12/04/11

Se a corrupção política ainda vai no adro...


Francamente não entendo a admiração, ainda menos a indignação, devido ao negócio javardo entre PSD e Nobre. Indo ao único fundo não falso da questão: não estão bem um para o outro?

11/04/11

Nem toda a luta luz

Nem toda a luta contra a precariedade laboral é recomendável ou sequer decente. Por exemplo, o Congresso de Sócrates foi um exemplo de histeria aclamatória de uma plateia dominada por empregados partidários a necessitar esconjurar o medo da eminente transferência de empregos de boys do PS para boys do PSD. E o medo, agir por medo, é uma coisa tramada. Porque do mesmo modo que se agora, com o desespero esperançado dos ameaçados, tantos, quase todos, beijaram Sócrates em Matosinhos, amanhã, com a derrota oficialmente confirmada por mor da rotatividade dos vampiros, esses mesmos, mais coisa menos coisa, estarão a pedir o escalpe do “querido José”. Cuidado, pois, com a luta destes precários. Sobretudo quando estão mais à rasca. Até porque cheira mal, cheira a Ceauscescu.

Sobre o caso Fernando Nobre

Reina para aí grande clamor, misturando denúncias a actos de contrição, cujo alvo é a campanha de Fernando Nobre durante as últimas eleições presidenciais. O raciocínio é simples e reconfortante: uma vez que Nobre é agora cabeça de lista do PSD, isso só pode significar que já ontem o era e que a sua campanha foi uma espécie de manobra coelhista ou cavaquista encoberta, tendo a sua bênção por Mário Soares sido uma espécie de "com a verdade me enganas" funcionando como reforço do embuste.
Ora, se, como inexcedivelmente mostrou na altura o nosso genial Luís Rainha, os temas da campanha de Nobre eram um tecido de equívocos politicamente inconsistentes, transmitindo a mensagem de que é — e é só — com pessoas excepcionais, espíritos superiores e traços carismáticos que os antagonismos políticos podem ser resolvidos através do método que consiste em suprimi-los, em benefício da lealdade a uma personalidade ímpar e a um interesse nacional mistificador, teremos de admitir que a presente viragem do ex-candidato nada tem de miraculoso ou de manobra conspirativa.

A reflexão importante a fazer não consiste, pois, em apurar se Nobre se enganou e/ou nos enganou, mas em ter presente que não basta como política recusar as medidas dos governos do PS, nem protagonizar uma alternativa a Cavaco, exprimindo ao mesmo tempo a falta de confiança em Alegre, etc. Não é de líderes diferentes que precisamos, mas de plataformas políticas que façam a diferença. O que Nobre hoje procura ou promete é, mais ou menos, a mesma coisa que propunha como candidato: unir os portugueses em torno de "um compromisso nacional" e do partido — o PSD — que lhe parece mais capaz de o liderar e fazer passar por novidade, concedendo-lhe a ele, FN, ao mesmo tempo, um púlpito condigno. Tanto podemos, bem vistas as coisas, dizer que Nobre se deixou conquistar pelo PSD, como que foi este, na sua versão coelhista, que se deixou conquistar pela ideologia do ex-candidato.

Por isso, o que podemos e devemos opor à opção de Nobre  não são processos de intenções, nem denúncias de conspirações inexistentes, mas uma racionalidade e uma vontade democráticas, que articulem um projecto político implicando que aqueles que sofrem o mau funcionamento das coisas tomem a iniciativa de as transformar a seu contento, responsabilizando-se por novas formas de governo e participação política, em vez de se limitarem a procurar personalidades ou partidos, líderes ou especialistas, nos quais deleguem a aplicação de receitas acima das divisões políticas e antagonismos sociais que ponham fim à sua subordinação e descontentamento.

Gilbert Achcar sobre a Líbia: armar os rebeldes e emancipar a resistência à ditadura

Excertos de uma entrevista com Gilbert Achcar divulgada pelo Público.es:

El intelectual antiimperialista libanés Gilbert Achcar (Senegal, 1951) ha denunciado la "hipocresía" que se esconde tras el objetivo, supuestamente humanitario, de la intervención occidental en Libia. Sin embargo, este experto en mundo árabe, profesor de la reputada School of Oriental and African Studies (SOAS) de la Universidad de Londres, no se opuso al principio a los bombardeos de la coalición aliada, pues consideraba que "no había alternativa para evitar que Gadafi cometiera una carnicería". En Madrid, donde ha asistido a un acto organizado por Izquierda Anticapitalista, ha defendido que esa alternativa sí existe ahora: armar a los rebeldes.

¿Por qué cree que se deben detener los bombardeos de la OTAN en Libia?


Una vez que se ha destruido la fuerza aérea y parte de los blindados de Gadafi, la urgencia de evitar una masacre, que se planteaba cuando el régimen se disponía a tomar Bengasi, ya no existe. Por ello, creo que se debe detener la intervención militar directa. Eso sí, teniendo en cuenta la necesidad de apoyar al movimiento popular libio, considero que la demanda de que se detengan los bombardeos tiene que ir acompañada con la solicitud de que se arme a los rebeldes.

Es una opción que parece suscitar dudas éticas.


A aquellos que tienen algún problema al respecto, les recordaría que Gadafi fue armado por los países que intervienen ahora. La Unión Europea ha vendido más de mil millones de dólares en armas al régimen libio desde 2005. Son ellos quienes armaron a Gadafi y ahora es su responsabilidad dar a los sublevados los medios para defenderse de él. Desde el principio he dicho que no nos podíamos oponer a la zona de exclusión aérea porque era una reivindicación del movimiento popular; hoy, la reivindicación de ese movimiento es obtener armas para continuar luchando.

Os cromos que se seguem?


Quem irá contratar esta malta para cabeças de lista, presidentes da AR ou coisa parecida? Oportunismo e desvergonha para tanto não devem faltar...

10/04/11

Espantados com a "candidatura" de Nobre à presidência da AR?

