25/05/10

Duas, três, muitas Acrópoles

Um dos “impacientes gregos” (supõe-se que a esta hora já tenha o molotov artilhado e pronto a atirar, ou então, em alternativa, esteja munido de máquina fotográfica, boné e garrafinha de água mineral fresca):

Que o próximo dia 29 seja o primeiro passo para responder afirmativamente ao chamado grego:

“People of Europe: rise up!”



(também publicado aqui)

Bloquear a economia para começar a viver

 
Patrões de todo o mundo, tenham medo, tenham muito medo.
Dos motins de 2001 na Argélia e na Argentina, ao incêndio dos subúrbios de Paris, à revolta generalizada na Grécia, uma história secreta tem percorrido estes anos: a guerra social regressou. Algo tem marcado esta primeira década do século: a revolta popular, tão inesperada como descontrolada, que afronta o Poder. Afinal a história não acabou. A guerra e as suas barricadas, até há poucos anos limitadas às periferias do império, vêm brotando nas grandes metrópoles do capitalismo supostamente rico, democrata e feliz.
Da nossa barricada - a dos explorados e despojados - surgem de novo belas perguntas: Como ocupar a rua de forma persistente e o que fazer dela? Como auto-organizar as nossas vidas? Como bloquear a economia para começar a viver? Do outro lado estão polícias, governos, patrões e exércitos. E todos dependem dos trabalhadores para manter a máquina a funcionar.
Pressentimos tudo isto quando vemos a Acrópole, como aconteceu a 5 de Maio na greve geral grega, envolta por uma declaração simples e sensata: PEOPLES OF EUROPE, RISE UP.
O internacionalismo está de volta e recomenda-se. É preciso sair do isolamento e demolir todas as fronteiras, estabelecer afinidades, reinventar a luta. A Grécia é mesmo aqui ao lado. A Grécia está em todo o lado.
Aqui, nesta zona do território europeu subjugada pela crise, as lutas têm sido reféns da obsessão legalista da esquerda parlamentar e dos sindicatos, de uma solidariedade vaga e que raramente se manifesta. No presente estado de coisas, toda a inteligência será pouca. Inteligência para comunicar e organizar, bloquear e sabotar, ferir o poder dos poderosos.
PORQUE A ÚNICA RESPOSTA À CRISE É O COMBATE
PORQUE ESSE COMBATE NÃO SE TRAVA COM AS MEDIDAS PONTUAIS EXIGIDAS PELOS SINDICATOS E PELA ESQUERDA REFORMISTA
PORQUE TEM DE SE ELEVAR O TOM DA LUTA
PORQUE ESTAMOS FARTOS DE MENDIGAR POR MAIS TRABALHO
PORQUE EXIGIMOS A RUA COMO NOSSA

Abraço de urso – mas que o urso não seja negro porque esse é perigoso


Ia comentar este parágrafo de um texto de Tomás Vasques quando vi que João Tunes se tinha adiantado. Escreve o primeiro:

«O pior que podia acontecer a Manuel Alegre é o apoio do PS à sua candidatura: perde as eleições e é o responsável pela reeleição de Cavaco Silva. O PS, no Domingo, através da Comissão Nacional, vai dar o abraço de urso a Manuel Alegre. »

Tarefa simplificada pelo João, portanto, porque ia precisamente contra-argumentar, insistindo no que tenho vindo a pensar e a escrever nos últimos dias: tudo levando a crer que a direcção do PS acabará por apoiar a candidatura de Manuel Alegre, que se mantenha o mais longe possível porque, desse modo, «Alegre ganha espaço político para a mobilização e batalha política presidencial. Assim a esquerda, que até hoje só perdeu uma eleição presidencial, traga o movimento e a campanha de dentro das igrejas e das suas sacristias, para o adro do povo que sofre o centrão prolongado que se alimenta de uma sociedade desigual em perpétuo acentuar das desigualdades.»

Espere-se portanto que, no Domingo (não no Sábado, afinal, talvez para não ofuscar a manif…), Sócrates «toque e fuja» - para tão longe quanto imaginar se possa.

(Na foto: um simpático urso negro, perto de Luang Prabang, Laos)

(Publicado também aqui)

O urso de papel

O pior que podia acontecer a Manuel Alegre é o apoio do PS à sua candidatura: perde as eleições e é o responsável pela reeleição de Cavaco Silva. O PS, no Domingo, através da Comissão Nacional, vai dar o abraço de urso a Manuel Alegre.

Não sei se o que Tomás Vasques (cuja aversão por Manuel Alegre é antiga e bem conhecida, honra lhe seja feita) escreveu e acima se transcreve reflecte o sentimento do aparelho dominante no PS. Parece-me que sim mas como estou de fora, também honra me seja feita, não tenho, e por isso não uso, certificado de garantia. Mas se a estratégia dúplice e cínica apontada não surpreende, o que diz muito da forma actual como o PS vê o actual momento social e político, em que as lapas socialistas agarradas ao poder não querem sair da órbita cavaquista (o núcleo do centrão), restando-lhes iludir as responsabilidades pelas opções, esta não é uma má notícia. Pelo contrário. Porque há ursos que são de papel, normalmente pardo, que em vez de cortarem respirações, trazem oxigénio de autonomia. E, neste momento, um abraço demasiado camarada do aparelho do PS, sobretudo do seu inepto, desgastado, classista e impopular governo, seria o pior que poderia acontecer à candidatura de Manuel Alegre. Contra Cavaco Silva, formal e cinicamente apoiado pelo PS (o que inibe um estribilho usado contra ele na campanha anterior, o de ser “um candidato contra o PS”), Alegre ganha espaço político para a mobilização e batalha política presidencial. Assim a esquerda, que até hoje só perdeu uma eleição presidencial, traga o movimento e a campanha de dentro das igrejas e das suas sacristias, para o adro do povo que sofre o centrão prolongado que se alimenta de uma sociedade desigual em perpétuo acentuar das desigualdades.

(publicado também aqui)

Comunidade, Estado e Economia


No parágrafo inicial deste seu post, o Miguel Serras Pereira critica o aumento da intervenção do Estado na economia como principal via através da qual esta poderá passar a estar sob maior controlo público. No entanto, eu não vejo outra alternativa a curto-prazo. Nem sei se será desejável outra opção, mesmo que pudessemos escolher.

Qualquer comunidade necessita de se auto-organizar de modo a conseguir assegurar a implementação das decisões que toma. Excepto a um nível muito local, tal necessidade requer a criação de instituições que efectivamente contêm em si os atributos que geralmente se associam a um Estado. Portanto, parece-me que um maior controlo público, colectivo, de tudo o que possa afectar uma dada comunidade, nomeadamente os processos económicos, requer efectivamente um maior controlo por parte do Estado. No entanto, por si só este não implica, de modo inverso, necessariamente maior controlo público. Tal só acontecerá se o Estado e nas instituições que o constituem forem democraticamente controlados pela comunidade.

Amparo Ochoa

Ouvi-a pela primeira vez num pequeno bar/restaurante da Ilha da Páscoa, “Azul”.

Havia sempre música a acompanhar a comida wok e as bebidas ao pôr do Sol. Canções que nós próprios poderíamos escolher para ouvir em casa, daquelas cuja letra nos surge por inteiro ao primeiro acorde, que cantaríamos se tivéssemos a felicidade de saber cantar.

Nesse dia, voz e música eram-nos próximas, mas desconhecidas. A letra, em castelhano, prendeu-nos desde o início:
Del mar los vieron llegar
mis hermanos emplumados
eran los hombres barbados
de la profecía esperada.
Sonó la voz del monarca:
que el dios había llegado
y les abrimos la puerta
por temor a lo ignorado
(...)
Hoy en pleno siglo XX
nos siguen llegando rubios
y les abrimos la casa
y los llamamos amigos.
Pero si llega cansado
un indio de andar la sierra
lo humillamos y lo vemos
como un extraño por su tierra.
(...)
¡Oh! maldición de malinche
enfermedad del presente
¿cuándo dejarás mi tierra?
¿cuándo harás libre a mi gente?

24/05/10

Caminante, no hay camino, se hace camino al andar

Nota: este post começou na caixa de comentários deste outro do Ricardo Noronha. Tendo crescido para além do que o formato do comentário permite publicar de uma assentada, resignei-me a postá-lo aqui. Sempre facilita a leitura.


