22/11/10

E se o nosso "jornalismo" económico fosse a sério?

No Económico de sexta-feira, lê-se um editorial que arranca com a angustiante pergunta: «E se o País fosse uma Autoeuropa?» A ideia é gabar as condições de trabalho e a produtividade daquela fábrica, contrapondo depois o rutilante exemplo à esquálida situação de Portugal: «O que seria preciso para que um país, em tempo de austeridade, aumentasse os salários dos seus funcionários públicos em 3,9%, passasse todos os temporários para os quadros, garantisse não fazer despedimentos nos próximos dois anos, melhorasse os seguros de saúde, reforçasse os subsídios de transporte em 5% e ainda criasse um fundo de pensões para todos? A solução: seria preciso que fosse uma Autoeuropa.»
Como facilmente se calcula, não vivemos na República Autoeuropense. Mas a culpa é do Estado (os malvados dos políticos), dos trabalhadores (os madraços dos funcionários públicos) e dos sindicatos (comunas impenitentes que só querem confusão, claro). Claro que a imaginação, a vontade do risco ou a independência em relação ao Estado não fazem falta aos nossos empresários. Claro; os culpados já foram recenseados e pronto.
Ora o que há de errado naquele símile? Para começar, o facto de aqui nada se decidir de relevante quanto aos automóveis que ali se produzem. A Volkswagen concebe, desenha e decide os seus modelos longe daqui. A tecnologia é inventada algures que não em Palmela. Sem o valor da marca, da sua qualidade, do seu marketing, da sua reputação, aqueles veículos seriam apenas caríssimos montes de chapa e parafusos. Que não restem dúvidas: a Autoeuropa é um excelente modelo para muita coisa... mas para o funcionamento de um país independente? A ideia é mesmo limitar-nos a juntar peças de tecnologias alheias, concebidas por estrangeiros, reduzindo-nos ao papel de boa mão-de-obra?

Sempre poderemos, claro está, começar a produzir apenas bratwursts, queijo Stilton ou malinhas Louis Vuitton. Mas é capaz de ser mais eficaz começarmos por assinar o Financial Times.

No dia da greve geral, também será preciso ter "credencial" para sair à rua?

Pelo que aqui vai, parece que sim. Nem lido se acredita: «pois é camaradas anda ai alguém a tentar tirar proveito e mais se estamos em greve vamos fazer os outros trabalhar para nosso belo prazer!! pensem um pouco nisto e tentem ter informação na CGTP/IN», já clama um dos detentores das verdades e dos espaços públicos. Porra. Esta malta não aprende; só piora.

A ordem perturba mais que a desordem

Escrito com a frescura e a força da revolta inteligente aqui fica um texto de um amigo do Porto, Júlio do Carmo Gomes, membro do colectivo do bar associativo “Gato Vadio”. Assim, com a ajuda do aparelho do PCP, muit@s se vao afastando da mentira e aproximando da realidade ...

Eu fui a Lisboa abraçar-te
A ordem perturba mais do que a desordem.
Quem quiser ver, a democracia está aí: converteu a política, toda a política, no confronto com a polícia.
A política é hoje tudo aquilo que escapa ao sistema político-partidário. E contra o que escapa ao sistema político-partidário, a mentira da democracia chama a polícia.
Desta vez, não foram apenas os sitiados pelo controlo social e político – exercido pelo Estado em nome da falsa democracia – que sentiram na pele a repressão exercida pelo aparato da polícia-exército: alguns jornalistas, curiosos, transeuntes, imigrantes, ficaram espantados. Um carioca, ao entrar no Rossio às 18h da tarde ficou mudo e gelado: pensou que tinha regressado ao Morro Formiga na favela da Tijuca.
Mas a falsa democracia é por demais previsível: o ataque preventivo começou cedo. Ataque preventivo na rua, em Lisboa, ataque preventivo nos/dos Media com a série policial black block, ataque preventivo nas fronteiras. Assim desvia a falsidade da sua essência, assim limpa a ferocidade do seu Estado-Guerra: cercar o mal, isolar o desordeiro, o violento, o vândalo, os palhaços, os filhos-da-puta.
Mas se o Estado é cada vez mais guerra e cada vez mais previsível, o que dizer do PCP?
O meu avô e o meu pai foram/são comunistas. O meu avô foi preso, torturado, na prisão tentou suicidar-se para não ceder à tortura, para não ceder à violência: quis ceder a vida para não ceder a liberdade. Teve 7 dias em coma, tantos quanto os dias que ficou sob tortura do sono – a mesma tortura, entre tantas outras, que a NATO infligiu e inflige aos prisioneiros de guerra do Afeganistão e Iraque com o beneplácito do Estado português. Ao fim de 7 dias de tortura do sono, num rebate de lucidez, atirou-se a pique e de cabeça do vão das escadas do 4ª andar da prisão de Coimbra.
O meu pai, deu metade da vida pelo “partido”. Acumulou cólera e raiva, cortes nos direitos sociais e degradação da democracia. (A única coisa que ganhou foi, isso sim, o movimento de base e habitacional cooperativo que ajudou a fundar com sucesso). Acumulou mais cólera e raiva do que aquela que eu tenho.
O PCP é uma linha de comando de controlo da raiva e da cólera?
Nenhuma outra estrutura/movimento político e social no país é um “black block” em potência além do PCP.
Se a voz de comando disse-se: ocupem as fábricas, ponham cadeados nos portões, não deixem sair os camiões, o país parava. (Como talvez nenhum outro país europeu pudesse parar por acção de uma só máquina partidária). O PCP não tem de o fazer, só a ele lhe cabe essa responsabilidade, ou melhor, ao seu comité. Mas para achar a nossa responsabilidade em tudo o que fazemos, temos sempre que confrontar aquilo que realmente fazemos com as possibilidades do que poderíamos fazer e não fazemos. Nessa diferença, podemos achar a nossa irresponsabilidade.
Pergunto – não à voz de comando, aquele que declara à Lusa (Fonte: TVI) que as pessoas que foram impedidas de entrar no protesto «não pediram antecipadamente para fazer parte do corpo principal da manifestação»; ou ainda, citando a reportagem assinada no JN por Catarina Cruz, Carlos Varela e Gina Pereira, “o único caso de maior preocupação deu-se, a meio da tarde, quando um grupo não organizado foi cercado pelo Corpo de Intervenção da PSP, junto ao Marquês de Pombal. A intervenção policial deu-se a pedido dos organizadores da manifestação que perceberam que mais de 100 pessoas iam integrar o protesto. A polícia, fortemente armada, cercou o grupo na cauda do cortejo” –, pergunto a tantos comunistas e simpatizantes do PCP (e já agora aos outros movimentos partidários que a integravam) se têm o direito de impedir que um outro grupo de cidadãos exerça o mesmo direito que eles próprios gozaram no mesmo sítio, à mesma hora?
O que o PCP fez (ou a organização submetida à lógica centralista e autoritária do PCP) foi ilegal, ilegítimo e, sobretudo, um ultraje. E para fazer cumprir uma ilegalidade, chamou a polícia. E ditou-lhes: façam desta forma, cerquem esse grupo de cidadãos, ou seja, exerceu com eficácia o seu poder sobre as autoridades condicionando-as a agir fora da lei. Conseguiu o apartheid. Foi a peça que faltava no puzzle montado pelo circo do poder para legitimar mediaticamente a NATO, a sua cimeira, a sua máquina de guerra.
Foram três as entidades que montaram o circo mediático de legitimação da Cimeira da Nato: as altas-esferas políticas; a Polícia e os seus vários serviços; e os Media de Informação de Massa. E o circo mediático tinha uma pedra-chave em todo processo de desvio da essência assassina da NATO e limpeza do sangue do seu cadastro criminal: os black block. 15 dias antes, começou-se a armar a tenda: telejornais transformados em séries policiais.
Os black block seriam a pedra-chave para montar o cerco, para apontar o adversário, para legitimar a repressão. Bastaria um carro a arder ou uma montra partida e, passe de mágica, o espectador lá de casa pensaria: de facto, os gajos da NATO até têm razão, estes tipos anti-Nato são uns arruaceiros. E todos os manifestantes passariam a ser arruaceiros e os senhores da Guerra uma espécie de caritas global d’ ajuda ao outro!
Mas desta vez, a tripla entente (Estado-Guerra, polícia e Media) não precisou de polícia infiltrada a partir as montras, para isolar o adversário, para desviar a atenção dos 35 mil mortos civis afegãos, os torturados, o horror, o ódio, o terror espalhado pela NATO. Tinham a voz de comando do PCP: a farsa dos B.B (barbies big-brother), a psicose colectiva instigada na TV por Estado-Guerra, Polícia e Media, passava a ter a sua realidade na manifestação contra a cimeira da Nato.
Nessa lógica, o PCP integrou a lógica do Estado: primeiro, limitou a sua actividade de protesto à legitimidade imposta pelo Estado da falsa democracia, como sempre tem feito (uma greve geral em 22 anos é uma espécie de suicídio assistido pelo capitalismo…), depois impedem um grupo de pessoas de juntar-se a uma só voz contra a Guerra, contra a NATO.


