Nas eleições de 5 de Junho, o BE vai “disputar cada voto”, disse [Francisco Louçã], apelando assim aos eleitores que “já votaram PS, mas também a quem já votou no PSD e no CDS e a quem se tem abstido”. Para cada segmento destes eleitores, Louçã apresentou argumentos.
Acusou José Sócrates de “dizer o que não faz e fazer o que não diz”, apontando os ataques, acordados entre o Governo e a troika, ao Serviço Nacional de Saúde e à banca pública, por exemplo. Os resultados das medidas impostas para receber o empréstimo de 78 mil milhões de euros traduzir-se-ão em “mais pobres, mais desemprego e recessão continuada”.
Dirigindo-se aos votantes do PS, salientou que “aceitar a transferência brutal do ataque ao contribuinte [resultante do choque na competitividade fiscal, proposto no programa de Governo dos sociais-democratas] é “aceitar um ataque às suas famílias, aos seus direitos, aos seus salários”.
O abandono dos reformados foi o argumento que utilizou para pedir o voto aos centristas, acusando-os de “calculismo político” e recordando o congelamento das pensões.
E aos jovens, “sobretudo os abstencionistas”, como realçou, fez questão de recordar a mega-manifestação de 12 de Março: “Se gostaste de 12 de Março, faz o teu 5 de Junho. Mostra o que tens a dizer, por ti e pelos outros.”
É no mínimo desconcertante que FL não interpele os eleitores habituais do PCP no seu apelo ao voto. Apesar de Jerónimo de Sousa ter desdenhosamente acusado ontem o BE de "mania das grandezas", não é provável que a omissão de FL se fique a dever ao facto de considerar que esse eleitorado é tão reduzido que não valha a pena contar com ele. As razões serão outras, como indica o facto de os argumentos que apresenta para a reorientação de voto dos eleitores habituais dos outros partidos, em nada se distinguirem daquelas que o PCP poderia enunciar também. Mas porquê, então, votar no BE em vez de o fazer no PCP? Porquê, então e no limite, não integrar — dissolver — o BE na CDU?
Haverá quem compreenda as razões que levam Louçã a sugerir que nada de fundamental separa o BE e o PCP. De outro ponto de vista, todavia, a omissão, na soma de todas as demais plausíveis razões, das razões de ser da necessidade do BE acaba por equivaler — em termos eleitorais, sem dúvida, mas não só nem principalmente — a uma desrazão suicida.
Adenda (introduzida pelas 17 horas do dia 9.05.2011)
Num dos comentários que escreveu na respectiva caixa deste post a Joana Lopes desafia-me a publicar sob a forma de post as razões de que me vali na discussão com ela. Penso, no entanto, ser preferível deixá-las aqui como adenda, acompanhando-as de uma chamada de atenção para a nossa discussão na caixa de comentários. A resposta aos seus argumentos a que a Joana se refere é, pois, a seguinte:
(…) se me perguntarem em que força será útil votar, tendo presente o que dissemos acima, direi que é no BE. Já o fiz noutras ocasiões. Já apelei ao voto no BE. Por isso mesmo, creio que a diferença que existe, apesar de tudo, entre o BE e o PCP, por um lado, ou entre o BE e o PS, por outro, deve ser defendida ainda que contra (ou sobretudo contra) os responsáveis do movimento que procuram reduzi-la, esbatê-la ou - do seu ponto de vista - superá-la. Por isso, procuro que os meus "ataques" ao BE nunca sejam interpretáveis como absolvições do PCP ou do PS, ao mesmo tempo que procuro, sem ilusões embora, através de uma espécie de "declarações de voto" repetidas, deixar claras por que razões poderá valer a pena apoiar o BE e lutar pela sua própria "democratização" na perspectiva de uma transformação democrática [generalizada] mais ampla.
08/05/11
Que alternativa?
por
Miguel Serras Pereira
Fica-se às vezes com a impressão de que no BE e nos seus arredores há quem pense e queira fazer pensar que a via a seguir (pelo BE ou qualquer movimento alternativo) deverá ser a de se mostrar, como o PCP, mais "radical" do que o PS, e, como o PS, mais "democrático" do que o PCP. O que, salvaguardadas as devidas proporções, é como esperar que da síntese dialéctica entre a peste e a guerra resulte a paz em vez de uma fome mortal.
Não é de uma síntese que temos necessidade se quisermos transformar as relações de poder no sentido da liberdade e da igualdade que se implicam uma à outra através do autogoverno colectivo e da autonomia: igual poder para todos, igual liberdade e responsabilidades iguais. Para isso nem a "democracia" do PS é suficiente, constituindo antes um colete de forças através dos mecanismos da representação estabelecida e da consagração da "independência sistémica" da economia, nem o "radicalismo" do PCP pode constituir mais do que um obstáculo à democratização efectiva do exercício do poder, que só pode começar pela democratização da acção política presente, imediata.
De outro modo, à falta de exercício não tanto de proclamações anticapitalistas como de vontade de democracia, acho que não, que não vamos lá.
Não é de uma síntese que temos necessidade se quisermos transformar as relações de poder no sentido da liberdade e da igualdade que se implicam uma à outra através do autogoverno colectivo e da autonomia: igual poder para todos, igual liberdade e responsabilidades iguais. Para isso nem a "democracia" do PS é suficiente, constituindo antes um colete de forças através dos mecanismos da representação estabelecida e da consagração da "independência sistémica" da economia, nem o "radicalismo" do PCP pode constituir mais do que um obstáculo à democratização efectiva do exercício do poder, que só pode começar pela democratização da acção política presente, imediata.
De outro modo, à falta de exercício não tanto de proclamações anticapitalistas como de vontade de democracia, acho que não, que não vamos lá.
Boas notícias para a "revolta árabe" e mediterrânica e para a oposição iraniana
por
Miguel Serras Pereira
A sinistra ditadura clerical de Teerão parece começar a abrir brechas que poderão multiplicar-se e levar rapidamente a uma situação irreversível, criando condições favoráveis à acção das forças de oposição. Tanto mais que, como se vê pela notícia citada a seguir, as brechas no bloco governamental, além de o dividirem e enfraquecerem, expõem à vista de todos o obscurantismo grotesco da barbárie oligárquico-confessional governante. Em suma, boas notícias para a "revolta árabe" e mediterrânica, na medida em que, entre outros aspectos, o enfraquecimento da oligarquia eclesiástica de Estado de Teerão deixará o regime sírio mais isolado perante a contestação popular.
A luta de poder entre o Presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, e o Supremo Líder, ayatollah Ali Khamenei, parece estar a atingir o apogeu com prisões e acusações de bruxaria, slogans nas orações nas mesquitas e um ultimato.
O motivo imediato do estranhamente público desentendimento entre as duas principais figuras da República Islâmica é o cargo do ministro da Informação e Espionagem, Heydar Moslehi, que foi afastado por Ahmadinejad e recolocado no cargo por Khamenei.
Ahmadinejad ficou então 11 dias sem presidir a reuniões do Governo num aparente protesto, e nas reuniões a que assistiu, o ministro não esteve presente. Agora, segundo relatos de Teerão, o Supremo Líder terá feito um ultimato: ou Ahmadinejad aceita o ministro, ou terá de se demitir.
Embora a composição do Governo seja competência do Presidente, o Supremo Líder é quem tem a última palavra na gestão da República Islâmica. E Khamenei tem vindo nos últimos dias, aparentemente, a mostrar este poder. Primeiro, com a detenção de vários aliados do chefe de gabinete de Ahmadinejad, Esfandiar Rahim Mashaei, acusados de serem “mágicos” e de terem invocado “espíritos”, segundo o diário britânico "The Guardian". Depois, nas orações de sexta-feira, as mais importantes da semana, muitos líderes religiosos sublinharam a importância do Supremo Líder e multidões responderam com cânticos: “Morte aos opositores do Supremo Líder”, descreve o "New York Times".
A luta de poder entre o Presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, e o Supremo Líder, ayatollah Ali Khamenei, parece estar a atingir o apogeu com prisões e acusações de bruxaria, slogans nas orações nas mesquitas e um ultimato.
O motivo imediato do estranhamente público desentendimento entre as duas principais figuras da República Islâmica é o cargo do ministro da Informação e Espionagem, Heydar Moslehi, que foi afastado por Ahmadinejad e recolocado no cargo por Khamenei.
Ahmadinejad ficou então 11 dias sem presidir a reuniões do Governo num aparente protesto, e nas reuniões a que assistiu, o ministro não esteve presente. Agora, segundo relatos de Teerão, o Supremo Líder terá feito um ultimato: ou Ahmadinejad aceita o ministro, ou terá de se demitir.
Embora a composição do Governo seja competência do Presidente, o Supremo Líder é quem tem a última palavra na gestão da República Islâmica. E Khamenei tem vindo nos últimos dias, aparentemente, a mostrar este poder. Primeiro, com a detenção de vários aliados do chefe de gabinete de Ahmadinejad, Esfandiar Rahim Mashaei, acusados de serem “mágicos” e de terem invocado “espíritos”, segundo o diário britânico "The Guardian". Depois, nas orações de sexta-feira, as mais importantes da semana, muitos líderes religiosos sublinharam a importância do Supremo Líder e multidões responderam com cânticos: “Morte aos opositores do Supremo Líder”, descreve o "New York Times".