Grande Camarada Ricardo,

Bom, confesso que fiquei mais descansado quando, no corpo do texto, descobri que o "hedonismo do caos" só "parcialmente" tem o teu apoio - e que não te converteste bruscamente ao reformismo da "esquerda carnavalesca", pois, como concordarás, o carnaval é uma válvula de escape da ordem estabelecida, uma sua "purificação" ritual. Sim, eu sei, é possível que uma explosão carnavalesca transborde deste quadro, mas justamente nessa altura a "multidão" começa a abandonar o caos e a organizar a sua autonomia. Não quer isto dizer que seja possível ou desejável eliminar "o caos mais antigo do que os deuses", como lhe chama Sophia - ou seja, mais antigo do que os primeiros princípios ordenadores da natureza, da paisagem, da terra cultivada, das aldeias ou das cidades, das instituições, da socialização, da subjectividade individual articulada… Esse caos permanece dentro e fora de nós, ignorando de resto esta linha divisória, indefinida e nunca idêntico vaga de criação e destruição que faz com que nenhuma realidade possa conter todo o real - força de expressão, este "todo o real", pois não há todo do real que seja tudo ou que colmate a não-coincidência do real consigo próprio - por excesso ou defeito, conforme a perspectiva; ou: por excesso e defeito, se assim preferires.
Mas nós, humanos, que somos metamorfose e acontecimento ou instante e criação dessa vaga, temos por condição (o que significa aqui tanto limite como potência) "passar abrindo caminhos/ caminhos por sobre o mar" do seu "sem-fundo" - como escrevia Antonio Machado e o Paco Ibañez tão bem cantava. E a tónica aqui está na acção ou na criação do abrir caminhos que a vaga não traça, acção e criação anteriores, evidentemente, a toda a cartografia que - já sempre a caminho - tracemos.
Que poderia, pois, ser um "hedonismo do caos" que radicalizasse o carnaval, levando-o às últimas consequências, mas sem o politizar, como simples inversão de toda e qualquer ordem? Que mais poderia ser, senão muito literalmente, o paroxismo dessa "morte súbita" que certa cerveja belga promete, mas não dá?

Quanto aos teus argumentos mais polémicos, ou às razões que articulam, não me parece que sejam tão opostos aos do João Tunes como tentas apresentá-los. Colho apenas alguns exemplos ao acaso: os porta-vozes do PCP não invocam porventura, também, o sofrimento dos outros, para justificar as reivindicações ou soluções da organização? Como é que deduzes que o João procura definir como "exclusivo" do PCP a "incontrolada pulsão hegemónica e unicista" de que fala? Ou, por outro lado, faz ou não alguma diferença saber quem efectivamente a "passa ao acto" e reproduz? Absolverá o governo de Sócrates o juízo dos que afirmam que outros fariam a mesma coisa ou pior? E em quê e de quê absolverá, então, a linha do PCP dizer que outras correntes políticas fariam a mesma coisa se tivessem unhas para tanto? E dizê-lo dispensa-nos de contestar o modelo de organização e direcção sindical vigente? Ou legitima-o? Se disseres, como implicitamente fazes, que teremos de nos esforçar por não reproduzir na contestação as formas contestadas, e eventualmente refinadas durante o processo da reciclagem, estarás a dizer coisas muito parecidas com as afirmações do João - coisas que consubstanciam uma crítica à concepção e à prática hierarquicamente subordinada do sindicalismo que o PCP alimenta.

Há uma divergência, sem dúvida, quanto à "hipótese da rua"- e outra, quanto ao juízo político sobre a moção de censura.
Declarar esta última não-acontecida por não ter logrado o eco que gostaria de ter tido nos meios de comunicação dominantes é um argumento muito curto - sobretudo, quando a propósito da mesma moção, se escreveu, como há dias fizeste na caixa de comentários de um post do Zé Neves , coisas muito próximas de alguns dos argumentos do João, opondo-as ao Vítor Dias: "Mas Vítor, a inquietação e preocupação, por sinceras e autênticas que sejam, não furtam ninguém ao debate acerca das consequências, vantagens e desvantagens de uma determinada estratégia. Essa articulação e complementariedade [da moção de censura ao governo e do apoio à manifestação] parecem-me aliás extremamente problemáticas. A manifestação de 29 de Maio tem como finalidade a queda do governo? E essa queda traduzir-se-à numa alteração de políticas no sentido que pretende o PCP e o movimento sindical? E como é que uma moção de censura ao governo se estende também ao PSD, como se afirma no comunicado?" Assim, o meu juízo está, na questão da moção, mais próximo do do João do que daquele que o teu post lhe opõe,
Já quanto à "hipótese da rua", pelo contrário, acho que estamos os dois de acordo, embora com reservas semelhantes, creio, perante os pressupostos de fundo do João Rodrigues  - e não vou repetir aqui o que digo a esse respeito na caixa de comentários do post do João.

Fazendo o balanço desta conversa, receio ter-me metido em maus lençóis e estar a atrair sobre mim as divergências por motivos divergentes de dois camaradas, em cujos pressupostos vejo mais elementos comuns ou solidários do que antagonismos irredutíveis, ainda que um e outro de vocês os dois deles extraiam consequências diferentes e tendam a exasperá-las. O que por vezes ajuda a abrir novos caminhos ou a melhorar aqueles que - para parafrasear de novo Machado - vamos fazendo ao andar.

Viandante abraço

miguel

Igreja Católica põe Espanha perto da falência?

Segunda intervenção do Banco de Espanha numa caixa de aforro deverá custar 2.700 milhões (via O Insurgente):
A intervenção do Banco de Espanha na CajaSur, entidade até aqui controlada pela Igreja Católica, poderá custar aos cofres públicos espanhóis 2.700 milhões de euros, segundo contas da imprensa espanhola.

Inicialmente, e segundo o Banco de Espanha, a intervenção - anunciada na madrugada de sábado -, poderá custar um valor mínimo de 523 milhões de euros, necessários para garantir já a estabilidade da entidade. (...)


A caixa de aforro padece de graves problemas financeiros, a maioria devido a crédito mal parado e a investimentos imobiliários que se afundaram nos últimos anos. Em média, quase um em três euros emprestado pela caixa de aforro foram para o setor imobiliário, o mais afetado pela crise.

Hoje alguma imprensa espanhola referia, por exemplo, a compra de um edifício por 26,4 milhões de euros e que hoje vale 1,15 milhões e a entrega à igreja católica de Córdoba de dois edifícios avaliados em 6,3 milhões de euros.

As contas mais recentes apontam a que a Cajasur acumula mais de 1.500 milhões de euros em crédito mal parado, cerca de 364 milhões de crédito falido (coberto por provisões) e 278 milhões de ativos imobiliários adjudicados.
OK, o meu título é totalmente demagógico, já que a) o Estado Espanhol ainda está muito longe da falência; e  b) a crise nas "caixas de aforro" é geral e o facto da primeira (ou segunda) a necessitar de apoio estar ligada a ICAR é apenas um coincidência; mas que é uma coincidência curiosa, é.

Dúvida existencial


Depois de tantos posts seriíssimos, publicados hoje neste blogue, sobre pêcêpês, futebóis e outros assuntos afins ou «desafins», será que alguém me pode explicar como é humanamente possível não torcer, ou pelo Brasil ou pela Coreia do Norte, na próxima etapa do campeonato do mundo? Agradecida.

«Eu não faço a escolha entre o Brasil e a Coreia do Norte. (…) É-me indiferente.» - Jerónimo de Sousa, ontem, na parte final da entrevista à TSF

Já agora, para possíveis interessados: no Facebook, há um grupo de «Fãs da Selecção de Futebol da República Democrática Popular da Coreia».

O Poder está com medo


Quanto se aproximam tempos de intensa contestação social, o governo opta por dar uns rebuçados às forças policiais, enquanto abandona progressivamente todas as outras presentes funções do Estado. De que é que o governo tem medo?...