Cerquem esse grupo, cacem-nos, porque a democracia está em perigo!
E cercados que estávamos, passámos a ser o adversário, o arruaceiro, o vândalo, o criminoso que vem na TV. Nem uma pedra atirámos. O que o PCP e a polícia-exército fizeram foi fazer-me sentir, num par de horas, um palestino.
Num par de horas, a violência do cerco policial, converteu-nos em palestinos e palestinas (sem querer dramatizar, é apenas uma imagem, pois sei bem a diferença que vai entro um cerco num par de horas e um cerco total durante 3 gerações…). Nem sequer uma pedra atirámos. (Nem sequer aquelas garrafas d’água que se esborracharam no Vital Moreira… talvez tivessem sido anarcas com credencial!!!!!!!!!).
Entre pacifistas, libertários, membros da PAGAN, anarquistas e outros tantos seres como eu sem serem “istas” de nada, ali estiveram demonstrando a sua não-violência num momento inusitado de demonstração da violência do Estado e de clara violação de dois direitos fundamentais, o direito à manifestação em qualquer espaço público sem prévia autorização e o direito à livre circulação no espaço público do território nacional (não nos esqueçamos que ao longo do percurso foi-nos sucessivamente negado o acesso livre ao território que a voz de comando determinou que não podíamos pisar). À nossa volta, acabava a falsa democracia… mas quando a (falsa) democracia chega tão longe…
Sitiados, com polícias que nos ladeavam enfileirados a um metro ou dois de distância uns dos outros, já não tínhamos mais nada senão o corpo. Caçados os direitos, era a sobrevivência do corpo. A liberdade de ser corpo. Nada mais. Não atirámos uma pedra. Por isso, no fim, quando te abracei, sei que abracei outro corpo, tão vivo quanto o meu, só violência de lágrimas. Mais nada.
Temos de voltar a fazer amor com a liberdade ou a democracia deixará de existir.
Pelo estado de ruína da cidadania, pela crescente militarização da polícia, pelo estado de ódio e controlo social, os nossos filhos (aqueles que continuem a afirmar a liberdade com a vida) caminharão já não escoltados de cada lado por um polícia, mas por tanques de guerra. Então, seremos cada vez mais palestinos e palestinas, cada vez mais cercados, e o nosso corpo, para viver, vai ter de explodir.
Mais duas breves notas:
Ainda os finlandeses impedidos de entrar na fronteira portuguesa. Num dia da vida deles, cada um desses homens, disse: o meu corpo não será uma arma. Nenhum Estado me obrigará a pegar numa arma. O meu corpo não tirará a vida a outro corpo. Objectores de consciência, pacifistas entranhados, vinham juntar-se aos activistas que em Lisboa condenaram outro tipo de homens: aqueles que, num dia da vida deles, não tendo coragem para matar com o seu próprio corpo, mandaram outro corpo puxar o gatilho. O que espanta não é a arbitrariedade da polícia, o abuso da autoridade, a sua insuficiência. Mas a normalização da violação de um direito fundamental. Já alguém apresentou uma queixa contra o Estado português no Tribunal Europeu dos Direitos do Homem?
Na acção de desobediência civil não-violenta levada a cabo na manhã de sábado o ambiente de protesto e mesmo a actuação policial acabou por correr sem ânimos exaltados, com relevo para a calma dos activistas e para a descoordenação da polícia (por exemplo, não conseguiram evitar um acidente de duas viaturas, sem qualquer gravidade, não tinham carrinhas suficientes para os detidos, e, numa cidade sitiada por polícias, só passado 25 minutos passaram a ser em número igual aos dos activistas…). Em todo o tempo em que estive lá a observar, como testemunha e prestando o meu apoio aos activistas, só vi uma pessoa exaltada: Paulo Moura, jornalista do Público. Indignado comigo pelo facto de eu não ter conseguido, pelo desenrolar das circunstâncias, cumprir com o que com ele tinha combinado: ler o comunicado dos activistas uma única vez diante de todos os jornalistas presentes. Não foi possível. Não estava lá como profissional de conferências de imprensa… Exaltado, para espanto também das outras duas pessoas que assistiam aos seus amuos devido à sua árdua tarefa de jornalista violentado nos seus direitos humanos pelo conferencista de serviço, o espanto atingiu o clímax com o comentário do ofendido: “Vocês são iguais aos gajos lá de baixo da Cimeira”. Mesmo ficando na dúvida se apenas se referia aos adidos de imprensa dos senhores da guerra, respondi-lhe: “Nenhum de nós tem as mãos manchadas de sangue”. O profissional acalmou-se, respirou fundo, recompôs-se da figura: “Só tenho uma pergunta: quantos foram detidos?”. Ora, para isso, tem a polícia.