Portas, O Cruel
por
João Tunes
O antes pouco previsível aconteceu no primeiro debate eleitoral na RTP (sexta à noite): Portas a arrumar Jerónimo, desafinando-lhe a máquina (oratória), com uma pergunta cínica, directa e terminal, sob a forma de convite para que desse um exemplo de sociedade comunista bem sucedida. Não ocorreu ao SG do PCP citar uma das muitas páginas do “Avante” onde se tem vindo a recuperar os velhos mitos da mais velha propaganda pró-soviética. Nem refugiar-se num ditado popular, numa quadra de Aleixo ou num piropo de baile de associação voluntária de bombeiros, artes declamatórias em que é vezeiro. Nada. Pior, quase nada, pois apenas lhe saíram uns murmúrios engasgados. Paulo Portas, cirúrgico, após ter passado o debate a representar a ilustração do seu civismo de “convívio e respeito democrático” com o seu oponente ideológico (a seguir, confessaria na RTP 2 que a estima que tem para com Jerónimo de Sousa é alimentada nas sessões conjuntas de tabagismo nos interregnos parlamentares), decidiu, pois, pegar na adaga no encerramento da conversa. E mostrou, com um cinismo mortífero, que sabe aquilo que Jerónimo de Sousa sabe muito bem de experiência feita e acumulada: - os comunistas são formidáveis a apontarem e a combaterem as chagas do capitalismo onde os trabalhadores sofrem tanto, são tão explorados, que só poderiam piorar de situação caso os comunistas substituissem os capitalistas na direcção da sociedade. Mas pedir a alguém, do proletariado metalúrgico, que assim se confesse é, verdadeiramente, de uma crueldade inaudita.
07/05/11
O Bloco convencional
por
Luis Rainha
Ao acompanhar a Convenção do Bloco, o impensável aconteceu-me: concordei com Gil Garcia. Se o Bloco e o PCP não encontram forma de apresentarem uma alternativa solidária e poderosa nas urnas, averbam um fracasso histórico e decepcionam as expectativas que muitos lhes confiaram.
Por outro lado, uma confirmação: Marisa Matias levou a ligeireza das conversas de café ao palanque, propagando ainda mais as confusões a propósito da Islândia, ao afirmar que «os islandeses souberam dizer 'não' e sentaram-se à mesa com o FMI a renegociar» (cito de memória). Ora o FMI está na Islândia com um pacote de resgate; o que o referendo reafirmou foi a vontade de não pagar as dívidas internacionais de bancos falidos – o BPN deles, a uma escala ainda mais catastrófica. Mas não é a única por ali a alimentar este equívoco; Catarina Martins acaba de tocar na mesma desafinada tecla.
Por outro lado, uma confirmação: Marisa Matias levou a ligeireza das conversas de café ao palanque, propagando ainda mais as confusões a propósito da Islândia, ao afirmar que «os islandeses souberam dizer 'não' e sentaram-se à mesa com o FMI a renegociar» (cito de memória). Ora o FMI está na Islândia com um pacote de resgate; o que o referendo reafirmou foi a vontade de não pagar as dívidas internacionais de bancos falidos – o BPN deles, a uma escala ainda mais catastrófica. Mas não é a única por ali a alimentar este equívoco; Catarina Martins acaba de tocar na mesma desafinada tecla.
O Bloco bloqueado
por
João Tunes
Ouvi o discurso de Louçã no congresso bloquista. Considero um equívoco total a focalização do odioso político-eleitoral em Sócrates. Quando o PSD diz que quer fazer no governo muito pior que a troika, o ordenamento dos alvos do combate não pode deixar de ter isso em conta, não pegando a teoria dos “três iguais” (PS, PSD, CDS) e muito menos uma hierarquização de culpas de pendor essencialmente anti-socialista (exactamente onde se situa o eleitorado flutuante PS/BE, um segmento muito sensível ao apelo do voto útil). Em termos políticos, particularmente em eleições onde se pretende definir linhas para o futuro próximo com uma carga dramática sobreposta, contam muito mais as decisões próximas que os julgamento sobre os caminhos percorridos. Assim, mais que avaliar os culpados de pecados maiores, há que construir projectos, escolher aliados, contornar os perigos maiores. Não perceber isto e apelar contra o voto útil no PS, é dar tiros nos pés enquanto se encomendam sapatos novos.
06/05/11
Apoiar a revolução na Síria
por
Pedro Viana
A repressão do regime sírio está a tornar-se cada vez mais brutal, em resposta à sublevação popular que tem trazido milhões de sírios para as ruas nestes dois últimos meses. Infelizmente, e ao contrário do que aconteceu em outros países da região, o exército sírio parece manter-se unido ao lado do regime, apesar de rumores sobre oficiais e soldados executados por se recusarem a atirar contra manifestantes. Mais uma vez, a reacção internacional é ineficaz, expectante, paralisada por mesquinhos cálculos geo-políticos que colocam a vida, a democracia e a liberdade em segundo plano. Mas cada um de nós pode ajudar, por exemplo respondendo positivamente a este apelo:
O risco da senilidade precoce no Bloco
por
João Tunes
Parece que no Bloco de Esquerda se anda agora a descobrir o perigo do “voto útil” no PS que ameaça penalizar o Bloco e inaugurando a sua regressão eleitoral (pelo menos Rui Tavares e Ana Drago publicitaram esta preocupação). Ou seja, teme-se o “regresso às origens” dos votos que desandaram da banda esquerda do eleitorado tradicional do PS e que, por descontentamento com a viragem centrista socrática, rumaram para o Bloco. Naturalmente que o susto provocado pelo desaforo descontrolado e inepto do PSD que eleitoralmente promete (!) fazer pior e mais gravoso que o FMI tende a encaixar na táctica eleitoral armada por um Sócrates em perda de todo o decoro mas com uma estratégia eleitoral muito bem esgalhada em termos de polarização das culpas. Mas o próprio Bloco em vez de procurar culpas alheias devia repensar os seus disparates políticos, em particular a forma progressiva como tem descaracterizado as suas diferenças e se entranhou num processo de mimetização com o PCP como que em penitência pelo “desvio” da campanha por Alegre (que o PCP retribui, com manha de urso velho, suspendendo as diatribes sectárias dirigidas ao BE mas dando-lhe um papel de mero candidato a futuro Verdes II). A recusa de se encontrar com a “troika”, um acto de radicalidade inteiramente estúpida, foi a demonstração acabada da forma bloquista de se remeter para as margens do jogo político, comprometendo-se na representação da duplicidade democracia/revolução. O Bloco ao querer parecer-se com o PCP perde o apelo da sua marcha de identidade que foi o seu principal património eleitoral, o que liquida o seu papel de depósito de votos volantes (descontentes, de protesto) dos incapazes de hierarquizarem os valores da justiça social e da liberdade. Têm, naturalmente, o direito a sonharem integrar uma “CDU +”. Mas na hora de pedirem contas pelos efeitos do voto útil, não se devem esquecer que há sonhos que matam a vida. Na medida em que a tornam senil sob a forma de doença precoce.
Porque continua a haver vida para lá do FMI
por
Luis Rainha
Por uma questão de liberdade. Ou de bom senso. Ou só porque sim. Mais informações aqui.
O auto-cerco
por
Luis Rainha
Cansado de me queixar da bovinidade de um povo que caminha de cornos baixos para mais 4 anos de matadouro, farto de apontar o dedo aos partidos de esquerda e à forma como persistem em querer despontar quem espera mais deles, decidi uma série de coisas.
Uma delas foi ir ontem à chamada “Acção de Protesto contra as medidas do FMI”, convocada pelo PCP. Sabia que já lá tinha ocorrido uma outra acção similar e que tinha redundado em triste fiasco, por falta de quórum. Vai daí, lá fui fazer número.
E fiz mal. Aquilo não foi um protesto mas sim um encontro de amigos. De sócios de um clube. Quase todos tinham a sua bandeira da CDU. Todos virados para dentro, para o palanque, para longe de quem passava, uns para os outros. É só ver a realização deste clip, já muito gabada no facebook, para se vislumbrar o retrato inteiro de uma esquerda que desistiu de falar para fora. Que já se contenta em abraços mútuos dentro da trincheira, com medo do que haja para lá do horizonte de lama, luta e suor conhecido.
Lá longe, os passantes continuavam a embarcar na estação fluvial como se aquilo nada tivesse a ver com eles. A animação e empenho vinha de uma tuna semi-alcoolizada ali perto. Mais vida só à saída, findo o trabalho, quando se combinavam encontros no Vitória ou junto a uns caracóis. Outras metáforas tristemente adequadas.
Há uns tempos, o PCP só fazia destas coisas a sério. Se era para mobilizar, estaria lá gente, com corpos e mentes alertas e alegres.
Pelo seu lado, o Bloco segue com iniciativas mais viradas para os media, quase desistindo do contacto não-mediado com o eleitor, com gente que até pode ser convencida a votar diferente. Se calhar, antes isso.
Não consigo perceber como chegámos a estes becos sem saída à vista. Mas ainda não desisti de fazer o pouco que conseguir. Nem que seja só para depois não ter de me queixar também de mim. Isto não pode acabar assim.