Por um hedonismo do caos

 Confesso-me parcialmente simpatizante de uma expressão como «hedonismo do caos», embora não perceba muito bem o que  significa e em que é que se pode relacionar com o PCP, o mais razoável dos partidos parlamentares portugueses. Sempre que vejo alguém referir o sofrimento dos outros para sustentar as suas próprias opiniões, como abaixo faz o João, fico com a sensação de que a história não está a ser bem contada - ainda mais se "as pessoas que sofrem realmente com a crise" se tornam a derradeira justificação para "uma alternativa factível, colocado ao nível da recomposição do poder".
Teríamos assim que o sectarismo do PCP seria mau por dificultar a factibilidade dessa alternativa e renunciar ao nível da recomposição do poder, o que nos leva facilmente a concluir que o mesmo sectarismo poderia ser bom se fosse útil, ou seja, se colocasse a rua ao serviço das instituições com o pragmatismo ensinado por alguns livros de alguns autores. Finalmente, não vejo ao que possa vir à baila a Coreia do Norte ou a China, para não falar de Cuba, a propósito da manifestação do próximo Sábado.
Bem sei que "uma incontrolada pulsão hegemónica e unicista"  pode ser encontrada no PCP, mas não vejo razões para atribuir àquele partido um qualquer exclusivo a esse respeito. Fosse tudo assim tão simples. Infelizmente, não são raros os militantes de outros partidos a denotar semelhante pulsão, muitas vezes a cavalo, aliás, da fama do PCP nesse domínio que é, como se sabe, maior do que o proveito.
Tudo isto para dizer que não são poucas as divergências possíveis com a linha política daquele partido mas que, com uma frequência que não deixa de me surpreender, os comentários indignados a seu respeito apontam quase sempre o dedo àquilo que o assemelha aos outros e muito pouco àquilo que deles o distingue, para o bem e para o mal. 
A moção de censura apresentada pelo PCP é um não-acontecimento político que só ganha relevância no contexto altamente inflacionado de não-acontecimentos políticos que ocupam a agenda mediática. Tão relevante como os dotes de Sócrates para dançar o tango, os seus efeitos foram consideravelmente menos importantes. Já a manifestação de dia 29 de Maio, que os jornalistas se encarregarão de banalizar com aquela ignorância especialmente reservada para tudo o que seja conflito social, terá o mérito de ser algo mais do que um episódio da rotineira vida paralamentar. Porque se é esperança aquilo que faz falta às pessoas que sofrem verdadeiramente com esta crise, então é preciso que a encontrem em si próprias, na sua capacidade de caminhar nas ruas e tomar a sua história nas suas mãos.


Post-carta para um camarada entusiasta

Caro Miguel Serras Pereira,

Em termos sociais, sobretudo pelas opções governamentais quanto à distribuição da “austeridade”, a “coligação do tango” PS/PSD e os burocratas de Bruxelas merecem levar nas ventas não só com uma grande manifestação no próximo 29 como o que se lhe possa seguir, incluindo uma greve geral, ou mais se necessárias.


Só que nestas coisas, como ensinam alguns livros de alguns autores, há as condições objectivas e as outras, as subjectivas. E entre estas, inclui-se o efeito da manipulação, com a respectiva contrapartida da reacção de nojo. O PCP ao apropriar-se da manifestação da CGTP, dando-lhe abusivamente como acto de paternidade a sua extemporânea “moção de censura” (que em vez de uma pífia antecipação parlamentar-partidária à movimentação social, teria outro significado se fosse, antes, um eventual corolário político de acções de protesto patrocinadas pela CGTP), pode ter contribuído para alimentar o fervor sectário dentro das hostes partidárias e assim juntar umas tantas bandeiras carentes de vento mas, ao inverter a lógica sócio-política da contestação, num momento em que a decisão de luta ainda é fraca (basta lembrar que o 1º de Maio deste ano teve uma das mais fracas participações de sempre), não prestou um bom serviço à causa. Além do erro político em si, o da estreita manipulação partidária do sindicalismo, a confusão de agendas, a social e as partidárias, baralha mais que clarifica e mobiliza. Descodificado, o actual comportamento do PCP para com o sindicalismo, particularmente em relação à CGTP, é típico do voluntarismo sem horizontes que transmuta um partido político historicamente ligado à emancipação dos trabalhadores numa agremiação sindical extremista e com uma incontrolada pulsão hegemónica e unicista.

Não nos podemos esquecer que as pessoas que sofrem realmente com a crise precisam urgentemente de esperança que dê sentido e alimente a luta. O que passa por uma alternativa factível, colocado ao nível da recomposição do poder, perante o impacto do pessimismo e do inelutável. E à confusão de agendas junta-se o esmagamento sectário e oportunista por uma força partidária, o PCP, que nada acrescenta além do “não” e do hedonismo do caos, essa miragem semeadora dos amanhãs revolucionários que libertem a sociedade do garrote da escolha pelo voto democrático. E que, para mais, insistem em nos empurrarem para a exaltação referencial dos “paraísos” cubano, norte-coreano e chinês. Ou sonhar-se nostalgicamente com a “boa URSS” do tempo de Estaline.

Caro Miguel Serras Pereira,

Sei quanto és exigente, em política, em ideologia e, sobretudo, em cultura e diálogo. Juntas agora a qualidade dos ambiciosos, o que te agiganta. Vejo que acreditas que “a rua” ultrapasse e corrija os entorses provocados pelos manipuladores. Ou seja, que a maré social corrija o sectarismo dos que se julgam pré-donos da rua. Aqui e neste preciso momento? Pois bem, desejo-te a maior sorte que um céptico relativamente a frutos de manipulações, eu, te pode desejar.

Príncipe Real

Com um atraso considerável em relação ao prometido, foi reaberto o Jardim do Príncipe Real. Para quem fazia daquele espaço público o seu dia-a-dia, não é uma questão menor. O jardim era bonito, está bonito, embora com diferenças cuja análise deixo para outra ocasião. O piso, contra as minhas expectativas, ficou bem melhor. Entretanto, a CML organizou uns dias de festividades, em conjunto (ou com o apoio; o cartaz não é claro) com a East Banc, uma empresa imobiliária que pretende criar um bairro de charme a partir da reconversão de palácios e edifícios antigos e abandonados que se encontram na zona do Príncipe Real. O bairro não é, diga-se, de "charme", entre outras coisas porque é popular (não apenas no sentido fashion, isto é, um bairro "típico" que a malta jovem e não tão jovem e com a mania que é artista e intelectual gosta de habitar; mas também no sentido plebeu - isto é, vive por ali muita malta que nasceu ali, que é "do bairro", como eu sou do bairro de "benfica", onde vivi até aos meus 19 anitos). O que eu gostava de saber é: alguém da CML tenciona dar a conhecer o plano da East Banc e colocar o mesmo à discussão da freguesia? E, já agora, o custo do arranjo do jardim onera a CML apenas e só ou também a East Banc? E as festividades? Só para perceber se a estratégia de charme da East Banc junto da CML (mas também da população, por certo) está a ter resultados.

Películas proibidas

Em finais dos anos setenta, Fernando Ruiz Vergara realizou «Rocío», um documentário centrado numa romaria realizada em Almonte, na região de Huelva. Acontece que o filme ia além da evocação religiosa: falava também da guerra civil e da posterior violência franquista na zona, identificando as vítimas e os principais responsáveis pela repressão. A ousadia valeu a Vergara um processo judicial movido pela família Reales no início da década de oitenta. O realizador foi obrigado a pagar uma multa avultada e condenado a dois anos e meio de prisão, sentença da qual se conseguiu livrar em recurso.

A versão integral do filme permanece censurada em Espanha. Mas é possível vê-la agora em Portugal. Amanhã, dia 25, em Coimbra, pelas 21.30, no Teatro da Cerca de S.Bernardo; depois de amanhã, dia 26, em Lisboa, pelas 21.00, na Livraria Ler Devagar (Lx-Factory). A organização é da Cultra e ambas as sessões contam com a presença do realizador, Fernando Ruiz Vergara, e do historiador Francisco Espinosa Maestre, um dos fundadores da Associação Todos los nombres e membro da comissão que assessorou o juiz Baltasar Garzón no seu intento de investigar os crimes cometidos durante a guerra civil e o franquismo.

Génio e inteligência - o estranho jogo de José Mourinho


Será ainda possível dizer alguma coisa de esquerda a propósito de José Mourinho? Ele parece corporizar como poucos a figura  do «vencedor», não apenas no sentido estritamente desportivo (o daquele que colecciona troféus) mas no do homem que se construiu a si próprio e atingiu o «sucesso» à custa do seu mérito e esforço. É notório aliás que -  em Portugal - grande parte dos discursos que o descrevem extravasam quase sempre o âmbito desportivo, para o enquadrar na categoria do «génio», representante das qualidades de todo um povo, que com ele partilharia a glória de cada conquista. Algo de semelhante se passa com Cristiano Ronaldo e passou, em tempos, com Figo. Quando ouvimos as perguntas que lhes dirigem os jornalistas ou lemos as crónicas que teimam em ocupar-se deste ou daquele gesto seu, dentro e fora (cada vez mais fora) dos relvados, não é tanto de futebol que se está a falar, mas de uma narrativa de grandeza na qual alguém excepcional conseguiu vencer a pequenez a que estaria condenado pela sua condição portuguesa. Ainda recentemente se viu forçado a desmontar a ideia preguiçosa de que o seu sucesso também seria o sucesso do futebol português ou, ainda pior, dos portugueses.
O desafio será então falar de Mourinho como um fenómeno exclusivamente futebolístico, secundarizando a narrativa yuppie e ligeiramente provinciana que domina a sua inscrição na cultura portuguesa contemporânea. Futebolisticamente falando, dizia eu, muito do que se vem dizendo sobre Mourinho é escasso, injusto ou lateral. Entre os que lhe gabam o sucesso e a capacidade de realização e os que lhe censuram a arrogância e o estilo, fica pouco espaço para uma análise do jogo propriamente dito. Mas como jogam, então, as equipas de Mourinho e que relação existe entre esse jogo e os resultados que acabam por ocupar todo o espaço da sua narrativa?