Desculpem lá, mas estava na cara: «Ainda por cima, já se perfila o sucessor natural como receptáculo do apoio da direita: Fernando Nobre, o homem que quer ser PR mas não político, mais um salvador da pátria que acha que isto das ideologias e das divergências só atrapalha a vida pública.»
Lembrem-se: esta criatura saiu da fábrica de tretas de Mário Soares. E, em vez de ideias, tem um vácuo político que só poderia atrair Passos Coelho.

Boaventura

Fiquei muito surpreendido por ver o nome de Boaventura Sousa Santos entre os assinantes do tal compromisso nacional lançado pelo Expresso. E acho que é um erro grave e que me custa a perceber. Mas tal facto assusta-me mais pelo que diz do estado a que isto chegou do que por Boaventura em si mesmo. Quando vemos Boaventura ao lado de quem vemos há, com efeito, uma certa sensação de irrespirabilidade dentro desta latrina, como dizia o outro: as opções estreitam-se, tudo se fecha e ao fundo do túnel já só vemos o início de uma noite escura. É importante, porém, ver que essa é apenas uma das possibilidades. Não temo que Boaventura tenha passado do lado de cá para o lado de lá. Foi um erro grave, mas só um erro. Boaventura Sousa Santos é um dos poucos pensadores originais da esquerda em Portugal e não o deixou de ser. E nessa originalidade há muitas questões importantes e e outras ainda que mais valia estar quieto. Mas não é assim com todos? De um ponto de vista político, Boaventura é uma peça inclassificável no panorama da esquerda portuguesa. É dos críticos mais agudos dos limites da democracia representativa, dos cientistas sociais mais empenhados em pensar as desigualdades de poder e um dos académicos mais comprometidos com a política para lá da academia, seja enquanto intelectual público, seja enquanto militante e activista. O seu percurso é o de quem não deixou de pensar a classe para passar a pensar a etnicidade ou o género ou a orientação sexual. E ó de quem não deixou de pensar as desigualdades de poder tanto do lado das estruturas opressoras como das estruturas representantes dos oprimidos. Soube travar as lutas todas ao mesmo tempo. A minha maior discordância está em relação a algumas das questões que o Miguel Serras Pereira (de um modo que me parece demasiado agressivo, miguel?) levantou, a saber: o terceiro-mundismo, o nacional, etc. Ainda assim, convém não esquecer que no plano internacional Boaventura é um dos mais lúcidos apoiantes dos processos de transformação em curso na América do Sul. Apoiante mas apoiante crítico tanto de Chavez como de Lula, até porque o seu compromisso é muito mais manifesto a nível dos movimentos sociais do que das cúpulas do Estado. Talvez se encontre mais próximo, especulo, das transformações em curso na Bolívia. Não sei ao certo. Enfim, acompanho todas as críticas que se fazem ao facto de Boaventura ter assinado o compromisso do Expresso. As mesmas que podemos dirigir a um apoiante do PCP, como Siza Vieira. Mas, tanto num caso como no outro, não creio que haja lugar para conclusões muito categóricas como as que tenho lido. Ao assinar o texto do Expresso, Boaventura passou-se? Certo. Mas é seguro que não se passou. E que estará ao nosso lado em muitas das lutas que se seguem.

Fraude?


Minhas Senhoras, Meus Senhores, Caros Amigas e Amigos,
Quero agradecer, antes de mais, ao Bloco de Esquerda e ao seu cabeça de lista para as Eleições ao Parlamento Europeu, Dr. Miguel Portas, a Honra e a Confiança que em mim depositaram ao convidarem-me para seu Mandatário Nacional para estas Eleições pese embora, como é do conhecimento público, nunca ter pertencido, e não pertencer, ao BE nem a qualquer movimento ou partido político no nosso País.
Aceitei ser Mandatário Nacional do BE para as próximas Eleições ao PE, como Cidadão Independente e a título meramente Pessoal por me rever, enquanto membro assumido de uma Sociedade Civil que se quer activa, exigente, informada, atenta e participativa, nesta candidatura por Três Razões Objectivas e Decisivas:

Red Pig

Estes povos preguiçosos, indolentes e ociosos do Sul são uma vergonha. São autênticos ciganos, querem é roubar os bons povos trabalhadores e suas industriosas burguesias. Hão-de sufocar no calor de que tanto se orgulham. Autênticos pigs.

Primeira Declaração de Voto

O discurso de Alegre no congresso do PS é muito interessante. Alegre disse que não há soluções governativas de esquerda sem o PS. Disse-o de um modo relativamente afável e lamentou a exclusão do PS da reunião entre PCP e BE. O mais interessante é que, até àquele momento, só a Alegre é que tinha passado pela cabeça que o PS fora excluído dessa reunião. Porque a sua inclusão não parece ter sido presumida por quem quer que fosse com excepção de Alegre. O discurso de Alegre, nesse sentido, é o discurso de quem narra a sua própria morte política. Com efeito, o que estes dois últimos meses assinalam é a crise do discurso dominante em torno da possibilidade de uma coligação governamental entre PS, PCP e BE, ou apenas e só entre PS e PCP ou entre PS e BE. Este discurso, diga-se, era o de Alegre, mas também - embora com diferenças muito importantes, sublinho - o de alguns dirigentes da Renovação Comunista e de dois ou três membros do BE com mais projecção mediática. Significa isto que o espaço do PS é um espaço irremediavelmente perdido para uma tal estratégia? Não. Mas a parte da esquerda que sempre insistiu com a tal coligação entre o PS e a sua esquerda deveria hoje repensar os termos da sua conversa. Porque insistiram sempre em falar de uma fórmula aliada desse género e só raramente falaram das políticas que poderiam ser ponto comum a um tal programa. Essa parte da esquerda preferiu sempre resumir a questão à má-vontade dos estalinistas do PCP ou dos extremistas do BE. Como se o problema estivesse em ser Jerónimo Sousa o líder do PCP e não Cipriano Justo; ou ser Francisco Louçã o líder do BE e não Daniel Oliveira. Não há solução governativa de esquerda sem o PS? Admitamos que não. Mas o problema, porém, é este: é que também não há solução governativa de esquerda com o PS. E esta hipótese tem a seu favor a história. As críticas de socialistas como Alegre e Ana Gomes ao centrismo - ou até ao neoliberalismo - de Sócrates não perderam razão de ser. Como sair desta quadratura do círculo? A minha resposta seria: se não há solução governativa de esquerda sem o PS, é igualmente certo que não há solução governativa de esquerda enquanto o PS tiver mais votos do que PCP e BE juntos. É preciso uma maioria de esquerda que inclua o centro-esquerda, isto é, o PS? Sim. Mas é tão necessário isso como uma alteração de correlação de forças à esquerda que coloque o PS numa posição minoritária face à soma de votos entre PCP e BE. Será para já? Possivelmente, não. Mas alguém acha, por exemplo, que Lula da Silva algum dia teria obtido uma maioria sem que antes tivesse obtido tantas minorias? Esse foi (o que se passou durante o governo Lula é, em parte, outra discussão) um caminho de urgência mas também de esperança. Por isso a minha primeira declaração de voto é simples: votar à esquerda do PS.