"Movimento Voluntários Sócrates" (2)
por
Miguel Serras Pereira
O Miguel Madeira já se referiu ao fenómeno dos Voluntários Sócrates 2011: "O futuro do nosso País passa por cada um de nós. Ao registar-se no Movimento Voluntário Sócrates 2011, está a fazer parte da luta pelos ideais socialistas, de forma independente e construtiva. Eu Participo!" Por mim, limito-me aqui a sugerir patrioticamente uma farda, já consagrada pelo tempo e com a vantagem de recuperar para a esquerda moderna a inicial do engenheiro e grande português, inscrevendo-a no fecho do cinturão dos voluntários enquanto insígnia suprapartidária e da mais pura inspiração nacional.
"Movimento Voluntários Sócrates 2011"
por
Miguel Madeira
Confesso que não percebo muito bem se isto é a sério, mas o nome faz-me lembrar isto.
05/05/11
Além dos ímpetos
por
João Tunes
Rui Bebiano:Em quase todo o espectro partidário saltaram os disfarces. A direita que temos, «democrática» e pluralista, deixou cair a verborreia antieuropeísta e os ímpetos «nacionalistas» e ultraliberais que ainda há pouco tempo sobejavam no seu vocabulário. Activamente ou por omissão, tornou-se radical na defesa do intervencionismo externo. A esquerda à esquerda retomou alguns devaneios, queixando-se da crise mas olhando-a ao mesmo tempo como antecâmara da tomada do poder em nome revolta das massas. Por ela, aceita mesmo associar-se àqueles que da democracia apenas têm uma concepção instrumental. Pelo meio, os socialistas tornam-se ainda mais pragmáticos, tudo fazendo, sem disfarce, para conservar o seu núcleo identitário mais essencial: aquele que gere a conservação do poder pelo poder. Lá atrás, e como sempre, só os comunistas permanecem iguais a si próprios, uma vez que nunca procuraram enganar ninguém com apologias de uma «Europa europeia» fundada numa democracia não adjectivada.
Nesta paisagem, a dificuldade está em nos mantermos lúcidos, na claridade, e não nos deixarmos levar pelos ímpetos. Uma vida melhor, mais digna e mais democrática jamais se construirá tomando a linguagem do instinto como princípio de comunicação.
Spin for Dummies
por
Luis Rainha
Com esta malta nunca se sabe; mas isto representa o ponto mais fundo da fossa a que até agora chegaram. O bravo Galamba, por ora ainda deputado, vem explicar às massas porque é que a troika deixou claro que este resgate já foi pedido tarde: trata-se de uma manobra para esconder erros que cometeram na Grécia e na Irlanda.
Claro está que se a troika tem clamado que chegou na hora "H", aí teríamos o mesmo Galamba a bater palmas à assisada perspicácia do governo e dos srs. Kröger e Thomsen.
Como é que uma cabeça assim não chegou a ministro?
Claro está que se a troika tem clamado que chegou na hora "H", aí teríamos o mesmo Galamba a bater palmas à assisada perspicácia do governo e dos srs. Kröger e Thomsen.
Como é que uma cabeça assim não chegou a ministro?
A balada da Mestra André
por
João Tunes
Este é uma espécie de acordo “bem articulado” do ponto de vista sócio-laboral. Garantidos: 1) aumento de desemprego; 2) aumento da precariedade para os “sortudos” que escapam aos 13% dos deserdados laborais; 3) diminuição das prestações de auxílio aos desempregados, no acto de despedimento e durante o desemprego. Tudo a condizer, portanto coerente. Valeu a pena ter uma sindicalista profissional à frente do ministério do trabalho.
A Al Qaeda à cabeça da CIA?
por
Miguel Serras Pereira
Quando, entre vários outros exemplos possíveis, ouvimos o cérebro da CIA propor que se considere a adopção regular da tortura judicial nos EUA, lemos depois versões cada vez mais atabalhoadas da operação que liquidou Bin Laden, somos informados de que não serão divulgadas imagens da morte do "santo guerreiro mártir" para não pôr em perigo a "segurança nacional" americana, e vemos, por fim, anunciar clamorosamente que o soldado que matou Bin Laden será condecorado em segredo — há uma alternativa lógica que parece impor-se: ou a estupidez do governo americano é tão densa que excede de longe todo o poder concentrado da grande potência, ou Leon Panetta é um alto responsável da Al Qaeda, que conseguiu a proeza de acumular essas funções com a de cérebro da CIA. Ressalve-se, contudo, que esta segunda hipótese, a verificar-se, não exclui, mas corrobora os termos da primeira.
Chocante e ameaçador para a "segurança nacional"
por
Miguel Serras Pereira
Serei só eu a achar que muito mais chocante e ameaçador para a "segurança nacional" — entenda-se: do comum dos cidadãos da região portuguesa — do que jamais poderá sê-lo para os Estados Unidos a divulgação ou a não-divulgação das imagens da operação que liquidou Bin Laden, são estas notícias (aqui e aqui) das quais se faz eco este post do José M. Castro Caldas?
Escapa ao entendimento
Não sabem qual é a taxa de juro, mas já deram o seu acordo. Isto é, dizem que sim às condições do empréstimo sem saber sequer se o dito empréstimo pode ou não ser pago.
Escapa ao entendimento
Não sabem qual é a taxa de juro, mas já deram o seu acordo. Isto é, dizem que sim às condições do empréstimo sem saber sequer se o dito empréstimo pode ou não ser pago.
04/05/11
Há 40 anos já os "bons acordos" estabilizadores eram assim
por
Miguel Serras Pereira
Sérgio Godinho - Que bom que é (Sobreviventes 1971)
Se tudo o que se lê ainda espantasse, o que de nós seria?
por
João Tunes
Tarda nada, ainda há umas tantas personagens da esquerda radicalista que morrem de síncope por ternura processual e deontológica pois que a morte de Bin Laden não cumpriu todos os requisitos humanistas, convencionais e da boa justiça. Porque assim sendo, mais valera, segundo elas (as tais personagens), que o sujeito continuasse a matar a esmo cumprindo a única lei que respeitava e cumpria – a do ódio corânico segundo interpretação sua. Ou seja, cada qual com suas leis, costumes e obrigações. Não há pachorra para o tremendismo evangélico dos “justos” radicalizados (quando lhes convém). São os inocentes cínicos, perigosos numa parte das vezes.
O mal de Sócrates é contagioso?
por
João Tunes

Que espécie é esta, a usada pelo PCP, de objectividade pragmática própria dos materialistas hábeis e dialécticos, quando se propõem como alternativas ao castigo da austeridade aumentos de salários e pensões e da “produção nacional” (como ouvi ontem pela boca de Francisco Lopes)? Isto é eleitoralismo bacoco ou mera descida à esquizofrenia de tipo marxista-leninista?
03/05/11
Desvergonha inaudita
por
João Tunes
"Vitórias de Bin Laden"
por
Miguel Serras Pereira
O Ricardo Alves publicou, no Esquerda Republicana, uma notabilíssima síntese sobre a biografia política de Bin Laden. Recomendando a sua leitura, sublinho sobretudo a passagem abaixo transcrita, que diz o essencial do que há a dizer sobre certas vitórias estratégicas do "santo guerreiro mártir", como lhe chama o Hamas —, vitórias que a sua morte não basta para anular, se é que as circunstâncias daquela e a recepção/comunicaçãodo "feito" por parte das autoridades ocidentais as não consolida.
Bin Laden teve as suas vitórias. Pretendia polarizar o mundo entre uma revolta islamista e as democracias europeias, e a sua estratégia passava por arrastar estas para a guerra, os assassinatos arbitrários e a violência sobre civis. Em parte, conseguiu o que queria: as democracias da Europa e dos EUA rebaixaram-se ao voltarem a legitimar a prática da tortura, ao invadir Estados muçulmanos sem mandato legal, e ao vigiarem cidadãos que não cometeram qualquer crime mas são muçulmanos. Que Barack Obama diga que se «fez justiça» (sem julgamento) é um sintoma do recuo civilizacional que Ossama logrou: um verdadeiro sinal de superioridade civilizacional seria tê-lo preso e julgado (o que nem sequer foi tentado). A sua herança, para nós europeus, inclui também o poder imenso que os serviços ditos «de informações» reuniram nesta década: existem mais pessoas e meios envolvidos na vigilância dos cidadãos das democracias do que acontecia durante a «guerra fria». E, igualmente assustador, parece haver hoje menos resistência à intrusão do Estado policial na vida privada do que havia nessa época.
Bin Laden teve as suas vitórias. Pretendia polarizar o mundo entre uma revolta islamista e as democracias europeias, e a sua estratégia passava por arrastar estas para a guerra, os assassinatos arbitrários e a violência sobre civis. Em parte, conseguiu o que queria: as democracias da Europa e dos EUA rebaixaram-se ao voltarem a legitimar a prática da tortura, ao invadir Estados muçulmanos sem mandato legal, e ao vigiarem cidadãos que não cometeram qualquer crime mas são muçulmanos. Que Barack Obama diga que se «fez justiça» (sem julgamento) é um sintoma do recuo civilizacional que Ossama logrou: um verdadeiro sinal de superioridade civilizacional seria tê-lo preso e julgado (o que nem sequer foi tentado). A sua herança, para nós europeus, inclui também o poder imenso que os serviços ditos «de informações» reuniram nesta década: existem mais pessoas e meios envolvidos na vigilância dos cidadãos das democracias do que acontecia durante a «guerra fria». E, igualmente assustador, parece haver hoje menos resistência à intrusão do Estado policial na vida privada do que havia nessa época.