Keep it simple: da relatividade de Einstein ao valor do dinheiro

Aqui há uns anos lia-se muito Piaget. Eu, pelo menos, lia. De um dos seus livros, ou de algum livro sobre ele, recordo uma história em que se contava que as crianças não tinham qualquer dificuldade em compreender a relação entre tempo e velocidade proposta por Einstein.
Até uma determinada idade, os putos achavam absolutamente natural — e mesmo uma evidência sem necessidade de demonstração — que quando se anda mais depressa o tempo passa mais devagar.
A mesma clarividência parece desenhar-se a propósito de finanças.
Tentem explicar a um miúdo as guerras cambiais entre a China e os EUA com a Europa pelo meio. Façam-no recorrendo a exemplos domésticos e deixem os esoterismos de lado.
A resposta, verão, será invariavelmente a mesma: Tens falta de dinheiro? Bom, mas nesse porque é que o governo não fabrica mais notas e pronto?, dirá ele, borrifando-se completamente para as valorizações e desvalorizações da moeda.
Ou seja, as crianças não só percebem com facilidade Einstein como, ao que parece, também concordam com Occam: entia non sunt multiplicanda praeter necessitatem. E tudo isto sem saberem nada de física, de latim, ou de finanças. Abençoadas!

Como ter o sectarismo boçal e o autoritarismo acéfalo a trabalhar em equipa

1- Impede-se a entrada de manifestantes de que não gostamos na nossa manifestação. É só mandar os gorilas do partido dar uns empurrões aos não-credenciados e já está.
2- Dado que essa tal gente já não segue integrada na nossa manif, a polícia já os pode encarar como uma manifestação separada, logo ilegal por não ter sido autorizada – seja lá isso o que for.
3- Por fim, é só fazer de conta que nada se passou. Imitando, ao fim e ao cabo, o comportamento dos jornais de referência a que temos direito.

Salvação, milagre, outras religiosidades (ou quando os jornais publicam entrevistas idiotas por não terem arte para melhor)

Otelo, ontem, em entrevista ao DN:

- Neste momento, precisávamos de um governo de salvação nacional?
- Julgo que era fundamental. Se houvesse o milagre de os partidos, em conjunto, encontrarem um governo de salvação nacional que agarrasse o País...

- Mas como é que isso é possível com o tal quadro político que tanto desvaloriza e critica?
- É por isso que eu falo em milagre! Se houvesse um milagre que levasse os partidos a abdicar dos interesses partidários, e pensar na salvação do País.


(publicado também aqui)

Solidariamente Convosco


Este fim-de-semana, foi inaugurada a exposição "Às Artes, Cidadãos!" na Fundação de Serralves. Como parte do programa de inauguração teve lugar uma performance, intitulada Solidariamente Convosco e encenada por Nicoline van Harskamp, na qual 5 personagens ficcionais, que encarnam diferentes modos de ver o anarquismo, se encontram para trocar informações sobre a situação dos movimentos anarquistas um pouco por todo o mundo. Tal como Nicoline van Harskamp explica neste vídeo, os personagens por ela criados sintetizam as principais atitudes perante o anarquismo que se podem encontrar entre cerca de 1500 cartas, escritas por mais de 400 pessoas espalhadas pelo mundo, e que fazem parte do arquivo de Karl Max Kreuger. Estas cartas datam do período que vai de 1988 a 1999, desde a queda do muro de Berlim até à morte inesperada de Kreuger. O arquivo deste anarquista holandês está hoje guardado no Instituto Internacional de História Social, em Amesterdão.

Durante a performance, ocorrem várias situações que despoletam discussões ideológicas entre os personagens, sobre o significado de anarquismo, e onde se aborda, obviamente de modo muito superficial, alguns dos temas que mais discórdia têm gerado no interior do anarquismo. No vídeo acima mencionado, Nicoline van Harskamp defende que é a enorme diversidade ideológica no seio do  anarquismo que constitui a sua maior valência, tornando-o facilmente adaptável a qualquer novo contexto. Concordo que tal adaptabilidade existe, e é uma vantagem, mas o que transparece do mosaico anarquista que nos é apresentado é, acima de tudo, uma enorme fragmentação, por vezes mais confusão, ideológica e organizativa, que impede a criação de massa crítica suficiente para influenciar de modo significativo as sociedades onde os movimentos anarquistas surgem. Este problema tem sido parcialmente resolvido com a maior possibilidade de comunicação que existe depois do advento da Internet, mas parece estar ainda longe o dia em que a vontade de união se sobreporá definitivamente à tentação da pureza ideológica.

Irlanda - ministro atropela manifestante

21/11/10

Contra a inevitabilidade das alternativas viciadas

Se, para conservar algum sentido, a oposição entre esquerda e direita deverá ter por critério o grau de democratização ou das perspectivas de democratização alcançadas, a igualdade no acesso aos bens disponíveis e na oportunidade de intervenção política efectiva por parte dos cidadãos comuns, que são a maioria dos homens e das mulheres de uma população, e se esta liberdade e igualdade de participação no governo efectivo e nas decisões que todos afectam, bem como na disposição e governo da riqueza e produção dos bens que a constituem, parece bem ser o único critério inteligível de validação da dicotomia entre esquerda e direita — se assim é, e ser de esquerda só pode significar esta vontade de democracia, então, a ideia demasiado corrente, e demasiado repetida por alguns bizarros ultra-anti-imperialsitas de que, quando vemos duas potências em conflito e pé de guerra, a única alternativa que temos é tomar partido por um deles e apoiar a sua causa, nada tem a ver com a esquerda ou com a democracia.
Quando, como nos últimos dias e na perspectiva das acções de protesto durante a cimeira da NATO, ouvimos uma e outra vez a pergunta: "Sim, o regime iraniano é uma ditadura tirânica e confessional, mas de que lado estarão vocês quando as bombas começarem a cair em Teerão? Tomarão partido pelos que querem reeditar a Guerra do Iraque no Irão ou pelo regime adversário dessas potências imperialistas que o governa?", ou esta outra: "É inevitável escolher entre o apoio ao governo israelita e o apoio à resistência islâmica do Hamas. Quem apoiam vocês?" - a única resposta é que não está escrito que tenhamos de apoiar uns ou outros, abdicando, tanto numa hipótese como na outra, da vontade e da acção democráticas que são os traços distintivos mais profundos e inegociáveis da nossa "esquerda". Podemos e devemos bater-nos, de modos variáveis segundo as circunstâncias, lutando por que as bombas não comecem a cair e contrariando as orientações belicistas de um ou de outro campo. Depois, caso haja um remake da Guerra do Iraque, lutar e apoiar os que lutarem contra a guerra e os regimes responsáveis – sob as mais variadas formas e do modo que for mais adequado na situação concreta: do “derrotismo revolucionário” à deserção e à denúncia da barbárie e da peste nacionalista — um pouco como a esquerda minoritária da II Internacional perante a Primeira Grande Guerra e tentando obter melhores resultados do que ela. Em melhores ou piores condições, a resposta democrática da esquerda não pode, no essencial, ser outra - o ponto de partida de uma longa caminhada.
O mesmo vale quando um qualquer anti-imperialista sumário e de espírito militarizado nos assinala, como, numa caixa de comentários do 5dias,  faz o Renato Teixeira — cujo discurso condensa exemplarmente todos os impasses das políticas de capitulação perante o "mal menor" — que a "pergunta central neste debate" é "quem pode vencer a NATO?". Aqui a resposta terá de ser que a hipótese de vencer a NATO não pode deixar de passar pela transformação democrática do mundo ocidental, ou seja: pela acção política dos seus trabalhadores e cidadãos, solidária das acções e iniciativas semelhantes noutras regiões – ou, por outras palavras, pela resistência democrática às oligarquias do "bloco ocidental", a começar pelas da casa, sem menosprezar todas as outras, nem os seus efeitos a distância.