Contributos para a explicação de um enigma menor

O facto de o PCP não estar disposto a integrar a plataforma de Um compromisso nacional não significa que pelo menos uma parte dos "rostos" e/ou das "eminências pardas" da iniciativa não tenham a ideia de que o "governo de salvação nacional" coeso que propõem, e que a oligarquia dos decisores da UE exige quando declara que sem entendimento entre partidos não haverá resgate financeiro, só teria a beneficiar, em termos tanto de credibilidade como de funcionamento, se a atitude do PCP fosse diferente.
Aliás, a 23 de Março último,  podíamos ler no esquerda.net que o chairman da Jerónimo Martins, Alexandre Soares dos Santos, defende um “governo de salvação” composto por PS, PSD, CDS e “eventualmente” o PCP. O Bloco de Esquerda deve ficar “completamente excluído” deste governo, já que, segundo Soares dos Santos, só se limita “a criar a confusão, a injectar ódio na sociedade portuguesa e nunca apresenta completamente nada”.

A almejada participação do PCP teria por efeito apresentar o governo de "salvação nacional" como superior aos antagonismos sociais e à oposição esquerda-direita — uma medida de emergência, puramente "patriótica", no "interesse de todos", e, nessa medida, dotada de uma autoridade também de emergência,  com as mãos livres para executar os gestos necessários, por um lado, a tranquilizar a oligarquia europeia e, por outro, a conter, com a severidade indispensável, os desmandos dos agentes sociais e/ou forças políticas — o BE e, sobretudo, o "espectro da anarquia" que ele evoca, queira-o ou não — que se excluíssem da participação, aberta a todos, na implementação das soluções necessárias à "dignidade dos portugueses" (como diz, pouco mais ou menos, Boaventura Sousa Santos).

Creio que são estes cálculos, com motivações variáveis no espírito dos subscritores do documento, que explicam a presença entre aqueles de nomes inesperados. Tratar-se-ia, em suma, para alguns de impedir que fosse deixada à direita a "salvação nacional". O problema é que a saída encontrada tem por resultado a adopção do problema da mesma direita, oferecendo a esta o bónus de poder apresentar o seu programa como suprapartidário e baseado em razões "universais".

Islandeses voltam a recusar acordo com os "credores"

[Agora já sem ponto de interrogação]

12:55 - IcelandReview - Icesave Referendum: 60 Percent Reject Legislation:
Almost 60 percent of Icelandic voters decided to reject the new Icesave legislation in yesterday’s referendum. In all constituencies the majority voted “no”, also in Reykjavík South where the first numbers indicated it might be the only constituency where the majority said “yes”.
2:15 - Noticia do Morgunbladid traduzida pelo Google:
When almost 70 thousand votes had been counted in the referendum on Icesave-law had 57.7% said no and 42.7% had said yes.
In five districts, the majority of voters rejected the law but at the same time, Reykjavík south, the majority would accept the tracks.
00:54 - IcelandReview -  Icesave Referendum: First Numbers from Reykjavík:
The first numbers from the two Reykjavík constituencies have now been announced. There, more people than outside the capital region have voted “yes” for the new Icesave legislation, which changed the nationwide ratio to 57 percent against and 43 percent for the legislation.

In Reykjavík North where there are 44,525 registered voters, 4,215 ballots have been counted. So far, 1,987 voters have said “yes”, while 2,093 people have voted “no”; that is 48.7 percent for Icesave and 51.3 percent against. A total of 135 ballots were empty.

In Reykjavík South there are 44,463 registered voters and 10,569 ballots have been counted. So far, 5,620 voters want to pass the Icesave legislation, or 53.9 percent, and 4,808 voters want to reject it, which is 46.1 percent. A total of 141 ballots were empty.

Reykjavík South is the only constituency where the first numbers show that more voters want to pass the legislation than reject it.
00:26 - IceNews - Initial Icesave voting figures suggest ‘no’ vote:
The first voting figures from today’s Icesave referendum have been released. When officials in the Southwest voting district had counted 2,962 votes, they declared that 59 percent were ‘no’ votes and 40.5 percent said ‘yes’. There are 28,688 registered voters in that region.
[Eu pus credores entre aspas porque é polémico se o Estado islandês tem a obrigação de garantir os depósitos estrangeiros nos bancos islandeses entretanto falidos; ou seja, não é claro se a Islândia deve mesmo algum dinheiro ao Reino Unido e à Holanda ]

Ainda sobre um sociólogo para todo o serviço do Bloco Central

Ao contrário de alguns outros observadores, não acho excessivamente insólito que Boaventura Sousa Santos tenha subscrito o documento Um compromisso nacional — e, para dizer a verdade, há outras subscrições que me deixam muito mais chocado. Vendo bem as coisas, à luz do seu antieuropeísmo contumaz, do seu profetismo terceiro-mundista de longa data, do seu desprezo reiterado pela democracia, do seu nacionalismo pós-modernizante, etc., etc., talvez a subscrição do "compromisso" por BSS não seja tão surpreendente como parece a alguns.

Surpreendente é, sim, o alcance da mistificação empreendida, bem documentada no irrefutável post que a Joana Lopes publicou esta tarde sob o título de Boaventuranças à la carte: fazer passar uma "capitulação" tida por necessária ou "necessidade" tida por incontornável - posição de que discordo, mas posso compreender que outros adoptem, sem por isso deixar de a combater - por conclusão de uma lógica de insubordinação e resistência.