A Hipótese da Autonomia

Ao contrário do que o "ladrão de bicicletas" João Rodrigues parece pensar e, nos seus textos que são quase sempre saudáveis convites a uma reflexão implicada na acção,  muitas vezes escreve, considero que o aumento da intervenção do Estado na economia, o reforço das capacidades do "Estado-estratega",  permitem adiar e suspender, recalcar ou subordinar, a exigência de democratização do poder político que, só ela, pode animar uma repolitização igualitária e participativa da "economia política" dominante. Acresce que esta sobrevalorização do Estado-estratega, em detrimento de uma definição efectivamente desmistificadora das condições de exercício pelos cidadãos de um poder político efectivamente democrático, alimenta e repousa sobre uma identificação precipitada e politicamente perigosa entre "estatização" e "publicização" da direcção da economia, operação, por fim, coroada por uma defesa da "economia mista", ou seja doseando sabiamente os pesos respectivos do "sector estatal" (abusivamente declarado "público") e do "sector privado", como fórmula superior e "sintética" da justiça social e da eficácia instrumental.

Mas estas objecções não me impedem de sublinhar aqui a pertinência dos considerandos que ele apresenta neste seu post, A Hipótese da Rua, apelando à manifestação de protesto contra as medidas económicas e sociais do actual governo que a CGTP convocou para o próximo dia 29 deste mês de Maio. Nomeadamente, quando escreve: …o bloco central parece estar convencido de que as responsabilidades pela brutal crise económica internacional são dos trabalhadores, dos direitos que uma parte deles conquistou e do Estado social que as suas lutas fizeram surgir. Estranhamente, a lógica das medidas de austeridade nunca é anunciada: usar o desemprego de dois dígitos, a redução dos direitos sociais, sobretudo no subsídio de desemprego, e a austeridade orçamental, em geral, para favorecer a aceitação pelos trabalhadores mais vulneráveis de reduções substanciais do seu poder de compra. Julgam que assim se promoverá uma recuperação económica assente nas exportações devido à redução dos custos laborais. A enésima rodada de redução dos direitos laborais dá uma ajuda a este projecto económico de compressão do mercado interno [adoptado pelas] elites nacionais e europeias que fazem de tudo para agradar a "mercados" cada vez mais irracionais e, em última instância, incompatíveis com a escolha democrática.


E quando, deste quadro, extrai as razões da sua aposta na "hipótese da rua" - formulada como se segue: na ausência da "pressão da rua" convencionalmente desdenhada, é sobre a esmagadora maioria dos trabalhadores assalariados - do público e do privado, mais ou menos precários, empregados ou desempregados - que continuará a recair todo o fardo da crise de um sistema económico cada vez mais disfuncional -, João Rodrigues lembra-nos simplesmente uma verdade simples, mas fundamental: qualquer política de defesa dos trabalhadores e/ou de extensão dos direitos e liberdades da cidadania activa tem na acção autónoma dos trabalhadores e cidadãos interessados a sua garantia mais forte de êxito e a sua mais decisiva expressão de vontade democrática.

Ora, é justamente por estas últimas razões que - a par deste apelo de João Rodrigues, que, como disse, subscrevo e desafio todos a subscrever na acção -  recomendo agora, com o mesmo vigor,  também a leitura do desassombrado post que o camarada João Tunes, infelizmente sem o "via-factualizar" aqui,  publicou há dias no seu blogue pessoal Água Lisa, sob o título de Sobre o anti-sindicalismo: A fraqueza do sindicalismo português é um dos pontos fracos do regime democrático, um sinal preocupante da fraca capacidade de defesa dos trabalhadores. O patronato e a direita não se poupam a acentuar as fragilidades do ideal sindical, da sua prática e influência, contando ainda com a ajuda da burocracia anémica do sindicalismo amarelo. O controleirismo e hegemonização do PCP sobre a CGTP, o esmagamento e apropriação da agenda reivindicativa da central sindical, cumprem a outra metade do trabalho de sapa anti-sindical. O que demonstra, objectivamente, que nem sempre os contrários se desentendem.


Por outras palavras, a força da "hipótese da rua" será tanto maior quanto mais a sua base se mostrar independente dos interesses de direcções exteriores, empenhadas na consolidação da sua própria sociedade hierárquica de candidatas ao governo exercido sobre aqueles a quem não reconhecem a capacidade política de autodeterminação.

Mais um para ser um trio

Óscar Mascarenhas escreveu no JN um texto claro e cortante:

Pobre e desempregado são o que os ianques chamam 'losers', derrotados. Ficam de fora do condomínio das carroças.
No fundo, a burguesia projecta no pobre o comportamento que teria se estivesse na condição deste: antes de ser 'loser', faria batota, fugiria aos impostos a que ainda não se atreve a fugir, roubaria se fosse preciso.
A burguesia não tem a lucidez e os seus líderes não têm a honestidade de identificar os culpados - os ricos - das suas tribulações: a burguesia, por idolatria aos 'winners', os vencedores; os seus líderes, por respeito de capataz a quem manda neles.
Começou Paulo Portas com a cruzada contra o rendimento mínimo, pintando os seus beneficiários (?) como vadios, calaceiros, ladrões da coisa pública. Por isso, exige que a verba seja paga em géneros, não vá o malandro gastá-la em vinho ou tabaco. Percebe-se: na sua base de apoio na 'lavoura' e nas empresas, sabe-se como certos subsídios são convertidos em jipes, iates ou fundos em 'off-shore', com a diferença de que cada um destes desvios vale por milhares de subproletários que recebam ilegitimamente o óbolo; e com a outra diferença de que estes são espiados e denunciados pelos seus iguais.
Para não ficar atrás, Pedro Passos Coelho inventou o trabalho comunitário gratuito para o desempregado. Só para humilhar: porque hão-de os jovens burgueses, quando se embebedam e espatifam o automóvel, ter de cumprir horas de serviço comunitário por sentença do tribunal e o malandro do ocioso não há-de estar ali também, para que aprenda?


Mas pode-se ir, quanto ao culto sobre os “winners” e a subsequente depreciação dos “losers”, mais longe que as ideias curtas e eleiçoeiras, imbuídas de terrorismo de classe, de Paulo Portas e Passos Coelho. A enorme histeria idólatra e de massas para com José Mourinho - uma espécie, noutra escala, do António Mexia (este não isento, como acontece para Mourinho, de juízos públicos e críticos sobre as enormidades dos ordenados, mordomias e prémios) do futebol -, expoente máximo dos neo-cons do desporto, é um caso sério de difusão na cultura das multidões da selvajaria do culto pelos “winners”, sustentada pelos barões da burguesia dos grandes clubes mas que espanta, envolve e projecta os adeptos, mesmo os mais “losers” em termos sociais e os seus defensores nas querelas das grandes causas. Neste aspecto, Portas e Coelho, meros pescadores de votos e de parcerias no poder, não chegam aos calcanhares de Mourinho no esmagamento social e cultural. Mourinho fez ao futebol, desporto popular, de disputa entre colectivos e espectáculo de massas, impregnado de paixão clubística a um emblema de toda a vida, o que poucos lutadores de classes conseguiram nas sociedades: matar a arte através da táctica, enaltecer o chefe, o que manda sem jogar, acima de cada um e de todos os artistas. Ganha como as sociedades cansadas e desesperançadas se entregam aos ditadores. Mas ganhando, arrasta os “losers” seus admiradores que, mudando de clube consoante o ídolo viaja entre eles, numa desesperada esperança no direito a triunfos, não se importam de deixar a ética e os valores no balneário.

