28/07/18
27/07/18
Empregos mínimos garantidos?
por
Miguel Madeira
Uma ideia que parece estar a ganhar tracção (p.ex., é umas das propostas de Alexandria Ocasio-Cortez, a autoproclamada socialista que ganhou as primárias Democratas para ser candidata pelo "14º distrito" - parte do Bronx e de Queens - de Nova Iorque, contra um dos supostos líderes do partido) é a do "job guarantee", isto é, um sistema em que qualquer pessoa poderia ter um emprego no Estado se assim o desejasse (significando que quem não conseguisse ou não quisesse arranjar um emprego no sector privado poderia sempre ir trabalhar para o Estado). Neste momento, essa ideia parece-me a grande rival do Rendimento Básico Incondicional na categoria "novas ideias para adaptar o estado social às condições do mundo de hoje".
A respeito dessa ideia, temos aqui um artigo ("Basic Income, not Basic Jobs: Against Hijacking Utopia") de Scott Alexander criticando-a e outro de Paul Krugman mais ou menos a defendê-la.
Mas há uma crítica que vi há uns anos que me parece relevante - do que a "job guarantee" não passa de "glorified workfare", isto é, apenas uma versão com um título mais positivo daquelas ideias de "pôr os desempregados e os beneficiários do RSI a limpar as matas". E no fundo a diferença parece-me muito de "framing"; e nem precisamos muito de ir mesmo para a questão do "job guarantee" para ver como uma pequena diferença de vocabulário pode alterar quem simpatiza em que discorda de uma proposta: compare-se A) o já referido "deveríamos pôr os desempregados e os beneficiários do RSI a limpar as matas"; e B) "deveríamos fazer um projeto de obras públicas - p.ex., uma grande limpeza de matas - para criar postos de trabalho; e quase se pagaria a sí próprio, já que parte do dinheiro que se gastaria em salários seria poupado em subsídios de desemprego e em RSI" - não me admirava que grande parte dos defensores de B) seja contra A) e vice-versa, mas o conteúdo concreto não é assim tão diferente.
Parece-me que supostamente a principal diferença entre "empregos mínimos garantidos" e "pôr os desempregados a limpar as matas" é que no primeiro as pessoas receberão um ordenado, e no segundo recebem o subsídio de desemprego ou o RSI, eventualmente com uma bonificação, mas na prática ess diferença pode ser muito pequena (até porque nem é certo que o ordenado no primeiro caso seja maior que o subsídio no segundo), sobretudo se o programa de "empregos garantidos" vir a cair nas mãos de um governo hostil (que piore as condições e mantenha os ordenados congelados); outra potencial diferença poderá ser que no sistema "pôr os desempregados a limpar as matas" está implicita um obrigação, com o fim do subsídio se se recusarem, mas nem sei se isso será uma diferença, já que nem me parece muito claro se num sistema de "empregos garantidos" continuariam a haver subsídio de desemprego.
Há muitos anos vi um episódio de uma série de ficção científica (não me lembro qual - tinha a ideia que fosse na Quinta Dimensão, mas tive a ver a lista dos episódios e não o achei) em que as pessoas para receberem subsídios de desemprego tinham que passar a vida a conduzir camiões (penso que vazios) de um lado para outro, e creio que teriam que fazer um mínimo de quilómetros; receio que os "empregos garantidos" (sobretudo, repito, sob um governo hostil ao "estado social") possam facilmente degenerar nisso.
A respeito dessa ideia, temos aqui um artigo ("Basic Income, not Basic Jobs: Against Hijacking Utopia") de Scott Alexander criticando-a e outro de Paul Krugman mais ou menos a defendê-la.