Tempo dos idiotas úteis
por
João Tunes

Tropeço nos outdoors plantados a esmo com publicidade a uma bebida alcoólica e que usam expressões de curta vista e ínfimo discernimento atribuídas a um antigo futebolista de raciocínio histriónico e que dá a cara aos disparates. Fico a pensar em como a crise é larga pois já há sujeitos a venderem papéis de idiotas públicos para arrecadarem uns cobres.
O Terrorista está morto, viva o Terrorista?
por
Luis Rainha
Desde Kantorowicz que conhecemos bem o significado da famosa exortação «Le Roi est mort, vive le Roi!» O Rei é muito mais do que um corpo; nele reside, enquanto respira, a Dignitas, a realeza eterna, a soberania que não conhece interregnos nem se sujeita às leis da morte. Um Rei morre, outro Rei dá o seu corpo ao trono. No final do século XV, o funeral de Carlos VIII já terminou com o regresso triunfal a Paris de uma sua efígie, representando precisamente a continuidade da Dignitas real.
A morte de Bin Laden parece investida, dir-se-ia de propósito, destes mesmos paramentos simbólicos. A exposição indigna do corpo (quem não se lembra do cadáver de Savimbi entregue às moscas e aos olhos dos incréus?) seria a estratégia óbvia para se reduzir a autoridade do inimigo morto à terrena auctoritas de que nos fala Agamben, o carisma finito, contingente e mortal. Mas o que o mundo recebeu foi apenas uma fotografia falsificada, uma efígie tosca e despida do poder de simulacro consensual das representações coalescentes com a realidade.
O corpo de Osama terá sido entregue ao mar, restando em milhões de ecrãs – e incontáveis imaginações – as imagens, o espírito do terrorista imparável, do jihadista com capacidades de camuflagem sobre-humanas, do símbolo esquivo e sempiterno. Multiplicando-se já as questões sem resposta à vista, que efeito terá este reconhecimento implícito da Dignitas de Bin Laden? Teremos mil candidatos a Rei, erguendo-se de madraçais, palácios sauditas, medinas esquálidas? Ou estaremos nos primeiros dias de um novo mito da Ascenção, em que a carne do soberano se dilui no ar, contaminando o mundo, infundindo nos seus súbditos um renovado alento para a luta?
Talvez ele já tivesse morrido há muito, talvez até de doença. E talvez os EUA tenham mesmo decidido agora que este papão já não prestava, como fizeram as FAPLA há uns anos, sendo hora de encenar a sua morte. Mas já deviam ter aprendido – com as asneiras dos romanos – que é má ideia perder os santos cadáveres dos reis inimigos.
A morte de Bin Laden parece investida, dir-se-ia de propósito, destes mesmos paramentos simbólicos. A exposição indigna do corpo (quem não se lembra do cadáver de Savimbi entregue às moscas e aos olhos dos incréus?) seria a estratégia óbvia para se reduzir a autoridade do inimigo morto à terrena auctoritas de que nos fala Agamben, o carisma finito, contingente e mortal. Mas o que o mundo recebeu foi apenas uma fotografia falsificada, uma efígie tosca e despida do poder de simulacro consensual das representações coalescentes com a realidade.
O corpo de Osama terá sido entregue ao mar, restando em milhões de ecrãs – e incontáveis imaginações – as imagens, o espírito do terrorista imparável, do jihadista com capacidades de camuflagem sobre-humanas, do símbolo esquivo e sempiterno. Multiplicando-se já as questões sem resposta à vista, que efeito terá este reconhecimento implícito da Dignitas de Bin Laden? Teremos mil candidatos a Rei, erguendo-se de madraçais, palácios sauditas, medinas esquálidas? Ou estaremos nos primeiros dias de um novo mito da Ascenção, em que a carne do soberano se dilui no ar, contaminando o mundo, infundindo nos seus súbditos um renovado alento para a luta?
Talvez ele já tivesse morrido há muito, talvez até de doença. E talvez os EUA tenham mesmo decidido agora que este papão já não prestava, como fizeram as FAPLA há uns anos, sendo hora de encenar a sua morte. Mas já deviam ter aprendido – com as asneiras dos romanos – que é má ideia perder os santos cadáveres dos reis inimigos.
Anjo ou Demónio?
por
Miguel Serras Pereira
Perfeita, uma vez mais, a crónica de Manuel António Pina no JN sobre as reacções pastorais de diversos guias dos crentes à morte de Bin Laden. Aqui fica na íntegra, com a devida vénia:
A morte de bin Laden (alguns noticiários referiam-se ontem cepticamente à "alegada morte de bin Laden"), a fotografia manipulada que circulou na Net, a estranha história do corpo lançado ao mar e, sobretudo, a decepção que o anúncio dessa morte provocou nas hostes do antiamericanismo primário, simétrica da euforia acrítica das hostes do americanismo primário, já estão a dar pano para mangas aos vivaços locais e internacionais das teorias da conspiração.
À míngua de "provas científicas" como as que irrefutavelmente demonstram que foram a CIA e a Mossad os autores dos atentados contra as Torres Gémeas (tudo, aliás, como vem nos "Protocolos dos sábios do Sião"), as explicações do que "verdadeiramente" terá acontecido ficam-se, para já, pelo engenho elucubrativo, e vão desde o óbvio facto de bin Laden nunca ter existido até à constatação, não menos óbvia, de que era um agente sionista.
Há também quem esteja sinceramente convencido de que irá ressuscitar ao terceiro dia, se calhar sob a forma de bebé bombista suicida como o que o Hamas mostrou à imprensa em 2002, ou que a sua morte é o tão esperado milagre que promoverá João Paulo II a santo.
Isto enquanto em Nova Iorque e Washington se festeja nas ruas como, em 11 de Setembro de 2001, se festejou nas ruas de Ramallah, menos os tiros para o ar.
Talvez o mundo (ou, vá lá, meio mundo) não esteja maluco mas sim quem acha que meio mundo está maluco.
A morte de bin Laden (alguns noticiários referiam-se ontem cepticamente à "alegada morte de bin Laden"), a fotografia manipulada que circulou na Net, a estranha história do corpo lançado ao mar e, sobretudo, a decepção que o anúncio dessa morte provocou nas hostes do antiamericanismo primário, simétrica da euforia acrítica das hostes do americanismo primário, já estão a dar pano para mangas aos vivaços locais e internacionais das teorias da conspiração.
À míngua de "provas científicas" como as que irrefutavelmente demonstram que foram a CIA e a Mossad os autores dos atentados contra as Torres Gémeas (tudo, aliás, como vem nos "Protocolos dos sábios do Sião"), as explicações do que "verdadeiramente" terá acontecido ficam-se, para já, pelo engenho elucubrativo, e vão desde o óbvio facto de bin Laden nunca ter existido até à constatação, não menos óbvia, de que era um agente sionista.
Há também quem esteja sinceramente convencido de que irá ressuscitar ao terceiro dia, se calhar sob a forma de bebé bombista suicida como o que o Hamas mostrou à imprensa em 2002, ou que a sua morte é o tão esperado milagre que promoverá João Paulo II a santo.
Isto enquanto em Nova Iorque e Washington se festeja nas ruas como, em 11 de Setembro de 2001, se festejou nas ruas de Ramallah, menos os tiros para o ar.
Talvez o mundo (ou, vá lá, meio mundo) não esteja maluco mas sim quem acha que meio mundo está maluco.
02/05/11
Maria Natália Duarte Silva Teotónio Pereira (1930-1971)
por
Miguel Serras Pereira
A Joana Lopes fez-me chegar, pedindo a sua divulgação, o seguinte texto de evocação e mais do que justa homenagem a Natália Duarte Silva (Teotónio Pereira), que também pode ser lido no Brumas. Aqui fica, pois, o texto e o agradecimento à Joana pela boa lembrança.
Como indicado no convite das Edições Afrontamento, será lançado, no próximo Sábado, em Lisboa, Obra Poética de Maria Natália Duarte Silva (Teotónio Pereira).
Se, para muitos, o nome da autora dispensa apresentações, é natural que outros, sobretudo entre os mais novos, precisem de algumas referências, já que ela nos deixou há quarenta anos. Resumo por isso, com algumas modificações, um texto que escrevi há cerca de três anos.
Maria Natália Duarte Silva Teotónio Pereira, originária de uma família burguesa típica, nunca aceitou os valores ditos tradicionais que quiseram impor-lhe. Casou-se pela primeira vez, aos dezasseis anos, com Jaime Salazar Sampaio, e fez então parte de uma roda de artistas e intelectuais (que incluía, por exemplo, Luiz Pacheco).
Divorciou-se alguns anos mais tarde e voltou a casar-se, em 1951, com Nuno Teotónio Pereira - ela agnóstica e ele católico, numa igreja, mas com ritual próprio para situações deste tipo. Como não é difícil imaginar, foi muito negativa a reacção da tradicionalíssima família Teotónio Pereira ao ver um dos seus membros casar com uma jovem divorciada e não católica. Natália viria a converter-se, mais tarde, ao catolicismo.