É como se Mário Soares em vez de declarar, nos anos de liquidação do PREC, que, dadas as circunstâncias, tinha de pôr o socialismo na gaveta, tivesse declarado que estava mais apostado do que nunca, com as políticas que então adoptou, a levar por diante a construção do socialismo. Por muito aberrante que consideremos a atitude de Soares nessa época - o secretário-geral de um Partido Socialista a encarregar-se da tarefa de engavetar o socialismo -, ou, a outra escala, a de Lenine, quando propôs que os bolcheviques se encarregassem de fazer o Termidor - sem lhe chamar, porém, a Tomada da Bastilha - para conservarem o poder, a mistificação que BSS opera deixa para trás essas e outras aberrações, e só tem precedentes nos traços mais sombrios das mais sombrias expressões do "duplipensar" denunciado por Orwell, ou em certas proezas retórico-propagandísticas que acompanharam as experiências históricas extremas — muito diferentes entre si e não por certo equivalentes sob outros aspectos — do estalinismo (pensemos em certos episódios da história da URSS ou noutros da Guerra de Espanha) e do nazi-fascismo.

09/04/11

Bastante trabalho


Vasco Pulido Valente resolveu hoje fazer de historiador, a propósito da reunião entre o PCP e o Bloco de Esquerda. Chamou à sua crónica, nem mais nem menos, "Facto Histórico", para referir o carácter inédito do acontecimento. O Nuno já referiu aqui exemplos recentes de reuniões e convergências entre o PCP e a "extrema-esquerda". 
Mas dá-se ainda o caso de, em pleno Verão Quente de 1975, o PCP ter tomado a iniciativa de fundar a Frente de Unidade Popular, que incluía a LCI (antepassado histórico do PSR), bem como o MES, o PRP, a LUAR e o MDP. A UDP participou ena reunião fundadora, acabando por não integrar a estrutura, que considerava demasiado colada ao apoio a Vasco Gonçalves. Ao fim de três dias, o PCP saiu da estrutura e foi negociar com o PS e os "nove" a formação do VI Governo Provisório.
Dá.-se o caso de, ainda há poucos anos, Pulido Valente ter publicado um ensaio no seu livro, presumivelmente a propósito do PREC e presumivelmente na condição de historiador. Eis o que então soprou à Caras: "Foram precisos muitos anos de trabalho para escrever este livro. Deu-me bastante trabalho. A minha profissão é ser historiador. Quando comecei a escrever, era praticamente proibido escrever na universidade sobre os séculos XIX e XX, de maneira que as pessoas da minha geração concentraram-se, muitas vezes por curiosidade, sobre esses temas, para tentar perceber como é que tínhamos chegado onde chegámos".
É um facto incontestável que  percebemos muita coisa acerca da forma como aqui chegámos sempre que lemos Vasco Pulido Valente e constatamos a  solidez dos seus "factos históricos", que estão, como se vê, ao nível dos de Miguel Sousa Tavares. Combinarão eles entre si, numa mesa do Gambrinus, o próximo disparate com que irão entreter a plebe?

Um sociólogo de serviço do Bloco Central

Num texto, ontem dado à estampa no Público (08.04.2011) e marcado pelo terceiro-mundismo sumário do costume, que o leva a apostar num relacionamento cooperativo com a China e Angola, bem como por um nacionalismo exacerbado, talvez pós-moderno mas pouco resistente, Boaventura Sousa Santos perguntava-se ontem: Perante este agravamento concertado da crise, como buscar uma saída que restitua aos portugueses a dignidade de existir?

Na sequência de considerandos cuja aparente radicalidade anti-FMI é sabiamente respeitabilizada pela insistência numa independência nacional representada como implicitamente acima dos antagonismos sociais, as medidas recomendadas são as seguintes:

Realizar uma auditoria da dívida externa que permita reduzi-la à sua proporção real, por exemplo, descontando todos os efeitos de rating por contágio de que fomos vítimas nos últimos meses. Resolver as necessidades financeiras de curto prazo contraindo empréstimos, sem as condicionalidades do FMI, junto de países dispostos a acreditar na capacidade de recuperação do país, tais como a China, o Brasil e Angola. Tomar a iniciativa de promover um diálogo Sul-Sul, depois alargado a toda a Europa, no sentido de refundar o projecto europeu, já que o actual está morto. Promover a criação de um mercado de integração regional transcontinental, tendo como base a CPLP e como carros-chefes Brasil, Angola e Portugal. Usar como recurso estratégico nessa integração a requalificação da nossa especialização industrial em função do extraordinário avanço do país nos últimos anos nos domínios da formação avançada e da investigação científica.

Antes de apresentar este elenco de propostas oscilando entre a "sensibilidade social" mais inócua e vaga e o francamente caricato, Boaventura Sousa Santos adverte gravemente que não se está a pronunciar a questão de saber quem serão os agentes políticos democráticos que tomarão as medidas necessárias nem o modo como os portugueses se organizarão para os pressionar nesse sentido. Este silêncio pedagógico, sempre de bom tom numa autoridade académica, destinar-se-ia apenas, no entanto, a não quebrar um momentâneo suspense, destinado a sacudir o sono da "razão indolente" que Boaventura Sousa Santos sempre receou não sem justificação ver amodorrar os seus auditores mais sóbrios. E foi sol de pouca dura, uma vez que este documento, intitulado Um Compromisso Nacional hoje divulgado pelo Expresso tira — ou deveria tirar — todas as dúvidas sobre quem são os "agentes políticos" a quem, no entender de Boaventura, compete o papel de encabeçar e dirigir o seu projecto de salvação nacional. É verdade que não se compreende bem porque lhes chama o sociólogo "agentes políticos democráticos", mas um lapsus calami até ao melhor lente pode acontecer - deixemo-nos, pois, de ninharias. O compromisso social e político do documento é claro — e o do sociólogo, também.

Novo referendo islandês

Hoje, a Islândia volta a realizar um referendo sobre um projecto acerca das compensações aos investidores estrangeiros dos bancos falidos (ver antecedentes aqui). Parece estar renhido:
Almost 55 percent of respondents in a new survey conducted by daily Fréttabladid intend to vote “no” to the new Icesave legislation on the payback scheme for Landsbanki depositors in the UK and the Netherlands in the national referendum on Saturday. (...)