Brecht reloaded

A propósito disto, lembrei-me disto (com o devido desconto, por certo, mas estou seguro que percebem a ideia):

Primeiro levaram os anarquistas,
Mas eu não me importei
Porque não era nada comigo.

Em seguida levaram alguns operários,
Mas a mim não me afectou
Porque eu não sou operário.

Depois prenderam os sindicalistas,
Mas eu não me incomodei
Porque nunca fui sindicalista.

Logo a seguir chegou a vez
De alguns padres, mas como
Nunca fui religioso, também não liguei.

Agora levaram-me a mim
E quando percebi,
Já era tarde.

Das diferenças entre Portugal e a Irlanda ou já vou dormir mais descansada

Cavaco Silva terá esclarecido muito bem a Obama que entre nós e a pátria de Joyce não existe comparação possível.
Portugal não tem qualquer crise no sistema bancário, não teve nenhuma bolha imobiliária e o nível de endividamento público está na média da União Europeia, resumiu o presidente português perante os jornalistas, no que foi um resumo dos seus esclarecimentos ao presidente americano.
Não sei se perante este quadro tão idílico, Obama se terá dado ao trabalho de perguntar então de quem é a culpa da crise mas eu teria. E se Cavaco me respondesse que era do capitalismo o Alegre ficava com um problema acrescido.

Excerto do Ensaio de João Bernardo "Marxismo e Nacionalismo": O Partido Comunista Alemão e a Extrema-Direita Nacionalista (1918-1933)

Dada a discussão a que a nota do João Bernardo deu origem na caixa de comentários do post em que a publiquei, aqui fica, na íntegra, com a devida vénia ao autor e editores originais, a terceira parte do seu ensaio sobre, publicada no Passa Palavra, em Julho de 2003. Consultando o texto no Passa Palavra, é fácil ter acesso às restantes partes do ensaio, cuja leitura se recomenda vivamente e, ainda mais, nas actuais encruzilhadas da UE, em particular, e da globalização, em geral — sem esquecer, claro, as do Médio Oriente.

O Partido Comunista alemão, ao mesmo tempo que tentou ultrapassar a social-democracia pela esquerda, tentou ultrapassar os nazis pela direita.
No início, a figura de referência dos comunistas alemães era Rosa Luxemburg, intransigente defensora do internacionalismo da luta de classe, contra todas as alianças de carácter nacionalista. Escreveu ela em 1918, pouco antes de ser assassinada: «Os bolchevistas tiveram de aprender, para seu profundo mal e para mal da revolução, que sob a hegemonia do capitalismo não existe autodeterminação dos povos, que numa sociedade de classes cada classe da nação esforça-se por se “autodeterminar” à sua maneira e que, para as classes burguesas, a questão da liberdade nacional está inteiramente subordinada à da hegemonia de classe». Onde Rosa Luxemburg se enganou foi em julgar que os bolchevistas poderiam ter aprendido a lição, porque para eles, já naquela época, eram os interesses do Estado nacional e as estratégias geopolíticas que haviam passado a prevalecer. Após a morte de Rosa, sucedeu-lhe na direcção do Partido Paul Levi, que se demitiu em 1921 e foi expulso. A partir de então, e por acção directa dos representantes da III Internacional, os temas ideológicos e organizativos herdados de Rosa Luxemburg foram eliminados e substituídos pelo leninismo.
Ora, depois de ter recebido no final de 1920 a adesão da ala esquerda do Partido Social-Democrata Independente, o Partido Comunista alemão depressa se tornou o segundo maior, logo após o soviético. E como a economia alemã era uma das mais desenvolvidas, tudo o que sucedesse entre os comunistas alemães tinha imediatamente uma repercussão mundial.

Em Janeiro de 1923 o Ruhr, uma das províncias alemãs mais industrializadas, foi submetido à ocupação militar franco-belga, com o objectivo de obrigar o país exaurido ao pagamento das reparações de guerra em atraso, que haviam sido impostas pelo Tratado de Versailles. Tornou-se necessária a aceitação de um plano norte-americano pelo governo alemão, em Agosto de 1924, para que as tropas invasoras saíssem em Julho e Agosto de 1925. Se a assinatura do Tratado de Versailles fora considerada pela extrema-direita alemã uma desonra nacional, e pela extrema-esquerda uma submissão ao imperialismo francês, estes sentimentos foram levados ao auge com a ocupação do Ruhr. Quatro dias antes da entrada dos exércitos estrangeiros, uma conferência dos partidos comunistas da Alemanha, da França, da Bélgica, da Itália, da Holanda e da Checoslováquia decidira apelar à resistência; mas esta proclamação internacionalista, que parecia anunciar uma luta de classe por cima das fronteiras, deu afinal lugar a uma actuação estritamente nacionalista, uma aliança de classe dentro do país. A data decisiva nesta viragem, com repercussões tão profundas no comunismo mundial que ainda hoje se fazem sentir, foi o discurso pronunciado em 20 de Junho de 1923 por Radek, perante o comité executivo da Internacional Comunista, em homenagem a Leo Schlageter, um activista de extrema-direita que as tropas ocupantes do Ruhr haviam fuzilado no mês anterior.

Paulo Moura: se a realidade não confirma, resta-nos o sonho.

«Na terceira manifestação, há pacifistas, anticapitalistas, anarquistas, libertários, idealistas sem ideário. Entre eles, estão elementos cujo objectivo era de facto provocar a violência». «O plano era espalharem-se na multidão e começarem a provocar os polícias, na esperança de que estes ripostassem indiscriminadamente contra a manifestação». «Um cenário de a polícia a carregar sobre os velhos militantes do PCP era provavelmente o sonho mais selvagem dos elementos anarquistas. O Corpo de Intervenção da PSP decidiu não correr riscos. Cercou num cordão feito de corpos maciços, escudos, capacetes e cassetetes o grupo da terceira manifestação e desceu assim com eles a avenida».

E Paulo Moura, depois de escrever tudo isto, não apresenta uma única prova do que diz. Uma única. Pelo contrário, do tal confronto por ele sonhado entre anarquistas e velhinhos comunistas, só temos indícios em sentido inverso. É o próprio Paulo Moura que no fim da sua reportagem afirma: «No fim, os agentes dispersaram de repente e foram proteger a montra da sede de candidatura de Cavaco Silva. Anarquistas e alguns comunsitas chocados com a acção da polícia gritaram em conjunto "O povo unido jamais será vencido"».