Mas há uma crítica que vi há uns anos que me parece relevante - do que a "job guarantee" não passa de "glorified workfare", isto é, apenas uma versão com um título mais positivo daquelas ideias de "pôr os desempregados e os beneficiários do RSI a limpar as matas". E no fundo a diferença parece-me muito de "framing"; e nem precisamos muito de ir mesmo para a questão do "job guarantee" para ver como uma pequena diferença de vocabulário pode alterar quem simpatiza em que discorda de uma proposta: compare-se A) o já referido "deveríamos pôr os desempregados e os beneficiários do RSI a limpar as matas"; e B) "deveríamos fazer um projeto de obras públicas - p.ex., uma grande limpeza de matas - para criar postos de trabalho; e quase se pagaria a sí próprio, já que parte do dinheiro que se gastaria em salários seria poupado em subsídios de desemprego e em RSI" - não me admirava que grande parte dos defensores de B) seja contra A) e vice-versa, mas o conteúdo concreto não é assim tão diferente.
Parece-me que supostamente a principal diferença entre "empregos mínimos garantidos" e "pôr os desempregados a limpar as matas" é que no primeiro as pessoas receberão um ordenado, e no segundo recebem o subsídio de desemprego ou o RSI, eventualmente com uma bonificação, mas na prática ess diferença pode ser muito pequena (até porque nem é certo que o ordenado no primeiro caso seja maior que o subsídio no segundo), sobretudo se o programa de "empregos garantidos" vir a cair nas mãos de um governo hostil (que piore as condições e mantenha os ordenados congelados); outra potencial diferença poderá ser que no sistema "pôr os desempregados a limpar as matas" está implicita um obrigação, com o fim do subsídio se se recusarem, mas nem sei se isso será uma diferença, já que nem me parece muito claro se num sistema de "empregos garantidos" continuariam a haver subsídio de desemprego.
Há muitos anos vi um episódio de uma série de ficção científica (não me lembro qual - tinha a ideia que fosse na Quinta Dimensão, mas tive a ver a lista dos episódios e não o achei) em que as pessoas para receberem subsídios de desemprego tinham que passar a vida a conduzir camiões (penso que vazios) de um lado para outro, e creio que teriam que fazer um mínimo de quilómetros; receio que os "empregos garantidos" (sobretudo, repito, sob um governo hostil ao "estado social") possam facilmente degenerar nisso.
24/07/18
"Intolerância e discriminação" contra os cristãos?
por
Miguel Madeira
Há dias foi publicado [pdf] um relatório de casos de "intolerância e discriminação contra os cristãos na Europa" (via O Insurgente).
Há lá efetivamente montes de casos graves, como igreja atacadas e incendiadas, mas o relatório mistura e soma esses casos a outros "casos" (uma minoria no conjunto, é verdade, mas talvez potencialmente significativos nalguns países) que noutro contexto levariam logo uma acusação de "snowflakes" (situações estilo “alguém disse mal da igreja católica” ou “católica praticante perde uma votação numa associação de estudantes”).
Exemplos: "Satirical Publication Deeply Insulted Catholic Church" (página 21), "Belgian Red Cross Branches Ordered to Remove Crucifixes" (página 23 - vai-se ler e foram "ordered" por um órgão dirigente da própria Cruz Vermelha), "Croatian Theatre Festival Included Play with Jesus Christ Rape Scene" (página 23), "Visitors at Estonian National Museum Invited to Kick Image of Virgin Mary" (página 23), "Paris Court Acquits Femen" (página 25), "German Newspaper: Orlando Shooter Could Just as Well Have Been Christian" (página 37), "News Article Used Pro-Life Rally Picture to Illustrate “Religious Extremism”" (página 40), "German Greens Created “Anti-Feminist” Wiki; Targeted Christian Public Figures" (página 40), "Lottery’s Advertisement Featured Model Posing as Crucified Jesus" (página 41), "Pro-Abortion Activist Dressed as Bishop; Handed out