04/01/12

Blasfemar é o mínimo que podemos fazer contra a censura islâmica em Marrocos



Rabat interditou a circulação da revista francesa [Le Nouvel Observateur] por conter uma representação do rosto de Maomé, o que é interdito pela tradição muçulmana.
O número especial da revista Le Nouvel Observateur, consagrado aos "Árabes", foi impedido de circular em Marrocos por comportar na capa uma imagem do profeta do islão, o que esta religião considera uma blasfémia.
Entre os textos do semanário encontram-se três dedicados especialmente à figura e ao trajeto de Maomé: "O verdadeiro rosto de Maomé", "os poetas do profeta" e "nem livres nem submissas", este último sobre a condição feminina e o islão.
Marrocos é um país de religião oficial muçulmana e o Rei Mahommed VI detém o título de "comendador dos crentes".
A proibição de difusão de Le Nouvel Observateur sucede dias depois de uma outra publicação francesa, L'Express, ter conhecido a mesma sorte com um número especial sobre "a grande história dos povos árabes". Nesta última publicação, a capa é integralmente consagrada à representação do profeta, que surge a cavalo como chefe militar.
Comentando a decisão e os protestos das duas revistas francesas, o ministro da Informação de Marrocos, Khalid Naciri, explicou que "esta sempre foi a nossa posição e permanecemos fiéis a ela, já que a aquestão é de grande sensibilidade para a nossa opinião pública".

Quanto mais enterrarmos a cabeça na pátria areia, mais fácil será ao fascismo saltar-nos para a espinha

A Hungria entrou em 2012 com uma nova Constituição em que deixa de ser “república”, restaura o poder do velho nacionalismo e do confessionalismo e silencia a oposição na comunicação social. O IVA subiu para 27 por cento.
A nova Constituição define o modelo do regime de Viktor Orban e do seu partido de direita e nacionalista Fidesz, que obteve uma maioria de dois terços no Parlamento, onde ainda conta com o apoio da extrema direita fascista, que dispõe de milícias organizadas e autorizadas.
O preâmbulo da Constituição suprime a palavra “república” da designação do país, que passa a chamar-se simplesmente Hungria, e inclui a fórmula confessional “Deus abençoe os húngaros”.


Podemos sempre dizer que não é connosco e que, de resto, cada país tem direito a escolher ele próprio o regime que prefere, sem ingerências que atentem contra a sua "independência nacional". Tout ça n'empêche pas, Nicolas, que quanto mais enterrarmos a cabeça na pátria areia, mais fácil será ao fascismo saltar-nos para a espinha.

Atahualpa Yupanqui: Preguntitas sobre Dios




Un día yo pregunté:
¿Abuelo, dónde esta Dios?
Mi abuelo se puso triste,
y nada me respondió.

Mi abuelo murió en los campos,
sin rezo ni confesión.
Y lo enterraron los indios
flauta de caña y tambor.

Al tiempo yo pregunté:
¿Padre, qué sabes de Dios?
Mi padre se puso serio
y nada me respondió.

Mi padre murió en la mina
sin doctor ni protección.
¡Color de sangre minera
tiene el oro del patrón!

Mi hermano vive en los montes
y no conoce una flor.
Sudor, malaria y serpientes,
es la vida del leñador.

Y que naide le pregunte
si sabe dénde esta Dios:
Por su casa no ha pasado
tan importante señor.

Yo canto por los caminos,
y cuando estoy en prisión,
oigo las voces del pueblo
que canta mejor que yo.

Si hat una cosa en la tierra
más importante que Dios
es que naide escupa sangre
pa’ que otro viva mejor.

¿Qué Dios vela por los pobres?
Tal vez sí, y tal vez no.
Lo seguro es que Él almuerza
en la mesa del patrón.

03/01/12

Excertos de uma entrevista de George Steiner: a Europa, a globalização e as estrelas amarelas

Alguns excertos de uma entrevista de Georges Steiner, realizada por Juliette Cerf.


A Europa vive uma crise profunda. A seu ver, o colapso é uma possibilidade? 


No estado atual, é possível. Mas vamos sair desta situação de uma forma ou de outra. Irónico é a Alemanha poder voltar a dominar. É um passo atrás. Entre agosto de 1914 e maio de 1945, a Europa, de Madrid a Moscovo, de Copenhaga a Palermo, perdeu quase 80 milhões de pessoas em guerras, deportações e campos de extermínio, fome, bombardeamentos. O milagre está em que sobreviveu. Mas a sua ressurreição foi apenas parcial. A Europa está a passar por uma crise dramática; está a sacrificar uma geração, a dos seus jovens, que não acreditam no futuro. Quando eu era jovem, havia esperanças para todos os gostos: o comunismo, com certeza! O fascismo, que foi também uma esperança, não nos deixemos enganar. E, para os judeus, havia ainda o sionismo. Havia ideologias aos montes... Isso já não existe. Ora, quando a juventude não é tomada por uma esperança, mesmo que ilusória, o que resta? Nada. O grande sonho messiânico socialista conduziu aos gulags e ao socialista francês François Hollande – tomo-lhe aqui o nome como um símbolo, não estou a criticá-lo. O fascismo descambou no horror. O Estado de Israel tem imperativamente de sobreviver, mas o seu nacionalismo é uma tragédia, profundamente contrário ao génio judeu, que é cosmopolita. Pessoalmente, quero ser nómada. Vivo segundo a divisa do Baal Shem Tov, grande rabino do século XVIII: "A verdade está sempre no exílio."

A globalização não é propícia a esse nomadismo? 


Nunca houve um encerramento geográfico como o de hoje. Quando se saía de Inglaterra, podia-se ir para a Austrália, a Índia, o Canadá; agora, deixou de haver autorização para trabalhar. O planeta fecha-se. Todas as noites, centenas de pessoas tentam entrar na Europa a partir do Magrebe. O planeta está em movimento, mas em que direção? Terrível, o destino atual dos refugiados. Deram-me a honra, na Alemanha, de fazer um discurso perante o governo. Terminei dizendo: "Senhoras e senhores, todas as estrelas se tornaram amarelas."

Apesar de tudo, ainda se sente europeu?

A Europa continua a ser o cenário do massacre, do incompreensível, mas também das culturas que eu amo. Devo-lhe tudo e quero ficar onde estão os meus mortos. Quero ficar no âmbito do Shoah, onde posso falar as minhas quatro línguas. É o meu grande repouso, a minha alegria, o meu prazer. Aprendi italiano depois do inglês, do francês e do alemão, as minhas três línguas de infância. A minha mãe começava uma frase num idioma e acabava noutro, sem reparar. Não tive língua materna, mas, ao contrário do que se diz, isso é bastante comum. Na Suécia, fala-se finlandês e sueco; na Malásia, falam três línguas. Essa ideia de uma língua materna é uma ideia muito nacionalista e romântica. O meu multilinguismo permitiu-me ensinar e escrever “Depois de Babel”, e sentir-me à vontade em qualquer lugar. Cada língua é uma janela aberta para o mundo. Terrível enraizamento, o [do apego aos valores nacionalistas] do senhor Barrès! As árvores têm raízes; eu tenho pernas, e é um enorme passo em frente, podem crer!

Benzer o garrote

Tão grotesco como ser Portugal o país da UE que, a seguir à Grécia, mais gasta em cerimónias de defesa nacional, é o escândalo do reforço dos subsídios e favores prestados à padralhada e às suas obras pias de educação e práticas esmoleres, tendo por acompanhamento as exortações à caridade cristã dos mesmos lusíssimos responsáveis pelo governo da economia e pela economia da oligarquia governante que apostam na demolição administrativa dos direitos sociais e das liberdades políticas. Como dizia o Zeca, "também Franco, o assassino, / mandou benzer o garrote". Mas isto sou eu e outros alguns que nunca pensámos ser possível que, a não ser à beira de uma crise de nervos irreversivelmente suicida, os passos coelho da região se atrevessem a falar publicamente de "democratização da economia".

A propósito das tulipas holandesas

Uma "proposta prática" do João Bernardo: Contra os canhões, marchar, marchar!

