30/05/11

Declaração de Voto no BE

Apesar de não ter tido de fazer grande coisa por isso e sem ter feito o que poderia ter tentado fazer para animar um processo de democratização efectiva como resposta à ofensiva oligárquica que tem rentabilizado e extraído toda a espécie de benefícios políticos da "crise"; apesar da eleitoralização e parlamentarização excessivas e da distorção do seu funcionamento e do seu relacionamento com os cidadãos pela adopção tácita por parte dos seus porta-vozes de normas hierárquicas de divisão do trabalho político homólogas da economia política dominante; apesar de tudo isso e muito mais ainda, a verdade é que o BE continua a polarizar em boa medida as aspirações de muitos dos que, animados da vontade de lutar contra o regime político-económico dominante, não aceitam ver recuperada essa luta por forças que continuam a propor como alternativa e a organizar a sua intervenção política baseando-se em modelos que historicamente se revelaram tão expropriadores e opressivos como as piores variantes da ordem estabelecida que se propunham substituir.

Sendo assim, e porque contrariar o reforço do regime através do reforço na cena política estabelecida dos partidos que visam a consolidação e expansão do poder classista da oligarquia governante poderá criar condições mais favoráveis à afirmação de alternativas que ponham uma efectiva democratização das relações de poder na ordem do dia, creio que vale a pena a cartada de um "voto útil" e sem ilusões no BE.

Aqui fica, pois, o apelo.

Mas não sem uma adenda que deveria ser, mas não me parece que seja, desnecessária. O BE, do ponto de vista imediato e táctico, mas não só nem fundamentalmente, terá tudo a ganhar em, não afrouxando a sua oposição óbvia ao "bloco central" alargado e aos interesses que o alimentam e ele promove, deixar de esconder, diluir, dissimular o que o distingue do PCP, das suas propostas e das suas concepções ideológicas e orgânicas. Caso contrário, estará a esconder, diluir e dissimular as suas próprias razões de ser. Ou a diferença conta e é de princípio, meios e fins, ou, se aparentar reduzir-se a uma questão de "sensibilidade", de gosto, de escrúpulo perfeccionista, etc., torna-se insignificante e insignificantes as razões que a poderiam validar, dando argumentos suplementares à agit-prop do PCP, quando diz que, bem vistas as coisas, é na sua coerência, património histórico, superior implantação nas frentes sindicais, e assim por diante, que todos os que se opõem à troika devem votar.

Por fim, nunca será demais insistir em que, se parece indispensável à captação do voto útil, esta "separação das águas" o é também e sobretudo para que efectivamente — no campo político mais decisivo e mais amplo que se abre antes e depois das lutas eleitorais e parlamentares travadas no interior das instituições do regime — o BE possa, e prove que quer, contribuir para potenciar a acção realmente democrática dos que, como ficou dito acima, "animados da vontade de lutar contra o regime político-económico dominante, não aceitam ver recuperada essa luta por forças que continuam a propor como alternativa e a organizar a sua intervenção política baseando-se em modelos que historicamente se revelaram tão expropriadores e opressivos como as piores variantes da ordem estabelecida que se propunham substituir".

11 comentários:

David da Bernarda disse...

Com menos espaço, e retórica, que o MSP declaro que continuo abstencionista convicto. Embora já tenha cometido o meu pecado de votar em 1975 e 1976, ou seja na pré-história do regime, enterrando as minhas ilusões, e esperanças, numa urna.

Por isso mesmo penso que hoje, mais que em qualquer outra época, é na crítica do Estado, das elites políticas, e deste falso sistema democrático em que a cada eleição só se decide a facção que se vai locupletar com a riqueza social que os cidadãos mais razões têm para defender a abstenção, mesmo que a abstenção eleitoral não esgote a recusa do Sistema, nem seja um momento decisivo da luta social, não deixa de ser um indicador fundamental das ilusões (ou das desilusões) dos cidadãos em relação aos grupos dominantes.

A opção só pode ser pois recusar a colaboração com os donos do Poder nos seus rituais periódicos de legitimação onde se alimentam muitas das ilusões que dão sustentação a esta ditadura do Capital.

Miguel Serras Pereira disse...

Caro David da Bernarda,

é difícil negar, creio eu, que o direito de voto é uma conquista histórica, se bem que de valor essencialmente "defensivo" e ainda que num sistema que, através da representação, nega a condição fundamental da democracia, que é o exercício do poder e dos direitos governantes pelos cidadãos.
Sendo assim, do meu ponto de vista, a decisão de votar ou não votar releva da avaliação da situação, relações de forças, etc. que num dado momento fazemos. E acontece que eu dei as razões pelas quais pode ser "útil" votar neste momento - aqui e agora - em eleições de representantes.
Outra linha de argumentação seria dizer que quem quer o mais, quer o menos. E que quem quer substituir à economia política dominante e ao seu Estado outra forma de exercício do poder, quer votar mais, multiplicar as ocasiões de voto e deliberação comuns em vista do autogoverno dos cidadãos adultos. Por isso, excepto se pensarmos que a abstenção cria num momento preciso (por exemplo, de duplo poder generalizado e assente em formas alternativas de auto-organização democrática) melhores condições para lutarmos por esses objectivos do que o voto (numa dada força partidária ou em branco) - creio que é preferível votar, ainda que em branco (como muitas vezes tenho feito do 25 de Abril para cá), a não votar.
Bom, o resto vem no post, e não preciso de o repetir.