In a survey in March, approximately 52 percent of respondents said they intended to vote “yes” in the Icesave referendum.[IcelandReview]

08/04/11

Contra as plataformas redutoras

Não é só, nem principalmente, em termos de aritmética eleitoral que se põe a questão que este post do Rui Bebiano sensatamente levanta. Com efeito, qualquer "unidade" que se faça ao preço de importar para o BE — ou de reforçar a sua presença já demasiado sensível nele - os traços de agressividade e de desconfiança no terreno, de absurdo controleirismo, de anti-europeísmo, de subordinação a modelos totalitários e a estratégias do pensamento único que, década após década, e até com algum agravamento nos anos mais recentes, têm dominado o PCP, qualquer unidade desse tipo se traduzirá numa plataforma redutora que, em vez de contribuir para a transformação radical ou superação do tipo de organização hoje dominante no campo dito da "esquerda da esquerda", só poderá limitar e comprometer as condições de emergência de movimentos de democratização alternativa, capazes de oporem à oligarquia novas formas de autogoverno democrático da sociedade, do mesmo modo que só poderá servir para tornar mais remotas as perspectivas da reorganização radical que o BE teria de operar para vir a ser, em vez de um obstáculo, um animador e agente credível desse movimento alternativo.

Por outro lado, o Rui Bebiano acerta também ao denunciar como redutora uma plataforma que se proponha como unitária secundarizando à partida tudo o que o BE e o PCP não sintetizam. E, uma vez mais, esse alerta colhe muito para além da discussão sobre as coligações ou acordos parlamentares. Com efeito, se admitirmos que o protagonista de uma transformação libertadora e igualitária terá de ser o exercício activo da sua cidadania quotidiana por parte de uma grande maioria das mulheres e dos homens presentes, a conclusão é límpida e pode desdobrar-se em três pontos. Ou retomando parte de um post que escrevi em Janeiro último:

1, Em primeiro lugar, a possibilidade de resistir à ofensiva oligárquica e ao governo exercido sobre nós por decretos pela sua economia política passa pela construção de qualquer coisa como um "programa mínimo", a que prefiro (mas sem fazer disso cavalo de batalha) chamar "plataforma necessária e suficiente", tendo por denominador comum a democratização a todos os níveis do exercíco do poder e das relações de forças governantes.

2. Em segundo lugar, parece-me igualmente claro que essa plataforma terá de reunir enquanto base a maioria dos que actualmente se reconhecem mais ou menos militantemente no PCP, no BE e no PS, bem como um conjunto muito mais amplo de elementos não integrados nesses ou noutros partidos.

3. O problema é que estes protagonistas da plataforma ou programa de acção comum só poderão levar a sua construção por diante — ou: (i) deixando de se reconhecer nos partidos referidos, cujos métodos, formas de organização, divisão interna do trabalho político, etc. são um dos principais obstáculos a esse projecto — ou: (ii) transformando os mesmos partidos, se quiserem poder reconhecer-se neles, em termos necessariamente tão radicais que os tornarão irreconhecíveis na exacta medida em que os transformem em forças alternativas tanto ao regime da economia política dominante como ao dos seus próprios modos actuais de intervenção e funcionamento.

Confirma-se: o que é bom para o gajo é péssimo para nós


“Más notícias para o país, mas podem ser positivas para Sócrates”

Um primeiro passo

As seguintes palavras do Rui Tavares, que a Joana Lopes destacou no seu Brumas: "Que barulho é este? É o som de Portugal esmagado debaixo da banca, por detrás do estardalhaço da Europa a desconjuntar-se", completadas pela consideração do "golpe de Estado" que o Pedro Viana evoca, fazem-me retomar aqui o essencial de um comentário que escrevi na caixa dos mesmos de um post que o Nuno Ramos de Almeida ontem publicou.

É ou devia ser evidente que o quadro do Estado-nação é uma arena ou uma trincheira absolutamente insuficiente para o relançamento democrático de uma nova organização económica como o que sugeres. Chutar a crise para o plano internacional, começando por europeizar as lutas, os protestos, os conflitos, obrigando a Europa a intervir, sim, mas de outro modo, seria um primeiro passo. O que passaria por desautorizar o governo do país e a previsível solução que Bruxelas nos quererá vender, por impedir o normal funcionamento das instituições europeias, reclamar a sua refundação e a sua efectividade noutros termos, apelar à solidariedade dos trabalhadores e cidadãos comuns dos outros países da UE, criando um foco de ingovernabilidade e tentando generalizá-lo.

Vamos lá ver se haverá quem o perceba – e a tempo – tanto aqui como noutros lugares.

Golpe de Estado

Fomos hoje informados pelo presidente do Eurogrupo, Jean-Claude Juncker, que está em preparação um golpe de Estado em Portugal:

Programa de ajustamento para Portugal pronto em meados de Maio

Para quem ande distraído, as eleições legislativas decorrentes da demissão do governo estão marcadas para 5 de Junho.

Alternativa, já!


Estou cada vez mais convencido que PCP e BE têm uma oportunidade única nas próximas eleições legislativas para re-construir o espaço político em Portugal. É urgente uma Alternativa de governo em Portugal. Uma verdadeira Alternativa às políticas que, com pequenas variantes, têm sido defendidas e colocadas em prática por PS, PSD e CDS, com os desastrosos resultados que se conhecem. O que não evitará que versões ainda mais radicais dessas políticas estejam e venham a ser apresentadas como a solução pelos mesmos do costume.

Há um enorme desespero e desalento perante esta crise, devido à percepção de que não há caminhos alternativos para dela sair. Esta percepção deriva da omnipresença dos profetas e mandantes da desgraça nos media, da incapacidade de PCP e BE ultrapassarem a desconfiança que grande parte do eleitorado lhes devota, não interessa agora porquê, e da descrença na possibilidade de PCP ou BE alguma vez poderem estar em posição de governar. Todos estes problemas podem ser ultrapassados se PCP e BE concorrerem às próximas eleições legislativas em listas conjuntas, nas quais se incluiriam independentes que pudessem adicionar credibilidade à Alternativa. Esta simples palavra sintetiza tudo o que essas listas representariam, deixando claro que PS, PSD e CDS não levam a qualquer mudança nas políticas que foram até agora seguidas, pelo contrário, irão aprofundá-las. Alternativa, sem mais qualificativos. De modo a apelar a muitos portugueses que não se identificam com nenhuma ideologia, e apenas anseiam por uma... Alternativa.

