03/06/10

Sobre Israelitas, Palestinianos, Extrema-Direita e Anti-Semitismo

Não preciso de "linkar" aqui os múltiplos posts e outros textos que nos últimos dias têm analisado em termos que, no essencial, subscrevo o carácter ao mesmo tempo criminoso e suicidário da política do governo de Israel. O Ricardo Noronha, o João Tunes e o Miguel Madeira, aqui na csasa; o Rui Bebiano e a Joana Lopes, nos seus blogues pessoais; o Rui Tavares, na sua coluna do Público;  o Nuno Ramos de Almeida no 5dias, e por certo muitos outros em muitas outras sedes derem bem conta dos dois gumes do acto de pirataria cometido pelas autoridades israelitas. Dir-se-ia estarmos perante uma acção desencadeada por agentes duplos comandados por inimigos cínicos e sem escrúpulos do povo de Israel, mas, para maior desgraça deste, a verdade é que estamos perante a execução de ordens dos seus governantes.
Mas os actos dos "falsos amigos dos israelitas" não devem fazer-nos esquecer a necessidade de mantermos a denúncia igualmente intransigente dos "falsos amigos dos palestinianos" e outros povos da região, que, agora à boleia do repúdio generalizado dos actos dos primeiros, aproveitam a oportunidade para obter apoios, reconhecimentos e legitimação de regimes e organizações que, em defesa das suas posições e/ou ambições políticas, continuam, não só a fazer guerra ao seu próprio povo e a impor-lhe condições abjectas de servidão material e "ideológica", mas a protagonizar um anti-semitismo que faz, não do governo israelita, mas dos israelitas, enquanto tais e porque judeus, o inimigo a abater.
Basta reparar na frequência com que certos comentadores, blogosféricos ou não, escrevem "os israelitas", em vez de "o governo israelita" ou mesmo "o regime israelita", quando se juntam ao coro dos protestos - mais do que imperiosamente justificados, repito - contra este sangrento acto de pirataria, utilizando-o como argumento para apelar à destruição de Israel e legitimar esse objectivo como exigência de qualquer "anti-imperialismo consequente".
Os seus argumentos não inovam, a não ser por algumas pinceladas de cor local, quando os comparamos com os do anti-semitismo da extrema-direita em vias de reciclagem no nosso próprio país (ver o post da Joana sobre o assunto, Deus, Trabalho e Família, publicado no Brumas). "São os judeus que nos ameaçam e nós não fazemos senão defendermo-nos", "São os judeus que governam o governo dos Estados Unidos e os seus projectos imperialistas", "São os judeus que, graças ao poder financeiro de que dispõem, perpetuam o atraso e as situações neo-coloniais de grande parte do mundo", "São os judeus que minam a fé na verdadeira religião e contrariam a sua mensagem de paz e justiça verdadeiras" (aqui a "verdadeira religião" depende de quem fala, e é ora a da "Europa cristã", ora o islamismo cujos projectos de expansão são tomados como sinónimos de combate ao imperialismo).  Ou nos termos em que formula a questão um ideólogo do catolicismo integrista da região portuguesa:

"Sempre prontos a encontrar uma brecha por onde possam entrar e dividir, os líderes judeus de toda a Europa - no mesma semana da canonização dos mortos [do campo franquista durante a Guerra Civil] pela Santa Sé - reuniram-se em Madrid para lembrarem os mortos da Inquisição espanhola (…)  entre os grandes advogados da laicidade do Estado no Ocidente estão frequentemente intelectuais judeus, e compreendem-se as razões. (…) foi na Península Ibérica que os judeus foram melhor acolhidos e tratados ao longo de toda a sua longa história, por entre os múltiplos povos e lugares em que viveram. É claro que, mesmo aqui, acabaram por dar motivos para serem expulsos, primeiro de Espanha (1492), e depois de Portugal (1521). Mas isso foi o que eles fizeram em todos os países que os receberam durante a sua história de milénios. E que voltam agora a fazer em Espanha, mais de cinco séculos depois. Está-lhes literalmente na massa do sangue".

Contra a fascização e a discriminação em Israel e contra os "falsos amigos" de judeus e palestinianos; pela criação de condições que permitam que os israelitas, os palestinianos e os membros dos outros povos da região possam viver como cidadãos iguais em territórios partilhados ou vizinhos, o combate é o mesmo que contra os que localmente não só combatem todas as tentativas de democratização da ordem política europeia, como visam reformar autoritariamente os actuais regimes europeus. E deve ser travado em simultâneo, através da coerência das intervenções nas várias frentes.

9 comentários:

joão viegas disse...

Lucido, corajoso, construtivo. E' falso que o caminho para a guerra seja irreversivel. Mas é angélico pensar que o caminho para a paz é praticavel enquanto não houver mais reacções como esta.