Abortion Pills at “Communion”" (página 42), "Catholic Pro-Life Student Union President Ousted" (página 42), "Italian Television Presenter Attacked Online for Wearing Rosary & Holy Medals" (página 43), "Rome Bus Stops the Target of Offensive Images" (página 44), "Columnist Calls Immigration Minister’s Crucifix Necklace a Symbol of Xenophobia" (página 45), "Polish Prosecutors Investigate Play for Offending Religious Sentiments" (página 45), "Mallorca Gay Men’s Chorus Dress as Nuns" (página 46), "Media Campaign Targets Priest for Upholding Church Doctrine" (página 48), "Spanish Councilman Officiated Wedding Dressed as a Priest" (página 50 - apropriação cultural!), "Las Palmas Prosecutor Investigated Performance of Drag Queen as Christ" (página 51), "Muslims Encouraged to Marry Christians to Spread Islam in Spain" (página 51), "Journalist Called Bishop Sexist and Homophobic" (página 51), "Mongolia Magazine Puts “Transgender Jesus” on Cover" (pagina 52), "Ramadan Prayer in front of Virgin Mary Statue" (página 53), "The Arran Organization Lleida Launches Obscene Campaign Against Bishops" (página 54), "Bilbao: Fair Booth Depicts Jesus Christ as Cuts of Meat" (página 54), "Catalonian Separatists say Church is the Enemy" (página 55), "Television Presenter Calls Christian a “Homophobe”; Receives No Sanctions" (página 58), "Hindu UKIP Member Racially Harassed for Calling Britain a “Christian Country”" (página 60) ou "Church Leaders and Prime Minister Criticized National Trust" (página 61).
Sobretudo diria também que apresentar os casos "procurador investiga alguém por esse alguém ter ofendido a religião" (vejo pelo menos dois) como exemplos de intolerância e discriminação CONTRA os cristãos (presumivelmente intolerância e discriminação por parte da pessoa que está a ser investigada) é algo entre o bizarro e o risível.
Muitos outros (sobretudo em Espanha) casos de "intolerância e discriminação" resumem-se ao Estado deixar de promover o cristianismo ou o catolicismo. Exemplos: "Religion Classes in Belgium Replaced with Citizenship Classes" (página 21), "Court Gave Town Three Months to Remove Statue of Virgin Mary" (página 29), "French Civil Protection Federation Removed Cross from New Logo" (página 31), "Crosses Ordered Removed from District Court in Saarbrücken" (página 37), "Berlin’s Left-Wing Politicians Opposed Cross on City Palace" (página 40), "Humanist Association Urged Vote to Remove “God” from Constitution" (página 42), "Town Council to Remove Cross from Public Square" (página 47),"City Council to Vote on Removal of Religious Symbols from Public Spaces" (página 48), "Government of Rincon Prohibited Nativity Scene in Municipal Courtyard" (página 48), "Easter Poster Depicting Christ Removed from Government Office" (página 49), "School Prohibited Christmas Decorations with Religious Motifs" (pagina 49), "Work Begins to Remove Monumental Cross in Sant Carles de la Ràpita" (página 50), "Parliamentary Group Called for a Ban on Broadcasts of Mass on Public Television" (página 50), "Leftists in Seville Sought to Change the Coat of
Arms" (página 50), "Politicians of Ponferrada Demanded Removal of Holy Week Exhibition in School" (página 51), "Motion Filed for Catholic Church to Pay Property Tax" (página 51), "Secularist Associations Call for Removal of Virgin Mary from Police Medal" (página 55) ou "National Secular Society Proposes Removal of Bishops’ Bench from House of Lords" (página 61).
Há também um conjunto de casos que talvez sejam casos de intolerância ou discriminação, mas que também podem ser simplesmente delitos comuns, que tiveram como alvo instituições religiosas porque era o que estava à mão, como "Offertory Box Stolen from St. Stephan’s Cathedral" (página 20), "L’Abbaye d’Orval Robbed" (página 21), "Theft from Tabernacle in Tintigny" (página 21) ou "Thieves Steal Gold from Sacred Statue of Our Lady of Pilastrello" (página 43).
