27/05/11

A revolução será democrática ou não será

A proposta consensual a que chegou a Assembleia Popular da Puerta del Sol em Madrid é exactamente o que é necessário para permitir ao movimento 15M conseguir reunir o apoio maioritário da sociedade espanhola, essencial para conseguir forçar reais mudanças no sistema político em Espanha. Enganam-se os que vêem nesta proposta apenas um mínimo consenso des-politizado e inócuo. É uma proposta, que se efectivamente implementada, configura uma revolução no sistema político em Espanha, alterando radicalmente o que se entende por sistema político democrático.

Relembre-se que o mote do movimento 15M sempre foi Democracia Real YA! Ou seja, mudar o sistema de decisão e representação política de modo a ter em conta a vontade do povo, seja ela qual fôr. Parece ser isso que muita gente que tem participado nas assembleias populares não consegue entender, agindo, conscientemente ou não, como se a sua opinião representasse a opinião da maioria dos seus compatriotas, espanhóis ou portugueses. Isso parece bem claro nas tentativas de focar os manifestos iniciais redigidos em Madrid e Lisboa em propostas políticas facilmente identificadas com a esquerda radical, com a qual eu me identifico, e que dificilmente reuniriam, neste momento e infelizmente, uma maioria de espanhóis ou portugueses em seu apoio. E, em democracia, esse apoio é tudo o que conta, por mais que isso seja inconveniente para quem se ache parte duma qualquer vanguarda revolucionária.

Convém agora fazer uma analogia entre o que se passa em Espanha, e alastra pela Europa, e os acontecimentos conhecidos por Maio de 68. Em ambos os casos, a contestação ao sistema político e sócio-económico começa numa ocupação contínua do espaço público (universidades em 1968, praças em 2011), resultado da mobilização horizontal das gerações mais jovens. Em 2011, como em 1968, constituem-se assembleias populares para decidir o que fazer e como agir. O que se seguiu, em 1968, aos primeiros dias de ocupação, foi (1) uma brutal intervenção policial, que (2) criou um amplo movimento de solidariedade, traduzido em (3) enormes manifestações de apoio, greves e ocupações de fábricas, a que se seguiram (4) tentativas de manipulação dos acontecimentos pelos partidos de esquerda, de modo a potenciar a sua votação em eleições legislativas, e que (5) acabou numa clara vitória dos partidos de Direita nas eleições legislativas que tiveram lugar em final de Junho de 1968. As consequências dos acontecimentos em Maio de 1968 não se resumem a esta derrota eleitoral, que impediu qualquer reforma substancial dos sistemas político e económico. De positivo resultou a legitimização da contestação, do desafio à autoridade, seja ela imposta no meio familiar, laboral, social ou político.

As lições a retirar dos acontecimentos do Maio de 68 são para mim as seguintes: qualquer movimento que se cararacterize como apartidário e que pretenda manter-se como tal, inclusivé em termos de percepção no seio da população, não pode obviamente constituir como seu manifesto um conjunto de políticas que são no essencial defendidas apenas por certos partidos; se esse movimento quer provocar uma transformação democraticamente aceite no sistema político ou sócio-económico, tem de reunir em sua volta o apoio maioritário da população, de modo a conseguir a aceitação das suas propostas em referendo. Obviamente, estas ilações estão completamente nas antípodas dos pressupostos daqueles que defendem que qualquer mudança só pode advir do golpe de Estado revolucionário assente em partidos de vanguarda.

Entretanto, e como seria previsível, começaram as cargas policiais sobre as assembleias populares. Nao tenho dúvidas que tal só vai gerar mais simpatia em seu favôr. É o momento para abrir o movimento 15M, demonstrando o seu interesse transversal para toda a sociedade. Espero que em Portugal todos aprendam rapidamente com o que se está a passar aqui ao lado.

10 comentários:

portuguese_herbsman disse...

Parece-me que este movimento parte de um equívoco - de uma suposta falta de democracia / de uma não representação da parte da sociedade, a manifestante, no sistema político

Acho que a grande maioria dos manifestantes, com a sua pluralidade, até têm as suas posições razoavelmente representadas nos partidos mais à esquerda (bloco e pcp no caso português)

E então, arrisco dizer, estas manifestações não serão de uma natureza anti-democrática, ao contrário do que os manifestantes parecem acreditar? Porque esta luta é contra os "partidos do poder", de 'centro' e que inevitavelmente vão ganhar as próximas eleições - e porque reúnem os votos da maioria da população. E então esta luta não é, no fundo, uma luta contra o sentido de voto da maioria da população?

Só uns pensamentos de um gajo que quer mudanças radicais como qualquer pessoa de bem..

Cumps...