Uma Alternativa fundada num congresso, aberto a todos os que defendem uma via distinta daquela que os profetas e mandantes da desgraça nos apresentam como inevitável. Igualmente importante, seria apresentar um independente, preferencialmente um economista com um currículo inatacável, como candidato a primeiro-ministro. Alguém que permitisse ultrapassar as barreiras sociais e culturais que cercam PCP e BE, algumas por culpa própria, e impedisse a acusação de irrealismo. Por exemplo, José Reis. Uma tal Alternativa, ainda para mais se conseguisse atrair o apoio de militantes conhecidos do PS, teria um potencial eleitoral significativamente maior do que os quase 18% dos votos somados obtidos por BE e CDU nas últimas eleições legislativas.

Como já antes mencionei, o mais importante resultado das próximas eleições legislativas será a diferença relativa de votos entre PS por um lado e PCP+BE por outro. Será esta diferença que vai decidir a atitude do PS perante as medidas sociais gravíssimas que PSD e CDS se preparam para implementar. Um PS ameaçado no seu papel de principal partido de oposição não terá alterativa que não a oposição frontal a essas medidas, o que as tornará inviáveis, como vários estrategas da Direita têm alertado. As direcções de PCP e BE têm assim entre mãos uma enorme responsabilidade perante o povo português, e a oportunidade de remodelar a paisagem política portuguesa através da criação duma Alternativa eleitoral credível.

07/04/11

Portugal - um retrato social

 O INE pede, e cito, respostas "com rigor", caso contrário o cidadão "estará a impedir a nitidez e o rigor do retrato do País e das medidas que, a partir dele, vierem a ser tomadas". No entanto, na questão sobre o modo como se exerce a profissão, o INE indica: "Se trabalha a recibos verdes mas tem um local de trabalho fixo dentro de uma empresa, subordinação hierárquica efetiva, e um horário de trabalho definido deve assinalar a opção 'trabalhador por conta de outrem'". Ou seja, neste ponto, o INE pretende rigor na falta de rigor. Há que ser rigoroso na bandalheira.
Quem preenche o inquérito tem o dever de ser verdadeiro na aldrabice que vai prestar. Filosoficamente, é uma operação complexa. Se o cidadão se encontra numa situação laboral ilegal, deve assinalar que se encontra numa situação laboral legal. Se não o fizer, "estará a impedir a nitidez e o rigor do retrato do País e das medidas que, a partir dele, vierem a ser tomadas." Seria triste que, por causa de uma informação verdadeira mas fornecida com pouco rigor, fossem tomadas medidas para resolver um problema que existe mas torna o retrato do País um pouco menos nítido.
Ricardo Araújo Pereira, Sensibilidade e bons censos

Foi para isto, obviamente

Cotações da banca disparam após anúncio de pedido de ajuda.

06/04/11

Péssimo sinal

Comentando na caixa de um post do Tiago Mota Saraiva o desaparecimento da primeira página do esquerda.net de um artigo de João Teixeira Lopes, que se pronuncia contra a eventualidade de uma coligação pré-eleitoral do BE com o PCP, escreve João:

Bom sinal, o esquerda.net encarregou-se de fazer desaparecer num ápice o artigo do JTL. Não é um bom método mas é por uma boa causa.


Em geral, quando aprovamos os maus métodos em nome da bondade da causa, esta rapidamente tende a degradar-se e a excelência dos fins invocados transforma-se numa justificação ideológica de um poder hierarquicamente exercido e em benefício de interesses hierárquicos.
Calar, no interior de uma das partes, uma voz minoritária — se é que silenciamento houve, do que não estou seguro —, sobretudo quando se discutem questões de fundo, porque isso pode prejudicar um entendimento de cúpula, mina à partida a natureza do acordo em perspectiva entre as outras duas partes. É péssimo sinal que, para facilitar o entendimento com um outro partido, uma força como o BE comece - se é que foi disso que se tratou - a condicionar a liberdade ou visibilidade de expressão dos seus militantes. É o mínimo que pode dizer alguém que sempre esteve bastante distante politicamente de JTL, muito mais distante do que de outros militantes ou simpatizantes do Bloco.

Ainda sobre a unidade das forças democráticas

(1) Se um dia os principais banqueiros de um país se reúnem com o banco central do mesmo e declaram que o governo deve solicitar uma intervenção exterior, que lhes garanta a liquidez e condições óptimas de exercício da sua lucrativa actividade, e

(2) se,  no dia seguinte ou dois dias depois, o governo intimado — apesar de até essa data se ter recusado, literalmente até à queda, a solicitar a intervenção exterior — se apressa a solicitá-la e a obedecer — contra os próprios interesses do partido governamental e numa lógica brilhantemente suicidária do seu ponto de vista — à ordem dos bancos, dir-se-ia que

(3) a única coisa sensata a concluir é que são os principais responsáveis que ocupam os postos de comando da economia o governo efectivo e os detentores do poder político, e que, portanto, quem queira democratizar a vida pública e o poder político deve começar por iniciar a democratização interna da esfera da economia, reivindicando nos domínios do trabalho, da organização das empresas, da repartição dos rendimentos e da condução da actividade económica as liberdades e direitos fundamentais, que, em princípio, a ordem constitucional desse país estipula e garante.

Ou seja, a defesa e extensão da liberdade política e dos direitos sociais têm de ser feitas e decididas hoje, prioritária e mais claramente do que nunca, no campo da economia. O que significa que deverá ser à luz da exigência imediata de democratização das relações de força e do poder político da economia, que teremos de agir e organizar a acção e a luta comuns, ou, em suma, as forças da democracia. Portanto…

Ficava mesmo bem era de algemas, isso sim

Mas quem disse que Sócrates e o seu bando são insensíveis às grandes manifestações de gente à rasca?