E sobretudo há uma certa ironia em ambos estes casos sejam considerados "intolerância e discriminação" contra os cristãos - "Order of Nuns Fined for Firing Lesbian Teacher" (página 42) e "Court: Employers May Prohibit Employees from Wearing Religious Symbols" (página 63); ou seja, num mundo sem "intolerância e discriminação" contra os cristãos, as instituições cristãs poderiam despedir pessoas por levarem vidas pessoais contrárias às normas cristãs, mas outros empregadores já teriam que aceitar que os empregados usassem símbolos cristãos durante o trabalho.
Já agora, isto faz-me lembrar uma coisa: por vezes aparecem correntes nas redes sociais dizendo "país A [p.ex., o Canadá] vai institucionalizar a sharia"; depois vai-se ver a lei que está em discussão e é algo proibindo a discriminação religiosa (nomeadamente contra muçulmanos); normalmente essas conversas parecem-me idiotas, mas se calhar começo a perceber melhor porque é que algumas pessoas acham que proibir a discriminação contra muçulmanos significa instituir a sharia: porque pelos vistos também haverá quem ache que não-discriminação contra os cristãos será ter-se um estado confessional cristão.
Há lá efetivamente montes de casos graves, como igreja atacadas e incendiadas, mas o relatório mistura e soma esses casos a outros "casos" (uma minoria no conjunto, é verdade, mas talvez potencialmente significativos nalguns países) que noutro contexto levariam logo uma acusação de "snowflakes" (situações estilo “alguém disse mal da igreja católica” ou “católica praticante perde uma votação numa associação de estudantes”).
Exemplos: "Satirical Publication Deeply Insulted Catholic Church" (página 21), "Belgian Red Cross Branches Ordered to Remove Crucifixes" (página 23 - vai-se ler e foram "ordered" por um órgão dirigente da própria Cruz Vermelha), "Croatian Theatre Festival Included Play with Jesus Christ Rape Scene" (página 23), "Visitors at Estonian National Museum Invited to Kick Image of Virgin Mary" (página 23), "Paris Court Acquits Femen" (página 25), "German Newspaper: Orlando Shooter Could Just as Well Have Been Christian" (página 37), "News Article Used Pro-Life Rally Picture to Illustrate “Religious Extremism”" (página 40), "German Greens Created “Anti-Feminist” Wiki; Targeted Christian Public Figures" (página 40), "Lottery’s Advertisement Featured Model Posing as Crucified Jesus" (página 41), "Pro-Abortion Activist Dressed as Bishop; Handed out Abortion Pills at “Communion”" (página 42), "Catholic Pro-Life Student Union President Ousted" (página 42), "Italian Television Presenter Attacked Online for Wearing Rosary & Holy Medals" (página 43), "Rome Bus Stops the Target of Offensive Images" (página 44), "Columnist Calls Immigration Minister’s Crucifix Necklace a Symbol of Xenophobia" (página 45), "Polish Prosecutors Investigate Play for Offending Religious Sentiments" (página 45), "Mallorca Gay Men’s Chorus Dress as Nuns" (página 46), "Media Campaign Targets Priest for Upholding Church Doctrine" (página 48), "Spanish Councilman Officiated Wedding Dressed as a Priest" (página 50 - apropriação cultural!), "Las Palmas Prosecutor Investigated Performance of Drag Queen as Christ" (página 51), "Muslims Encouraged to Marry Christians to Spread Islam in Spain" (página 51), "Journalist Called Bishop Sexist and Homophobic" (página 51), "Mongolia Magazine Puts “Transgender Jesus” on Cover" (pagina 52), "Ramadan Prayer in front of Virgin Mary Statue" (página 53), "The Arran Organization Lleida Launches Obscene Campaign Against Bishops" (página 54), "Bilbao: Fair Booth Depicts Jesus Christ as Cuts of Meat" (página 54), "Catalonian Separatists say Church is the Enemy" (página 55), "Television Presenter Calls Christian a “Homophobe”; Receives No Sanctions" (página 58), "Hindu UKIP Member Racially Harassed for Calling Britain a “Christian Country”" (página 60) ou "Church Leaders and Prime Minister Criticized National Trust" (página 61).