Anónimo disse...

um relato interessante acerca dos trabalhos no rossio:

http://pt.indymedia.org/conteudo/newswire/4738

Miguel Serras Pereira disse...

Bem postado, grande camarada Pedro e na ocasião certa.
Agora e sempre, convém deixar claro que, mais radical do que qualquer posição doutrinária, é o processo de democratização através da participação organizada, igualitária e autogovernada dos cidadãos em movimento. Não há outra revolução que valha pena. Transformar o regime da acção política em torno de objectivos aparentemente modestos e recuperáveis, tornando os agentes capazes de se autogovernarem entre iguais, é antecipar uma sociedade autónoma em que o poder político seja exercido através da participação governante dos cidadãos.
Acresce que, como dizia Rosa, a melhor verdade imposta por um comité central (ou outra direcção ou vanguarda) se transforma num erro monstruoso (porque se traduz na reprodução da dominação hierárquica de classe, na divisão do trabalho político que reprroduz as relações de poder da economia política dominante).

Abraço para ti

miguel(sp)

Luis Ferreira disse...

Há aqui uma confusão entre o movimento das acampadas e a plataforma Democracia Real Ya! Esta apenas e só deu o seu apoio em comunicado aos acampados. Esta é a versão oficial da história, o que se terá passado realmente por trás não sei.

Não entendo também como é que aqueles 4 pontos podem fazer uma revolução no sistema político espanhol. Acho que são suficientemente vagos para que possam ser facilmente contornados pelos estrategas políticos especialistas em dar a volta às coisas.

Xama disse...

Os partidos do poder querem cargas e pretextos para cargas policiais. Os de esquerda querem apoderar-se deste movimento ou então, se não o controlarem, tentarão sabotar. É MESMO ASSIM mafriends. Por isso é que devemos insistir nas ideias de REFERENDOS e de UM NOVO SISTEMA DEMOCRÁTICO Independente de Partidos. Na RUA, nas Praças da Liberdade temos de fazer o RESGATE DA DEMOCRACIA!!! UNIÃO POPULAR PACÍFICA é IMBATÍVEL porque é a mais LEGÍTIMA ;)

Atão Pensas que podes manifestar-te nus cu mícios? disse...

anjos com muitos donos?

há que ter respeitinho pela esquerda e pela direita

ser reaccionário contra os partidos

é ser fascista ou coiso assi

e a PEvide vem e leva essa maralha que não tem respeito

censura prisões de manifestantes sem respeito

isto lembra-me quelque chose

o quê nã sei

há manifestantes de luxo

e manifestantes de merda

os espanhóis são bons manif's

os nossos que não têm respeito

são lixo

A bem da Nação não compre manifestante nacional que estraga os cu mícios partidários

manifestante só se for a favor

Atão Pensas que podes manifestar-te nus cu mícios? disse...

o problema é a definição de democracia

em Faro democracia só vale com cartão partidário

Pedro Viana disse...

portuguese_herbsman, o facto de alguém votar num partido não quer dizer necessariamente que apoie todas as suas posições, podendo antes significar que considera esse apoio como o mal menor. Até porque a fracção das políticas que constam dos manifestos eleitorais que são efectivamente concretizadas é irrisória. Muitos votam por inércia, sempre no mesmo partido, porque consideram um desperdício de tempo estar a ler e reflectir sobre as propostas dos diferentes partidos, dado o impacto quase nulo que uma sua mudança de voto originaria. O rótulo de democracia que foi colado ao sistema político em que vivemos é apenas uma fachada para iludir (cada vez menos), permitindo ao povo ter a ilusão de que tem voz e que até consegue mudar quem governa (mas note, não as políticas de que governa, e é isso que interessa...).

Pedro Viana disse...

Caro Miguel,

Pois, aqui como noutros lados, há quem se ache na posse de toda a verdade. E ainda mais ridículos se tornam quando acham-se representativos da vontade popular. Felizmente em Espanha, conseguiram impedir que esses elementos se apoderassem das acampadas para impôr a sua agenda condenada ao fracasso. Não estou optimista no que concerna às acampadas em Portugal, particularmente em Lisboa.

Um abraço,

Pedro

Pedro Viana disse...

Luis Ferreira,

As acampadas surgiram na sequência das manifestações de 15 de Maio, convocadas pela plataforma Democracia Real Ya! Foram as pessoas que foram a essas manifestações que iniciaram as acampadas, donde parece-me lógico que essas pessoas partilhem os objectivos da plataforma Democracia Real Ya!.

Os 4 pontos que menciona podem fazer uma revolução no sistema político espanhol se forem efectivamente implementados. São vagos porque são um início. Agora é preciso que apareçam propostas para os concretizar. E elas apareceram, algumas vindas das próprias acampadas.