Acabo de receber, na minha caixa de correio electrónico, a seguinte "proposta prática", como ele lhe chama, do João Bernardo, entretanto divulgada já pelo Passa Palavra. "Trata-se de pedir", no dizer do seu autor, "que seja economizado 2,1% do PIB, e esta reivindicação colocaria também na ordem do dia um dos factores principais de democratização da sociedade". Segue-se o texto na íntegra. Acrescento apenas que, relativamente à questão das formas alternativas de defesa e segurança pública implicadas pela democratização da sociedade, tenho tentado indicar alguns pontos de partida — por exemplo, nesta minha intervenção, aqui no Vias, de Maio de 2010.

A necessidade urgente de reduzir as despesas do Estado tem servido de justificação para tudo, mesmo para cortes além do que foi exigido pela troika formada pela Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional. E como não existem na economia compartimentos estanques, o aumento das jornadas de trabalho e a redução das remunerações no sector estatal repercute-se no agravamento da exploração também no sector privado. Mas se, de imediato, os capitalistas parece terem obtido assim uma enorme vitória sobre a classe trabalhadora, a muito curto prazo as contradições económicas agravar-se-ão. Com efeito, nenhum economista — nem sequer os que fazem parte das equipas que estudam aqueles cortes e os impõem — ignora que essa dimunuição drástica das despesas do Estado equivale a um desincentivo da economia, provocando uma recessão; e que a recessão, constituindo uma redução da actividade económica, dos lucros e dos salários, provocará uma redução do volume total que o Estado conseguirá cobrar em impostos; e que esta redução do volume total dos impostos agravará o défice do Estado, o que o há-de levar a novos cortes nas despesas; e que estes novos cortes nas despesas agravarão mais ainda a recessão e assim por diante. Trata-se, não no sentido metafórico mas em sentido literal, de um círculo vicioso.
No entanto, há um tipo de despesas que o Estado poderia suprimir praticamente sem prejuízos e com enormes vantagens — as despesas com as forças armadas.
Segundo os dados fornecidos pelo Banco Mundial, baseados nos critérios definidos pela NATO, as despesas militares em Portugal corresponderam a 2,1% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2010, tendo correspondido a 2,0% em 2006. Para termos uma noção do que isto representa, convém saber que a França, um país que possui armas atómicas, gastou com as forças armadas 2,3% do PIB em 2010 (2,4% em 2006). Mesmo um país de dimensões médias como a Itália dedicou às despesas militares só 1,8% do PIB em 2010 (1,8% em 2006) e a Polónia, um país que na escala europeia pode ser considerado de grandes dimensões e que se encontra numa situação geopolítica difícil, gastou com os seus militares 1,9% do PIB em 2010 (1,9% em 2006). Ou, se estabelecermos comparações no âmbito mundial, a China, um novo imperialismo emergente que faz sentir a sua presença em vários continentes e defronta situações potencialmente explosivas em Taiwan e na Coreia do Norte, consagrou às despesas militares 2,0% do PIB em 2010 (2,1% em 2006). E outro colosso geográfico, o Brasil, que tem fronteiras com todos os países sul-americanos excepto dois, despendeu com as forças armadas 1,6% do PIB em 2010 (1,5% em 2006).
Para mais, nas condições da guerra moderna Portugal é um país indefensável nas suas fronteiras. Os canhões, os barcos e os aviões, para não falar nos generais, nos almirantes e nos comandantes, simplesmente não servem para nada. É curioso que entre os feriados suprimidos pelo governo — uma medida que se soma a muitas outras destinadas a agravar a exploração dos trabalhadores — se conta o Primeiro de Dezembro, uma serôdia festividade nacionalista que comemorava a expulsão dos Felipes da coroa de Portugal e a colocação dos Braganças no trono. Mas pelos vistos o goveno continua a ter medo dos castelhanos porque, em percentagem do PIB, dedica às forças armadas o dobro do que a Espanha, que se limitou a 1,1% em 2010 (1,2% em 2006). Ora, outros pequenos países europeus também com fronteiras militarmente indefensáveis canalizam para as forças armadas percentagens do PIB muito inferiores à portuguesa, como sucede com a Suíça (0,9% em 2010, 0,9% em 2006), a Áustria (0,9% em 2010, 0,8% em 2006), a Hungria (1,0% em 2010, 1,3% em 2006), a Letónia (1,1% em 2010, 1,8% em 2006), a República Eslovaca (1,1% em 2010, 1,6% em 2006) ou a Bélgica (1,1% em 2010, 1,1% em 2006). Para não abusar da paciência do leitor nem da minha, bastará dizer que, entre os pequenos países membros da União Europeia, só a Grécia gasta com os militares uma percentagem do PIB superior à portuguesa (3,1% em 2010, 2,9% em 2006). Que coincidência!
Como não existe em Portugal qualquer complexo militar-industrial significativo que leve as despesas com as forças armadas a repercutirem-se num aumento das encomendas à indústria militar nacional, com o correspondente aumento do emprego, todas aquelas despesas se devem classificar economicamente como improdutivas. Segundo o Ministério da Defesa, em 1989 a indústria militar empregava apenas entre 3.000 e 4.000 pessoas, e em seguida reduziu-se verdadeiramente à insignificância, porque a empresa pública Indústrias Nacionais de Defesa, votada sobretudo ao fabrico de vários tipos de munições e que desde a modernização e reorganização empreendidas em 1997 passara a ser uma empresa exportadora, foi gradualmente dissolvida em 2001-2004.
Figueiredo Lopes, que de 1983 a 1985 foi secretário de Estado da Defesa Nacional, considerou em A Cooperação Europeia nas Indústrias de Defesa: «Depois da descolonização e com o fim da guerra, a indústria militar defronta-se com uma crise estrutural, tomando-se urgente a sua reorientação; se se quer manter de pé esta indústria é preciso urgentemente assegurar mercados estabilizados para os produtos militares portugueses, visto que as necessidades das Forças Armadas portuguesas são limitadas. Esses mercados têm de ser encontrados preferentemente no interior da Aliança Atlântica. A renovação tecnológica da indústria de defesa portuguesa poderia resultar duma política de compras aplicada à escala da Aliança Atlântica […]». Mas estas previsões, ou aspirações, não se realizaram e mesmo sob o ponto de vista do comércio externo as despesas militares são nocivas para a economia portuguesa, porque neste sector o volume das importações tem sido muito superior ao das exportações.
Publicado pelo Ministério da Defesa Nacional, o Relatório Anual de Importações e Exportações de Bens e Tecnologias Militares referente a 2008, o último disponível, indica que em 2003 a exportação de artigos militares e a prestação de serviços de carácter militar ao estrangeiro rendeu 25,0 milhões de euros, enquanto as importações do mesmo sector totalizaram 39,8 milhões de euros. Em 2004 os números equivalentes foram de 12,6 e de 42,5 milhões de euros. Em 2005, de 7,0 e 159,2 milhões de euros. Em 2006, de 9,0 e 312,4 milhões de euros. Em 2007, de 10,1 e 386,1 milhões de euros. Finalmente, em 2008 as exportações limitaram-se a 8,2 milhões de euros enquanto as importações subiram a 63,0 milhões de euros. Se dividirmos o volume das importações pelo das exportações obtemos um máximo de 38,2 em 2007 e um mínimo de 1,6 em 2003. Entre estes dois limites ficam assinaladas as perdas que o sector militar provoca à economia portuguesa no comércio externo.
Quando se pôs fim ao fascismo e as antigas colónias adquiriram a independência política, Portugal perdeu a grande oportunidade de ter dispensado as forças armadas e se ter somado aos países que, como a Costa Rica ou a Islândia, não têm despesas militares.
Portugal poderia ter feito isso se não tivessem sido precisamente as forças armadas a executar o golpe militar que derrubou o fascismo e, depois disso, a participar activamente no processo revolucionário de 1974 e 1975. Não só o papel institucional das forças armadas se fortaleceu como, pior ainda, as raízes do militarismo se consolidaram em todos os sectores da esquerda e da extrema-esquerda, porque não havia então nenhum partido civil que não tivesse entre os militares uma base de apoio, quando não mesmo a principal base de apoio. Desde a direita conservadora até aos vários matizes da extrema-esquerda maoísta e mesmo luxemburguista, todos dispunham de regimentos e batalhões. Foi a época dos «soldados, sempre, sempre, ao lado do povo». Alguns desses partidos tinham mesmo mais soldados do que povo. E se isto facilitou muito cada um dos confrontos sociais particularmente considerado — qual seria o patrão que resistiria à comissão de trabalhadores quando ela chamava em seu apoio as metralhadoras e os blindados? — constituiu um enorme prejuízo no âmbito da luta social globalmente considerada.
Naquela época eu colaborava num jornal chamado Combate, que se publicou desde Junho de 1974 até Fevereiro 1978, e um dos pontos do nosso Manifesto, distribuído juntamente com o primeiro número, apelava à destruição das estruturas militares e do militarismo e ao desencadeamento de um processo que resultasse no povo armado. Nada de original, mas praticamente ninguém mais o repetia no Portugal de então, em que «o povo está, com o MFA», o «MFA, sentinela do povo» [*]. Se recordo isto, porém, é apenas para contar que numa época em que se dizia e se escrevia o que se queria, o único ponto que a censura militar não deixou reproduzir nos jornais diários que publicaram o nosso Manifesto foi o respeitante ao militarismo. Em vez dele ficaram reticências. Também sucedeu, pelo menos duas vezes, que alguns companheiros que colavam o Manifesto pelas paredes de Lisboa fossem interpelados por patrulhas militares e levados a quartéis, por causa da tal questão do antimilitarismo. Nada de mal lhes aconteceu, os tempos eram de revolução, e tudo o que tiveram foi de sustentar conversas com o tenente ou capitão ou lá quem fosse acerca dos inconvenientes, para nós, e das vantagens, para eles, das forças armadas. Mas o exército podia ter deixado divulgar aquele ponto do Manifesto à vontade porque ninguém nos ouvia. Toda a esquerda e a extrema-esquerda estava entusiasmada com a novidade de contar com os «soldados sempre, sempre, ao lado do povo».
E o pior é que os soldados ficaram «sempre, sempre», mesmo agora, quando convém desembaraçarmo-nos deles.
Note-se que ao sugerir a conveniência de nos desembaraçarmos das forças militares não me refiro aos programas eleitorais apresentados pela esquerda, que abordam o tema com a ambiguidade e a dose de vaselina característica deste tipo de documentos. Refiro-me à gente comum, às conversas de todos os dias, às pessoas como nós, aos indignados e aos precários que de tão flexibilizados ficaram inflexíveis, aos que acamparam e aos que têm a tenda preparada, ou seja, a todos os que pagam a factura.
Trata-se de exigir que seja economizado 2,1% do PIB. E a generalização desta reivindicação traria ainda um enorme benefício social, porque colocaria na ordem do dia um factor de democratização da sociedade. As forças armadas são uma das principais estruturas autoritárias, tendo a cadeia de comando como eixo fundamental, e constituem o pneu sobresselente do capitalismo, o aparelho de Estado alternativo, para o caso de o aparelho civil fracassar. Um capitalismo sem exército é, a prazo, um capitalismo socialmente mais débil.
Então, contra os canhões, marchar, marchar.