Sobretudo diria também que apresentar os casos "procurador investiga alguém por esse alguém ter ofendido a religião" (vejo pelo menos dois) como exemplos de intolerância e discriminação CONTRA os cristãos (presumivelmente intolerância e discriminação por parte da pessoa que está a ser investigada) é algo entre o bizarro e o risível.
Muitos outros (sobretudo em Espanha) casos de "intolerância e discriminação" resumem-se ao Estado deixar de promover o cristianismo ou o catolicismo. Exemplos: "Religion Classes in Belgium Replaced with Citizenship Classes" (página 21), "Court Gave Town Three Months to Remove Statue of Virgin Mary" (página 29), "French Civil Protection Federation Removed Cross from New Logo" (página 31), "Crosses Ordered Removed from District Court in Saarbrücken" (página 37), "Berlin’s Left-Wing Politicians Opposed Cross on City Palace" (página 40), "Humanist Association Urged Vote to Remove “God” from Constitution" (página 42), "Town Council to Remove Cross from Public Square" (página 47),"City Council to Vote on Removal of Religious Symbols from Public Spaces" (página 48), "Government of Rincon Prohibited Nativity Scene in Municipal Courtyard" (página 48), "Easter Poster Depicting Christ Removed from Government Office" (página 49), "School Prohibited Christmas Decorations with Religious Motifs" (pagina 49), "Work Begins to Remove Monumental Cross in Sant Carles de la Ràpita" (página 50), "Parliamentary Group Called for a Ban on Broadcasts of Mass on Public Television" (página 50), "Leftists in Seville Sought to Change the Coat of
Arms" (página 50), "Politicians of Ponferrada Demanded Removal of Holy Week Exhibition in School" (página 51), "Motion Filed for Catholic Church to Pay Property Tax" (página 51), "Secularist Associations Call for Removal of Virgin Mary from Police Medal" (página 55) ou "National Secular Society Proposes Removal of Bishops’ Bench from House of Lords" (página 61).
Há também um conjunto de casos que talvez sejam casos de intolerância ou discriminação, mas que também podem ser simplesmente delitos comuns, que tiveram como alvo instituições religiosas porque era o que estava à mão, como "Offertory Box Stolen from St. Stephan’s Cathedral" (página 20), "L’Abbaye d’Orval Robbed" (página 21), "Theft from Tabernacle in Tintigny" (página 21) ou "Thieves Steal Gold from Sacred Statue of Our Lady of Pilastrello" (página 43).
E sobretudo há uma certa ironia em ambos estes casos sejam considerados "intolerância e discriminação" contra os cristãos - "Order of Nuns Fined for Firing Lesbian Teacher" (página 42) e "Court: Employers May Prohibit Employees from Wearing Religious Symbols" (página 63); ou seja, num mundo sem "intolerância e discriminação" contra os cristãos, as instituições cristãs poderiam despedir pessoas por levarem vidas pessoais contrárias às normas cristãs, mas outros empregadores já teriam que aceitar que os empregados usassem símbolos cristãos durante o trabalho.
Já agora, isto faz-me lembrar uma coisa: por vezes aparecem correntes nas redes sociais dizendo "país A [p.ex., o Canadá] vai institucionalizar a sharia"; depois vai-se ver a lei que está em discussão e é algo proibindo a discriminação religiosa (nomeadamente contra muçulmanos); normalmente essas conversas parecem-me idiotas, mas se calhar começo a perceber melhor porque é que algumas pessoas acham que proibir a discriminação contra muçulmanos significa instituir a sharia: porque pelos vistos também haverá quem ache que não-discriminação contra os cristãos será ter-se um estado confessional cristão.