Bravo.

Anónimo disse...

Há sempre idiotas que escrevem coisas idiotas e que assim ficam disponíveis para, em qualquer altura, serem citadas. A responsabilidade pela citação não é do idiota, mas do citador. Por algum motivo também que é seu e não do idiota, ele o cita. Será que é para, logo à partida, baixar o nível do diálogo?!

Luís Teixeira Neves

Miguel Serras Pereira disse...

Caro João Viegas,
sim, o angelismo dá, queira-o ou não, cobertura ideológica do fascismo e do fundamentalismo antidemocrático. Aliás, muitas vezes não passa de uma máscara táctica de posições demasiado humanas e anti-humanas.
Obrigado e abraço

Luís Teixeira Neves,
seguindo a sua lógica, é você o responsável pelo meu post. Ou comentá-lo não é citá-lo e remeter para ele? Veja bem ao que me obriga: a ter de o citar a si, que, citando-me, se tornou responsável pelo meu post, para recuperar a minha responsabilidade pelo que escrevi.

Um Santo Dia Santo - o de hoje e do Corpo de Deus - para si

msp

João Tunes disse...

O último parágrafo é do mais límpido que vi escrito a propósito. Assino-o por baixo.

Anónimo disse...

Eu não sou católico. O Miguel Serras Pereira é?!
Não complique...
Agradeço-lho a sua resposta (mesmo se, desagradavelmente, só confirma a minha impressão negativa sobre as suas intenções).

Luís Teixeira Neves

Anónimo disse...

Sabe, Miguel Serras Pereira... Dizer que se está contra a fascização e a descriminação em Israel é dizer muito pouco!Não é bem dizer muito pouco... Trata-se mais de um encobrimento,de uma falsidade... É bonito, fica até bem, mas é uma falsidade... a encobrir o crime, percebe?! E quem quizer se enganar, que se engane...

Luís Teixeira Neves

Miguel Serras Pereira disse...

Luís Teixeira Neves

sempre reconheci - com Edward Said, por exemplo - que em Israel existiam direitos e liberdades que eram negados aos povos governados por regimes que, tal como negam a Israel o direito à existência, negam as liberdades e garantias mais elementares às populações que governam.
Acontece que os traços de tradição democrática de Israel, bem como as garantias do governo constituciuonal associadas aos sistemas representativos, têm vindo a ser erodidos, esquivados, destruídos por sucessivos governos, cada vez mais pertinazmente, ao longo dos últimos anos.
Daí que considere que o acto de pirataria de há dias seja, além de suicidário, criminoso.
Quanto ao meu catolicismo, basta "folhear" este blogue e passar os olhos pelo que aqui tenho escrito, para ter a resposta. Não lhe dou outra enquanto não me interpelar um pouco mais civilizadamente.
Boa noite

msp

Anónimo disse...

Miguel Serras Pereira

Quando eu escrevi "crime" não me referia ao recente incidente nem sequer ao bloqueio de Gaza, facto bem mais grave...
Quando escrevi "crime" referia-me ao projecto sionista de construção de um estado JUDAICO, Israel, sobre uma Palestina ÁRABE.
Com todo o respeito não estou interessado em saber se é ou se não é católico.

Luís Teixeira Neves

Miguel Serras Pereira disse...

Luís Teixeira Neves,
o que se contrapõe a "àrabe" é "judeu" - "judaico" opõe-se a "muçulmano", ou "católico", etc., independentemente da etnia ou nacionalidade. Um judeu pode ser católico, muçulmano, de religião mosaica, budista ou ateu. Um árabe pode ter por religião o judaísmo, ou qualquer outra religião não-islâmica.
Sou, naturalmente, contra o Estado confessional em Israel e pela laicização do poder político. Mas nem mais nem menos da mesma maneira que sou contra os Estados confessionais islâmicos sejam árabes ou não as populações a que correspondem.
É a extrema-direita culturalista ou racista que, em vez de se opor ao Estado confessional qualquer que ele seja e como forma de organização seja de que população for, entende que Estado Judaico, sim, mas não em zona árabe ou em qualquer zona que incomode os "árabes"; ou que o Estado confessional islâmico deve ser respeitado como traço cultural próprio da cultura árabe (ressalvo que há Estados confessionais islâmicos que não são árabes e vice, versa…). Qualquer solução de paz aceitável para o Médio Oriente passa, de uma maneira ou de outra, pela laicização e a sua afirmação intransigente. Quaisquer progressos dos direitos de cidadania entre as populações da região, também.

Uma recomendação de bom sensso e bom gosto: quando não estiver interessado em que lhe respondam, não pergunte. E quando, pelo contrário, quiser que lhe respondem, pergunte com bons modos. Vai ver que é melhor para todos.
Bom dia

msp