Nota
[*] Para os leitores brasileiros, o MFA, Movimento das Forças Armadas, foi a organização militar responsável pelo golpe de 25 de Abril de 1974 e que desde então até ao final de 1975 orientou a vida política portuguesa.

Soldados norte-americanos divertindo-se no Iraque



Via Daily Mail - Disturbing video that shows U.S. soldiers 'blowing up a dog in Iraq for fun'

Alice já não mora aqui

Os mais pobres viajavam, então, de Sud Express.
A emigração a salto ficara para trás, a guerra colonial também, e eles enchiam as aldeias em Agosto.
Desforram-se nos bailaricos, na língua que embasbaca os locais — “foi ali deitar um cu de olho”, querendo dizer un coup d’oeuil —, nas peles nuas e leitosas nunca vistas cumulando de risos piscinas naturais pecaminosas e álgidas, nos encombrants carrões que bloqueiam os rebanhos, nos casebres derribados que dão lugar a maisons imaculadas, babéis de azulejaria e alumínios rascas, obliquidades suíças, colunas e frontões gregos, muito antes de o pós-modernismo ter recuperado o kitsch ou Almodóvar o ter elevado a categoria de culto.
O que mais querem é enterrar a mala de cartão, o trabalho duro do chantier a alombar com cimento, eles.
Elas, mulheres-a-dias
“És portuguesa? Então conheces a Maria!”, e eu: “Não, quem é a Maria?”, e ele: “É a minha bonne!”, diz a criança, cujo mundo se resume ainda ao imobilismo eterno de um pequeno faraó.
Os bidonvilles deram lugar aos HLM (Chelas avant la lettre),
a casa da patroa
— a exemplo da Nação, as portuguesas são humildes e honestas, comentam entre si as madames…
à casa de concièrge, a ascensão possível.
Linda de Suza canta “deux valises en carton sur la terre de France”.
Nos EUA criaram-lhes um museu em Ellis Island: fotografias monumentais, registo da última esperança, rostos cujo olhar explicará muito do futuro da América.
A jovem mulher sentada à minha frente denuncia apenas tristeza e susto. Duas crianças pequenas, um farnel e uma mala amarrada com uma corda. A carruagem leva emigrantes que regressam lá-bas. Homens. Passada já a fronteira com Espanha, conta que vai à procura do marido: “Deixou de me dar notícias, de me mandar dinheiro…”
Mostra o bilhete de comboio e a última morada. Um dos homens explica-lhe, então, que terá de mudar em Irun. Lá chegados, vêmo-la ficar para trás no cais, as duas crianças pela mão e a mala aos pés. Não fala uma palavra de francês.
“Aquilo, o gajo arranjou outra e nem mora no mesmo sítio!”, diz um dos homens. Os outros concordam.
Alguém começa a comer uma bifana fria e o cheiro a pobreza cola-se à carruagem.

02/01/12

Dois pesos e duas medidas

Apesar de esquivar a reabertura da "questão social" que qualquer aposta numa democratização efectiva e na construção de um poder político baseado na participação igualitária dos cidadãos não podem deixar de levantar desde o começo e de outras omissões ou distorções "tecnocráticas" da análise proposta, o artigo de Michel Rocard e Pierre Larrouturou acabam de publicar no jornal Le Monde — e para o qual um comentário do Niet na caixa de outro post chama a atenção — tem o mérito de desmistificar mais do que suficientemente a inevitabilidade com que os governantes desta parte do mundo justificam o prolongamento da crise que a reconsolidação da oligarquia capitalista alimenta em vista da extensão dos seus poderes e privilégios antidemocráticos.

Aqui fica um excerto e o link do texto:


Ce sont des chiffres incroyables. On savait déjà que, fin 2008, George Bush et Henry Paulson avaient mis sur la table 700 milliards de dollars (540 milliards d'euros) pour sauver les banques américaines. Une somme colossale. Mais un juge américain a récemment donné raison aux journalistes de Bloomberg qui demandaient à leur banque centrale d'être transparente sur l'aide qu'elle avait apportée elle-même au système bancaire.
Après avoir épluché 20 000 pages de documents divers, Bloomberg montre que la Réserve fédérale a secrètement prêté aux banques en difficulté la somme de 1 200 milliards au taux incroyablement bas de 0,01 %.

Au même moment, dans de nombreux pays, les peuples souffrent des plans d'austérité imposés par des gouvernements auxquels les marchés financiers n'acceptent plus de prêter quelques milliards à des taux d'intérêt inférieurs à 6, 7 ou 9 % ! Asphyxiés par de tels taux d'intérêt, les gouvernements sont "obligés" de bloquer les retraites, les allocations familiales ou les salaires des fonctionnaires et de couper dans les investissements, ce qui accroît le chômage et va nous faire plonger bientôt dans une récession très grave.

Est-il normal que, en cas de crise, les banques privées, qui se financent habituellement à 1 % auprès des banques centrales, puissent bénéficier de taux à 0,01 %, mais que, en cas de crise, certains Etats soient obligés au contraire de payer des taux 600 ou 800 fois plus élevés ? "Etre gouverné par l'argent organisé est aussi dangereux que par le crime organisé", affirmait Roosevelt. Il avait raison. Nous sommes en train de vivre une crise du capitalisme dérégulé qui peut être suicidaire pour notre civilisation. Comme l'écrivent Edgar Morin et Stéphane Hessel dans Le Chemin de l'espérance (Fayard, 2011), nos sociétés doivent choisir : la métamorphose ou la mort ?

