23/05/11

Um contributo do deputado Miguel Tiago

Um excelente contributo do deputado Miguel Tiago para a clarificação das diferenças entre comunistas e anarquistas, não vá haver quem ande confuso. Escrito, entre outras razões, com a preocupação de evitar a confusão entre os seus camaradas comunistas, o texto, contudo, eleva-se sobre esse propósito circunstancial. Constitui um documento de referência para os debates ideológicos da época contemporânea. Do ponto de vista da análise das classes, podemos encontrar análises precisas e úteis, como a que distingue entre a filha da pequena-burguesia e a filha do operário. Só falta a filha do micro-empresário, mas pode ser que em nova edição. A ler aqui. Aposto que faz inveja a este mandrião.

40 comentários:

Anónimo disse...

admito que li 14 páginas e estava quase quase a ler mais, mas parei aqui... "Dizia um camarada amigo na brincadeira, mas de facto baseado no desenvolvimento criativo da realidade: “numa biblioteca anarquistaencontramos sempre, em cada 100 livros, 90 de receitas vegan e 10 anti-comunistas”" ... e o camarada jerónimo que hoje dizia para afastarmos o preconceito, e eu que tão tentado ando a votar na foice e no girassol...

Anónimo disse...

3 páginas e é o momento de pensar...existem mesmo pessoas assim?

Miguel Lopes disse...

Quem se ficou pela página 14, perdeu partes muito catitas:

"O poder é sempre“mau”, logo não pode ser utilizado para destruir o poder anterior. Assim, perante a inviabilidade de destruição do poder, o Estado actual é indestrutível. A contradição é insolúvel e inultrapassável."

Mas a principal obsessão do autor, é com os filhos da pequena-burguesia:

1. "Para estes grupos, onde raros são os filhos da classe operária e por onde abundam os filhos da pequena-burguesia"

2. "nem todos os anarquistas se opõem à propriedade privada dos meios de produção. Aliás, o simples facto de se recusarem a assumir a necessidade do poder revolucionário,faz com que a propriedade privada dos meios de produção seja algo imutável, porque qualquer tomada desta seria um acto de poder, de violência, uma usurpação contra uma vontade individual – a da posse."

3. "Hoje, no entanto, o anarquismo é protagonizado essencialmente por grupos da pequena burguesia cuja intenção se fica pela existência e pela defesa dos privilégios da pequena-burguesia, numa fase em que eles próprios são arrastados na marcha imponente da grande burguesia"

4. "O anarquismo é uma doutrina política que, nas suas diferentes expressões, se apoia no individualismo burguês e cumpre, por isso, um papel de defesa dos interesses da pequena burguesia, mais vezes coincidentes com os interesses do grande capital do que com o dos trabalhadores."

5. "o movimento anarquista actual é um movimento anti-comunista, uma verdadeira bolsa de contenção do descontentamento juvenil, captando os filhos da pequena-burguesia e, ocasionalmente um ou outro jovem trabalhador."

6. "O que determina então a orientação supostamente anarquista de combater o sistema eleitoral burguês, se já vimos que este movimento é, eminentemente,burguês e pequeno-burguês?"

Cereja no topo do bolo:

"Esta é uma das primeiras consequências do trabalho anarquista: impedir votos nos partidos de esquerda. Se tivermos em linha de conta que só existe uma força de esquerda em Portugal, então o inimigo número “um” dos anarquistas é de facto a organização partidária dos trabalhadores, o Partido Comunista."

Já chega..fiquei na página 44..

Anónimo disse...

Pois é Miguel, volta lá para a Assembleia Popular! Chega cedo, pá. Se não tens os outros 5 presentes à tua frente para falar.

Anónimo disse...

Mas quem é este sr.deputado? O que é que ele faz? Como é possível escrever tais barbaridades?Isto é um miserável ataque à inteligência e memória de todos os combatentes e revolucionários que ajudaram a erguer a Revolução Russa de 1917, onde se incluem,claro, de forma irrefragável e densa, os contributos de Kropothkine, Proudhon e Bakounine.A desfaçatez e a mediocridade não têm limites, com efeito! Niet

Zé Neves disse...

anónimo das 9:33,

se o seu argumento contra a assembleia popular é quantitativo, temo que isso também o convença quando no dia 5 concluirmos que as quantidades estiveram do lado do ps e do psd

João Valente Aguiar disse...