23/07/18
O relativismo multissecularista politicamente incorreto
por
Miguel Madeira
Quando se fala de assuntos como a escravatura, massacres coloniais, etc., frequentemente surgem os que contra-argumentam que não podemos julgar o comportamento de pessoas de outras épocas pelos padrões atuais; curiosamente, muitas vezes são os mesmos que, perante comportamentos "problemáticos" associados a outras culturas ou etnias, são os primeiros a atacar o que chamam "relativismo multiculturalista politicamente correto" e a defender o que consideram ser valores universais.
Acho que isso não faz grande sentido (que digo eu? não faz sentido rigorosamente nenhum): se se acha que há coisa que são intrinsecamente boas ou más, e que isso não depende da opinião da "sociedade" sobre o que é o bem ou o mal, isso deveria ser válido tanto no espaço como no tempo (se apedrejar adúlteras até à morte é mau mesmo numa cultura, situada num dado local, que veja isso como bom, então escravizar pessoas é mau mesmo numa cultura, situada numa dada época histórica, que veja isso como bom).
A esse respeito, e para dar um exemplo concreto, aproveito para citar o economista de direita ultra-liberal Bryan Caplan, no seu post "Columbus: The Far Left is Dead Right": "The lamest excuse of all is that we have to judge Columbus by the standards of his time. For this is nothing but the cultural relativism that defenders of Western civilization so often decry. If some cultures and practices are better than others, then we can fairly hold up a mirror to Columbus and the Spanish conquerors, and find theirs to be among the worst."
Basicamente, o que poderemos chamar o "relativismo multissecularista politicamente incorreto" (isto é, a posição que não podemos julgar as outras épocas e séculos pelos padrões atuais) e o "relativismo multiculturalista politicamente correto" são largamente similares (a única diferença é que as culturas que o "multissecularismo" acha que não podemos julgar pelos valores da nossa cultura existiram no passado e não no presente) - eu diria que ambos têm implícito a ideia que o problema da escravatura ou da lapidação não estará no mal que fazem a quem é escravizado ou lapidado, mas em ser uma ofensa à normas da sociedade (algo parecido com os tempos em que crimes como a violação eram classificados como "crimes contra os costumes" em vez de "crimes contra a liberdade e autodeterminação sexual"), e portanto não serão de condenar se ocorrerem numa sociedade que aceite ou incentive esses comportamentos. Ou dito de outra maneira, os dois "relativismos" (multissecularista e multiculturalista) podem ser vistos como variantes da defesa de Nurumberga - já não "estava apenas cumprindo ordens", mas o ligeiramente diferente "estava apenas cumprindo as normas sociais em vigor nesse momento e lugar".
Mas como explicar esse paradoxo - de frequentemente os maiores defensores do "relativismo multissecularista politicamente incorreto" serem os maiores críticos do "relativismo multiculturalista politicamente correto", e vice-versa? A explicação que me parece mais lógica é que os que defendem o relativismo multissecularista e são contra o multiculturalista o que realmente querem é defender a status de superioridade da "civilização ocidental", e que tanto uma posição como a outra não passam de justificações ad hoc usadas quando dá jeito: quando se trata de comparar culturas diferentes, dá jeito dizer que há valores universais, de preferência equiparados aos ocidentais (e depois dizer que, de acordo com esses valores, o "Ocidente" é melhor que as outras culturas); mas quando se trata de falar de coisas que ocorreram no passado, e em que os "ocidentais" fiquem mal na fotografia, aí já dá mais jeito dizer que não podemos julgar os outros séculos pelos padrões do atual - as duas posições são logicamente incoerentes, mas produzem o mesmo resultado: ambas ajudam a dizer que "Ocidente" é uma maravilha. E claro, o mesmo se poderá dizer, mutatis mutandis, dos que defendem o relativismo multiculturalista e são contra o multissecularista (que o que querem é atacar o status do "Ocidente"). Dito isto, suspeito (mas não andei a fazer nenhuma contagem - pode ser simplesmente uma ilusão derivada de quem costuma mais ler) que os primeiros são mais que os segundos: há montes de gente que critica o papel dos países "ocidentais" na escravatura, imperialismo, etc. sem defender aquelas ideias de "não podemos criticar o que se passa na Arábia Saudita porque é outro cultura" (é a minha posição, p.ex.); já não são tão frequentes, parece-me, os que acham que não podemos condenar acontecimentos dos séculos passados nem os hábitos de outros povos ou culturas.