(…) l'essentiel des sommes que nos Etats empruntent sur les marchés financiers concerne des dettes anciennes. En 2012, la France doit emprunter quelque 400 milliards : 100 milliards qui correspondent au déficit du budget (qui serait quasi nul si on annulait les baisses d'impôts octroyées depuis dix ans) et 300 milliards qui correspondent à de vieilles dettes, qui arrivent à échéance et que nous sommes incapables de rembourser si nous ne nous sommes pas réendettés pour les mêmes montants quelques heures avant de les rembourser.

Faire payer des taux d'intérêt colossaux pour des dettes accumulées il y a cinq ou dix ans ne participe pas à responsabiliser les gouvernements mais à asphyxier nos économies au seul profit de quelques banques privées : sous prétexte qu'il y a un risque, elles prêtent à des taux très élevés, tout en sachant qu'il n'y a sans doute aucun risque réel, puisque le Fonds européen de stabilité financière (FESF) est là pour garantir la solvabilité des Etats emprunteurs...

Il faut en finir avec le deux poids, deux mesures : en nous inspirant de ce qu'a fait la banque centrale américaine pour sauver le système financier, nous proposons que la "vieille dette" de nos Etats puisse être refinancée à des taux proches de 0 %.

Il n'est pas besoin de modifier les traités européens pour mettre en oeuvre cette idée : certes, la Banque centrale européenne (BCE) n'est pas autorisée à prêter aux Etats membres, mais elle peut prêter sans limite aux organismes publics de crédit (article 21.3 du statut du système européen des banques centrales) et aux organisations internationales (article 23 du même statut). Elle peut donc prêter à 0,01 % à la Banque européenne d'investissement (BEI) ou à la Caisse des dépôts, qui, elles, peuvent prêter à 0,02 % aux Etats qui s'endettent pour rembourser leurs vieilles dettes.

Rien n'empêche de mettre en place de tels financements dès janvier ! On ne le dit pas assez : le budget de l'Italie présente un excédent primaire. Il serait donc à l'équilibre si l'Italie ne devait pas payer des frais financiers de plus en plus élevés. Faut-il laisser l'Italie sombrer dans la récession et la crise politique, ou faut-il accepter de mettre fin aux rentes des banques privées ? La réponse devrait être évidente pour qui agit en faveur du bien commun.

Le rôle que les traités donnent à la BCE est de veiller à la stabilité des prix. Comment peut-elle rester sans réagir quand certains pays voient le prix de leurs bons du Trésor doubler ou tripler en quelques mois ? La BCE doit aussi veiller à la stabilité de nos économies. Comment peut-elle rester sans agir quand le prix de la dette menace de nous faire tomber dans une récession "plus grave que celle de 1930", d'après le gouverneur de la Banque d'Angleterre ?

Si l'on s'en tient aux traités, rien n'interdit à la BCE d'agir avec force pour faire baisser le prix de la dette. Non seulement rien ne lui interdit d'agir, mais tout l'incite à le faire. Si la BCE est fidèle aux traités, elle doit tout faire pour que diminue le prix de la dette publique. De l'avis général, c'est l'inflation la plus inquiétante !

En 1989, après la chute du Mur, il a suffi d'un mois à Helmut Kohl, François Mitterrand et aux autres chefs d'Etat européens pour décider de créer la monnaie unique. Après quatre ans de crise, qu'attendent encore nos dirigeants pour donner de l'oxygène à nos finances publiques ? Le mécanisme que nous proposons pourrait s'appliquer immédiatement, aussi bien pour diminuer le coût de la dette ancienne que pour financer des investissements fondamentaux pour notre avenir, comme un plan européen d'économie d'énergie.

Ceux qui demandent la négociation d'un nouveau traité européen ont raison : avec les pays qui le veulent, il faut construire une Europe politique, capable d'agir sur la mondialisation ; une Europe vraiment démocratique comme le proposaient déjà Wolfgang Schäuble et Karl Lamers en 1994 ou Joschka Fischer en 2000. Il faut un traité de convergence sociale et une vraie gouvernance économique.

Obama assina a "detenção indefinida"

ACLU - President Obama Signs Indefinite Detention Bill Into Law:
December 31, 2011

(...)

WASHINGTON – President Obama signed the National Defense Authorization Act (NDAA) into law today. The statute contains a sweeping worldwide indefinite detention provision. While President Obama issued a signing statement saying he had “serious reservations” about the provisions, the statement only applies to how his administration would use the authorities granted by the NDAA, and would not affect how the law is interpreted by subsequent administrations. The White House had threatened to veto an earlier version of the NDAA, but reversed course shortly before Congress voted on the final bill.


“President Obama's action today is a blight on his legacy because he will forever be known as the president who signed indefinite detention without charge or trial into law,” said Anthony D. Romero, ACLU executive director. “The statute is particularly dangerous because it has no temporal or geographic limitations, and can be used by this and future presidents to militarily detain people captured far from any battlefield. The ACLU will fight worldwide detention authority wherever we can, be it in court, in Congress, or internationally.”

30/12/11

Da ingerência da Natureza nos assuntos internos da monarquia marxista-leninista Kim

Espera-se uma nota do PCP condenando a ingerência da Natureza nos assuntos internos da República Popular Democrática da Coreia.

Quem duvide da clara racionalidade que assiste a esta expectativa de Manuel António Pina, verá dissiparem-se todas as incertezas lendo os poucos, mas luminosos parágrafos anteriores da sua crónica Tudo chora em Pyongyang.

Um Exorcismo de Fim de Ano

Amarrava-os o medo do naufrágio
e naufragaram antes de partir

Talvez perdidos

Não perguntem nada: as razões são longas.
Não perguntem nada: as razões são tristes.
Não perguntem nada: nós estamos contra.
E talvez perdidos.
E talvez perdidos.

David Mourão-Ferreira (in "Litania de Sombra", In Memoriam Memoriae, 1962).

Chinesices e bom ano!

29/12/11

Sakineh Ashtiani

Quem não quiser assinar como "petição", assine isto como protesto e denúncia da oligarquia iraniana e do seu regime de clericalismo armado. Tanto por solidariedade como, bem vistas as coisas, em legítima defesa.

28/12/11

"Salvar o euro sem mudar a sua arquitectura e sem democratizar a União terá o mesmíssimo efeito que deixá-lo"

Embora divergindo do Daniel Oliveira em muitas ocasiões e nalgumas questões de fundo, e com a ressalva de me parecer, ao contrário do que ele sugere, que a democracia é mais importante do que a paz e razão suficiente, senão — ao nível colectivo — a única razão suficiente, para justificar a luta de morte, também eu, como a Joana Lopes, concordo plenamente com este seu juízo:

Mas a Europa vive um dilema: salvar o euro sem mudar a sua arquitetura e sem democratizar a União terá o mesmíssimo efeito que deixá-lo. Se alimentarmos a ilusão que podemos salvar a moeda destruindo a economia e as democracias nacionais o fim será o mesmo, mas ainda mais destrutivo. Quem julga que pode sacrificar tudo em nome do euro não percebe o que tem de salvar ao salvar o euro. Só uma reconstrução das instituições europeias e da política económica e monetária da União poderá salvar a Europa do buraco em que se enfiou.

Não se trata de salvar o euro para salvar a Europa e manter o seu status quo sob uma versão agravada do seu presente regime oligárquico; trata-se de "salvar a Europa" porque isso é um momento da via da construção de uma ordem política assente, tanto ao nível económico como aos dos lugares de decisão colectiva em geral, no governo dos cidadãos e pelos cidadãos.

27/12/11

Contra os sofismas da razão hierárquica

Contra todos os sofismas da razão classista e hierárquica (retomados, por vezes, onde não seria de esperar) , que opõem, em detrimento de ambas, a liberdade e a igualdade enquanto valores rivais — como se pudesse haver liberdade sem igualdade perante o poder e quanto à participação no exercício do poder, ou haver liberdade que não seja entre iguais, e igual para todos, quando alguns dispõem do poder de subordinar a liberdade dos outros aos seus interesses e privilégios —, este post do Tiago Mota Saraiva ilustra bem a que ponto, agora ainda mais urgentemente do que antes, a defesa da liberdade e das liberdades passa pela conquista instituinte da igualdade, começando pelo conjunto e diversos níveis dessa esfera do principal poder governante das nossas sociedades a que chamamos a economia.