«todos os combatentes e revolucionários que ajudaram a erguer a Revolução Russa de 1917, onde se incluem,claro, de forma irrefragável e densa, os contributos de Kropothkine, Proudhon e Bakounine».

Niet, Todos se lembram de ver esses três de arma em punho contra os Brancos... E o Lénine e os outros só andaram por lá a fazer férias...
E o que é isso de erguer uma revolução de forma densa?

Miguel Serras Pereira disse...

JVA

sim, mas é verdade que houve anarquistas, de resto de formações bastante diferentes, que tomaram parte activa na Revolução Russa e se bateram contra os brancos. O caso de Makhno fala aqui por todos e o seu contributo foi, no plano militar, em mais do que uma ocasião decisivo.
No plano internacional, até ao final da guerra civil e muitas vezes até mais tarde, os anarco-sindicalistas e outras correntes libertárias saudaram a Revolução Russa e solidarizaram-se de diversas maneiras com ela. É verdade que muitos deles foram também dos primeiros a denunciar o que entendiam ser os traços da degenerescência burocrática, a liquidação do poder dos sovietes e o novo modelo de exploração que se seguiram.
Tudo isto está bem documentado em vários escritos do tempo, memórias e investigações históricas posteriores.

msp

Niet disse...

Caro JV.Aguiar: Não vamos reescrever a história maravilhosa de Outubro de 1917,pois não? Trotski até lia Mallarmé no combóio da Revolução...A sua questionação,mer caro, prende-se por uma questão de leituras e referências que, admito, por mim possuem uma transitividade mais acelerada e plural.Mas, acho que me entende, claro. Passo a passo, vamos levantando um fio vermelho potente e indomável que compõe uma estratificação política( e histórica) que nega o azar transcendental porque há modos infinitos do infinito... Salut! Niet

João Valente Aguiar disse...

MSP,

eu não nego que houve anarquistas na Revolução Russa. Apenas gozei com o facto do Niet ter quase reduzido a mesma à feitura de três personalidades já na altura desaparecidas. E do campo do anarquismo.

E Niet, não me respondeu, o que é isso de fazer uma revolução de forma densa?

Niet disse...

JV Aguiar: Houve anarquistas russos, espanhóis, franceses, americanos,etc, no combate- e nos anos decisivos 1917/24-na Revolução Russa. Não quer que lhe dê os nomes,pois não? Os anarquistas americanos até tentaram salvar o massacre de Cronstad. Densa, queria significar com estratificados processos de conhecimento e doutrina, como refere C. Castoriadis, meu caro!Niet

João Valente Aguiar disse...

«Houve anarquistas russos, espanhóis, franceses, americanos,etc, no combate- e nos anos decisivos 1917/24-na Revolução Russa. Não quer que lhe dê os nomes,pois não?»

isso eu sei homem. Qualquer um sabe :-)
Sobre Kronstadt. Se fossem só anarquistas acha mesmo que os bolcheviques tinham rebentado com aquilo tudo por ali dentro? Creio que não, mas isso são contas de outro rosário.

Niet disse...

JV Aguiar: Parece que tem pedras no sapato, homem! Fale livre e cristalinamente comigo. Eu só falo daquilo que sei, daquilo que leio e tento perceber.E exijo que os outros me digam coisas -importantes ou sintomáticas- sobre aquilo que se está a discutir.É esse para mim a finalidade de um Blogue. Jogos de esconder ou de labirinto, não! Sobre Cronstad tenho escrito alguma coisa nos últimos dias, se deu conta, e partilho da opinião que o grande estratego e tribuno de Petrogrado, Trotski, pouco ou nada teve a ver com a repressão de Março de 1921 no porto da sua querida cidade! Niet

Miguel Serras Pereira disse...

Niet,

assim não chegamos a lado nenhum. Diga o que disser Paul Avrich e outros, a verdade é que o próprio Lev Davidovitch sempre assumiu a responsabilidade que lhe coube - mandatado pelo PC(b) - no esmagamento brutal da revolta. A própria historiografia "trotskista" não o nega - embora nem todos os trotskistas avaliem do mesmo modo o comportamento de Trotsky na ocasião (e nesse período).
O testemunho de Emma Goldman (http://dwardmac.pitzer.edu/Anarchist_Archives/goldman/further/mfdr_6.html) é especialmente recomendável. Mas há outros - e não preciso de tos recordar.