Concretamente por influência da campanha de Humberto Delgado, e de todo o ambiente criado na sociedade portuguesa, e já integrada nas iniciativas dos católicos que entraram então num novo ciclo na oposição ao Estado Novo, passou a uma fase de grande actividade e teve mesmo um papel decisivo na evolução política do marido.
Sobretudo a partir dos primeiros anos da década de 60, Natália e Nuno foram os grandes impulsionadores de grande parte das iniciativas dos chamados «católicos progressistas» – muitas não teriam pura e simplesmente existido, ou não teriam tido a amplitude que tiveram, sem o empenhamento e a liderança de ambos. Com uma saúde sempre débil, a sua acção exercia-se muitas vezes discretamente na retaguarda, mas com uma eficácia, um espírito combativo e uma tenacidade absolutamente notáveis.
Entre as numerosas actividades em que esteve envolvida, podem destacar-se o jornal clandestino Direito à Informação, a fundação da Pragma, o jornal clandestino Igreja Presente, o Manifesto dos 101 (importante abaixo-assinado de católicos sobre a farsa eleitoral em 1965), a vigília pela paz na igreja de S. Domingos (durante toda a madrugada do 1º de Janeiro de 1969), a Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos (da qual foi, juntamente com Maria Eugénia Varela Gomes e Cecília Areosa Feio, uma das impulsionadoras), os cadernos GEDOC, os Sete Cadernos sobre a guerra colonial (publicados, depois do 25 de Abril, pela editora Afrontamento, com o título Colonialismo e Lutas e Libertação), o apoio na saída a salto, de desertores e de refractários, a partir da casa de férias em Marvão.
Tudo isto acontecia mais ou menos em paralelo, envolvendo muitas pessoas, muitas cautelas em termos de clandestinidade, muitos sustos, muita solidariedade. Na linha da frente ou na retaguarda, toda a gente sabia – mesmo quando não podia ser dito – que a Natália estava envolvida.
Mantinha contactos estreitos e frequentes com perseguidos pela PIDE ou pelo Patriarcado, nomeadamente padres católicos, entre os quais: D. António Ferreira Gomes, bispo do Porto; Pe. Joaquim Pinto de Andrade e restantes padres angolanos deportados para Portugal, entre os quais o futuro cardeal de Luanda Alexandre Nascimento; Pe. Adriano Botelho, pároco e Alcântara e de S. João de Brito, exilado para a Patagónia pelo Cardeal Cerejeira; Pe. António Jorge Martins, obrigado a ir estudar para França pelo mesmo cardeal; Pe. Abel Varzim; Pe. Alberto Neto; Pe. Mário de Oliveira, preso por duas vezes e julgado em Tribunal Plenário; Pe. José da Felicidade Alves, demitido de pároco dos Jerónimos e impulsionador dos cadernos GEDOC.
Publicou um livro de poemas Mão Aberta (1963) e Em Verdade Vos Digo (1964). Lançou uma colecção para a juventude – Nosso Mundo – em colaboração com Sophia de Mello Breyner Andersen e Madalena Férin, na qual foram publicados dez títulos.
Ao longo desses anos de luta, defrontou-se sempre com problemas de saúde, chegando a estar internada num hospital de Paris. Mas, entretanto, empenhava-se com a maior dedicação na resolução dos problemas familiares, na educação dos filhos e no cultivo das amizades.
Morreu com 40 anos e não chegou a ver o 25 de Abril. Não resistiu ao fim de uma gravidez difícil, passada quase sempre em repouso absoluto (o que não impediu a PIDE de então a visitar e interrogar formalmente).
É doloroso lembrar a vigília que precedeu o enterro da Natália e da Catarina que não chegou a nascer, mas é impossível não a referir. Quarenta anos depois, é ainda recordada, com um arrepio, por todos os que viveram naquela noite um drama em que não queriam ainda acreditar.
,
Como indicado no convite das Edições Afrontamento, será lançado, no próximo Sábado, em Lisboa, Obra Poética de Maria Natália Duarte Silva (Teotónio Pereira).
Se, para muitos, o nome da autora dispensa apresentações, é natural que outros, sobretudo entre os mais novos, precisem de algumas referências, já que ela nos deixou há quarenta anos. Resumo por isso, com algumas modificações, um texto que escrevi há cerca de três anos.
Maria Natália Duarte Silva Teotónio Pereira, originária de uma família burguesa típica, nunca aceitou os valores ditos tradicionais que quiseram impor-lhe. Casou-se pela primeira vez, aos dezasseis anos, com Jaime Salazar Sampaio, e fez então parte de uma roda de artistas e intelectuais (que incluía, por exemplo, Luiz Pacheco).
Divorciou-se alguns anos mais tarde e voltou a casar-se, em 1951, com Nuno Teotónio Pereira - ela agnóstica e ele católico, numa igreja, mas com ritual próprio para situações deste tipo. Como não é difícil imaginar, foi muito negativa a reacção da tradicionalíssima família Teotónio Pereira ao ver um dos seus membros casar com uma jovem divorciada e não católica. Natália viria a converter-se, mais tarde, ao catolicismo.
Concretamente por influência da campanha de Humberto Delgado, e de todo o ambiente criado na sociedade portuguesa, e já integrada nas iniciativas dos católicos que entraram então num novo ciclo na oposição ao Estado Novo, passou a uma fase de grande actividade e teve mesmo um papel decisivo na evolução política do marido.
Sobretudo a partir dos primeiros anos da década de 60, Natália e Nuno foram os grandes impulsionadores de grande parte das iniciativas dos chamados «católicos progressistas» – muitas não teriam pura e simplesmente existido, ou não teriam tido a amplitude que tiveram, sem o empenhamento e a liderança de ambos. Com uma saúde sempre débil, a sua acção exercia-se muitas vezes discretamente na retaguarda, mas com uma eficácia, um espírito combativo e uma tenacidade absolutamente notáveis.
Entre as numerosas actividades em que esteve envolvida, podem destacar-se o jornal clandestino Direito à Informação, a fundação da Pragma, o jornal clandestino Igreja Presente, o Manifesto dos 101 (importante abaixo-assinado de católicos sobre a farsa eleitoral em 1965), a vigília pela paz na igreja de S. Domingos (durante toda a madrugada do 1º de Janeiro de 1969), a Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos (da qual foi, juntamente com Maria Eugénia Varela Gomes e Cecília Areosa Feio, uma das impulsionadoras), os cadernos GEDOC, os Sete Cadernos sobre a guerra colonial (publicados, depois do 25 de Abril, pela editora Afrontamento, com o título Colonialismo e Lutas e Libertação), o apoio na saída a salto, de desertores e de refractários, a partir da casa de férias em Marvão.
Tudo isto acontecia mais ou menos em paralelo, envolvendo muitas pessoas, muitas cautelas em termos de clandestinidade, muitos sustos, muita solidariedade. Na linha da frente ou na retaguarda, toda a gente sabia – mesmo quando não podia ser dito – que a Natália estava envolvida.
Mantinha contactos estreitos e frequentes com perseguidos pela PIDE ou pelo Patriarcado, nomeadamente padres católicos, entre os quais: D. António Ferreira Gomes, bispo do Porto; Pe. Joaquim Pinto de Andrade e restantes padres angolanos deportados para Portugal, entre os quais o futuro cardeal de Luanda Alexandre Nascimento; Pe. Adriano Botelho, pároco e Alcântara e de S. João de Brito, exilado para a Patagónia pelo Cardeal Cerejeira; Pe. António Jorge Martins, obrigado a ir estudar para França pelo mesmo cardeal; Pe. Abel Varzim; Pe. Alberto Neto; Pe. Mário de Oliveira, preso por duas vezes e julgado em Tribunal Plenário; Pe. José da Felicidade Alves, demitido de pároco dos Jerónimos e impulsionador dos cadernos GEDOC.
Publicou um livro de poemas Mão Aberta (1963) e Em Verdade Vos Digo (1964). Lançou uma colecção para a juventude – Nosso Mundo – em colaboração com Sophia de Mello Breyner Andersen e Madalena Férin, na qual foram publicados dez títulos.
Ao longo desses anos de luta, defrontou-se sempre com problemas de saúde, chegando a estar internada num hospital de Paris. Mas, entretanto, empenhava-se com a maior dedicação na resolução dos problemas familiares, na educação dos filhos e no cultivo das amizades.
Morreu com 40 anos e não chegou a ver o 25 de Abril. Não resistiu ao fim de uma gravidez difícil, passada quase sempre em repouso absoluto (o que não impediu a PIDE de então a visitar e interrogar formalmente).
É doloroso lembrar a vigília que precedeu o enterro da Natália e da Catarina que não chegou a nascer, mas é impossível não a referir. Quarenta anos depois, é ainda recordada, com um arrepio, por todos os que viveram naquela noite um drama em que não queriam ainda acreditar.