Camilo Lourenço é apenas mais um que tenta demonstrar que levámos uma “vida fácil”, neste caso, “vida de alcoólicos”.
Nos meus momentos mais bonzinhos tendo a pensar que esta visão é toldada pelas dificuldades em ver o país a partir das janelas do seu automóvel de vidros fumados. Será que Camilo Lourenço não se apercebe que a maioria contraiu empréstimos para garantir necessidades básicas, como por exemplo, a habitação? Será que não se apercebe que um empréstimo não é um favor que a banca presta, mas uma prestação de serviços? Será que não se apercebe que durante o período que classifica de bebedeira havia centenas de milhar de pensionistas que não auferiam o valor mensal mínimo para se alcoolizarem condignamente? Será que não se apercebe que a maioria dos portugueses tão ou mais qualificados que Camilo Lourenço não auferem por ano o que um banqueiro aufere por semana?

Indignação e Resignação

Há razões mais profundas para não nos resignarmos à indignação. Mas basta que isto — a evidência que de que os Deolinda e os Homens da Luta são um avanço face ao que costumávamos ouvir, do festival da canção ao coliseu, só pode ser negado por quem vê na música apenas um conjunto mais ou menos harmonioso de notas, cuja qualidade se avalia, sobretudo, pelo necessário divórcio com o movimento de massas —  seja o discurso de um indignado consagrado do momento, para que qualquer espírito minimamente impregnado pela tradição crítica da racionalidade democrática não possa fazer outra coisa que não seja cultivar os sentidos sóbrios e o olhar desenganado que são condição de qualquer emancipação ou maioridade política digna desse nome. Quem foi, de resto, que disse que a indignação e a resignação não podem ser as duas faces de uma mesma moeda?

O genocidio arménio

Há uma crise entre a França e Turquia devida a uma lei francesa segundo a qual dizer "o genocidio arménio não existiu" passa a ser um crime.

A minha opinião acerca disso (e de leis criminalizando a negação do Holocausto, já agora) - se alguém quer fazer figura de parvo e dizer coisas disparatadas (como negar factos históricos amplamente comprovados), é com ele, não é um assunto para ser regulado por leis.

26/12/11

Já a formiga tem catarro

“Isto é linguagem de cavador e mineiro, com todo o respeito por cavadores e mineiros. Isto não é linguagem de um responsável político que se quer levar a sério.” Estas declarações foram proferidas recentemente num canal de televisão. São declarações de um responsável político que se quer levar a sério. No caso, trata-se de um antigo ministro, ontem líder do maior partido português da actualidade, hoje comentador político. Poderiam ser, por certo, declarações proferidas por outro similar do insigne senhor doutor Luís Marques Mendes. Poderiam, por exemplo, ser declarações de uma ex-juíza do Tribunal Constitucional, ex-eurodeputada e actual presidente da Assembleia da República, Assunção Esteves, que ainda bem recentemente, em busca da dignidade perdida do parlamentar, achou por bem declarar que o “sentido de entrega” dos senhores e senhoras deputadas era “superior ao do cidadão comum”, terminando este seu estultíssimo exercício de politologia desferindo uma estocada final contra o dito cidadão comum: por este a senhora presidente entende essas “pessoas que estão habituadas às suas vidinhas”.


Cito estas declarações porque julgo falarem-nos com invulgar clareza sobre a natureza política de quem as profere. Essa natureza é a da antidemocracia. Porque democracia não é apenas alimentar a ideia de que todos podemos votar. É também apostar com firmeza no princípio de que todos podem ser eleitos. A clareza da crítica antidemocrática subjacente às palavras de Mendes e de Esteves é por isso verdadeiramente perturbadora. Nomeadamente, revela o enorme à-vontade que os membros da elite política continuam a ter para maltratar o que consideram a massa que lhes caberá representar. A elite política goza hoje de uma liberdade absoluta incompatível com a democracia, nomeadamente uma liberdade absoluta que lhe permite agir a despeito dos próprios cidadãos que a elegem. Já não se trata, repare-se, de cumprir ou deixar de cumprir, representar ou deixar de representar, mas de não reconhecer ao mineiro e ao cavador, à gente do “comum” e da “vidinha”, qualquer politicidade.


Depois de um período como o dos anos da Revolução de Abril, em que os elogios ao “cidadão comum” – o povo, as massas, os trabalhadores, os operários, ele havia nomes para todo o gosto – não escassearam, a chamada classe política de novo subiu ao Olimpo da vida, longe da “vidinha” de cavadores e mineiros, onde impunemente dá provas do seu desprezo por quem dos seus círculos está excluído. Não duvido por um momento que o que motiva o senhor doutor Marques Mendes ou a senhora presidente Assunção Esteves seja cumprir a missão de servir a pátria, o partido, a empresa, os amigos, a família, o que quer que seja. Mas também os motiva, seguramente, a ideia de que a democracia não pode ser abandonada a si própria. A ideia de que se todos podem eleger nem todos podem ser eleitos. A ideia de que só os que falam a língua de prata dos parlamentares têm direito à voz política. E que só quem olha o mundo do alto do palácio de São Bento tem direito a que a sua vida seja entendida como plena e não como miniatura da vida dos eleitos.


Dir-me-ão, a terminar, que este meu texto acaba por resvalar desnecessariamente para o terreno do populismo e da crítica populista aos políticos. É verdade, resvala. E creio que é necessário, nos tempos que correm, assumir esta necessidade. Com o cuidado, porém, de construir uma crítica populista que prescinda do que, na história do populismo, muitas vezes foi a sua face mais visível, o rosto do líder. Trata-se assim de uma crítica populista feita não no sentido de tirar Mendes e Esteves para lá colocar quem fale a verdadeira, autêntica e genuína língua do povo. Sabemos hoje que tal verdade e tamanha autenticidade não existem, e ainda bem que não. O povo, seja isso o que for – seja o cavador ou seja o mineiro ou seja o cidadão comum –, é coisa demasiado viva para caber nas representações dogmáticas, estereotipadas e bárbaras que resultam do racismo de classe que faz a carreira de pessoas como Marques Mendes e Assunção Esteves.


artigo do i de 23 de Dezembro

24/12/11

Uma linguagem de poder


 
A economia como um fetichismo, um sistema de organização social que se apresenta como algo de superior à actividade humana, um sistema inexorável, indiscutível, definitivo e eterno. Um fetiche ao qual se deve submissão. Um dos aspectos desta construção fetichista é a linguagem. Linguagem que traduz esta submissão, que protege a separação, que traduz em incompreensível o que não deve ser discutido. A linguagem da economia é a gíria dos sacerdotes do eterno sistema. Quando os defensores do sistema falam não é para que se compreenda, mas para que se aceite o que é inaceitável. Uma linguagem de poder, que é poder. A crise, repetem eles, tem solução porque o sistema é o único possível. E porque é único, ele será eterno. Porque, apesar das crises, ele tenderá sempre para o equilíbrio. O que os talibãs do mercado nunca explicam é porquê, e como, o novo equilíbrio é sempre o patamar da próxima crise. Hoje, talvez mais do que nunca, a separação entre a gente que defende o sistema e os que efectivamente o rejeitam, é radical.  Dizem os Indignados, «Não nos representam !» É mais do que isso, são dois mundos, o dos monstros da economia e o nosso. É essencial, dia após dia, aprofundar esta separação, cavar este fosso, afastar os humanos dos personagens frios que falam a gíria da economia. Para recusar o inevitável é importante recusar o que parece incompreensível, decifrar a linguagem cifrada dos economistas. O meu amigo José A Tapia escreve, muito a propósito, este texto (www.rebelión.org). Do seu recente livro, La Gran Recession y el capitalismo del siglo XXI (Los Libros de la Catarata, Madrid, 2011), tinha eu já publicado uns extractos no Vias (7 de Setembro de 2011).  