Bom vento

msp


JVA,

claro que não eram só anarquistas - muitos dos insurrectos eram, até ao momento da revolta, bolcheviques.
Mas basta ler os documentos que contêm as suas resoluções e apelos para ver que o seu programa nada tinha de contra-revolucionário e era uma plataforma destinada a reavivar a democracia soviética. (O programa reivindicativo dos insurrectos é transcrito por Ema Goldman no capítulo que cito na resposta ao comentário do Niet.)

Saudações democráticas

msp

Niet disse...

MS. Pereira: O Victor Serge nega o envolvimento de Trotski no massacre; e responsabiliza Lénine- e o seu homem-de-mão Zinoviev da época-no acontecimento. O Trotski ficou em Moscovo e só falou dessa intervenção numa reunião do C.Central.Salut! Niet

Miguel Serras Pereira disse...

Niet,
uma coisa é dizer - e não vou discutir essa tese - que Trotski foi "queimado" mediante a atribuição de uma missão como a de que o incumbiram; outra, muito diferente, é dizer - coisa que Trotski nunca fez, impacientando-se sempre que alguém, mais tarde, lhe falava no assunto, e insistindo na justeza da repressão da revolta - que Trotski não se envolveu no esmagamento do "último soviete livre". Tê-lo-ão "queimado"? É verosímil que sim, mas ele deixou-se queimar (não seria a última vez), sorou ateando a fogueira e nunca se dessolidarizou da decisão do PC(b).

Salut

msp

Niet disse...

MS.Pereira: A própria Emma Goldman fala de Vitor Serge e do seu posicionamento...Mas as diferenças eram enormes: Serge falava o russo e dava-se com todo o politburo,há anos, como ele narra nas suas maravilhosas e profundas Memórias. De qualquer modo,gosto de ver tudo escancarado numa discussão tão palpitante e fundamental para o futuro do Partido Bolchevique. Salut! Niet

João Valente Aguiar disse...

Sobre o texto do Miguel Tiago aqui em apreço. Mto sinceramente acho o texto mto bom e mostra mtas das diferenças fundamentais entre o marxismo clássico e o anarquismo e deveria ser lido a este título. A grande maioria dos argumentos apresentados giram em torno das problemáticas que distinguem marxistas e anarquistas. E mesmo que hoje mtos militantes anarquistas sejam de origem assalariada, a verdade é que os fundamentos do anarquismo clássico que o Miguel Tiago apresenta são indubitavelmente tributários da mob do Thompson e do lastro pequeno-burguês (artesãos, small shopkeepers, etc.) do final do século XIX. Isto não é um juizo de valor, mas que esteve presente na geneologia do anarquismo.

Não vou ser eu a fazê-lo, mas pena foi que os comentários aqui a este post não se tenham focado nos argumentos apresentados no texto do Miguel Tiago: relação do anarquismo e do marxismo sobre as relações de poder, posição relativamente à repressão do Estado proletário, etc. Nem que, no final, uns concordassem com o fundamental (que é o meu caso) e outros discordassem. A concordância ou discordância não seria o mais importante, mas o debate político de questões cruciais para o campo anti-capitalista.

Niet disse...

JV Aguiar: Independentemente de vir a consagrar mais tempo a discriminar a " tese " do deputado Manuel Tiago é, por demais evidente, no entanto,do meu ponto de vista, que " favorecer " um certo Marx- o do Manifesto em detrimento do texto sobre a Comuna ou mesmo sobre as Lutas de Classe em França-provoca sensiveis alterações no apuramento ideológico da resenha histórica. E por quê privilegiar a versão de Thompson em vez de analisar e enquadrar as de Mehring,Guillaume ou Lehning, bem mais detalhadas e inseridas no contexto da diferença entre os marxistas e os anarquistas? E as teses de Maximilien Rubel e Paul Mattick também são incontornáveis a esse respeito! Niet

Anónimo disse...

O Niet pergunta acima quem é o deputado Miguel Tiago. Aqui pode conhecê-lo melhor:
http://www.youtube.com/watch?v=JLuWNPu5P9w

Anónimo disse...