Quem paga exigiu. E o governo lá foi pedir ajuda.

Propostas para os camaradas José Gusmão e Bernardino Soares levarem à reunião

Não existirão listas conjuntas entre PCP e BE. Toda a gente sabe isso. Não quero com isto dizer que seria contra tal hipótese. Mas não existirão. E é já muito supreendente que o encontro de amanhã exista. Surpreendente e estimulante. E desse encontro podem sair decisões que neste momento podem ser esperançosas. Por exemplo, concertar 3 ou 4 acções de campanha. Como estas: 1) uma reunião em Lisboa com partidos e movimentos irlandeses, espanhóis e gregos que são simpatizantes tanto do PCP como do BE (se os gregos não se podem ver, coloquem os tipos a dormir em sítios distantes); 2) uma conferência de um dia, sobre 5 ou 6 temas centrais e comuns aos programas de cada um dos partidos (ex. desemprego, segurança social, precariedade, reforma fiscal, etc.), e que envolvesse também intervenientes exteriores às direcções dois partidos (por exemplo, Carvalho da Silva, Oliveira Baptista, Boaventura Sousa Santos, Daniel Oliveira, etc.); 3) um jantar-concerto pop/popular com o Sérgio Godinho, os Pop Dell'arte, os Homens da Luta, o Coro da Achada, o Zé Mário Branco (e até pode ser que venham umas bandas de outras terras); 4) um jogo de futebol entre as direcções dos dois partidos, com o Nuno Ramos de Almeida a arbitrar, em casa de um dos oponentes, sendo que o visitante está estritamente proibido de fechar a luz em caso de derrota. Ah, mas e se nada disto resultar, em si mesmo o encontro já é qualquer coisa de muito positivo.

O desespero já leva muitos a rezar por uma coligação BE-PCP. Não tarda, estão na igreja a implorar suaves milagres.

ERC: o nosso irmãozinho grande?

A ERC resolveu abrir uma guerra fora das fronteiras habituais da sua acção. A propósito de um programa da SIC Radical (que eu não vi), esta entidade arvora-se em defensora dos bons costumes e resolve questionar os temas e as práticas discursivas de uma série humorística.
Estrela Serrano nem se dá conta do grotesco da situação. E defende o indefensável apontando "algumas das 'pérolas' do humor de Cordes contidas no programa em questão": insultos e provocações a figuras públicas, utilização de vítimas da Casa Pia e de deficientes mentais como matéria-prima para humor, etc.
O que não entra nestas meninges é que não precisamos de polícia do bom-gosto. Se os direitos de alguém foram ofendidos, existem leis e instituições judiciais para tratar do assunto. Não precisamos nem queremos académicos (por respeitáveis que sejam) a proteger os desgraçadinhos da televisão má. Não reconhecemos na ERC competências para o papel de Grande Irmão paroquial que agora quis assumir. Mau-gosto não é crime. Se ofendidos houve, todos eles dispõem de instrumentos para tratar do assunto. Ou quem tenha como missão legal protegê-los.
Isto para nem falar nas sonsices das referências a "conteúdos de violência física e psicológica"e "referências discursivas à sexualidade"; por esse caminho, acabava-se metade da programação televisiva...

A Semântica do Centro

O Henrique Raposo e o José Manuel Fernandes escreveram em conjunto um post no Jugular sob o nome único de Paulo Pinto, mas, por um momento, vamos admitir que foi mesmo alguém do Jugular que escreveu um post de tão elevado nível como este. Pergunta-se no post se patriótico e de esquerda (como reclama amiúde o PCP por estes dias) rima com nacional-socialismo? E perguntamos nós: no slogan do PCP, o que é aquilo que tanto irrita um dos escribas do Jugular, a ponto de nos brindar com uma pérola como aquela? Dificilmente será a ideia de patriotismo. Porque ao PS (admitamos que Paulo Pinto é um apoiante do PS), como dizem os seus dirigentes, ninguém dá lições de patriotismo. A Soares ninguém dá lições de patriotismo, pois não? Não foi Soares, aliás, que nos salvou da influência estrangeira de Moscovo? E a Sócrates, alguém dá lições de patriotismo? A Sócrates também não, claro que não, tudo o que Sócrates faz é a bem da nação e ele não se tem cansado de dizer isso mesmo nestes últimos tempos, tentando mostrar o falso nacionalismo da retórica nacionalista de Passos Coelho e de Paulo Portas. Portugal e os portugueses (houve um tempo em que era mais os trabalhadores, mas devia ser ainda aquilo a que o Assis chama de "anacronismo") encontram-se uma e outra e outra vez nas bocas dos dirigentes do PS. Nem é preciso lembrar o último candidato presidencial apoiado pelo PS. Ou os constantes discursos sobre o "interesse nacional" do actual primeiro-ministro. Ou as posições do PS em relação às questões da imigração, sempre mais recuadas do que as do PCP. Já para não falar no culto macónico de um republicanismo que teria devolvido ao país a independência ameçada. Ou na política cultural nacionalista de grandes eventos, da Expo 98 ao Euro 2004, antes de mais liderada (embora também com apoio do PCP) por PSD e PS. Não sou um defensor da via patriótica para o socialismo, pelo contrário, e preferia mil vezes que o slogan do PCP fosse apenas de esquerda. Ou então que dissesse um governo internacionalista e de esquerda. Ou, talvez mais exequível (para utilizar uma palavra que os nossos amigos do PS por certo estimam) um governo de esquerda, internacionalista e patriótico. Mas não é porque criticamos qualquer via patriótica para o socialismo que nos tomam assim por parvos. Se a ideia de que os extremos se tocam pode ter alguma pertinência (é um longo debate), convém não esquecer que se tocam muitas vezes através do centro. Esse centro que se julga inimputável, que é o lugar do nacionalismo do Partido Socialista. Em rigor, uma diferença importante entre o patriotismo do PCP e o patriotismo do PS reside no facto do primeiro visar o socialismo e o segundo nada mais visar que não seja esconder uma certa vergonha. A vergonha de tentar fazer passar como apolíticas (sob a retórica gordurosa do tal do "interesse nacional") as políticas económicas liberais que nos têm governado.