A minha pergunta é: se Paulo Moura aldraba a todo o vapor num cenário em que outros testemunhos podem facilmente desmentir o que ele diz, imaginemos o que não fará quando é enviado em reportagens ao estrangeiro. Por exemplo, no Haiti, depois do terramoto. Será que saiu mesmo do hotel e que as pessoas de que nos fala existem mesmo? Sei que Paulo Moura tem fama de ser um repórter "criativo". Nunca dei muito crédito a tal ironia e sempre preferi ver o lado positivo da coisa. Até hoje.

Quando a Associação Patriótica Católica chinesa ordena cardeais à revelia do Vaticano é altura de nos começarmos a preocupar [e eu não sou acólita]

Sem comentários.

O policiamento da manifestação contra a NATO

O que se passou ontem na Avenida da Liberdade deve motivar um inquérito, a realizar por uma daquelas entidades que realizam inquéritos e que às vezes até servem para alguma coisa. A democracia não se dá bem com suspensões temporárias. A generalidade dos comentadores e dos dirigentes de todos os partidos com assento parlamentar fizeram questão de recordar isso mesmo ainda há uns poucos meses. Na ocasião, contra declarações da Drª Manuela Ferreira Leite. Na manifestação deste sábado, a polícia isolou um conjunto significativo de manifestantes e obrigou-os a desfilar cercados pela polícia, dentro de um quadrado, isolando-os da manifestação principal. A polícia decidiu ainda que os manifestantes não podiam sair dos limites do quadrado policial em que estavam cercados. Entre os manifestantes estavam crianças e pessoas mais idosas. Não estou certo se a polícia pretendia, deste modo, levar os manifestantes a cometer qualquer acção violenta. Se assim foi, então a polícia fez o contrário do que é suposto fazer e alguém deve ser reponsabilizado por isso. Pode também ser que as falsidades avançadas por José Manuel Anes e por responsáveis dos serviços de informação tenham convencido a polícia ou, na verdade, que esta necessite permanentemente de criar a sua prória necessidade. Sei que não se viu ninguém do Black Bloc. E que o Professor Anes deveria ser simplesmente demitido de tudo em que possa ter qualquer contributo relevante para o tema da segurança pública. A incompetência não pode continuar a ser senhora; até porque no dia em que estivermos perante uma qualquer ameaça séria à ordem pública, o mais provável é não que confiemos em Anes e nos serviços de informação. Mesmo que, nessa ocasião, tenham razão alguma. A violência e os métodos seguidos pelo aparato policial foram inéditos em manifestações políticas deste género. Parte dos manifestantes era anarquista, muitos outros manifestantes não eram. O major Mário Tomé e o deputado José Soeiro, cuja atitude deveria ser um exemplo a seguir por muitos dirigentes e quadros do Bloco de Esquerda, não são seguramente anarquistas. Muito mais gente que ali estava não era anarquista. E se fosse. E SE FOSSE. Recordo que ainda recentemente uma ministra do governo deste país se dizia anarquista e que um eurodeputado deste pais se diz anarquista.

No inquérito que será realizado deverá ser igualmente averiguado onde começa um serviço de ordem de uma manifestação e onde começa a força policial. Com efeito, não se percebe ao certo se foi o serviço de ordem do PCP que deu ordens à polícia no sentido de isolar um grupo de manifestantes ou se foi a polícia que de livre e espontânea vontade agiu desse modo. A reportagem da SIC não é minimamente elucidativa e eu só me juntei à parte guetizada da manifestação a meio do caminho. O que sei é de testemunho indirecto. Da reportagem da SIC, sobretudo, espanta-me a parte em que um responsável da polícia remete a responsabilidade da guetização dos manifestantes para a CGTP. Fico igualmente surpreendido com a parte em que um membro do serviço de ordem do PCP diz à jornalista que as pessoas que foram isoladas eram pessoas que não estavam "credenciadas" (foi esta a palavra) para estar naquela manifestação.

Gostava de saber, ainda, em que circunstâncias é que é preciso um tipo ou um grupo obter credenciação para ir a uma manifestação; e, já agora, também, gostaria de saber quem credencia os homens do serviço de ordem e lhes confere o poder de recorrem à força para impedirem a mobilidade de outros cidadãos em plena via pública. É a polícia? Já agora, e para quem souber responder, o que é legalmente um serviço de ordem? O serviço de ordem é uma espécie de polícia alternativa? Espero sinceramente que para a greve geral de dia 24 não seja necessário um tipo obter «credenciação» junto da polícia ou junto do PCP. Eu, de qualquer dos modos, garanto que farei greve. Com ou sem credencial. E farei pelos motivos presentes, mas também pelo passado. Porque conheço a história de um movimento operário que em Portugal fez o seu caminho com anarquistas, comunistas e muitos outros. Aliás, alguns (sublinho, ALGUNS) dos quadros e dirigentes do PCP que à boca cheia falam da identidade e da história do partido não fariam mal em recordar que, ao contrário de vários outros seus congéneres europeus, em Portugal o Partido Comunista fundado no início dos anos 20 tinha uma maior ligação aos ideais anarquistas. E não resultou propriamente de uma cisão entre social-democratas e comunistas.

O Spectrum tem o vídeo da notícia da sic disponível. Aqui. O destaque dado à guetização dos manifestantes desviou as atenções do essencial, a crítica da NATO e das suas políticas. Os orimeiros que foram privados do direito a fazer ouvir essa crítica foram os manifestantes guetizados que tiveram que se preocupar mais com a repressão policial do que com a manifestação dessa crítica. Se na economia das notícias os discursos contra a NATO acabaram por não ter o protagonismo devido, isso deve-se à atracção da grande parte dos jornalistas por tudo o que cheire a sangue (embora tenha sido a presença dos jornalistas, estou em crer, que conteve a violência policial). Talvez isto não tudo não fosse notícia e este post não estivesse aqui se a manifestação fosse uma só, com pluralidade maior do que a que confere direito de existência à Ecolojovem, ao Bloco de Esquerda e à Intervenção Democrática. O serviço de ordem do PCP e a polícia procuraram dividi-la, criando assim um "alvo policial", o que, sabemos bem, tem enorme semelhança com o que frequentemente se designa como "objecto noticioso".

Há ditadores que deixam contas póstumas que pesam no orçamento

A Associação para a Recuperação da Memória Histórica aproveitou a efeméride para enviar uma carta ao primeiro-ministro, José Luis Zapatero, perguntando "por quanto tempo mais" deverão as vítimas do regime de Franco continuar a pagar com os seus impostos o Vale dos Caídos, "túmulo do ditador responsável por assassinar dezenas de milhares de civis."

(publicado também aqui)

20/11/10

Bem que me pareceu suspeito tanto bombista formado ao domingo

Afinal, não passava de um teste de segurança. Agora só falta desvendarem o mistério das cartas gregas.

Uma Nota do João Bernardo: "contra o (…) apoio ao Hamas, ao Hezbollah e ao regime iraniano"

Recebi do João Bernardo que, a meu pedido, permite aqui a sua publicação esta reflexão, que julgo exemplar, sobre a questão da chamada "resistência islâmica" e da sua natureza política. Aqui fica, com uma calorosa saudação solidária ao JB, a sua missiva.