,
Um remake patriótico e de esquerda do caldeirão de Freud
por
Miguel Serras Pereira
Absolutamente a não perder nem a leitura de O Embuste da Década, que Pedro Penilo publica no 5dias, nem as explanações e reforços da tese do neo-sebastianista patriótico e de esquerda que se desenrolam na caixa de comentários do mesmo post. Apesar de algumas vozes heroicamente desafinadas que sabotam o efeito de tomada de consciência visado pela denúncia desse embuste que é a notícia da Morte de Bin Laden, os argumentos do coro constituem um brilhante remake anti-imperialista da história do caldeirão que Freud conta para ilustrar o modo de funcionamento do pensamento desejante. E são, em síntese, qualquer coisa como o que me atrevo a resumir com o simples intuito de exortar mais vivamente à sua leitura.
1. Bin Laden está vivo e voltará numa manhã de nevoeiro, porque os Estados Unidos não o mataram ao contrário do que a sua propaganda afirma.
2. Bin Laden foi assassinado por agentes dos Estados Unidos porque, embora seu destacado agente sionista, deixou de lhes ser útil e passou a representar um encargo inútil e comprometedor.
3. É um embuste dizer que Bin Laden foi morto, quando não foi nem podia sê-lo: com efeito, ainda que esteja por provar que não continua vivo, a verdade é que nunca existiu e foi sempre uma invenção do imperialismo, utilizada para ocultar a autoria norte-americana dos atentados que a Mossad levou a cabo no 11 de Setembro.
1. Bin Laden está vivo e voltará numa manhã de nevoeiro, porque os Estados Unidos não o mataram ao contrário do que a sua propaganda afirma.
2. Bin Laden foi assassinado por agentes dos Estados Unidos porque, embora seu destacado agente sionista, deixou de lhes ser útil e passou a representar um encargo inútil e comprometedor.
3. É um embuste dizer que Bin Laden foi morto, quando não foi nem podia sê-lo: com efeito, ainda que esteja por provar que não continua vivo, a verdade é que nunca existiu e foi sempre uma invenção do imperialismo, utilizada para ocultar a autoria norte-americana dos atentados que a Mossad levou a cabo no 11 de Setembro.
O que vi em Setúbal durante a manifestação anti-capitalista do 1º de Maio
por
Ricardo Noronha
Estive ontem em Setúbal e pude testemunhar pessoalmente (e até de bastante próximo) os acontecimentos no bairro da Fonte Nova. Para não variar, a PSP está a fabricar novamente uma versão à sua conveniência, somando vários pontos ao seu conto, de maneira a transformar a sua violência repressiva num gesto de defesa dos cidadãos.
A primeira coisa que deve ser destacada é que a manifestação - cerca de centena e meia de pessoas - percorreu toda a cidade sem qualquer incidente, sendo apoiada e saudada por vários setubalenses pelos quais passou e que receberam com interesse os panfletos distribuídos. Apesar de não ser acompanhada por qualquer agente da polícia, todos os automobilistas foram pacientes e respeitadores do direito de manifestação, aguardando enquanto o cortejo passava e demonstrando por vezes o seu apoio às palavras de ordem e às faixas. O mesmo aconteceu com os vários proprietários de restaurantes e cafés localizados no bairro da Fonte Nova, inclusive os que estavam no largo onde tudo viria a acontecer.
A segunda coisa que deve ser destacada é que a manifestação coincidiu com a da CGTP em parte do percurso, aguardando que o desfile sindical passasse para assumir posição na sua cauda. Cada um dos cortejos gritou as suas palavras de ordem (que eram, naturalmente, muito diferentes) sem qualquer tipo de incidente ou hostilidade a assinalar.
Após algumas centenas de metros na cauda da manifestação da CGTP, da qual estava separada apenas por um cordão de agentes da PSP (cerca de 5), a manifestação anti-autoritária seguiu um rumo diferente, em direcção ao bairro da Fonte Nova, uma das zonas da cidade mais carregadas de memória histórica pelas lutas operárias de vários anos. Mais uma vez, e apesar de não haver qualquer agente da PSP nas imediações, a manifestação prosseguiu o seu rumo pacífico e combativo, gritando palavras de ordem e comunicando com a população e os transeuntes. Após cerca de duas horas, chegou ao Largo da Fonte Nova, onde foi ligada uma aparelhagem sonora na parte de trás de um carro. Tocava Zeca Afonso.
O pessoal dispersou pelo largo e pelas ruas à volta, a conviver. Não houve qualquer dano a qualquer tipo de propriedade, nenhum conflito com os moradores. Aliás, não chegámos a estar ali mais do que vinte minutos.
Chegou um carro com dois polícias (talvez fossem mais, mas só dois se aproximaram), que solicitaram que o volume fosse reduzido, o que aconteceu. Na conversa que se seguiu, enquanto um dos polícias pediu a uma das pessoas que estava junto do carro que se identificasse, o outro começou a ordenar às outras pessoas que se afastassem. Quando a pessoa que estava junto do carro respondeu que não tinha identificação, o agente em questão imediatamente a agarrou e lhe disse que tinha de ir à esquadra.
Quem estava à volta teve apenas tempo para se aproximar para perguntar o que se passava, uma vez que no espaço de 30 segundo chegou uma carrinha, de onde saíram meia dúzia de agentes que começaram a disparar tiros de caçadeira. Repito, chegaram a alta velocidade, pararam, saíram e dispararam. Várias pessoas foram atingidas pelo que se veio a revelar serem tiros de borracha (aqueles mesmos que tiraram um olho a um adepto do Benfica há duas semanas). Foram disparados para o ar tiros de pistola de fogo real.
Começaram a chegar vários carros da PSP, enquanto os agentes no local aproveitaram a surpresa para isolar cerca de 3 ou 4 manifestantes (o primeiro, que não tinha identificação, e mais alguns que se aproximaram ), que começaram a espancar no chão enquanto lhes atiravam gás pimenta para os olhos. Perante este cenário, os restantes manifestantes avançaram, puxaram os que estavam a ser espancados, defenderam-se da melhor maneira possível e recuaram para o outro lado do Largo. Quando a polícia resolveu continuar a investida, foi recebida por uma chuva de pedras e garrafas. Alguns manifestantes pegaram em chapéus e mesas de uma esplanada vizinha, para se defenderem. Um carro da PSP que chegou a alta velocidade foi embater numa carrinha de um morador/comerciante que ali estava estacionada, danificando-a. Para trás ficou o indivíduo que vem aparecendo em várias fotografias e que quase ninguém conhecia. Várias testemunhas afirmam que ele foi baleado no chão com uma caçadeira, quando já estava detido pela polícia.
O resto da manifestação dispersou em pequenos grupos, que foram literalmente "caçados" pelas ruas de Setúbal, onde continuaram a ser disparados tiros de borracha e efectuadas detenções com grande aparato, para estupefacção da população que passava e assistia a polícias sem identificação que ameaçavam, insultavam e empurravam todos os que tinham um ar suspeito. A senhora da PSP que parecia coordenar as operações deu indicações pela rádio segundo as quais deveriam ser detidas todas as pessoas que usassem "roupa preta" ou tivessem um "aspecto esquisito". Alguns manifestantes foram detidos dentro de cafés e metodicamente espancados dentro da carrinha antes de serem conduzidos à esquadra.
Testemunhei tudo o que relato em pessoa, com excepção do que aconteceu após a carga inicial, quando toda a gente dispersou em pequenos grupos pela cidade. Pude em todo o caso ver as marcas deixadas pela PSP nos corpos de vários manifestantes (e não só, muitos moradores também apanharam simplesmente por terem vindo à rua tentar acalmar a polícia) e cruzar diversos relatos e versões que se confirmam mutuamente.
A polícia mente quando afirma que foi recebida à pedrada e mente de forma descarada quando refere comportamentos impróprios por parte dos manifestantes. Tal como no 25 de Abril de 2007 fomos premiados com a notícia de montras estragadas e cocktails molotovs que ninguém chegou a ver, no 1º de Maio de 2011 a PSP procura inverter as responsabilidades pelos acontecimentos, escrevendo um romance policial de escassa qualidade.
Tornou-se um hábito a polícia responder com bastonadas às ideias que considera perigosas e subversivas. Que tenha passado às balas demonstra apenas a sua desesperada lucidez. Nos conturbados tempos que correm - quando se prepara um gigantesco roubo organizado aos trabalhadores e aos pobres a pretexto da crise - até os mais pequenos gestos de revolta e recusa podem assumir proporções inesperadas. Sem legitimidade nem representatividade nem soberania, o Estado português demonstra que lhe resta apenas um aparelho de violência para lançar sobre os que se organizam para lutar. Cem anos depois dos tiros da GNR sobre operárias grevistas, naquelas mesmas ruas de Setúbal, a oligarquia que governa demonstra não ter aprendido nada nem esquecido nada. O que se passou naquelas ruas tem como alvo todos aqueles que não aceitam submeter-se e resignar-se perante a escandalosa jogada mafiosa da classe dominante portuguesa. Todos os que dizem não. Todos os que se cansaram de assistir ao jogo e decidiram começar a jogar.
Etiquetas:
1º de Maio,
confrontos,
libertários,
Lutas sociais,
repressão policial,
Setúbal
Os porcos servem para engordar bancos
por
Pedro Viana
Nunca tinha sido dito de forma tão explícita:
O comissário europeu da Economia e Finanças, o finlandês Olli Rehn, discorda dos críticas que dizem que a estratégia de gestão da crise na Grécia está a falhar e opõe-se à reestruturação da dívida: “Discordo desta análise. O objectivo da estratégia tem sido prevenir a repetição de uma paragem cardíaca no mercado financeiro como a que sucedeu à falência do Lehman Brothers em Setembro de 2008."