La jerga económica y las políticas de austeridad fiscal procíclica

Quienes quieren entender esa cosa tan compleja denominada “economía” a menudo encuentran un obstáculo fenomenal en la jerga que usan quienes saben de temas económicos que, supuestamente, son los economistas. En la jerga económica hay tantos y tan variados vocablos que no tienen uso en el habla habitual que cuando los profanos leen textos económicos con frecuencia tienen la misma sensación que si estuvieran leyendo un texto escrito en una lengua extranjera. A ello también contribuye que muchos de los textos sobre temas económicos que se hallan tanto en libros como en soporte periodístico son traducciones (hoy generalmente procedentes del inglés), muchas veces de una calidad un tanto mediocre, cuando no mala. El lector puede pensar así que el asunto que trata este artículo o tal libro es muy complejo o muy complicado, cuando el problema a veces es simplemente que el traductor hizo una mala traducción, o que el autor del texto usó despreocupadamente la jerga del oficio, sin explicarla a los profanos.
Uno de los ámbitos de la economía en el que más a menudo hay confusión conceptual y en el que la jerga constituye a menudo una barrera casi infranqueable para la comprensión de los no iniciados es el de lo relacionado con lo que en inglés se denominan business fluctuations, macroeconomic fluctuations, business cycle, o más raramente trade cycle, índustrial cycle o economic cycle. Tales expresiones son equivalentes, porque se refieren todas ellas al “ciclo económico”, a la alternancia permanente (pero imprevisible por su irregularidad) de periodos de expansión y de contracción en las llamadas economías “de libre mercado” o “de libre empresa”, alias economías capitalistas. Sin embargo, que todos esos términos son básicamente equivalentes dista de ser conocimiento general entre quienes han de lidiar con tales expresiones y así, por ejemplo, no es raro encontrar en textos en castellano referencias al “ciclo de negocios” (que sería la traducción literal de business cycle) al lado de referencias a “la coyuntura” o el “ciclo industrial” o “las fluctuaciones macroeconómicas”, o “la crisis” (que es otra forma de denominar a la recesión) como si estas cosas fueran cosas distintas, cuando todas estas expresiones se refieren a los mismo. Que esta terminología da lugar a confusión lo revela claramente, por ejemplo, la entrada “coyuntura” de Wikipedia, que dice que coyuntura y coyuntural “es lo opuesto a estructura y estructural” y que los procesos económicos, tales como series de precios o salarios, las crisis y las revoluciones, serían buenos ejemplos de coyunturas o situaciones coyunturales. Todo esto es muy confuso, porque en realidad cuando en discusiones económicas se alude a la coyuntura, a lo que se está haciendo referencia es al estado de expansión o de contracción de la actividad económica en general. Muchos estudiosos de la economía consideran que la existencia de esas fluctuaciones macroeconómicas, de esa alternancia entre prosperidad y crisis, entre expansión y depresión, es esencial en la economía capitalista y, por tanto, la “coyuntura” estaría así reflejando un aspecto permanente, estructural. La alternancia expansión-contracción en el “organismo económico capitalista” no sería así menos estructural que otras alternancias, como son por ejemplo la alternancia sístole-diástole en el sistema circulatorio (o sea, los latidos del corazón) u otras alternancias fisiológicas como inspiración-espiración o vigilia-sueño en los vertebrados superiores.
“La coyuntura” es básicamente lo mismo que “el ciclo”, sea cual sea el adjetivo de los mencionados (industrial, comercial, económico) que se le ponga a este sustantivo. Y, por supuesto, en lo fundamental es irrelevante que la fase expansiva se llame coyuntura alcista, prosperidad, expansión, auge económico o aceleración de los negocios. La otra fase del ciclo puede igualmente denominarse de diversas formas: contracción, estancamiento, recesión o incluso depresión o crisis cuando la interrupción de la actividad económica es especialmente marcada.

Rabanadas, pão e vinho novo



Natal dos simples, José Afonso ao vivo no Coliseu (com Francisco Fanhais).

23/12/11

Negócio da China

É nisto que dá o deficit federal - para não falar no democrático — que condena a UE à inexistência e é condição do soberanismo ou "independência nacional" com que os antidemocratas de sempre voltam, mais clamorosamente do que nunca, a encher a boca, e a propor como alternativa à "crise" ou à "ofensiva neoliberal". Só se estranha que, desta feita, não tenham aparecido os soberanistas "de esquerda" do costume a explicar-nos que este negócio da China é mais uma lição de internacionalismo anti-imperialista, como só as sabe dar um Estado conduzido por um partido-irmão.

22/12/11

Três histórias do Natal presente

1. José foi apanhado de surpresa: “Mas não deviam ser três? E onde é que está o ouro?” Levantando os olhos dos formulários, Gaspar tartamudeou: “Deve haver um equívoco. Eu vim cobrar, não deixar prendas. Pelas minhas contas, aí o miúdo deve meio litro de sangue e um rim. Há uns simpáticos banqueiros mesmo a precisar, faça-se a vontade da Santa Troika. Mas pare de me bater com o cajado, que sou só um pobre cobrador!”

2. Kim Jong-il, após o seu falecimento, seguia em trânsito sabe Deus para onde. E deu por si num sonho do nosso Passos Coelho. Saiu logo um discurso empolgado: “Camarada, vais pelo caminho justo! Portugal vai ser a nova Coreia do Norte: pátria de milhões esfomeados, sem horizontes ou sonhos que não sejam os que a TV lhes impinge. E também atiras todas as culpas para os demónios estrangeiros, os tais mercados. Mas ainda tens muito a aprender: no meu lindo país, só havia manifs para me aplaudir. Dá cabo desses comunas, camarada!” O bom Pedro acordou neste ponto do milagre. E só teve fôlego para murmurar: “Querida, tive um pesadelo horrível, com o Mao Tsé-Tung, imagina!”

3. Se tivesse mais uns centímetros de coluna, poderia contar-vos como a PSP prendeu ontem um idoso prestes a ser linchado por populares. O depravado ancião, com uma bizarra farpela vermelha, foi visto a convidar crianças para se sentarem ao seu colo a troco de uns “presentes”. Até à esquadra não parou de berrar ameaças aos agentes e circunstantes: “Vão todos receber baldes de ***** este ano!” Pois.


Também publicado aqui.

Afinal, parece que ainda não acabaram os protestos na China

Ao contrário do que escrevi aqui, ainda haverá protestos em Haimen.
Police fired teargas to break up demonstrations on Thursday over a proposed power plant in a southern China town, where protests have escalated into clashes with police this week and officials tried to calm tempers by suspending the project. [Reuters]

21/12/11

Teorema

Os que avalizam ditaduras noutros países, invocando o direito de cada povo a determinar o regime que o governa, enunciam, de facto, o seu desprezo por essa forma de governo dos cidadãos, pelos próprios cidadãos e para os mesmos cidadão — ou governo do povo, pelo povo e para o povo — que a democracia visa politicamente instituir, ao mesmo tempo que reiteram a vocação de ditadores que os move e que, contra qualquer forma de cidadania livre e responsável, anima a sua concepção classista e hierárquica do governo e do exercício do poder.

Um docinho para os banqueiros


Para os bancos, o BCE arranjou uns trocos. Para os Estados, nem pensar! Valha-me o santo!  Parece que os governos desses Estados poderiam pegar nesse dinheiro, e gastá-lo a ajudar os seus cidadãos, retomando "más práticas" anteriores. Mas os bancos, não! Têm-se portado impecavelmente! Nem pensar em associar condições aos seus empréstimos, pagos a uma taxa irrisória. É que com os bancos não há qualquer risco de se "portarem mal", não há possibilidade de moral hazard. Já os Estados, quando recebem algum financiamento, vem junto com condições draconianas, para que não se sintam tentados a "pecar de novo".

Parece que acabaram os protestos na China

Em Wukan, aldeia que na semana passada havia expulsado a policia o os lideres locais do PC em protesto contra a venda (ou algo parecido) das terras da aldeia ao gupo "Country Garden", os habitantes aceitaram as concessões das autoridades, que parece ter concordado com as reivindicações iniciais dos aldeões.

Em Haimen, onde ontem houve protestos contra a construção de uma central eléctrica alegadamente poluidora, parece que a central já não vai ser construída (note-se que a única fonte desta informação é aparentemente um twitt - tradução aqui - de um desconhecido provavelmente anónimo).

Adenda: a  cedência das autoridades em Haimen é confirmada pela Reuters

20/12/11

Contra "os alemães" ou pela democracia?

A propósito do post que abaixo refiro, de JM Correia Pinto, publicado no seu Politeia, acabo de deixar o seguinte comentário na respectiva caixa dos mesmos.

JM Correia Pinto,

desta vez, no texto intitulado "As Alternativas com que Portugal Se Defronta", parece-me que V. passou um limite perigoso, levado embora por um sentimento de revolta compreensível.

Ou o li mal, ou V. acaba por postular uma entidade mítica, uma essência a-histórica, a que chama "os alemães", em termos simétricos dos utilizados por alguns governantes ou responsáveis alemães, quando descrevem como uma espécie de tara, semelhante ao alcoolismo, o meu desempenho económico dos povos do Sul.