Caro Miguel Serras Pereira,

Tenho seguido com interesse e alguma melancolia a luta que travas no Vias de Facto contra o disparatado apoio ao Hamas, ao Hezbollah e ao regime iraniano. Se a extrema-esquerda portuguesa não estivesse alheada de tudo quanto é importante e mergulhada na futilidade, decerto consideraria essa como uma das polémicas actualmente mais relevantes. O que me preocupa é que aquele apoio, e os termos em que ele é dado, em nada diferem da defesa que o Partido Comunista alemão fazia da extrema-direita contra o tratado de Versailles durante a República de Weimar. A posição dos que hoje enaltecem o Hamas e quejandos com argumentos considerados de esquerda é idêntica à posição daqueles que outrora defendiam a política anti-Entente da extrema-direita alemã e acusavam de social-fascista a social-democracia. E o pior é que essa linha, imposta pelo Zinoviev ao Partido Comunista alemão, foi a linha geral do Komintern, aplicada em todo o mundo, até o Stalin ter decidido que afinal os sociais-democratas não eram social-fascistas e eram só social-democratas e ter decretado a política das frentes populares. Aliás, já desde a época de Lenin que a política externa soviética considerava com toda a naturalidade que um regime era revolucionário pelo facto de ser antibritânico, mesmo que massacrasse os comunistas no interior do país. Foi o que sucedeu relativamente à Pérsia e à Turquia, por exemplo. Depois de ter sido expulso da União Soviética, Trotsky mudou de ideias a respeito de várias questões e escreveu então páginas muito lúcidas de crítica à linha que vituperava o «social-fascismo». Mas os trotskistas que hoje defendem como anti-imperialistas regimes e organizações ultra-reaccionários parecem ignorar os textos do mestre, como parecem ignorar muita coisa. Sei bem que as tão celebradas lições da história não ensinam nada a ninguém, porque os mesmos erros são repetidos desde que as mesmas pressões reais sejam sentidas. E aqui surge-me um problema ideológico de vulto. O materialismo histórico explica muito bem — pelo menos, explica a meu gosto — como os interesses económicos e sociais levam as pessoas a defender certas posições, mesmo que a história tenha demonstrado que se trata de posições votadas à catástrofe. Mas que interesses económicos e sociais levam um grupúsculo da quarta internacional, ou sujeitos bem intencionados que não pertencem a grupúsculo nenhum e pensam por sua conta e risco, a tomar aquelas posições? Numas circunstâncias como as da República de Weimar, vivendo sob o diktat de Versailles, e numa organização como o Partido Comunista alemão, o maior do mundo depois do soviético, eu compreendo isso e vários historiadores colocaram lucidamente o problema. Mas no Portugal de hoje, e da parte de gente assim? Como explicar? O pior é que estas coisas, se dão vontade de rir como teoria, são apavorantes como sintoma. Por isso eu digo que a tua polémica me parece muito importante.
Cordialmente,
João Bernardo

Contra a sabotagem das acções de rua durante a cimeira da NATO

Aqui há dias, o Renato Teixeira convidava-me amavelmente, na caixa de comentários de um post da Diana Dionísio, a ir com ele ao futebol. Hoje convida-nos a todos a apoiar, no quadro das manifestações contra a cimeira da NATO, a "resistência islâmica", justificando o seu apelo, que cita um comunicado da revista Rubra, intitulado "Pela derrota da NATO. Pela vitória militar da Resistência Islâmica!", nos seguintes termos: “Quando há uma luta entre David e Golias, o nosso lado só pode ser um: David. Estamos do lado da vitória militar da ditadura ocupada contra a ‘democracia’ ocupante; estamos do lado da vitória militar da ditadura resistente contra o império ‘democrático’”.

Para já, e enquanto o nosso sempre sagaz camarada Luis Rainha não adianta mais algumas pistas aos seus considerandos sobre o assunto, o rubro apelo que o Renato Teixeira entende fazer, sem que por uma candura propriamente insondável, se lhe ruborize o brioso rosto, justifica os seguintes comentários:

1. É absolutamente inadmissível querer introduzir numa manifestação contra as ambições imperiais do "bloco ocidental" alargado da NATO palavras de ordem de apoio a uma entidade dita "resistência islâmica", que amalgama regimes, ou forças que se candidatam a sê-lo, caracterizados por ambições imperiais e expansionistas de dominação global, proclamadas de resto em alto e bom som pelos seus agentes. Tão inadmissível como seria, por exemplo, a pretexto de que a República Popular da China é uma potência que disputa a supremacia global e a liderança imperial aos EUA, pretender introduzir nos protestos de hoje palavras de ordem aclamando como Grande Timoneiro o presidente Hu Jintao.

2. Acresce que a "resistência islâmica" nos territórios que governa ou controla, a par da oposição baseadas em interesses de potência "nacional" que possa protagonizar contra outras potências, resiste sobretudo a qualquer perspectiva de ver as populações governadas acederem ao direito de se exprimirem, pensarem ou organizarem livremente na base da iniciativa dos seus potenciais cidadãos, reduzidos entretanto à miséria e menoridade da condição de súbditos.

3. Além disso, há no apelo do Renato Teixeira a ideia particularmente deprimente e comprovadamente portadora das consequências mais sinistras, segundo a qual é possível avançar no sentido da igualdade e da liberdade começando por agravar e legitimar confessionalmente sua repressão por via governamental ou para-governamental. Entre muitos outros, cite-se aqui o estudo de caso exemplar de Paul Hampton sobre o Irão há tempos publicado pelo Passa Palavra. Há poucos meses, o Nuno Ramos de Almeida publicou um post em que denunciava como "falsos amigos dos israelitas" os apoiantes internacionais da escalada anti-democrática e fundamentalista dos governos de Tel Aviv. O mesmo, e essencialmente pelas mesmas razões, se poderia dizer dos "falsos amigos" dos povos governados ou controlados por aquilo a que o Renato Teixeira e a Rubra chamam a "resistência islâmica".

4. Concluindo, qualquer vislumbre que permita apresentar a jornada de protesto de hoje como manifestação de apoio à "resistência islâmica" só poderá ser entendido como sabotagem das acções de rua convocadas para Lisboa e constituirá um trunfo nas mãos daqueles contra os quais justamente é necessário combater pela democratização global — esse espectro que, para além e através das suas rivalidades e conflitos de toda a espécie, tanto as oligarquias do "bloco ocidental" como os dirigentes e camadas dominantes dos regimes da "resistência islâmica" estão solidariamente apostados em exorcizar.