Comédia de Enganos?

Transcrição parcial e ligação directa para um lúcido post do rui no Bidão Vil:

De um lado, a retórica síria de resistência árabe contra Israel e os Estados Unidos já não abafa a repulsa da população por décadas de repressão brutal imposta por um regime despudoradamente oligárquico. A aflição de alguns "progressistas" pelas perspectivas de queda de mais este "bastião de resistência anti-sionista" é um erro histórico.
Do outro lado, a ilusão de Obama e outros líderes ocidentais de que o triunfo das revoltas populares na região terá como consequência a "paz" tout court, isto é, o advento de regimes submissos perante Israel.
Se das revoltas em curso sairem alternativas efectivamente democráticas, o natural é que o oposto de verifique em ambos os casos: a erradicação do bárbaro regime sírio e o aumento do isolamento regional do estado racista de Israel.


Eu acrescentaria apenas que, por certo, devemos ter também em conta as repercussões que os acontecimentos em curso não poderão deixar de ter no interior de Israel. Com efeito, as revoltas mediterrânicas são uma oportunidade tanto para os que apostam na radicalização do apartheid e da expansão territorial como para os protagonistas de forças e movimentos alternativos empenhados na construção em Israel de uma república laica,  consequente com os seus princípios, contra as orientações identitárias e étnico-confessionais actualmente governantes.

05/04/11

FMI vem dar razão a Karl Marx — o que mais nos irá acontecer?

O velho Marx está com certeza a dar gargalhadas no túmulo. Enquanto Assis, o grande socialista, fala em arcaísmos, Dominique Strauss-Kahn, o grande capitalista, vem dar razão ao autor de O Capital (querem coisa mais arcaica?), reconhecendo que se acentuou o fosso entre ricos e pobres. E se isto não são tempos interesantes, não sei o que são tempos interessantes.

Na minha modesta e pessoalíssima opinião isto ia lá era ao estalo

04/04/11

Da incapacidade de distinguir entre a realidade e a ficção

O PCP tratou já de inaugurar com os melhores augúrios a procura de um entendimento para lá do espectro (no sentido de fantasma assustador) governativo do costume. Reza a notita de hoje: «Na próxima sexta-feira, na Assembleia da República, realiza-se um encontro entre o PCP e o BE, destinado a uma avaliação mútua sobre a situação política, económica e social do país. Após os encontros com o Partido Ecologista "Os Verdes" e a ID para a concretização da CDU – Coligação Democrática Unitária, este encontro insere-se no quadro de um normal relacionamento inter-partidário ainda mais justificado pelo agravamento da situação económica e social.»
Depois de falarem com as ficções "Verdes" e "ID", lá arranjaram um buraco na agenda para aturar o Louçã. Estranhamente, esqueceram-se de parlamentar antes com o MURPI. E com o Popeye.
Só falta o Bloco responder dizendo que vai falar com o PCP depois de auscultar as posições da Ruptura/FER.
De ficção em ficção, lá se vão lixando ainda mais a nossa vida e o nosso futuro.

Abril de novo, pela força do povo

03/04/11

02/04/11

Uma declaração de guerra imperialista

Perante esta notícia, que transcrevo do Público.es, é, sem dúvida, instrutivo ponderar o silêncio ou as justificações "anti-imperialistas" daqueles que denunciam manobras do imperialismo e atentados à independência nacional do Irão nas campanhas contra as lapidações por ofensas aos bons costumes, manobras do imperialismo e atentados à independência nacional da Líbia no apoio que outros reclamam para os insurrectos contra Kadhafi, e poupo-vos o consabido rol restante. Estamos ou não perante uma vontade de dominação imperial claramente afirmada, perante um propósito declarado de interferência nos assuntos internos de outros países, perante uma declaração de guerra aos infiéis, em que estes são, não só os blasfemos, como todos os que não se resignam a condená-los com a severidade que a sua interpretação da lei islâmica estipula e erige em imperativo universal?

"A menos que los responsables de la quema del Corán sean severamente castigados, veremos violencia y protestas, no solo en Afganistán, sino en todo el mundo", esta es la advertencia que lanzó ayer Mullavi Qyamudin Kashaf, jefe del Consejo de Ulemas de Afganistán ante la situación de violencia que se está registrando en el país centroasiático los dos últimos días como consecuencia de la quema de un ejemplar del Corán en una pequeña iglesia de Florida, Estados Unidos.
(…)
Estas violentas protestas vienen precedidas por el gravísimo altercado en la ciudad de Marzar e Sharif donde un grupo de fanáticos asaltó la sede de la Misión de Naciones Unidas en Afganistán (UNAMA) asesinando a siete miembros de la delegación local de la ONU- -tres miembros de la misión y cuatro guardas de seguridad, todos ellos extranjeros- y a otros cinco civiles.
Unos 20.000 manifestantes se concentraron delante de la sede de Naciones Unidas en Mazar tras el perceptivo rezo de los viernes; armados con cuchillos, palos y piedras para protestar por la quema del Corán el pasado 20 de marzo en la ciudad de Gainesville. Tras reducir a los guardias nepalíes, que estaban protegiendo el edificio, penetraron en las oficinas del organismo internacional atacando a todos los que encontraron a su paso; entre ellos al máximo representante de la ONU en la ciudad. Según testigos presenciales los manifestantes utilizaron las armas que sustrajeron a los guardias de seguridad para perpetrar la matanza, salvo a dos personas, que fueron secuestradas y posteriormente decapitadas.

Bombardeamentos precisos (II)?

CNN:
Coalition airstrikes have hit several rebel vehicles in Libya and the opposition is looking into reports that some rebel fighters were killed, a spokesman for the Libyan opposition said Saturday.


NATO is also investigating a report that a coalition airstrike in the eastern oil town of al-Brega hit opposition rebels, a NATO spokeswoman said Saturday.

"NATO takes any reports of civilian casualties very seriously, but exact details are hard to verify as we have no reliable sources on the ground," NATO's Oana Lungescu said. "Clearly, if someone fires at one of our aircraft, of course they have the right to defend themselves."