Este deslize seu tem consequências graves e condena-nos fatalmente a uma perspectiva, falsa e antidemocrática, propriamente mosntruosa. Queira V. ou não, o caminho que este seu post aponta é a luta pela dignidade nacional contra "o alemão" uno, indiviso e irrecuperável, que a sua intervenção hipostasia.

Suponho que não preciso de lhe dizer que a única alternativa - com ou sem saída da moeda única, etc. - que me parece valer a pena é a da luta pela democracia contra o governo da economia política hoje dominante. E acontece que esta luta por mais democracia passa, na realidade, por mais Europa, e não pela resignação perante a sua liquidação pelos interesses da oligarquia económico-administrativa que, neste momento, o governo alemão lidera nesta parte do mundo.

Gostaria de estar enganado na leitura que faço do seu texto e que V. esclarecesse a sua posição, de modo a tornar claro que me equivoquei. Mas receio que seja um desejo vão da minha parte.

Sinceramente

                          msp

Re-localizar

Quando começa a ser cada vez mais aceite a necessidade de discutir a possibilidade de Portugal re-começar a emitir moeda própria, aproveito para chamar a atenção para este relatório recente sobre o desenvolvimento de modos de troca locais. Nem sempre são fáceis de implementar, e a adesão que suscitam por vezes não é suficiente para assegurar a sua viabilidade. No entanto, são um meio de estímulo à economia local, promovendo o seu desenvolvimento e retirando poder aos emissores de moeda nacional e trans-nacional. Em complemento, seria importante re-localizar o resto do sistema financeiro.

Protestos alastram no sul da China?

Rebentaram protestos em Haimen, uma cidade de 130.000 habitantes a 120 Kms a Wukan; os habitantes protestam contra a construção de uma nova central eléctrica a carvão, que alegam irá poluir o mar (a cidade é um importante centro piscatório).

Entretanto, as autoridades do munícipio de Shanwei aceitaram algumas das exigências do povo de Wukan.

19/12/11

Leitura recomendada: Russian Bill, nos Ladrões de Gado, sobre um comunicado do PCP

Célere e atenta como sempre, a Joana já chamou a atenção para o post de Russian Bill, nos Ladrões de Gado, que lucidamente comenta a inépcia incomparável do comunicado do PCP sobre o óbito do coriféu máximo do regime norte-coreano. Aqui fica também a chamada da atenção para o mesmo texto. Resta apenas dizer que, antes do triunfo da "bolchevização" na URSS, acompanhado da abundante sangria que se sabe nas próprias fileiras bolcheviques, que conseguiu fazer com que a palavra "socialismo" passasse a ser usada, um pouco por todo o mundo, como nome oficial do que era o contrário absoluto, e ponto por ponto, do que até então se entendia e visava por "socialismo" — resta dizer, pois, que, até essa viragem regressiva e catastrófica, qualquer socialista consideraria um objectivo prioritário o derrubamento de qualquer regime semelhante ao de Kim Jong-Il, e acharia um gracejo de mau gosto que alguém invocasse o direito à "independência nacional" a seu propósito, ou, a seu propósito, falasse do "direito que lhe assiste a determinar o seu rumo próprio de desenvolvimento em condições de paz e não ingerência nos seus assuntos internos".

Justiça para todos

Longe dos 103 anos de Manoel de Oliveira, terei vivido o bastante para saber que aquilo da Justiça ser cega, surda e muda não é para levar à letra.
No seu melhor, a justiça será zarolha de um olho, surda de um ouvido e gaga como Demóstenes; tendencialmente justa, se quisermos brincar às charadas. Antes isso, porém, do que o pesadelo kafkiano de crianças cortadas ao meio.
A ironia salomónica é um risco: ou por alguém a levar a sério ou por servir para pouco, última hipótese ilustrada neste diálogo retirado do “Manhattan”:

“Isaac: Has anybody read that the Nazis are gonna march in New Jersey? (…) We should godown there (…), get some bricks and baseball bats and really explain things to them.
Party Guest: There is this devastating satirical piece (…) in the Times.
Isaac: Well, a satirical piece inthe Times is one thing, but bricks and baseball bats really gets right to the point.”

Sem mais delongas e directa “to the point”, quero partilhar consigo, “hypocrite lecteur – mon semblable –, mon frère!”, a agradável surpresa que foi assistir, por uma vez, à celeridade da justiça portuguesa.
“Não, não voltarás a abanar fortemente as grades!”, ficou a saber um dos manifestantes condenado por distúrbios em frente à Assembleia da República. Segundo o juiz, de “personalidade desconforme às normas sociais”, o réu levou com seis meses de prisão com pena suspensa por um ano. O outro, uma jovem de 16 anos, pena idêntica por arremesso de uma pedra às forças policiais, apesar de nada nos ser dito sobre o seu grau de perigosidade psicológica, decerto numa mais confundirá uma concentração junto à AR com a cena deapedrejamento do “Vida de Brian”, até porque, como é explícito no filme, “está escrito” que as mulheres não podem ir a apedrejamentos.
Aguarda-se agora que a mesma urgência seja aplicada a outros processos pendentes, entre os quais destaco, aleatoriamente: caso Isaltino Morais, submarinos, Casa Pia, Portucale, BPN,Freeport, Face Oculta…
Não se pode comparar o incomparável? Também acho.

A nova ordem húngara

Hungary’s Constitutional Revolution, por Kim Lane Scheppele (publicado no blog de Paul Krugman):
(...)  In a free and fair election last spring in Hungary, the center-right political party, Fidesz, got 53% of the vote. This translated into 68% of the seats in the parliament under Hungary’s current disproportionate election law. With this supermajority, Fidesz won the power to change the constitution. They have used this power in the most extreme way at every turn, amending the constitution ten times in their first year in office and then enacting a wholly new constitution that will take effect on January 1, 2012.

This constitutional activity has transformed the legal landscape to remove checks on the power of the government and put virtually all power into the hands of the current governing party for the foreseeable future.

Fuga de cérebros

Álváro Santos Pereira:
«Sabe qual é a exportação nacional mais bem sucedida das últimas décadas? Não, não são os têxteis nem o calçado, ou sequer o turismo. E também não são os moldes, as tecnológicas, ou até as energias renováveis. Não. A exportação nacional que mais tem contribuído para atenuar o nosso défice externo é... a nossa mão-de-obra. Todos os anos, dezenas de milhares de portugueses emigram para os mais variados destinos do mundo. Nos anos que se seguem, esses emigrantes trabalham e poupam nos seus países de acolhimento, enviando parte das mesmas poupanças para Portugal (as chamadas remessas). E é assim que, todos os anos, o nosso país recebe centenas de milhares de euros dos trabalhadores “exportados”. Nenhuma outra exportação nacional tem gerado tantas receitas para o país.

O problema é que, como em tudo, a exportação de trabalhadores nacionais precisa de ser competitiva. E essa competitividade tem-nos saído cada vez mais cara. Nos anos 60 e 70, o emigrante típico tinha poucas qualificações, de modo que não era muito caro “produzir” e “exportar” um trabalhador. Porém, o mundo mudou e agora os emigrantes portugueses têm de “competir” com chineses, indianos, ou cidadãos de outros países para emigrarem. E é assim que começámos a exportar muitos dos nossos trabalhadores mais qualificados. Actualmente, Portugal exporta licenciados, mestres e até doutorados em números tais, que já somos o segundo país da OCDE com a maior “fuga de cérebros”.

Resta saber se, no futuro, os custos dessa exportação para a economia nacional não serão bem maiores do que os benefícios.»
[Via Esquerda Republicana]

Background do protesto em Wukan, China

O blogue Rekolektiv publicou o que alega ser uma resenha dos acontecimentos, desde 1993, que levaram à actual revolta na aldeia de Wukan.

Note-se que este resumo se baseia num artigo em chinês e num video amador falado, acho, em cantonês (e penso que anónimo),  pelo que não é possivel confirmar o que eles dizem.

No entanto, mesmo com essas reservas, publico aqui a versão deles (ficando os leitores desde já avisados que isto vale o que vale):

18/12/11

Bora lá então!