Sacrificar os PIGS para salvar os bancos.
O comissário europeu da Economia e Finanças, o finlandês Olli Rehn, discorda dos críticas que dizem que a estratégia de gestão da crise na Grécia está a falhar e opõe-se à reestruturação da dívida: “Discordo desta análise. O objectivo da estratégia tem sido prevenir a repetição de uma paragem cardíaca no mercado financeiro como a que sucedeu à falência do Lehman Brothers em Setembro de 2008."
Sacrificar os PIGS para salvar os bancos.
Liberais bestiais
por
Ricardo Noronha
Afinal Guantanamo serve para alguma coisa.
publicado por Nuno Gouveia às 11:29
link | o fernando albino escreveu um post
publicado por Nuno Gouveia às 11:29
link | o fernando albino escreveu um post
Espero que o Nuno Gouveia seja um pouco mais urbano do que o Jacinto Bettencourt na resposta a quem o interpela (e, já agora, que tenha hábitos de diversão nocturna um pouco mais saudáveis). Assim de repente, parece-me que este post caminha no sentido de justificar a prática da tortura, a detenção extra-judicial e a deportação secreta - bem como, naturalmente, o fenómeno concentracionário propriamente dito - com o argumento de que tudo isso "serve para alguma coisa".
Percebe-se o fascínio pelo "utilitário", mas note-se que o argumento mais sério contra a tortura nunca foi o de que ela não serve para nada. Pelo contrário, serve para imensas coisas, entre as quais providenciar todo o tipo de informações: as verdadeiras, as menos verdadeiras e as que o interrogador sopra ao ouvido do interrogado pouco antes de lhe arrancar as unhas. Guantánamo "serve para alguma coisa", da mesma maneira que Abu Ghraib "serve para alguma coisa", disparar sobre pessoas desarmadas "serve para alguma coisa" e bombardear populações civis "serve para alguma coisa". No limite, a barbárie, a crueldade e o horror, tudo isso "serve para alguma coisa". Só falta dizer a quem serve.
Lambe-botas
por
Pedro Viana
O Governo português, através do Ministério dos Negócios Estrangeiros, felicitou esta manhã o "êxito da missão que provocou a morte de Osama Bin Laden".
Desde quando Portugal defende a pena de morte, seja para quem fôr? O resto já foi dito pelo Zé Neves.
Dizer nada, mas dizê-lo de forma ponderosa
por
Luis Rainha
Segundo consta, Paula Teixeira da Cruz existe mesmo. E passa por uma importante reserva do PSD. Até há quem lhe empreste microfones para perorar sobre isto, aquilo e tudo o mais.
O problema é que a senhora não tem absolutamente nada para dizer. Por exemplo, ouvi-la hoje a despejar banalidades, platitudes e lugares-comuns sobre a morte de Bin Laden – e procurar ali conteúdo – é peneirar o vácuo. O "fundamentalismo", a "muita miséria" que estará no centro da propagação do terrorismo islamita (claro, é só reparar na origem humilde do defunto e dos envolvidos no 11 de Setembro) e, acima de tudo, a premente necessidade de "ir ao fundo" e olhar de "forma profunda" as raízes da coisa. Nem um grama de ideia, pensamento ou reflexão. Nada a não ser o tom de voz urgente e importante; como se a dar razão à cantiga: «Fate doesn't hang on a wrong or right choice; Fortune depends on the tone of your voice.» Só mesmo um país em extinção para dar ouvidos a gente assim.
O problema é que a senhora não tem absolutamente nada para dizer. Por exemplo, ouvi-la hoje a despejar banalidades, platitudes e lugares-comuns sobre a morte de Bin Laden – e procurar ali conteúdo – é peneirar o vácuo. O "fundamentalismo", a "muita miséria" que estará no centro da propagação do terrorismo islamita (claro, é só reparar na origem humilde do defunto e dos envolvidos no 11 de Setembro) e, acima de tudo, a premente necessidade de "ir ao fundo" e olhar de "forma profunda" as raízes da coisa. Nem um grama de ideia, pensamento ou reflexão. Nada a não ser o tom de voz urgente e importante; como se a dar razão à cantiga: «Fate doesn't hang on a wrong or right choice; Fortune depends on the tone of your voice.» Só mesmo um país em extinção para dar ouvidos a gente assim.
Um milhão depois
por
Zé Neves
Tinha o maior deprezo político possível pela figura de Bin Laden. E acho que o anti-americanismo é, por inúmeras razões, um caminho errado. Mas é também com algum pavor que vejo na televisão imagens de cidadãos norte-americanos a celebrarem o assassinato de Bin Landen ao mesmo tempo que cantam o hino do seu país. Bin Laden foi morto numa operação liderada directamente por Obama. Bin Laden foi morto, ao que parece, para fazer cumprir a promessa de dar a reposta devida aos ataques de 11 de Setembro. O mais de milhão de mortos das guerras do Iraque e do Afeganistão foi apenas e só o tempo de um pequeno atalho que a humanidade teve que atravessar para chegarmos a este dia de sol, de luz e de esperança, dizem. Espera-se agora que haja por aí um qualquer adiantado mental que decida mandar uma bomba atómica sobre o Texas para ver se no fim da jornada podemos também declarar a morte de George W. Bush. Com as felicitações do governo português, claro.
ps : pior do que o anti-americanismo primário, só mesmo o americanismo primário.
ps : pior do que o anti-americanismo primário, só mesmo o americanismo primário.
01/05/11
Documento divulgado por vários colectivos cubanos e pelo Passa Palavra sobre a situação na Ilha
por
Miguel Serras Pereira
Vários colectivos cubanos, dentro e fora do país, difundiram este texto — aqui publicado graças ao envio do João Bernardo — sobre a situação em Cuba. o Passa Palavra subscreveu, traduziu e publicou o texto, pedindo, em seu nome e dos colectivos, a sua mais ampla divulgação.
Terminou o IV Congresso do Partido Comunista de Cuba com a aprovação das reformas liberais (“a cada um segundo o seu trabalho”) anunciadas no âmbito econômico, mas também com a redução dos serviços sociais, associados ao aumento da presença de militares e tecnocratas no aparato governamental, enquanto se reduziu por outro lado a participação dos intelectuais e dos trabalhadores.
Tanto na retórica como nos fatos, a eficiência, o controle e a disciplina substituem a igualdade, a solidariedade e a participação. E com este pano de fundo se vislumbram sinais repressivos sobre o mundo cultural, que pressagiam um novo retrocesso no exercício das liberdades fundamentais para a população cubana. Importantes artistas vêm seus nomes embargados por funcionários da cultura, convertidos em censores, que desenvolvem intensas campanhas por todo o país, difundindo falsos rumores e acusações caluniosas. Um prestigioso Centro Teórico Cultural novamente vê sabotadas suas instalações e equipamentos por ladrões que não roubam nada e os quais as autoridades não descobrem ou punem. Poetas e ativistas comunitári@s recebem a visita de agentes policiais que os ameaçam com a acusação de “contra-revolucionários” e também de os colocar diante da “ira popular”, demonstrando assim que esta última não é nem popular nem autônoma ante o poder que a dirige.
O dano à propriedade social, a difamação, a coação, além da violência física e psicológica, não são só condenáveis nos códigos penais de todo mundo, incluindo Cuba, como também manifestações de Terrorismo de Estado. Durante décadas a população cubana deu aos seus filhos e ao mundo a sua melhor energia para construir um país mais justo, com cultura, saúde, educação universal e de qualidade, apesar da irracionalidade e descrença de uma burocracia que sempre apresentou as conquistas como êxito próprio. Deixará a História como marcos do processo cubano a repressão e a mentira, no lugar do heroísmo cotidiano das pessoas? Não é justo que seja assim.
Mas para que isto não ocorra temos que afastar, desde a base e à esquerda, o silêncio e a auto-censura que consagram a impunidade, procurando “não fazer o jogo do inimigo”. As pessoas que hoje veêm sua integridade e trabalho ameaçados pelas ações das autoridades cubanas merecem nosso respeito pois as conhecemos de diferentes momentos e situações. Não são, como apresenta a propaganda oficial, mercenários da CIA, porque apenas sobrevivem com míseras rendas, como a maioria do povo cubano. Quando viajam, investem seus escassos recursos na difusão de sua criação humanista e na aquisição de materiais para continuar seu trabalho, por um país mais culto e livre. Quando recebem nossa ajuda (em forma de um DVD, de tintas ou de uma coleção) é o apoio solidário de trabalhadores, trabalhadoras, artistas e estudantes, que em nossos países também enfrentamos políticas neoliberais e autoritárias do capitalismo, estruturadas em Seattle, México DF, Paris, Caracas, São Francisco e Buenos Aires.