(também publicado aqui)

Padecimentos de um Torcedor do Milan

O Paulo Granjo anda a tentar encontrar uma desculpa comunista para poder celebrar o triunfo do Inter de Milão, mas que ninguém duvide da posição correcta. Cito a tradução brasileira dos textos que um filósofo italiano escreveu nos anos 90 para o jornal Folha de São Paulo: "Neste período muitas coisas andam arrevesadas para mim. Mas sobretudo uma: o futebol. Sou torcedor do Milan. Estou vivendo, no entanto, num cárcere romano, cuja população divide-se entre torcedores do Lazio e do Roma (os dois clubes da cidade eterna). Entre si, dividem-se, escarniçadamente dialéticos, mas quando estão diante de um milanista, unem-se, escarniçadamente hostis. Como se isso não bastasse, o meu time só faz é perder. Apesar dos nomes famosos, o Milan é a sombra do timão que já foi. Meu mal-estar está no ápice: como sobreviver no cárcere, numa situação destas? Desde que o campeonato começou, meus colegas
criminosos, "lazistas" ou "romanistas" que sejam, olham-me com comiseração, quando não com desprezo. Os meus títulos acadêmicos, minha fama na mídia, minha bonomia de cavalheiro, que de início me valeram muito respeito, como por encanto dissiparam-se na consideração de meus companheiros de desgraça. Às segundas-feiras, depois da rotineira derrota dominical de meu time, não me chamam mais "professor", mas Toni, familiar e ironicamente Toni. Não poderia haver maior humilhação, não por simplificarem tão rudemente uma relação que, de qualquer maneira, é dura, mas por eu sentir sua postura como escárnio. Nesta situação, por vezes, até penso em mudar o objeto de minha torcida. "Paris bem que vale uma missa!" Aliás, haveria boas razões para um "arrependimento": depois de ter sido o time do antifascismo milanês, e, portanto, de esquerda, o Milan foi comprado por Berlusconi, o rás da direita neoliberal italiana. Poderia, portanto, acobertar com motivos políticos a minha oportuna conversão para outra torcida. A do Roma poderia atrair-me: o Roma é o time do proletariado romano, enquanto o Lazio, seu oponente da cidade, representa antes a burguesia clerical e fascista e a aristocracia populista da província. Mas não posso. O fantasma de Giordano Bruno, milanista e europeu, queimado numa fogueira romana, aparece para me admoestar! "Non possumus." Desde criança meu pai vestia-me nas cores (antifascistas) do Milan e, mais tarde, por volta de 1968 e depois daquela data (que fique entre nós, não vão repetir isso aos juízes italianos), estive entre os inspiradores das "brigadas rubro-negras", as tropas de assalto da torcida milanista".

23/05/10

Diz-me de onde vens, dir-te-ei quem és...



Estive hoje no ”carnaval das culturas” que está a decorrer este fim de semana em Berlim e não resisto a deixar aqui umas notas sobre multiculturalismo e diferença.


Antes de mais – e para não ser acusado de cinzentismo –, apresso-me a dizer que este festival é – tendo em conta o modo como é vivido por quem nele participa, mais do que pelo princípio “multicultural” que o rege –, é, dizia, um evento realmente popular, com um ambiente excelente, por onde passam pessoas de todo o tipo, pessoas que vêm conviver, passear, dançar, beber, ou simplesmente passar algum tempo sentadas ou deitadas nos relvados... Mas isto, enfim, é Kreuzberg (o bairro em que decorre o festival) – e Berlim é uma cidade por que é difícil não se apaixonar, apesar ou, provavelmente, em virtude das suas contradições. Mas estas ficarão para outro post.

Contudo. A pergunta a que é difícil escapar, quanto ao princípio deste e de outros festivais multiculturais com o mesmo perfil, é a de saber se, ao fim e ao cabo, não se andará perto de uma espécie de “racismo positivo”, por outras palavras, se uma tal exibição – sobretudo no cortejo – da diferença, do estrangeiro, do exótico, não encerra o perigo de um fetichismo das identidades culturais que dogmatiza as diferenças, encerrando os membros desta ou daquela cultura num estereótipo. Além disso, referindo-me a estas bandas, também faria sentido interrogar-se sobre o que a “celebração da diversidade étnica e cultural” permite que não se debata acerca de Berlim.

Em todo o caso, e para não me limitar a uma espécie de “sim, mas/não, mas” talvez faça sentido distinguir, na discussão do multiculturalismo – e, em particular, no que toca ao conceito de diferença – três planos: o das práticas, o discursivo e o filosófico...


Prevenção inútil


Antes que o lumpen blogosférico organizado na brigada brejnev diga que o homem que ousou escrever sobre Cunhal é dos de Miami, treinado pela CIA, anticomunista desde a instrução primária, pago pelo Obama, vendido ao capital e à direita, renegado e vende-pátrias, merecendo ser metido (à força) num colete de forças para ser entregue aos psiquiatras lubiankas, convém que se leia a sintética nota biográfica publicitada sobre Carlos Brito pela sua editora. É curta mas deve chegar, não para a reverente e pavloviana concordância automática reservada aos chefes e referências blogo(m-l) mas para tradução do princípio do respeitinho aplicado a quem o merece.

Para as agendas: 27 de Maio, 18h30


(clique em cima da imagem para a tornar legível)

Viagem a Cunhal

Do livro de Carlos Brito com as suas memórias de camaradagem com Álvaro Cunhal (*) pode dizer-se, quanto à sua oportunidade, que é um livro necessário, constituindo, a meu ver, a mais importante novidade editorial dos últimos tempos em termos políticos e historiográficos.

Cunhal e o seu mito, inseparáveis num dos políticos mais brilhantes e influentes do século XX português, marcando profundamente a sociedade, a política e a cultura portuguesa até os tempos actuais, já tinham idolatria servida e penetrada em doses maciças; marcas de amor, ódio, simplificações e preconceitos; testemunhos de seguidores, adversários e dissidentes; olhares curiosos e fascinados “ de dentro” e “de fora”; uma biografia incompleta elaborada, com coragem, mérito e insuficiências, por um seu estudioso (José Pacheco Pereira) que sempre navegou em águas políticas diferentes das do líder comunista; reedições dos seus textos. Mas faltava algo importante e sintético sobre Cunhal, sobretudo uma visão que, ajudando a desfazer o mistério, contornando o carisma, nos permitisse aproximarmo-nos do revolucionário e da pessoa. Ou seja, o revolucionário enquanto pessoa e a pessoa enquanto revolucionário, únicas fórmulas aparentemente bipolares aplicáveis no único caminho para se chegar a Cunhal além do seu mito. O que, nas circunstâncias particulares de um dirigente comunista, é objectivo difícil de atingir, quase uma impossibilidade, sobretudo porque o silêncio e o mistério fazem parte do menu respiratório do fluxo orgânico do “centralismo democrático”. Porque abundando aqueles a quem a deificação de Cunhal serve ainda hoje como “prova de vida (política)” e sendo muito poucos os que tiveram acesso ao seu círculo íntimo (pessoal e partidário), era reduzida a probabilidade de “o culto cair na rua”, ou seja, descompor-se pela exposição dos contornos e das contradições através da sua acessibilidade via humanização.

Poucas pessoas além de Carlos Brito tinham condições para escrever e editar “um livro que faltava sobre Cunhal”. Não só porque o conheceu muito bem e durante um longo período (de 1967 a 2000), partilhou com Cunhal, na comunhão possível e permitida numa organização fortemente estanque e hierarquizada, as maiores responsabilidades políticas e partidárias, no período da clandestinidade, no período revolucionário e na fase de ocaso e decadência do PCP. Mas porque, nunca tendo sido um dissidente ou adversário de Cunhal, pela sua independência intelectual e pelo seu inconformismo político, tendo sofrido na pele a marginalização (e o castigo) do aparelho que se aproveitou da decadência de Cunhal, tinha as condições favoráveis a uma apreciação do líder desaparecido com distância, rigor e equilíbrio, sem culto nem preconceito. Ainda escrevendo e analisando bem, possuindo um bom suporte documental e factual, a memória política e partidária só pode agradecer a Carlos Brito a coragem de, com a maior decência, ter decidido ajudar a romper o véu sobre Cunhal e o seu mito, esse manto de omertà que inibe os que vivem e viveram o comunismo da sua exposição pública (e, afinal, do conhecimento do essencial, no orgânico, na ideologia e nos jogos de poder, por parte da esmagadora maioria dos seus militantes, simpatizantes e eleitores). Como nem Brito nem qualquer outro conheceram "todo o Cunhal" (a sua compartimentação integrava a que era aplicada às tarefas do partido), ele só não alcançou esse impossível. Mas uma aproximação ao real é sempre melhor que um mito em processos múltiplos de reprodução, deificação e demonização. E Carlos Brito deu o contributo que podia dar para que o Cunhal que vai passando á história se aproxime de uma figura humana, real, deste mundo, mas sempre excepcional e única.