19/11/10

Segunda ligação directa do dia para o post da Mariana Canotilho

Este límpido texto que, por excesso de discrição, a Mariana Canotilho acaba de publicar como comentário, esclarecendo o seu post já  hoje referido, bem merece o máximo destaque. Aqui fica, com o agradecimento devido:

O dever de comunicação não é, como eu frisei no Vias de Facto, um elemento constitutivo do direito de manifestação. Toda a manifestação pacífica e sem armas, comunicada ou não às autoridades competentes, tem protecção constitucional, sem prejuízo de eventuais sanções aos organizadores (e só a eles).
Não sendo o dever de comunicação um elemento constitutivo do direito, ele é, no entanto, uma exigência legal compreensível, na medida em que se destina a assegurar a harmonização entre um direito fundamental (a manifestação) e outros direitos ou valores tutelados pela Constituição (liberdade circulação, segurança, etc). Ora, a partir do momento em que houve uma comunicação às autoridades, independentemente de quem a fez, tudo isso está supostamente assegurado. Ou seja: não há nenhum conflito entre o exercício do direito de manifestação pelas pessoas da Pagan ou de quaisquer outras de quem os organizadores não gostem e outros direitos ou valores constitucionalmente protegidos (posto que não se trata de uma contra-manifestação; porque não se trata de uma contra-manifestação, estão todos contra a Nato, ou não?). Não havendo conflito, não há nada para resolver, e o que a Constituição exige às autoridades é que não intervenham, enquanto tudo se processar de modo pacífico e sem armas.
Devemos lembrar-nos de que não são as pessoas colectivas que se manifestam, são os indivíduos. As pessoas colectivas convocam as manifestações, apelam a elas, mas, em última análise, são os cidadãos que exercem o seu direito fundamental. Logo, os cidadãos da Pagan ou de outra coisa qualquer são livres de integrar uma manifestação convocada por outros. Juridicamente, na minha opinião, são. O facto de eu organizar uma manifestação não me dá direito de controlar os cartazes, as roupas ou a agenda política de quem (pacificamente, repito) a ela se juntar.

Interrompam por minutos a guerra à guerra e reparem no social

Nos ecos e protestos sobre a cimeira da NATO, tem-se subestimado o impacto social das medidas programadas de reestruturação da Aliança, cujos efeitos incontornáveis passam pela redução de pontos de comando, serviço e de apoio, bem como a redução significativa de postos de trabalho (muitos milhares de militares e civis vão perder os seus empregos), com distribuição do mal pelos vários países membros, incluindo, claro, em Portugal. Estas medidas foram sobretudo pressionadas pelo governo conservador britânico (que procedeu, no seu país, a uma fortíssima redução de efectivos militares e civis que trabalhavam na defesa) mas rapidamente forma aceites por todos os membros, até porque mal parecia o contrário e tendo em vista os apertos orçamentais a que todos os países sujeitam as suas contas nacionais. É uma lástima que esta componente social da problemática NATO, este contributo abominável para o aumento do desemprego, não conste com a ênfase merecida dos discursos e interpelações dos adversários da cimeira, em que estão arroladas centenas de sindicatos (leia-se a lista das organizações que fazem parte da plataforma Paz sim / Nato não).

(publicado também aqui)

Palavras necessárias

Para o que der e vier

Versão de Michèle Bernard, retomando La danse des bombes, canção originalmente escrita por Louise Michel em Abril de 1871, em plena Comuna de Paris. Para o que der e vier.

A nódoa em Olhão



Ninguém escapa a, um dia, ter uma barrela disciplinar em casa sua. Agora, foi a Vila da Restauração que se sentou na berlinda.

Protocolices

Obama lembrar-se-ia de referir a "nacionalidade" do seu cão, na fase de cumprimentos protocolares a anteceder uma qualquer reunião de Estados que se realizasse em Berlim, se este fosse um “pastor alemão”?

(publicado também aqui)

Querem saber como é que um incansável defensor da Constituição começa a olhar para ela de esguelha?

Leiam os comentários do tal "Leo" ao post da Mariana Canotilho.

Grande "furo" da RTP: Obama não é surdo

Por outras palavras: «Obama ouve apelo de Cavaco a maior investimento».

Mouloudji canta a Comuna e Le temps des cerises

 Mouloudji canta a Comuna e Le temps des cerises, em 1959. Aqui fica a minha versão favorita de uma canção a que já houve quem lhe chamasse a mais bela canção do mundo— e, por uma vez, creio que nem o Vítor Dias me corrigirá o "esquerdismo" com excessiva severidade. Até que podia — ele — aproveitar para juntar mais esta à colecção de interpretações da canção que inclui no seu blogue. O que é que vocês acham?

Mariana Canotilho: "É que os cidadãos, de tanto lerem que se 'autorizaram' manifestações, convencem-se de que é verdade. Que o exercício de um direito fundamental precisa de autorização do Governador Civil"

Ligação directa e o devido bravo para  post da Mariana Canotilho no 5dias:


A lei que regula este direito (DL nº 406/74 de 29-08-1974) é pré-constitucional e bastante mazinha. Está assinada pelo Vasco Gonçalves e pelo Salgado Zenha, facto que me dá um desgosto e é curioso, atendendo a quem agora a reivindica. (…)  mas não exige em lado nenhum autorização para manifestações. O que exige é que as pessoas ou entidades que pretendam realizar reuniões, comícios, manifestações ou desfiles em lugares públicos ou abertos ao público avisem por escrito e com a antecedência mínima de dois dias úteis a autoridade administrativa competente. Avisar e pedir permissão são duas coisas muito diferentes, como qualquer criança de 5 anos sabe muito bem.
(…) É que os cidadãos, de tanto lerem que se “autorizaram” manifestações, convencem-se de que é verdade. Que o exercício de um direito fundamental precisa de autorização do Governador Civil.

"Tirem este gajo daqui, que a avenida é só nossa"

Presumo que o Renato esteja a ser irónico quando se espanta perante o inqualificável sectarismo de quem emite um comunicado destes. Só se admira quem não sabe com quem está a lidar.

Os princípios utilitários

Nas páginas do DN de hoje, a Fernanda Câncio indigna-se (e bem) contra a revelação de conversas particulares da inenarrável Edite Estrela.

Pena é que há um ano ela não tenha descoberto o tal "jornalismo totalitário", nem este fluxo vulcânico de ultraje, quando o seu jornal deu à estampa um e-mail interno do seu concorrente Público.

A praga da praxe

Manuel António Pina, no JN:

Com o cair da folha e o início do ano lectivo, começam a ver-se por aí, onde existam universidades e aparentados, os habituais espectáculos de bandos de imberbes caloiros apascentados por não menos imberbes "doutores" ministrando-lhes todo o tipo de boçalidades e indignidades que a rasca imaginação lhes permite, com o devido enquadramento de bebedeiras, comas alcoólicos e música pimba que ilustram o nível moral e intelectual não só dos futuros caixas de supermercado da Nação mas igualmente das escolas que os formam.

