode ser para amanhã mas sim para já.
Uma observação preliminar: a concepção - aos diversos níveis da consciência e da acção - de uma alternativa passa, como de resto outras passagens do post sugerem, por algo mais do que "uma saída governativa". Toda a argumentação do Rui indica que é de uma transformação das relações sociais, da democratização das relações de poder instituidas e, portanto, de uma mudança de regime, no sentido mais forte, que se trata.
Dito isto, limitar-me-ei por agora a precisar dois ou três elementos decisivos a integrar por qualquer plataforma alternativa e democrática.
Em primeiro lugar, será necessário assumir a natureza política profunda do poder económico que hoje vincula e molda o conjunto das instituições governantes. E daqui partir para uma repolitização radical das instituições e dispositivos de direcção da esfera económica.
Em segundo lugar, a democratização da economia assim equacionada tem de ser assumida como a extensão (re)instituinte dos direitos políticos, liberdade, responsabilidade e participação igualitária dos cidadãos no exercício quotidiano e comum do seu próprio governo. O que, entre outras coisas, implica à partida medidas de igualização anti-categoriais dos "salários" e rendimentos, bem como a desmistificação intransigente das justificações "técnicas" e em termos de "eficácia" ou "racionalidade económica" da(s) desigualdade(s).
Em terceiro - e provisoriamente - último, mas não menos importante lugar, é evidente a necessidade, para qualquer alternativa do tipo aqui visado, de superar o "quadro nacional", de denunciar a lógica das "questões nacionais" e do Estado-nação. Teremos de assumir em todas as suas consequências que as vias de facto da democratização não passam pela salvaguarda de "centros nacionais de decisão", ou, menos ainda, pela devolução aos Estados das prerrogativas erodidas em benefício das instâncias (também políticas, ainda que apresentadas como sedes de funções técnicas ou direcção racional neutras acima das ideologias e interesses particulares) do poder económico. A democratização e o exercício do autogoverno comum das instituições normativas e económicas pelo conjunto dos cidadãos organizados reclamam a transferência das responsabilidades e prerrogativas governantes, a transferência do poder político, para a esfera da participação quotidiana e não para esta ou aquela variante de autoridade detentora da representação ou da competência especializada da interpretação dos interesses nacionais.
Oh, what a beautiful rug!
Kropotkine
"O que torna ainda mais chocante esta leviandade, é que até na economia política capitalista se encontram alguns escritores induzidos pela força das coisas a pôr em dúvida este axioma dos fundadores da sua ciência, segundo o qual a ameaça da fome seria o melhor estimulante do homem para o trabalho produtivo. Começam a perceber que intervém na produção um certo elemento colectivo, muito esquecido nos nossos dias, que pode muito bem ser mais importante que a perspectiva do lucro individual".
Esquerda.net
Regressar ao esperanto
Still waiting
Apontamentos sobre a economia do "default"
1. O risco de um Estado entrar em default pode aumentar-se a si próprio
Quanto maior o risco de um Estado não poder pagar as suas dívidas, mais altos serão os juros que terá que pagar para conseguir empréstimos, levando a maior despesa e aumentando ainda mais o risco de default (um corolário disso é que as previsões da agências de rating podem tornar-se profecias auto-cumpridas: mesmo que as finanças de um Estado estejam numa situação razoãvel, se as agências baixarem o rating do país provavelmente esse Estado vai ter que pagar mais juros, tornando a situação orçamental má mesmo que inicialmente não o fosse)
2. O risco de um banco entrar em default pode aumentar-se a si próprio
Se os clientes de um banco acharem que ele está em risco de não ter dinheiro para pagar aos depositantes, poderão ir levantar o dinheiro que lá têm depositado, aumentando ainda mais o risco
3. O risco de default dos bancos aumenta o risco do Estado
Como no mundo moderno quase todos os bancos funcionam com um aval (mais ou menos explicito) do Estado, o aumento do risco de um banco ficar sem dinheiro significa um aumento do risco do Estado ter uma despesa adicional com esse banco
4. O risco de default do Estado aumento o risco de default dos bancos
Aqui há dois mecanismos distintos; por um lado, quanto maior o risco de um Estado ficar sem dinheiro, menos seguros se sentem os depositantes de bancos "seguros" por esse Estado (já que significa que não estão assim tão seguros), podendo até levar muitos a transferir as suas contas para bancos sediados em países cujos Estados sejam menos arriscados (isso é particularmente provável quando vários países têm a mesma moeda, como na Europa, tornando simples fazer um transferência de um banco para outro; até há quem diga que o que tem salvado os bancos gregos é o isolamento geográfico face ao resto da zona euro).
E depois há o mecanismo mais simples - quanto maior o risco de default de um Estado, maior também o risco dos bancos a quem esse Estado deve dinheiro
5. Se um Estado da UE entrar em default, isso aumentará o risco de default dos outros
Apesar de tudo, ainda há a expectativa que a UE não vai deixar nehum dos seus membros falir, e essa expectativa reduz o risco que "os mercados" atribuem aos países membros; se essa expectativa se revelar errada e um país da UE "defaultar" isso vai subir o risco de todos ou quase todos os outros
6. Se mais algum banco importante da UE falir, isso aumentará o risco de os outros também falirem
O mecanismo aqui é tão parecido com o anterior que não vale a pena explicar
Conclusão - o que pode acontecer em caso de default de algum país ou de algum banco importante na Europa.