JV Aguiar: A sua tese -amparada a E.W. Thompson - de que os fundamentos do Anarquismo Clássico são tributários do lastro pequeno-burguês do séc. XIX, parece muito dificil de sustentar e vai ao arrepio do que escreveu um dos maiores historiadores do Anarquismo, Daniel Guérin. " O Anarquismo do séc. XIX distingue-se- nitidamente- do Anarquismo do séc. XX. O Anarquismo do séc. XIX é essencialmente doutrinal.(...) O do séc.XX, pelo contrário,constitui para os anarquistas o da prática revolucionária. Jogaram um papel activo nas duas Revoluções Russas e, mais ainda, na Revolução Espanhola ", escreve Guérin, no seu volume- " Por um Marxismo Libertário ". Niet

Miguel Serras Pereira disse...

Niet,

E. P. Thompson nunca, que eu saiba, formulou a coisa nesses termos. É, de resto, promotor de um "marxismo" bastante sui generis, "basista", apostando na auto-organização, de inspiração lato sensu libertária (a tradição anarquista propriamente dita, apesar de Godwin, não se afirma em Inglaterra: o seu equivalente é o libertarismo prático do movimento radical e operário…).

A tentativa de associar em geral o anarquismo ou à pequena-burguesia ou aos camponeses, artesãos tradicionais e camadas populares "atrasdas" não se mantém de pé após um mínimo de exame crítico. Não se mantém, é impossível de manter como tese geral. Se os estudos de Hobsbwam sobre o milenarismo anarquista da Andaluzia contêm muitas análises reveladoras e consistentes, é justamente porque não são uma tese geral sobre o anarquismo, mas uma investigação sobre a consciência social de um certo grupo numa certa época e em condições específicas. O que aí aprendemos não nos permite tirar conclusões sobre a natureza de classe do anarco-sindicalismo ou sindicalismo revolucionário catalão, etc. De resto, o mesmo se poderia dizer dos vários movimentos socialistas - inspirando-se ou dando lugar a doutrinas também muito variadas - que historicamente conhecemos.

Boas leituras (não descures essa obra-prima, de resto admirada por Castoriadis, que é A Formação da Classe Operária Inglesa do Thompson… ando há anos a ver se alguém se dispõe a propor-me a sua tradução)

Salut

msp

Anónimo disse...

MS.Pereira: Deves conhecer e bem) o último dos grandes textos( livro) do D. Guérin, que cito. Trata-se, como os outros sobre o "Fascismo e o Grande Capital" ou os sobre a Rosa Luxemburg, de um auxiliar luminoso, independente e minucioso sobre a história do Anarquismo em panavision. Há muito que ando para ler o Thompson,claro. E o livro do Mattick sobre Marx & Keynes também se transformou numa biblia. Salut! Niet

João Valente Aguiar disse...

«A Formação da Classe Operária Inglesa do Thompson… ando há anos a ver se alguém se dispõe a propor-me a sua tradução».

Nisto concordo consigo MSP. Uma grande obra. A tese dele relaciona sempre a dinâmica de base com a formação de organizações. Obviamente ele não fala em partidos ou organizações de vanguarda como hoje as conhecemos até pq... elas nunca tinham existido. Mas as lutas operárias em torno do direito de voto, em torno da defesa da imprensa operária, etc. passaram sempre pela formação de organizações proletárias. Poderei concordar que o Thompson não era leninista, mas o método e os conceitos eram claramente inseridos no marxismo. Que ele abre novas portas é inegável. Que ele fosse próximo do anarquismo, em termos conceptuais, tenho mtas dúvidas. Contudo, tudo isso é secundário perante a grande obra que ele construiu.

Niet disse...

O,JV.Aguiar, eu tenho-o numa lista de pessoas respeitáveis, cordatas e esforçadas.Com quem se pode dialogar e descobrir coisas importantes Mas, calma, muita calma, pois, lançou umas infundamentadas e injustas pedradas aos Anarquistas, que eu não represento nem perfilho- a 100% por cento- a ideologia. Fala das reminiscências marxistas em Thompson, oh deuses, essas inflexões também se notam, de forma crítica, nos primeiros 30 anos da obra de Castoriadis. Como se inferem nas de Lefebvre, Guérin, Marcuse e toda a Escola de Frnkfurt, no Foucault e,especialmente, no Deleuze, do Anti-Édipo. Lembra-se do que dizia o velho Sartre? Mas, justamente, é que existe, historica e politicamente, nos anos 60 e 70, um marxismo " soviético " e um marxismo libertário, antes do Castoriadis demonstrar que o marxismo pertence à racionalidade e ao magma das representações do Capitalismo. Niet

Miguel Serras Pereira disse...