Saudações libertárias

msp

Dédé disse...

"Recusar a colaboração com os donos do poder" não seria votar contra eles? Digo eu.

Miguel Serras Pereira disse...

Não só votar, caro Dédé, mas, nas actuais circunstâncias, TAMBÉM votar.

msp

gogol de kapote disse...

resumindo o Bloco a todo o custo

massacre-se o povo

mas salve-se Trotsky ou apenas Mao?

gogol de kapote disse...

eu abstencionista por emigração prolongada não votei e quando votei votei em branco

que quer sou racista

ahora há apenas duas soluções

votar a favor do sistema

ou contra

e votar contra tanto faz no Partido recriado ou reconstruido pela igreja Universal do Reino
de Deus

ou num fadista imbecil que quer trazer o rei de volta

ou no BE ou na CDU

ou num Sócrates que perdeu toda a credibilidade externa e 70% da interna

a radioterapia é paga em moeda forte

os anti-virais idem

e a indústria farmacêutica nacional tornou-se vestigial

logo a menos que tenhamos uma ajuda semelhante à do Haiti

que lhes trouxe o vibrião colérico que já não aparecia desde 1910

e a emigração em massa de mão de obra escrava para a república Dominicana ahora sem Trujillo

não temos grande solução

pragmatismo

Estaline tinha muito até fez renascer a igreja ortodoxa que tinha esmagado

Miguel Serras Pereira disse...

gogol de kapote,

pergunto-me se é decente que quem manifestamente não sabe ou não quer ler adopte um pseudónimo tão letrado. Mas isto sou eu, que tenho "a funesta mania de pensar" - ou de tentar fazê-lo - enquanto falo ou escrevo, e, já agora, enquanto ando.

msp

gogol de kapote disse...

pergunto-me se é decente

500 desgraçados do vale do ave

terem ido para a rua duas vezes em 20 anos

e da 2ª vez arrastando 50 e 60 anos atrás de si

Gogol é muito mais do que um escritor russo morto há muito

Gogol era um enfermeiro russo que morreu de várias maleitas em 1980 e tal
algures nas areias do Sahel

em termos de miséria de certeza que apesar da sua provecta idade
ela lhe deve ter passado ao lado

Gogol é tamém um gato na feira dos imortais de Bilal

Gogol era um enfermeiro que tinha muita fé nas gentes e nas ideologias

....fantasmas percebe?
não? nã faz mal

David da Bernarda disse...

A participação eleitoral só serve efectivamente para dar uma aparência de «democracia» e «legitimidade» a um sistema onde o Poder é exercido por quem jamais se sujeitará a votos...

O trabalho parlamentar do PCP, Verdes ou BE é-me indiferente, se fosse minimalista então defenderia o voto no PS, o mal menor. E de mal menor em mal menor iremos até ao mal maior, que é a consolidação da ditadura do Capital. A conversa mole do BE é mais social-democrata que o velho PS. E dessa social-democracia já vimos tudo que tínhamos para ver no século XX.

Só as ruas e a luta social poderão retirar o Poder às classes dominantes ou mesmo impor uma barreira às suas ofensivas. O resto é treta ou ilusão.

Roxo d'inveja disse...

Miguel Serras Pereira disse...

gogol de kapote,

pergunto-me se é decente que quem manifestamente não sabe ou não quer ler adopte um pseudónimo tão letrado. Mas isto sou eu, que tenho "a funesta mania de pensar" - ou de tentar fazê-lo - enquanto falo ou escrevo, e, já agora, enquanto ando.

e se eu quisesse ser indecente

tamém diria que enquanto durmo também penso em muita parvoíce
mas tenho o bom senso de não a cuspir como verdades inquestionáveis

pensar em parvoeiras é fácil

Niet disse...

David da Bernarda e MS. Pereira interpelam-nos a todos e numa dimensão de grande intensidade e responsabilidade. Ambos- D.B. e M.S.P. - lutam pela autonomia politica do proletariado e pela gestão operária.Por certo, sabem muito bem os efeitos perniciosos e deliquescentes que a transformação burocrática hodierna gera no espectáculo inofensivo do cretinismo parlamentar mais sofisticado." Um socialismo realizado " por conta do proletariado ", mesmo pelo partido mais revolucionário, é um completo nonsens... Como favorecer, por isso, a supremacia desses dois objectivos determinantes? Castoriadis pode-nos também ajudar nesse trabalho de libertação: " A exploração traduz-se cada vez mais através da estrutura hierarquica do trabalho e dos salários, e pela atomização introduzida no proletariado através da escala vertical do salário. Devemos denunciar sem falhas as concepções hierárquicas do trabalho e da organização social; devemos apoiar as reivindicações de salário que tendem a abolir ou a reduzir as diferenciações.Dessa forma, ajudamos a desenvolver, a longo prazo, o sentimento de solidariedade entre os trabalhadores, desmascaramos a burocracia, atacamos directamente a filosoia e os valores do capitalismo e construimos uma ponte para as concepções fundamentais do socialismo,que visam implementar a transformação das relações de produção- o problema central da revolução". Niet