Nota:
este post começou na caixa de comentários deste outro do Ricardo Noronha. Tendo crescido para além do que o formato do comentário permite publicar de uma assentada, resignei-me a postá-lo aqui. Sempre facilita a leitura.
Grande Camarada Ricardo,
Bom, confesso que fiquei mais descansado quando, no corpo do texto, descobri que o "
hedonismo do caos" só "parcialmente" tem o teu apoio - e que não te converteste bruscamente ao reformismo da "
esquerda carnavalesca", pois, como concordarás, o carnaval é uma válvula de escape da ordem estabelecida, uma sua "purificação" ritual. Sim, eu sei, é possível que uma explosão carnavalesca transborde deste quadro, mas justamente nessa altura a "
multidão" começa a abandonar o caos e a organizar a sua autonomia. Não quer isto dizer que seja possível ou desejável eliminar "
o caos mais antigo do que os deuses", como lhe chama
Sophia - ou seja, mais antigo do que os primeiros princípios ordenadores da natureza, da paisagem, da terra cultivada, das aldeias ou das cidades, das instituições, da socialização, da subjectividade individual articulada… Esse caos permanece dentro e fora de nós, ignorando de resto esta linha divisória, indefinida e nunca idêntico vaga de criação e destruição que faz com que nenhuma realidade possa conter todo o real - força de expressão, este "todo o real", pois não há todo do real que seja tudo ou que colmate a não-coincidência do real consigo próprio - por excesso ou defeito, conforme a perspectiva; ou: por excesso
e defeito, se assim preferires.
Mas nós, humanos, que somos metamorfose e acontecimento ou instante e criação dessa vaga, temos por condição (o que significa aqui tanto limite como potência) "
passar abrindo caminhos/ caminhos por sobre o mar" do seu "
sem-fundo" - como escrevia
Antonio Machado e o
Paco Ibañez tão bem cantava. E a tónica aqui está na acção ou na criação do abrir caminhos que a vaga não traça, acção e criação anteriores, evidentemente, a toda a cartografia que - já sempre a caminho - tracemos.
Que poderia, pois, ser um "
hedonismo do caos" que radicalizasse o carnaval, levando-o às últimas consequências, mas sem o politizar, como simples inversão de toda e qualquer ordem? Que mais poderia ser, senão muito literalmente, o paroxismo dessa "
morte súbita" que certa cerveja belga promete, mas não dá?
Quanto aos teus argumentos mais polémicos, ou às razões que articulam, não me parece que sejam tão opostos aos do
João Tunes como tentas apresentá-los. Colho apenas alguns exemplos ao acaso: os porta-vozes do PCP não invocam porventura, também, o sofrimento dos outros, para justificar as reivindicações ou soluções da organização? Como é que deduzes que o João procura definir como "
exclusivo" do PCP a "
incontrolada pulsão hegemónica e unicista" de que fala? Ou, por outro lado, faz ou não alguma diferença saber quem efectivamente a "passa ao acto" e reproduz? Absolverá o governo de Sócrates o juízo dos que afirmam que outros fariam a mesma coisa ou pior? E em quê e de quê absolverá, então, a linha do PCP dizer que outras correntes políticas fariam a mesma coisa se tivessem unhas para tanto? E dizê-lo dispensa-nos de contestar o modelo de organização e direcção sindical vigente? Ou legitima-o? Se disseres, como implicitamente fazes, que teremos de nos esforçar por não reproduzir na contestação as formas contestadas, e eventualmente refinadas durante o processo da reciclagem, estarás a dizer coisas muito parecidas com as afirmações do João - coisas que consubstanciam uma crítica à concepção e à prática hierarquicamente subordinada do sindicalismo que o PCP alimenta.
Há uma divergência, sem dúvida, quanto à "
hipótese da rua"- e outra, quanto ao juízo político sobre a moção de censura.
Declarar esta última não-acontecida por não ter logrado o eco que gostaria de ter tido nos meios de comunicação dominantes é um argumento muito curto - sobretudo, quando a propósito da mesma moção, se escreveu, como há dias fizeste na caixa de comentários de um post do
Zé Neves , coisas muito próximas de alguns dos argumentos do João, opondo-as ao
Vítor Dias: "
Mas Vítor, a inquietação e preocupação, por sinceras e autênticas que sejam, não furtam ninguém ao debate acerca das consequências, vantagens e desvantagens de uma determinada estratégia. Essa articulação e complementariedade [da moção de censura ao governo e do apoio à manifestação] parecem-me aliás extremamente problemáticas. A manifestação de 29 de Maio tem como finalidade a queda do governo? E essa queda traduzir-se-à numa alteração de políticas no sentido que pretende o PCP e o movimento sindical? E como é que uma moção de censura ao governo se estende também ao PSD, como se afirma no comunicado?" Assim, o meu juízo está, na questão da moção, mais próximo do do João do que daquele que o teu post lhe opõe,
Já quanto à "
hipótese da rua", pelo contrário, acho que estamos os dois de acordo, embora com reservas semelhantes, creio, perante os pressupostos de fundo do
João Rodrigues - e não vou repetir aqui o que digo a esse respeito na caixa de comentários do
post do João.
Fazendo o balanço desta conversa, receio ter-me metido em maus lençóis e estar a atrair sobre mim as divergências por motivos divergentes de dois camaradas, em cujos pressupostos vejo mais elementos comuns ou solidários do que antagonismos irredutíveis, ainda que um e outro de vocês os dois deles extraiam consequências diferentes e tendam a exasperá-las. O que por vezes ajuda a abrir novos caminhos ou a melhorar aqueles que - para parafrasear de novo
Machado -
vamos fazendo ao andar.
Viandante abraço
miguel