Bom, JVA, de acordo: eu não quero dizer que em termos doutrinários E. P. Thompson estivesse perto deste ou daquele "pai fundador" do anarquismo. Mas situava-se na esteira de William Morris, por exemplo, que muitos socialistas libertários do século XX consideravam, apesar de marxista, uma figura exemplar.
Eu, que não me diria "anarquista", valorizo, sobretudo, estas linhas de convergência de tradições radicais diversas, que se distinguem pela crítica da lógica do Estado. Não se trata de afirmar apenas que o Estado actual é um poder de classe, mas que a forma-Estado é uma forma de poder político classista "em si", inseparável de uma divisão hierárquica do trabalho político que é o princípio mesmo da dominação e da sociedade de classes.
Calculo que não concordará com o que digo, mas teremos ocasião de o discutir noutras alturas.

Saudações democráticas

msp

pedras contra canhões disse...

É um contributo baseado essencialmente no contacto directo com esses grupos durante muito tempo. Necessariamente incompleto e certamente contendo inúmeras imprecisões. Não tem como objectivo negar a importância das correntes utopicas no passado, mas apenas destacar as actuais formas de ver e agir dos grupos de anarquistas dos dias de hoje.

Tenho a genuinamente agradecer as críticas e os reparos. O que escrevi é uma interpretação individual que parte de uma experiência pessoal. Como tal, esta contaminada com a minha perspectiva.

Ainda assim, seria interessante avaliar bem a história dos bandidos makhnovistas da ucrânia que injustamente se apelidaram de anarquistas.

Sobre trostsky e anarquistas, independentemente do que ele leu, vejam la quem deu a ordem para a liquidação dos marinheiros de kronstadt...

pedras contra canhões disse...

Ao amigo que ficou escandalizado com a estoria da biblioteca anarquista: era obviamente uma aproximação pelo ridículo, mas não tão distante assim da realidade. vivi muito tempo com anarquistas, fizemos muitas cenas juntos, mas não sem eu ter de encaixar muitas vezes o anti-comunismo furioso deles.
A temática é supérflua e o texto que escrevi tinha como único objectivo deixar notas sobre o vi e vivi com eles, numa perspectiva crítica.

Não tinha o objectivo de levantar dúvidas sobre todos os trabalhos escritos sobre anarquismo, que tampouco li. Porém, isso não muda nada a minha opinião sobre o papel político que os actuais anarquistas desempenham em portugal.

pedras contra canhões disse...

Ah. E o texto é de 2007.
Cumprimentos a todos. Miguel tiago

Miguel Serras Pereira disse...

Miguel Tiago,
não sei com que "anarcas" se deu - mas o seu artigo também não o explica, nem tão-pouco que era de uma experiência vivida na proximidade de certos grupos que V. falava.
Aquilo a que se chama muitas vezes o "anarca" tem pouco a ver com o que permanece vivo no legado da tradição socialista libertária, anarco-comunista e sindicalista revolucionária. Hans Magnus Enzensberger mostra-o muito bem e convincentemente na concluisão do seu admirável ensaio literário sobre Durruti (O Curto Verão da Anarquia).
De qualquer modo, a sua tentativa de fazer uma leitura que reduz o anarquismo a uma corrente pequeno-burguesa é singularmente injusta. Se de alguma coisa podem ser acusados certos movimentos históricos importantes é justamente de "obreirismo" e de "basismo de classe".
Por fim, um erro preciso: a sugestão de que Makhno não passava de um criminoso de direito comum. Nem Trotsky que, depois de ser seu aliado, o atraiu a uma cilada e liquidou a sua resistência, se atreveu a insinuar tanto. Encontrará em autores menos suspeitos a seus olhos do que Voline, que fez a história-testemunho do movimento (editada em Portugal pela velha CGT), indicações que tornam a sua tese insustentável.
Mas, enfim, você, honra lhe seja, já reconheceu que o seu ensaio se pretende menos uma reflexão sobre a história dos movimentos anarquistas e das correntes libertárias do socialismo, bem como dos movimentos operários e radicais, do que uma reflexão sobre a natureza de alguns grupos que se reclamam do anarquismo (que, suponho, seriam talvez stirnerianos, anarco-comunistas, etc., mais do que anarco-sindicalistas ou sindicalistas revolucionários).
Deixando as questões de reconstituição histórica de lado, o que seria interessante e fecundo politicamente seria discutir a actualidade do sentido da divisa da I Internaciona - A emancipação dos trabalhadores há-de ser obra dos mesmos trabalhadores - e das leituras políticas rivais a que continua a dar lugar. Mas teremos tempo para isso, talvez, noutra ocasião.