Derrocada

São sintomas destes — faits divers aparentemente menores, mas que há pouco ainda diríamos inconcebíveis — que preludim as guerras, as ditaduras, a peste totalitária, cuja eventual repetição no horizonte da Europa presente — bruscamente, e oxalá que não demasiado tarde — deixa também de ser inverosímil.

As autoridades do Reino Unido estão a preparar-se para a eventualidade de retirarem cidadãos britânicos de Portugal e de Espanha, num cenário em que fiquem sem acesso às suas contas bancárias nos países ibéricos, em caso de colapso dos bancos, noticiou hoje a imprensa inglesa.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros (Foreign Office) britânico está preocupado com esta eventualidade e o Governo está a considerar fretar aviões, barcos e autocarros para poder fazer os expatriados nestes países regressarem ao país, segundo o Daily Telegraph de hoje, que faz manchete com a notícia, citando uma fonte não identificada daquele ministério. O Sunday Times também deu a mesma notícia.

Existem cerca de 55 mil cidadãos britânicos em Portugal e perto de um milhão em Espanha, segundo aquele jornal, que diz tratar-se sobretudo de reformados que vivem de pequenos rendimentos, a quem poderia ser enviada também ajuda em dinheiro.

Este cenário está a ser considerado no âmbito de um eventual agravamento da crise do euro, que os britânicos consideram que pode fazer entrar em colapso os bancos dos dois países – apesar de Portugal estar a ter assistência financeira da troika.
(…)
No mês passado, foi noticiado que o Foreign Office estava a pedir às embaixadas e consulados planos de contingência para motins e agitação social nos países mais afectados pela crise da zona euro.

"Em 2015, serão cobrados menos impostos"

Impostos cobrados = (carga fiscal) x (dimensão da economia)

Alguma coisa baixará.

Sem Israel haveria "palestinianos"?

É um lugar comum em certos sectores afirmar que, se não existisse Israel, nunca teria chegado a existir um "povo palestiniano". Seria assim?

Vamos tentar aqui um exercício de história alternativa - imaginar uma história decorrendo como decorreu, mas faltando apenas um elemento: o movimento sionista (ou então existindo a uma escala insignificante). Como teriam as coisas ocorrido?

Imagino 3 possíveis cenários:

Cenário 1) Tudo corre como correu: é criada uma "Transjordânia" no principio dos anos 20, e a Grã-Bretanha decide abandonar o território em 1948. De qualquer maneira, teríamos um território chamado "Palestina", administrado pelos britânicos durante quase 30 anos. Olhando para os precedentes na história real, em que as divisões administrativas criadas a regra e esquadro por britânicos e franceses no antigo Império Otomano se converteram em países independentes, mesmo aqueles sem nenhuma tradição prévia (como o Iraque ou a Transjordânia), o mais expéctável é que o "mandato britânico da Palestina" se tornasse também um país, nos primeiros tempos governado por "notáveis" escolhidos a dedo pelos britânicos.

Mas vamos imaginar que em 1948 o Reino Unido decidia integrar a Palestina na Transjordânia. Penso quase não haver precedente de, ao descolonizar, o Reino Unido, em vez de dar independência ao território em causa, o ter entregue a outro país (a única excepção parece-me Hong Kong, mas é um caso muito peculiar), mas vamos imaginar que tinha ocorrido assim. Durante os 30 anos de ocupação britânica de certeza que teriam aparecido movimentos anti-coloniais - afinal, na história real apareceram; além disso, teriam aparecido quase de certeza movimentos pan-árabes (o baathismo estava a aparecer na Síria nessa altura, e de qualquer forma um dos primeiros pensadores do "nacionalismo árabe" era um árabe de Jerusalém); finalmente quase de certeza que teria aparecido um Partido Comunista local (suspeita nº 1 - pelo exemplo real das Frentes Democrática e Popular de Libertação da Palestina, suspeito que os intelectuais critãos teriam um grande peso nesse partido; suspeita nº 2 - pelo exemplo dos Partidos Comunistas egípcio e iraquiano, suspeito que a comunidade judia local - se existisse mesmo sem sionismo - teria dado também muito apoio a esse PC).

Nesse cenário, quando Londres decidisse entregar a Palestina ao rei Abdullah da Transjordânia, quase de certeza que os os anti-colonialistas locais (nacionalistas árabes e comunistas) iriam dizer que isso era neo-colonialismo, que os hachemistas eram fantoches do imperialismo, iriam organizar protestos contra a “pseudo-independência” e pronto, já temos - mesmo integrado numa ideologia pan-árabe -  um movimento nacionalista palestiniano próprio (num modelo mais parecido com o do Sahara Ocidental), e pessoas a dizerem-se "palestinianos" (provavelmente num molde "em primeiro lugar sou árabe e em segundo palestiniano; jordanos, não sei o que isso é - a monarquia jordana foi uma criação do imperialismo e os jordanos são um povo inventado")

Cenário 2) Será que sem a questão do "Lar Nacional Judeu", a Grã-Bretanha (em vez de desanexar um pedaço desértico do "Mandato da Palestina" para criar o "Emirato da Transjordânia") não teria, pura e simplesmente, entregue o território todo a Abdullah? Afinal, o Império Britânico sempre preferiu "proteger" soberanos locais do que recorrer à administração directa. Nesse caso, a história nunca teria chegado a conhecer o nome "Transjordânia", e teria sido criado um "Reino Hachemita da Palestina" nos territórios que hoje constituem Israel, a faixa de Gaza, a Margem Ocidental e a Jordânia. Note-se que o lado oeste do Jordão era mais povoado, com mais cidades, e com mais pedigree histórico, pelo que quase de certeza que ceria o centro político de social desse reino (e Abdullah adoraria instalar-se em Jerusalém - 3º cidade santa do Islão - para compensar o facto de a sua família ter perdido Meca e Medina para os sauditas). Além disso, como o nome que inicialmente os britânciso e a Sociedade das Nações haviam dado a esse território era "Palestina", quade de certeza que era o nome que iria ficar. E pronto, já temos outra vez um "povo palestiniano" ("o "povo jordano" é que não).

Aliás, mesmo no cenário anterior em que a Palestina fosse anexada pela Tranjordânia em 1948, não me admirava que o novo Estado adoptasse algum nome estilo "Reino Unido da Transjordânia e da Palestina", devido ao maior peso social, humano e histórico da parte "Palestina"

Cenário 3) Será que, sem ter tido de lutar contra os guerrilheiros sionistas, a Grã-Bretanha teria abandonado a Palestina? Nesse caso, num mundo sem sionismo, os britânicos não se teriam retirado em 1948 (tal como não retiraram de Adem, para dar um exemplo de outra possessão administrada por eles no Médio Oriente). Provavelmente, a influência da China, da Argélia e talvez da crise do Suez (que talvez nem tivesse existindo num mundo sem Israel...) teria levado ao aparecimento de grupos armados independentistas nos anos 50/60, tal como aconteceu em Adem ou em Chipre. Talvez até tivesse aparecido uma “Frente Popular de Libertaçao da Palestina” ideologicamente alinhada com a “Frente de Libertação Nacional" do Iemén do Sul/Adem .

Mesmo que os britânicos, para não entregar o poder a rebeldes provavelmente marxistas, tivessem então entregue a Palestina à Jordânia, então iríamos ter um choque entre jordanos e palestinianos (talvez em 1970 - um pouco depois de os britânicos retiraram de Adem um pouco antes da independência dos emiratos do Golfo Pérsico - tivéssemos tido batalhas sangrentas entre o exército jordano e os guerrilheiros palestinianos, quando a Jordânia tivesse ocupado a Palestina substituindo o British Army em retirada ); nessa mistura de “cenário Setembro Negro” e “cenário Frente Polisário”, de certeza que teríamos à mesma o conceito de “palestinianos” e que os jovens esquerdistas ocidentais continuariam a gritar slogans “Viva a Palestina Livre”.

Resumindo, aqueles que dizem que o povo palestiniano só existe por causa de Israel parecem-me tomados por uma fantasia baathista/nasserista (será coincidência que defensores de Newt Gingrich se ponham a citar dirigentes da Saika?), estilo "é a entidade sionista que impede a união da grande nação árabe". Na minha opinião, a partir do momento em que a Sociedade das Naçoes atribuiu ao Reino Unido o mandato sobre um território a que chamaram "Palestina" criaram uma sequência de acontecimentos que levaria quase forçosamente ao aparecimento de "palestinianos".