Quão longe estão nossos companheiros daqueles burocratas que percorrem comodamente o mundo em Campanhas de Solidariedade, pagas com o dinheiro do povo cubano, e que na primeira oportunidade escapam para Miami e aparecem arrependidos nas televisões como “lutadores da liberdade”! Que diferente de certos intelectuais “amigos de Cuba” que, ingênuos ou atarefados, confundem os ideais da revolução com as políticas do Estado cubano e negam aos companheiros cubanos os mesmos direitos que reclamam (e até desfrutam) nos seus regimes de democracia burguesa! Que superiores, em obra e espírito, daqueles reformistas autorizados que, envernizando com teoria, justificam cada mudança do regime cubano e fazem (pseudo) críticas abstratas sempre vislumbrando a boa vontade do poder!
Cuba Colectiva
O único pecado dos nossos companheiros cubanos é ousar pensar (e transformar) a realidade deles sem esperar as promessas do Estado-Pai nem o Canto de Sereia do Capital global. Creem em uma vida mais plena, em comunidade, onde o livre desenvolvimento de cada um é condição e medida do livre desenvolvimento de todos. Seus diálogos e aprendizados com nossa lutas altermundistas, piqueteiras e zapatistas, têm expandido seus horizontes e nos permitiram também aprender com seu legado histórico de erros e resistências populares. Representam o legado mais vivo e belo da Revolução cubana, que resiste à morte sob o câncer da burocracia. São marxistas, anarquistas, libertários, martianos, humanistas, feministas, ecologistas, comunitaristas… mas, sobre todas as coisas e qualificações, são pessoas decentes, que têm colocado sua vida em risco e a serviço dos demais. Por isso não os deixemos sós.
Sabemos que as forças da dominação são poderosas, que controlam os cacetetes, o ciberespaço, os castigos, os prêmios, os amedrontados e os explorados. Mas nós temos a vergonha e a esperança, contra a qual, como demonstram as rebeliões populares e anti-imperialistas de todo o mundo, não há poder despótico que vença. Tomara que exista na mente dos censores e policiais uma lembrança do compromisso original com o povo cubano que os levou ao poder; mas se isto não acontecer, estamos dispostos a lançar a mais poderosa campanha de solidariedade com todos os recursos da legalidade e da opinião pública progressista mundial. Sabemos que os inimigos estão alertas, que eles não tenham a menor dúvida: Nós também.
Terminou o IV Congresso do Partido Comunista de Cuba com a aprovação das reformas liberais (“a cada um segundo o seu trabalho”) anunciadas no âmbito econômico, mas também com a redução dos serviços sociais, associados ao aumento da presença de militares e tecnocratas no aparato governamental, enquanto se reduziu por outro lado a participação dos intelectuais e dos trabalhadores.
Tanto na retórica como nos fatos, a eficiência, o controle e a disciplina substituem a igualdade, a solidariedade e a participação. E com este pano de fundo se vislumbram sinais repressivos sobre o mundo cultural, que pressagiam um novo retrocesso no exercício das liberdades fundamentais para a população cubana. Importantes artistas vêm seus nomes embargados por funcionários da cultura, convertidos em censores, que desenvolvem intensas campanhas por todo o país, difundindo falsos rumores e acusações caluniosas. Um prestigioso Centro Teórico Cultural novamente vê sabotadas suas instalações e equipamentos por ladrões que não roubam nada e os quais as autoridades não descobrem ou punem. Poetas e ativistas comunitári@s recebem a visita de agentes policiais que os ameaçam com a acusação de “contra-revolucionários” e também de os colocar diante da “ira popular”, demonstrando assim que esta última não é nem popular nem autônoma ante o poder que a dirige.
O dano à propriedade social, a difamação, a coação, além da violência física e psicológica, não são só condenáveis nos códigos penais de todo mundo, incluindo Cuba, como também manifestações de Terrorismo de Estado. Durante décadas a população cubana deu aos seus filhos e ao mundo a sua melhor energia para construir um país mais justo, com cultura, saúde, educação universal e de qualidade, apesar da irracionalidade e descrença de uma burocracia que sempre apresentou as conquistas como êxito próprio. Deixará a História como marcos do processo cubano a repressão e a mentira, no lugar do heroísmo cotidiano das pessoas? Não é justo que seja assim.
Mas para que isto não ocorra temos que afastar, desde a base e à esquerda, o silêncio e a auto-censura que consagram a impunidade, procurando “não fazer o jogo do inimigo”. As pessoas que hoje veêm sua integridade e trabalho ameaçados pelas ações das autoridades cubanas merecem nosso respeito pois as conhecemos de diferentes momentos e situações. Não são, como apresenta a propaganda oficial, mercenários da CIA, porque apenas sobrevivem com míseras rendas, como a maioria do povo cubano. Quando viajam, investem seus escassos recursos na difusão de sua criação humanista e na aquisição de materiais para continuar seu trabalho, por um país mais culto e livre. Quando recebem nossa ajuda (em forma de um DVD, de tintas ou de uma coleção) é o apoio solidário de trabalhadores, trabalhadoras, artistas e estudantes, que em nossos países também enfrentamos políticas neoliberais e autoritárias do capitalismo, estruturadas em Seattle, México DF, Paris, Caracas, São Francisco e Buenos Aires.
Quão longe estão nossos companheiros daqueles burocratas que percorrem comodamente o mundo em Campanhas de Solidariedade, pagas com o dinheiro do povo cubano, e que na primeira oportunidade escapam para Miami e aparecem arrependidos nas televisões como “lutadores da liberdade”! Que diferente de certos intelectuais “amigos de Cuba” que, ingênuos ou atarefados, confundem os ideais da revolução com as políticas do Estado cubano e negam aos companheiros cubanos os mesmos direitos que reclamam (e até desfrutam) nos seus regimes de democracia burguesa! Que superiores, em obra e espírito, daqueles reformistas autorizados que, envernizando com teoria, justificam cada mudança do regime cubano e fazem (pseudo) críticas abstratas sempre vislumbrando a boa vontade do poder!
Cuba Colectiva
O único pecado dos nossos companheiros cubanos é ousar pensar (e transformar) a realidade deles sem esperar as promessas do Estado-Pai nem o Canto de Sereia do Capital global. Creem em uma vida mais plena, em comunidade, onde o livre desenvolvimento de cada um é condição e medida do livre desenvolvimento de todos. Seus diálogos e aprendizados com nossa lutas altermundistas, piqueteiras e zapatistas, têm expandido seus horizontes e nos permitiram também aprender com seu legado histórico de erros e resistências populares. Representam o legado mais vivo e belo da Revolução cubana, que resiste à morte sob o câncer da burocracia. São marxistas, anarquistas, libertários, martianos, humanistas, feministas, ecologistas, comunitaristas… mas, sobre todas as coisas e qualificações, são pessoas decentes, que têm colocado sua vida em risco e a serviço dos demais. Por isso não os deixemos sós.
Sabemos que as forças da dominação são poderosas, que controlam os cacetetes, o ciberespaço, os castigos, os prêmios, os amedrontados e os explorados. Mas nós temos a vergonha e a esperança, contra a qual, como demonstram as rebeliões populares e anti-imperialistas de todo o mundo, não há poder despótico que vença. Tomara que exista na mente dos censores e policiais uma lembrança do compromisso original com o povo cubano que os levou ao poder; mas se isto não acontecer, estamos dispostos a lançar a mais poderosa campanha de solidariedade com todos os recursos da legalidade e da opinião pública progressista mundial. Sabemos que os inimigos estão alertas, que eles não tenham a menor dúvida: Nós também.
A RTP a caminho da Idade Média?
por
Luis Rainha
Por alma de quem é que a RTP dedica três dos seus canais à transmissão da orgia de superstição que é a beatificação do obscurantista Karol Wojtyła? Incluindo uma linda "mosca" com o monograma de JPII e o chamativo slogan "A caminho da santidade". Com passagem obrigatória, claro está, pelo circo de pequenos horrores que é Fátima. Ignorava que a Renascença já tinha uma estação de TV.
É hoje o dia!
por
Pedro Viana
Vivesse por perto, era lá que estaria hoje às 13h. Via Spectrum.
Tudo o que nos resta, nestes 125 anos que nos separam das origens do 1º de Maio, é o exemplo e a história daqueles milhões de trabalhadores, desempregados e explorados que pelo mundo inteiro se uniram e se levantaram para resgatar a dignidade roubada e encarcerada lado-a-lado com aqueles 8 Anarquistas de Chicago. Tal como nesses tempos vivemos num mundo autoritário. Um mundo que tendo sofrido tantas transformações, nos dá hoje, mais do que nunca, razões para a revolta.
O que queremos é simples: transformar a crise do capitalismo na tumba da economia e fazer com que estes tempos de perseguição policial, laboral, social e económica se transformem na hipótese de conquistarmos de novo as nossas vidas. Todos os dias são um bom dia para recuperarmos a dignidade que o estado e a ganância de alguns nos foram roubando a todos.
Mas queremos fazê-lo no primeiro dia de Maio, de forma autónoma, colectiva e a partir da base, sabendo que nos podemos mover assim em muitos mais dias. Sem líderes nem dirigentes, sem liderados nem dirigidos. E assim deixarmos para trás a corja de abutres oportunistas que sempre surgem com os seus “apelos à nação” tão interessados que estão em chupar o nosso sangue de uma forma mais “justa”, mais “democrática” ou mais “patriota”.
A Vida é nossa, vamos tomá-la de volta!
Subscrever:
Mensagens (Atom)