Engana-se quem pense que o livro de Carlos Brito sobre Cunhal é um ajuste de contas ou sequer uma biografia deste. Diferente disso, ele é um livro de uma viagem política “a dois”, de Brito e Cunhal, dois camaradas próximos e diferentes, em que Brito, que tantas vezes foi avaliado e posto à prova por Cunhal, retribui ao seu dirigente máximo desaparecido um olhar de apreciação e levantamento dos pontos brilhantes e pontos negros que recheiam a carreira de um dos políticos portugueses mais influentes de sempre. E que, paralelamente, é uma revisitação do combate clandestino do PCP, da caminhada revolucionária e da decadência do PCP (esta fase já vivida em progressivo afastamento de trincheiras). O que dá ao livro um alcance suplementar, o da retrospectiva histórica e política sobre o passado de luta e decadência do PCP, sempre com a marca tutelar de Cunhal, o líder, o “Grande Irmão”. Depois, sempre importante em obras deste género, o estilo coloquial adoptado por Carlos Brito nesta obra faz dela um livro de leitura empolgante e fascinante.

[Penso que o importante, para quem se interessa pelas questões da história portuguesa contemporânea, do comunismo, do PCP e de Cunhal, é que leia este livro de Carlos Brito. Como a edição é muito recente, deixarei passar algum tempo até voltar a ele. Ou seja, ao Cunhal que nos é apresentado por Carlos Brito.]

(*) – “Álvaro Cunhal, Sete Fôlegos do Combatente – Memórias”, Carlos Brito, Edições Nelson de Matos

(também publicado aqui)

Amor à camisola

Lutas reformistas que se desdobram em movimentos revolucionários. Embora a estratégia do FC Barcelona também não seja menos revolucionária.

22/05/10

Variação sobre o post "A ESQUERDA AGRADECE" da Camarada Joana - ou da Angústia de Francisco Louçã Diante do Seu Candidato

O brilhante post A Esquerda Agradece, que a Joana aqui - mas também no Brumas - acaba de publicar, acerta em cheio no alvo. No entanto, as obstinadas indefinições do próprio Manuel Alegre parecem dotadas de um tal poder de contágio, que bem poderíamos dizer, louçanizando um pouco, que são como uma espécie de Maldição de Midas (cf. F. Louçã, A Maldição de Midas. A cultura do capitalismo tardio, Lisboa, Cotovia, 1994 ), capaz de transformar em indefinição solidária do seu estilo tudo o que tocam - ainda que das intenções se trate de quem pretenda torná-la menos rígida, aliviando o candidato das talvez excessivas dilacerações, heroicamente sofridas embora, que esse estilo lhe acarreta, bem como ao núcleo duro dos seus granadeiros. O resultado da decidida intervenção do líder do BE nos minutos seguintes ao anúncio por MA da sua disponibilidade para se candidatar foi, por si só, um sintoma claro de que o poder de contágio referido está longe de atingir apenas as áreas de influência do PS.
Tal é, pois, o motivo que me leva agora a submeter à consideração da assembleia outra variação possível a partir do texto do DN e da sua exemplar desconstrução pela Joana:

Alegre vai apoiar oficialmente a direcção do PS, mas apenas em dose mínima garantida. Ninguém espera um envolvimento directo do aparelho central da candidatura alegrista no governo, nomeadamente em aspectos logísticos e/ou organizativos. Sócrates, pelo seu lado, deverá invocar a necessidade de o apoio do candidato-poeta ao PS não afectar a cooperação institucional entre o Governo e o PR.

A esquerda agradece


«A direcção do PS vai apoiar oficialmente Alegre, mas apenas em dose mínima garantida. Ninguém espera um envolvimento directo do aparelho central do partido na candidatura alegrista, nomeadamente em aspectos logísticos e/ou organizativos. Sócrates, pelo seu lado, deverá invocar a necessidade de o apoio do PS ao candidato-poeta não afectar a cooperação institucional entre o Governo e o PR.» (DN)

Haveria uma decisão alternativa:

«A direcção do PS vai apoiar oficialmente Cavaco, mas apenas em dose mínima garantida. Ninguém espera um envolvimento directo do aparelho central do partido na candidatura cavaquista, nomeadamente em aspectos logísticos e/ou organizativos. Sócrates, pelo seu lado, deverá invocar a necessidade de o apoio do PS ao candidato-economista não afectar a oposição institucional entre o Governo e a Esquerda.»

(Publicado também aqui)

P.S. - Ricardo Alves, no Esquerda Republicana:
«Pairando a suspeita de que Sócrates até prefere que Cavaco continue em Belém, estão criadas as condições para que um voto em Alegre seja simultaneamente um voto num candidato do PS e um voto contra Sócrates. E se Alegre ganhar mesmo em Janeiro de 2011 nestas condições, será o Presidente mais independente de apoios partidários desde o primeiro mandato de Eanes.»

Uma questão de "timing"


Houve quem censurasse o post que a Diana Andringa aqui publicou ontem, por já não vir a propósito. Independentemente do conteúdo específico da censura (relativa ao que já não viria a propósito naquele caso específico), é uma certa tirania do timing que assusta.

Seria preciso, portanto, postar a tempo e horas sobre o que está na ordem do dia. Como se a oportunidade do aqui se possa escrever fosse directamente proporcional ao zelo com que se espetam os olhos no calendário, alinhados com os dois algarismo do dia em que se está...

Provavelmente, não há como se desembaraçar, em absoluto, de certos gestos, reflexos, tiques reificados. Mas, pelo menos, tentemos resistir-lhes.  Porque há, também, uma “atenção distraída”, uma “compreensão súbita e imprevista do que se investigava há muito”, um “sentir-se livre de prazos e obrigações e, ao mesmo tempo, engajado em tudo”, entre outros tantos paradoxos mais ou menos poéticos e em nada irreais. E há, também, o “kairos”, que poderíamos traduzir do grego por “momento oportuno”.

Ora aí está uma coisa em que valeria a pena pensar – e nada despicienda em vista de uma crítica da reificação (e de outras coisas): a diferença – sublinhe-se a diferença – entre o bom timing e o “momento oportuno”.

Ainda sobre os prémios dos gestores (parte CXXII)

Sobre esta questão, há uma dúvida que me ocorre - nessas empresas em que os gestores recebem prémios milionários, serão muito frequentes as situações em que, no fim do ano, chega-se à conclusão que os objectivos não foram atingidos e que, portanto, os gestores não receberão prémio?

Não nos esqueçamos que um prémio não é suposto ser um simples complemento remuneratório - a intenção é, exactamente, ser um prémio para um desempenho excepcional (e, quanto mais elevado o prémio, mais excepcional deverá ser esse desempenho); assim, se esses prémios milionários correspondem a objectivos excepcionais, quase por definição deve ser raro os gestores conseguirem atingir esses objectivos e receber o prémio; por outro lado, se quase sempre os objectivos são atingidos e os prémios atribuídos, isso poderá indicar que os objectivos pré-definidos não são nada de especial.

Note-se que eu não faço a mínima ideia sobre se os gestores da PT, EDP, Zon, etc. atingem ou não frequentemente os objectivos; estou apenas a especular.

Heresias musicais




Teria Berlioz ofendido – dele escarnecendo – o sentimento religioso dos fiéis nesta passagem da Danação de Fausto? Não se pode dizer que seja um “amen” muito edificante, o cantado pelos convivas desta taberna de Leipzig.

A questão é, em última instância, fútil, bem sei... Magistral, por outro lado, é o modo como, independentemente da encenação (de resto, são habituais versões de concerto desta obra), a própria música se vê impregnada de ironia: uma caricatura em estilo fugado em que, sempre com minúcia, Berlioz exagera os contornos do contraponto tradicional. Um autêntico chinfrim...

*

Eu sei, eu sei, as querelas de teor religioso já não estão na “ordem do dia” – já lá iremos –, mas estava a ler o post ali em baixo do Miguel Serras Pereira, e lembrei-me desta heresia musical... Os menos intempestivos que me perdoem.

Finalmente alguém diz alguma coisa de esquerda

"Vitória do futebol português? Não. Dos portugueses? Alguns. Uns querem que eu ganhe, outros querem que perca. Será uma vitória para os querem que eu ganhe e que têm estado comigo neste meu trajecto desde 2004 quando saí de Portugal. Represento aqueles que estão comigo e não a generalidade".