Saudações republicanas

msp

João Valente Aguiar disse...

MSP,

«sentido da divisa da I Internaciona - A emancipação dos trabalhadores há-de ser obra dos mesmos trabalhadores».

Curioso vê-lo a citar uma divisa criada pelo Marx, creio que da mensagem inaugural da AIT :-) E é óbvio que a divisa faz todo o sentido.

Sobre o texto do Miguel Tiago. Como disse acima, eu acho o texto mto bom, não por procurar um factualismo historiográfico da miríade de correntes anarquistas/libertárias, mas por dar conta:

1) de vários comportamentos de grupos anarquistas que se preocupa(ra)m mais em hostilizar os comunistas, nem que para isso se tenham de aliar a forças do outro lado da barricada. Kronstadt foi disso um exemplo, mais ainda pq mtos anarquistas foram absorvidos pelos Brancos e levados a conspirar abertamente contra o poder soviético. A prisão e assassínio de dirigentes bolcheviques na fortaleza de Pedro e Paulo foi disso um exemplo de como os mencheviques e outras forças de direita tiveram sucesso a soprar ao ouvido dos anarquistas. E tiveram sucesso pq o anarquismo, ou parte dele, mais depressa se apressa a criticar o marxismo clássico do que em se afastar da influência de correntes em nada revolucionárias. O exemplo máximo disto foi o Otto Ruhle.

2) das questões relacionadas como o anarquismo lida no geral com os conceitos de poder, violência, Estado e classes. Sobretudo, sobre este ponto não vi quase ninguém a discutir o que o Miguel Tiago disse sobre o assunto. E este ponto é o mais importante.

Miguel Serras Pereira disse...

JVA

acho que vou ficar por aqui. São muitas e muito diferentes as questões já em cima da mesa.
1.Sobre Kronstadt, não temos a mesma opinião. Remeto-o para o que ontem disse sobre o assunto e para a vasta literatura histórica sobre o assunto.
2. A divisa da I Internacional - da AIT - foi património comum de marxistas, bakuninistas e outros. Em meu entender, é incompatível com a tese leninista da necessidade da introdução da consciência revolucionária a partir do exterior e do trade-unionismo como máximo horizonte possível da classe desprovida de partido (enquanto seu representante histórico).
3. Não sou "anarquista" nem marxista. Mas se não me parece que possa existir sociedade sem poder político e sem instituições, leis, etc., penso que o Estado não é a única forma de poder político concebível nem necessariamente a última palavra da história. A auto-organização dos cidadãos de uma sociedade democrática não acabará com as leis, mas tornar-nos-á seus co-autores explícitos e responsáveis. Não acabará com a economia, torná-la-á igualitária e democrática a todos os níveis (da direcção da produção à repartição do produto, etc.). A alternativa ao Estado e à sua divisão hierárquica do trabalho político e do poder de decisão "económico" é, por isso, a supressão das classes através do exercício daquilo a que chamo a cidadania governante.

Enfim, são estas questões e outras afins - que tipo de organização das lutas adoptar e propor? - que me interessa discutir aqui e não tanto a história do anarquismo, das correntes conselhistas, do POUM, etc. E parece-me que as nossas divergências e convergências eventuais se tornarão mais precisas em termos políticos, se não tentarmos (enganadoramente, de resto) deduzi-las das nossas - suas, minhas, de outros - diferentes leituras da história.

Saudações democráticas


msp

pedras contra canhões disse...

eu não vou reler o texto - gabo-vos a paciência - mas julgo que começo logo por dizer que em determinados contextos históricos o anarquismo e as correntes que o precederam e completaram foram uma importante ferramenta das classes exploradas. depois julgo que deixo claro que me refiro aos comportamentos dos grupos de hoje (se bem que os do passado não me motivam muita simpatia, principalmente os pós-1917). E convivi com um dos poucos grupos organizados de anarquistas que conheço em portugal, passe a contradição.