(publicado também aqui)

Sobre a via birmanesa da repressão dos trabalhadores ao serviço dos mesmos trabalhadores e de todo o povo

Porque é que Correia da Fonseca, com o beneplácito do Avante!, publica uma crónica — já aqui referida pelo João Tunes e cuja meditação poderá também servir para completar as sugestões do Zé Neves sobre o anti-liberalismo político dos defensores locais de um mercado livre forte globalmente garantido — menorizando a repressão social e política praticada pelo regime birmanês e sugerindo que, bem vistas as coisas, as restrições impostas aos cidadãos birmaneses em matéria de direitos e liberdades são benignas, tanto mais que visam sobretudo os agentes locais do "mercado livre" global?
Na realidade, a Birmânia é governada, desde 1962,, por uma ditadura militar particularmente sangrenta, que se tem distinguido pela promoção do trabalho escravo, pelas perseguições étnicas e pela feroz defesa dos privilégios de uma estreita camada política e economicamente dirigente. É o que explica, por exemplo, que, em 2006, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) tenha anunciado que procuraria processar no Tribunal Internacional de Justiça os membros da junta militar de Myanmar por crimes contra a humanidade, devido à prática de trabalho forçado de seus cidadãos.
É, portanto, bastante provável que a benevolência de Correia da Fonseca e do Avante! perante este regime se deva à ponderação das boas relações com a República Popular da China que o regime mantém, e procurou reforçar designadamente após a crise que, em 1990, abalou a ditadura (por ocasião, entre outras coisas, do triunfo eleitoral da oposição, prontamente anulado pelos militares). Como se sabe, a RPC, cujo regime se caracteriza também por uma repressão comparável dos direitos sociais e das liberdades políticas, é governada pela ditadura de um "partido-irmão" do PCP, que não esconde a simpatia com o regime chinês, considerando-o apostado na superação do capitalismo. O que faz com que a repressão dos trabalhadores e do conjunto da população birmanesa seja considerada por Correia da Fonseca e outros ideólogos do PCP como uma realidade qualitativamente diferente da repressão dos trabalhadores e do conjunto da população que teve lugar, por exemplo, no Chile de Pinochet. E daí que, com um recurso à dialéctica desconhecido da Dama de Ferro, adoptem perante um regime aliado do regime governado por um "partido-irmão", uma posição homóloga daquela que a baronesa Margaret Hilda Thatcher adoptou perante Pinochet, absolvendo-o do recurso aos métodos da ditadura, por meio do argumento que aqueles teriam sido afinal esforços de defesa da liberdade do mercado e de combate ao totalitarismo. A repressão dos trabalhadores e do conjunto da população exercida por uma ditadura solidária dos propósitos de "superação do capitalismo" do regime da RPC deve ser, pois, compreendida, senão como puramente "socialista", pelo menos como repressão dos trabalhadores ao serviço dos mesmos trabalhadores, bem como dos seus interesses históricos e dos de "todo o povo".

"Tarjas e T-shirts" apreendidas na fronteira: e o cão do Obama, pôde entrar?

Não sei se vieram da Finlândia mas eram finlandeses. O seu objectivo era manifestar-se em Lisboa durante a cimeira da NATO. Traziam "tarjas e T-shirts".
As "tarjas e T-shirts" ficaram apreendidas. Os finlandeses ficaram em Espanha.
A não ser que alguém me explique desde quando o direito de manifestação foi suspenso na Europa, e a não ser que alguém me explique como é que se produzem explosivos ou armas de arremesso a partir de tarjas e T-shirts, fico na minha: vão para o caralho, que agora até já se pode dizer!

Combate de blogues (com a participação do "nosso" Ricardo Noronha)

18/11/10

Sair para a rua


Para a colecção das misérias do “Avante”

Simplesmente miserável, incluindo o recurso ao machismo rasca, um texto (siga-se o link para ler a versão integral) publicado no “Avante” sobre a política birmanesa e Nobel da Paz Aung San Suu Kyi, da autoria de Correia da Fonseca e que arranca assim:

A televisão trouxe a notícia da libertação de Aung San Suu Kyi, e é claro que fiquei satisfeito. Sou em princípio a favor de todas as libertações, mas talvez desta ainda mais do que é costume. Não por Suu Kyi ser Prémio Nobel da Paz e Prémio Sakarov: na verdade são galardões que pela sua própria história me inspiram alguma desconfiança e dispenso-me de explicar porquê. Mas acontece que Suu Kyi é mulher e que para mais tem aquele arzinho fisicamente frágil que nos dá cuidados quando a imaginamos presa. É certo que na sua própria residência, que é capaz de ser mais confortável que a minha. Mas imagino que deve ser terrível para uma mulher, para mais senhora de boa disponibilidade financeira, não poder sair de casa para ir às compras no hipermercado mais próximo. Não sei, é claro, se há algum hipermercado nas proximidades da residência de Aung San Suu Kyi, mas é praticamente certo que o haverá em tempo próximo, quando a democracia por ela desejada chegar enfim a Mianmar, pois é também para isso, para a abundante instalação de hipermercados, que a democracia serve, também para isso foi reinventada.

(publicado também aqui)

Para o "Público", Portugal é assim uma espécie de discoteca manhosa

Um sítio onde a clientela com aspecto duvidoso, ou com adereços de mau gosto, fica à porta. E pronto.

A “propaganda estrangeira” e as marchas do pacifismo dos dúplices

Não faz sentido que quem se vem manifestar contra a NATO (para uma das várias manifestações que não estão proibidas) não possa transportar propaganda contra a NATO, sendo-lhe esta apreendida como ilegítima. Aliás, as autoridades não esclareceram em que é que a propaganda vinda do estrangeiro tem de diferente relativamente à propaganda produzida no nosso país com a mesma intenção e que é muita, variada e toda radical. Portanto, fica bem a qualquer liberal bem formado protestar contra esta penalização inadmissível de propaganda por esta ser produzida no estrangeiro.

Isto, a par do exercício ao direito à gargalhada ao ver-se uma miríade de organizações e micro-organizações todas filhotas do mesmo partido (o PCP), o que era o campeão madrugador do apoio às intervenções e invasões do Exército Vermelho e das forças do Pacto de Varsóvia em países formalmente soberanos, património político que nunca renegou, a desmultiplicarem-se, nestes dias, em marchas anti-NATO, sem se sentirem assombrados por qualquer alma penada vinda dos esmagados pelos tanques invasores em Budapeste, em Praga ou em Cabul.

Protestar contra um abuso de poder e também se rir do desaforo cínico dos dúplices não estará ao alcance de todos e talvez só os liberais até lá se cheguem.

(publicado também aqui)

Provavelmente, a ideia mais parva do ano

Uma defesa anti-míssil a meias entre a Europa e a Rússia. Investir milhões que provavelmente não teremos num sistema de defesa que provavelmente não vai funcionar para nos defender de uma ameaça que provavelmente não vai existir.

O silêncio dos liberais

Em princípio, faz sentido, é lógico, devia ser óbvio, eu sei lá o quê mais, que pessoas que se deslocam até Lisboa para manifestar a sua oposição à NATO tragam consigo material de propaganda anti-NATO. O silêncio de tantos e tantos dos nossos liberais perante o que se está a passar, liberais que vão da bancada do partido socialista e da sua ala esquerda até aos blogues do centro e da direita menos radical, é muito sugestivo da actual fragilidade da liberdade democrática. E mostra bem a falta de convicção dos cultores do liberalismo político, dando que pensar sobre a sua indisponibilidade para darem voz e corpo à resistência a processos ditatoriais e autoritários de qualquer espécie, tanto no passado como no futuro. Este post, asseguro, não é um "estão a ver como os tipos são uma desgraça!". É mais "estão a ver como mesmo o sistema democrático institucional que hoje temos pode descambar num abrir e fechar de olhos?".