Mesas do Santo Ofício

Do Público (de Espanha), no dia 20.05.2010:

El 15 de diciembre de 2004 el programa Lo + plus de Canal Plus emitió algunas imágenes del vídeo realizado por el cantautor Javier Krahe y Enrique Seseña en los años 70 titulado Cómo cocinar un crucifijo. El crucifijo era troceado, untado con mantequilla y metido en un horno, "saliendo al tercer día en su punto".
Aquella emisión desató la furia del Centro Jurídico Tomás Moro, una organización que, según se puede leer en su página web, "tiene como fines la defensa de la dignidad de la persona, de la familia y de los derechos humanos, y en especial la protección del derecho a la vida del nasciturus y del embrión humano". Esta organización presentó entonces una querella criminal por escarnio de las creencias religiosas.
Casi seis años después el Juzgado de Instrucción nº 3 de Colmenar Viejo, en un auto con fecha 12 de mayo, acuerda la apertura de juicio oral contra Krahe y contra la productora del programa, por un delito contra los sentimientos religiosos recogidos en el artículo 521.1 del Código Penal. La acusación solicita una fianza de 192.000 euros a Javier Krahe, y de 144.000 euros a Montserrat Fernández Villa, la entonces directora del espacio.
Aunque en una primera instancia ese mismo juzgado de Colmenar viejo sobreseyó la causa en 2007, el Centro Jurídico Tomás Moro recurrió a la Audiencia Provincial de Madrid dicho sobreseimiento y consiguió reabrir la causa. Según la Audiencia Provincial de Madrid, "la existencia de un escarnio de la creencia de la Resurrección que sostiene la religión católica puede ofender el sentimiento religioso de los fieles".

Pois, aqui está, camaradas: é nisto que dá o "multiculturalismo", a defesa comunitarista dos direitos identitários, a entronização beata do respeito pelas "ideias dos outros" e pelas suas "crenças" ou "convicções". Respeitinho pelo Dalai Lama, pela revelação cristã, pelos mandamentos do Sinai, pelo crescente islâmico. E também - porque não? - pelos credos políticos de cada um e pelos costumes tribais. Razão tinha Orwell: a institucionalização da censura e da polícia do pensamento é particularmente eficaz se for confiada ao Ministério da Liberdade Religiosa e de Consciência. E a Igreja de Roma soube actualizar-se, operou um notável aggiornamento. Durante muito tempo, a sua justificação foi: se só a verdade liberta e se a verdade é só uma e só a nossa, temos não só o direito como o dever de reivindicar que "o monopólio da violência legítima" a imponha. Hoje completa esta máxima, recorrendo à sua inversão simétrica, e serve-se das duas posições - a absolutista e a liberal - ao mesmo tempo: é preciso respeitar os "sentimentos dos fiéis" porque estes fazem parte da identidade do povo X ou da comunidade Y e da sua autodeterminação cultural. E esta conjunção das duas "razões" rivais - do dogmatismo global e da superstição identitária - potencia o obscurantismo de uma e de outra, tornando ambas motores de inquisição.

Nota bene: Considero a sátira - ou escarnio de la creencia de la Resurrección - de Krahe e Sesseña bastante deficiente, tanto em termos de inteligência como de humor, absolutamente inócua e até contraproducente. Mas não é isso que está em causa, pois não é a indolência mental a visada pelo libelo da acusação. E acrescento que, apesar de tudo, o vídeo não é intelectualmente mais regressivo do que o milagre do salpico de óleo de fritar que contribuiu para a canonização do Condestável.

21/05/10

Um livro que parece interessante

For the Win, de Cory Doctorow (estou-me guiando por esta sinopse de Kevin Carson - parece uma história gira).

Sugestão de leitura

Em 1818, Joseph Jacotot, um revolucionário exilado e professor de Literatura Francesa na Universidade de Lovaina, começara a semear o pânico na Europa culta. Não se contentando em ensinar o francês a estudantes flamengos sem lhes ter dado uma única lição, propôs-se ensinar o que ignorava proclamando a palavra de ordem sobre a emancipação intelectual: todos os homens possuem uma inteligência igual.

Às vezes, cheguei a acreditar



Do mesmo disco do GAC (Grupo de Acção Cultural):
Pois Canté!!


Ir e vir

E quando me falam do Papa, lembro-me de Prévert

Pater noster

Notre Père qui êtes aux cieux
Restez-y
Et nous nous resterons sur la terrre
Qui est quelquefois si jolie
Avec ses mystères de New York
Et puis ses mystères de Paris
Qui valent bien celui de la Trinité
Avec son petit canal de l'Ourcq
Sa grande muraille de Chine
Sa rivière de Morlaix
Ses bêtises de Cambrai
Avec son Océan Pacifique
Et ses deux bassins aux Tuilleries
Avec ses bons enfants et ses mauvais sujets
Avec toutes les merveilles du monde
Qui sont là
Simplement sur la terre
Offertes à tout le monde
Éparpillées
Émerveillées elles-même d'être de telles merveilles
Et qui n'osent se l'avouer
Comme une jolie fille nue qui n'ose se montrer
Avec les épouvantables malheurs du monde
Qui sont légion
Avec leurs légionnaires
Aves leur tortionnaires
Avec les maîtres de ce monde
Les maîtres avec leurs prêtres leurs traîtres et leurs reîtres
Avec les saisons
Avec les années
Avec les jolies filles et avec les vieux cons
Avec la paille de la misère pourrissant dans l'acier des canons.

Extrait de "Paroles", Jacques Prévert

20/05/10

Enquanto a Europa dormiu a sesta


Exactamente há um ano, em Maio de 2009, eu estava no Cambodja e foi lá que li um post que Rui Bebiano então publicou em «A Terceira Noite», sobre o direito à sesta, em vias de reconhecimento no reino da Dinamarca. Falava-se também de um dia de baixa por morte de um animal doméstico. Em jeito de adenda, o Rui publicou a minha reacção que lhe enviei por mail: «Será possível, viável, um mundo em que se possa dormir a sesta sem que outros (aqui) trabalhem 364 dias por ano, nem se sabe quantas horas por dia? E em que os primeiros ainda se queixam se as empresas são deslocalizadas para dar de comer aos segundos?». Lembrei-me disto ao ler hoje este outro texto, também do Rui.

Nesse dia eu tinha andado por Tonlé Sap, o maior lago de água doce do Sudoeste Asiático, onde vivem milhares de pessoas numa situação quase inimaginável. Em barracas, sobre estacas ou flutuantes, acumulavam-se famílias cheias de filhos e até de animais, sem quaisquer condições de higiene, com esperança de vida abaixo dos cinquenta anos. Como então escrevi, «vi pessoas beberem a água do lago (e é com ela que se cozinha e que se toma banho), (…) e um pequeno curral flutuante com quatro porcos, amarrado a um dos lados de uma casa. Saltavam crianças, mais ou menos esfarrapadas, de tudo o que era buraco. Devo dizer que estas imagens ficarão entre as piores que guardo das muitas viagens que já fiz. (…) Do Cambodja, vim com a sensação de que a revolta nascerá naquele lago.»

Naquele lago e não só. O Cambodja é um país terrível, paupérrimo e quase sem velhos, já que 20 a 25% da população desapareceu em consequência da acção dos Khmers Vermelhos, em apenas quatro anos – enquanto nós por cá vivíamos o PREC e os anos que se seguiram, ou seja há relativamente pouco tempo.

Se falo deste caso, é porque ele é quase um extremo. Mas a Birmânia, o Laos e até o Vietname, mesmo a Índia que não é dos ricos, não ficam muito atrás: multidões e multidões, com taxas de crescimento de população elevadíssimas, milhões e milhões de crianças e jovens que, até há pouco, olhavam para Oeste com um El Dorado a ser imitado, ou que um dia viriam a alcançar - mesmo se, nalguns casos, através do enviesado modelo do grande vizinho chinês.

Mas, nos últimos doze meses, tudo se alterou no mundo, muito mais do que alguma vez poderíamos ter imaginado. Há um ano, claro que já havia «a crise», mas ainda nos entretínhamos a discutir o cumprimento da lei do fumo e as características dos galheteiros, regulamentados pelo camarada Barroso and friends. Hoje, já nem da ASAE se ouve falar – só da dita crise e dos seus protagonistas.