Niet disse...

Os textos aqui agora publicados pelo sr. deputado Manuel Tiago não adiantam um milimetro ao arrazoado delirante e surreal que ousou escrever para dizer mal do Anarquismo e outras correntes ideológicas anti-marxistas leninistas. Acentua o salmigondis de banalidades reaccionárias e de uma profunda inutilidade. Niet

Anónimo disse...

Paul Mattick, num texto soberano sobre o Estalinismo e o Espontaneismo,alerta: " Os bolcheviques nunca pretenderam que tinham sido, unica e exclusivamente, os responsáveis pela Revolução de Outubro. Tomaram devidamente em atenção a existência de movimentos espontâneos ". E confronta as teses de Trotski no VII Congresso e os ecos da liderança hegemónica e total de Lénine e dos seus colaboradores( Boukharine,Rykhov,Kamenev,etc), antes e depois de Outubro 1917. Niet

pedras contra canhões disse...

jesus.
com gente esclarecida como este Niet a comentar neste blog, não sei porque ainda restarão matérias a discutir.

contudo, os comentários do niet estão ajustados à elevação e honestidade do post que lhes dá origem.

retiro-me com uma vénia perante tamanha sapiência.

Niet disse...

Oh, sr. deputado M. Tiago: Escusa de se armar em vitima. V. Excia em 2011 teve o " culot" de escrever um artigo sobre o Anarquismo, operando uma prosa sem referências mínimas e baseando-se nas " impressões " colhidas junto de uns amigos seus...É impossível- a não ser para diversão desbragada e mal-intencionada- hoje escrever uma " peça " destas. Eu também conheci alguns anarquistas lusos. Um deles esteve refugiado em Paris, e tinha sido aluno do IS. Técnico. Era um tipo admirável, muito culto- impressionava os "miúdos" como eu dizendo-nos que tinha lido o Lénine todo( para o criticar, claro), e falava muito da Escola de Francfort. Dava-se muito com malta que depois subiu a escadaria univ. do ISCTE, depois do 25 de Abril. Ora, para lá de Bakounine, Proudhon e Kropothkine- que ele citava e recitava- assistiu a Maio 68 na ruas de Paris, tendo ficado vacinado para todo o sempre contra os " gérmens " burocráticos e o totalitarismo dos estados-maiores.
Que mais dizer? Quando tentámos chamar a atenção para a " caricatura " desleal que tentou revelar do Anarquismo e das sensibilidades Autónomas e Anti-Leninistas, principalmente,a sua reacção foi prolongar a manobra de diversão, em vez de ter tido a coragem politica de abjurar e criticar o texto que escreveu sem pensar duas vezes ! Niet

pedras contra canhões disse...

Oh niet, eu já não sei se está a falar a sério ou se está a passar-se por idiota.

E que melhor maneira de contrariar o baixo golpe de escrever um texto baseado em experiência própria do que relembrar uma admiração adolescente sua?

Ainda esperei que tentasse trazer algum contributo para afastar a discussão do campo da subjectividade, todavia, relembrar o velho anarquista que conheceu é tão ou mais pesoal do que o meu texto. Além disso, leia a miséria que o príncipe kropotkine deixou escrita e depois diga-me com a mínima seriedade que aquilo é digno de ser citado ou tido em conta...

Niet disse...

Sr. deputado Manuel Tiago: Que lindos sentimentos políticos que demonstra ao tentar menorizar a experiência de um dos fundadores do grupo Acção Directa, que eu relatei com certa profundidade e relevância. V.EXcia está a milhas de perceber o que está em jogo na Revolução Social. Sugiro-lhe, a acrescentar à bibliografa já exposta e citada, que tente ler o "M. Bakounine", de E.H. Carr, a que se podem juntar outros textos de Barrington Moore, Eric Hobsbawm, George Rudé, E.P. Thmpson e o " Fascismo Vermelho " de Vóline.Niet

pedras contra canhões disse...

Caro amigo niet,
Pronto, estamos esclarecidos. É que por momentos pensei mesmo que estivesse a falar a sério. E o meu nome é miguel tiago, só.