Mudou tudo, mas infelizmente no pior sentido. Não porque pense que vamos todos acabar em enormes lagos Tonlé Sap deste lado do planeta, nem porque já ninguém ouse, sequer, reivindicar sestas ou feriados adicionais pela morte de um gato. Mas porque a pobreza aí está, nua e crua, onde e quando menos se esperava. Não acreditámos que o capitalismo selvagem nos venceria com o seu falhanço, mas foi o que aconteceu. Vivamos então em estado de alerta porque o mundo não acaba aqui. Mas precisa, mais do que nunca, daqueles que procuram outros modelos e razões para novas esperanças.

(Publicado também aqui)

Saída de emergência

Mergulhada em filmes de arquivo, assusto-me ao vir à tona: como foi que, do entusiasmo do 25 de Abril, chegámos em 36 anos a este país de Futebol e Fátima, com Fado a tocar em quase todas as rádios dos táxis em que entramos?

A nuvem, que me retém em Ponta Delgada, deixa-me outras interrogações: sobre comboios e aviões, sobre barcos, sobre quantas pessoas são necessárias para justificar a existência de um Instituto de Oncologia num conjunto de ilhas a que uma nuvem vulcânica pode cortar todo o acesso ao exterior?

Parada no balcão do check-in, inquieta por partir, oiço as vozes daqueles para quem o cancelamento das ligações aéreas significa algo muito diferente da alteração de uma reunião ou um compromisso: o adiamento de uma operação esperada há mais de um ano; a falha a uma ou mais sessões de quimioterapia; a continuação da espera pela intervenção urgente para manter a visão.

Sei, ninguém tem culpa, como refere até à exaustão o funcionário da SATA: é a nuvem. A natureza. Quiçá Deus. E recordo o belíssimo poema de Carl Sandburg, Anna Imroth:

Cross the hands over the breast here--so.
Straighten the legs a little more--so.
And call for the wagon to come and take her home.
Her mother will cry some and so will her sisters and
brothers.
But all of the others got down and they are safe and
this is the only one of the factory girls who
wasn't lucky in making the jump when the fire broke.
It is the hand of God and the lack of fire escapes. *

Não me fio na mão de Deus. Prefiro as saídas de emergência.

* Cruzem-lhe as mãos sobre o peito - assim.
Endireitem-lhe um pouco mais as pernas - assim.
E chamem o carro para a levar para casa.
A mãe dele irá chorar e também as suas irmãs e irmãos.
Mas todos os outros saíram e estão bem
e ela foi a única rapariga da fábrica que
não conseguiu saltar quando o fogo irrompeu.
Andou aqui a mão de Deus - e a falta de uma saída de emergência.

(A tradução segue de memória - ou seja, com possíveis falhas - uma excelente tradução de Alexandre O'Neill.)

Antes o tango que a tanga

Blogosfera

Um blogue que não conhecia – Rio Torto -, que visitei por sugestão da Diana, e que já está ali na Barra Lateral.

Longe do paraíso

pobreza
Publicado em 1933, Na Penúria em Paris e em Londres é um testemunho poderoso da experiência da pobreza, dos seus efeitos sobre os comportamentos e da própria consciência de ser-se pobre. A vivência do desamparo não resultou porém, em Orwell, de uma imposição das circunstâncias: ele procurou-a pois queria conhecê-la, procurou-a porque «queria viver entre os oprimidos, estar no meio deles», porque pretendia partilhar, como escritor em formação mas também como militante da causa do socialismo, das condições de existência da maioria dos humanos. A sua percepção de certos factores associados à condição do pobre – o tédio da existência degradante, a ausência intensamente depressiva de uma perspectiva de futuro, a despersonalização e o individualismo, a violência como instrumento de sobrevivência ou vestígio de dignidade – jamais deixou de ter a marca inerente à condição social e intelectual que detinha, mas nem por isso foi menos perturbadora, funcionando como factor importante na construção da sua consciência política.

Por detrás da miséria humana mais extrema, sobressai sempre, neste relato, o lado solidário. Deixou gravado um momento de epifania, lembra o seu biógrafo John Newsinger, quando, em Paris, um certo dia ajudou um vendedor ambulante a endireitar uma carroça que havia virado. «Obrigado, companheiro», agradeceu-lhe o outro com um sorriso. «Ninguém ainda me chamara assim “companheiro” em toda a minha vida – era o efeito das roupas a manifestar-se já», escreveu Orwell, falando das consequências sociais do seu próprio aspecto empobrecido. Por detrás do egoísmo imposto pela luta diária pela sobrevivência, um princípio de solidariedade que unia os excluídos no qual jamais deixou de acreditar, mesmo quando pragmaticamente se aproximou, já no final da vida, da ala esquerda do Labour.

Talvez valha a pena relembrá-lo neste preciso momento. Quando uma boa parte dos socialistas europeus se distanciou definitivamente, sem qualquer esforço para escondê-lo, do modelo solidário no qual a sua família política um dia se fundou, por troca com um certo programa desenvolvimentista que vê num quimérico capitalismo bem-educado o menos mau dos sistemas, o triste cenário gestionário da sobrevivência que sucedeu ao aparente bloqueio histórico das utopias igualitárias. E também quando por estes dias nos dizem que a continuidade dos Estados assenta em primeiro lugar no sacrifício dos mais pobres e na pauperização da classe média, porque o cenário da pobreza nos acena já de um horizonte cada vez mais próximo. Aqui pela orla do velho «primeiro mundo», em breve os pobres deixarão de ser vistos apenas nos transportes públicos que se movem em vaivém entre os seus empregos subalternos e os bairros periféricos onde vivem, se reproduzem e morrem, ou nos sombrios pontos de encontro da crescente massa de desempregados, e mostrar-se-ão em plena cidade. Muitos deles, provavelmente, seremos nós próprios, ou serão familiares e conhecidos nossos, confrontados com a realidade da penúria que um dia associámos a um passado supostamente arcaico como aquele descrito no livro de George Orwell. Longe, muito longe, do Éden terreno prometido pela ardente voz-off dos tempos de antena.

Publicado também em A Terceira Noite

Um enorme TGV


Estava eu em longuíssimas horas de espera num aeroporto, vítima das cinzas do tal vulcão de nome impronunciável e só pensando em aviões, quando o último número da Newsweek me atirou para o mundo dos comboios, mais concretamente para um megalómano projecto chinês: a construção da Nova Rota da Seda. Se é verdade que já tinha visto referências ao assunto, nunca me tinha dado ao trabalho de o conhecer em detalhe.

Trata-se, nada mais, nada menos, do que o plano de ligar dezassete países por linhas de alta velocidade, com mais de 8.000 quilómetros, destinadas a transporte de passageiros e de mercadorias. Está previsto que duas redes partam da China e cheguem à Europa (passando por tudo o que há pelo caminho e que não é pouco!…), com terminais em Londres e em Berlim, e que uma terceira ligue Vietname, Tailândia, Birmânia, Malásia e Singapura.

O velho Império do Meio quer verdadeiramente sê-lo, justificando de novo o seu nome, ultrapassando, a anos de luz, a rede que os ingleses deixaram na Índia (ainda hoje quase lendária, com os seus 16.000 milhões de ferroviários) e o decrépito domínio da Rússia na Ásia Central. Pretende assim mostrar como vê o mundo num futuro próximo, imprevisível e perigoso, e deste modo assegurar ligações por terra, que o tornem menos exposto a eventuais ameaças de outras vias que não domina, como, por exemplo, as saídas marítimas para os seus produtos pelos estreitos de Ormuz e de Malaca.

Os críticos sublinham os custos gigantescos do projecto e acusam a China de vaidade e de extravagância, mas esta responde com argumentos que considera de peso: trata-se de um projecto «verde» (emissões correspondentes a apenas 25% das provocadas por aviões e automóveis) e criador de muitíssimos postos de trabalho, em tempo de crise (110.000 só para a construção do troço Pequim – Xangai).

Mas será que a comunidade internacional vê isto como um win-win project ou como puro mercantilismo de Pequim para proveito próprio? E que dificuldades poderão ser encontradas pelo longo caminho? Se internamente, e também nos países do Sudoeste Asiático, será relativamente fácil dominar a força laboral (por exemplo deslocando grandes populações, como foi feito para a construção da barragem das Três Gargantas), já o mesmo não é previsível na democrática e poderosa Índia.

Concretize-se ou não, a simples existência de um projecto desta dimensão, e vindo de onde vem, é altamente significativa. Relativiza as nossas «enormes» realizações (alô Poceirão, alô Caia!) e obriga a uma revisão definitiva do planisfério que ainda temos nas nossas cabeças: Europa ao meio, com América à esquerda, África por baixo e Ásia à direita? Já foi…

P.S. – O artigo da Newsweek pode ser lido aqui.

(Publicado também aqui)