Acho que isso não faz grande sentido (que digo eu? não faz sentido rigorosamente nenhum): se se acha que há coisa que são intrinsecamente boas ou más, e que isso não depende da opinião da "sociedade" sobre o que é o bem ou o mal, isso deveria ser válido tanto no espaço como no tempo (se apedrejar adúlteras até à morte é mau mesmo numa cultura, situada num dado local, que veja isso como bom, então escravizar pessoas é mau mesmo numa cultura, situada numa dada época histórica, que veja isso como bom).
A esse respeito, e para dar um exemplo concreto, aproveito para citar o economista de direita ultra-liberal Bryan Caplan, no seu post "Columbus: The Far Left is Dead Right": "The lamest excuse of all is that we have to judge Columbus by the standards of his time. For this is nothing but the cultural relativism that defenders of Western civilization so often decry. If some cultures and practices are better than others, then we can fairly hold up a mirror to Columbus and the Spanish conquerors, and find theirs to be among the worst."
Basicamente, o que poderemos chamar o "relativismo multissecularista politicamente incorreto" (isto é, a posição que não podemos julgar as outras épocas e séculos pelos padrões atuais) e o "relativismo multiculturalista politicamente correto" são largamente similares (a única diferença é que as culturas que o "multissecularismo" acha que não podemos julgar pelos valores da nossa cultura existiram no passado e não no presente) - eu diria que ambos têm implícito a ideia que o problema da escravatura ou da lapidação não estará no mal que fazem a quem é escravizado ou lapidado, mas em ser uma ofensa à normas da sociedade (algo parecido com os tempos em que crimes como a violação eram classificados como "crimes contra os costumes" em vez de "crimes contra a liberdade e autodeterminação sexual"), e portanto não serão de condenar se ocorrerem numa sociedade que aceite ou incentive esses comportamentos. Ou dito de outra maneira, os dois "relativismos" (multissecularista e multiculturalista) podem ser vistos como variantes da defesa de Nurumberga - já não "estava apenas cumprindo ordens", mas o ligeiramente diferente "estava apenas cumprindo as normas sociais em vigor nesse momento e lugar".
Mas como explicar esse paradoxo - de frequentemente os maiores defensores do "relativismo multissecularista politicamente incorreto" serem os maiores críticos do "relativismo multiculturalista politicamente correto", e vice-versa? A explicação que me parece mais lógica é que os que defendem o relativismo multissecularista e são contra o multiculturalista o que realmente querem é defender a status de superioridade da "civilização ocidental", e que tanto uma posição como a outra não passam de justificações ad hoc usadas quando dá jeito: quando se trata de comparar culturas diferentes, dá jeito dizer que há valores universais, de preferência equiparados aos ocidentais (e depois dizer que, de acordo com esses valores, o "Ocidente" é melhor que as outras culturas); mas quando se trata de falar de coisas que ocorreram no passado, e em que os "ocidentais" fiquem mal na fotografia, aí já dá mais jeito dizer que não podemos julgar os outros séculos pelos padrões do atual - as duas posições são logicamente incoerentes, mas produzem o mesmo resultado: ambas ajudam a dizer que "Ocidente" é uma maravilha. E claro, o mesmo se poderá dizer, mutatis mutandis, dos que defendem o relativismo multiculturalista e são contra o multissecularista (que o que querem é atacar o status do "Ocidente"). Dito isto, suspeito (mas não andei a fazer nenhuma contagem - pode ser simplesmente uma ilusão derivada de quem costuma mais ler) que os primeiros são mais que os segundos: há montes de gente que critica o papel dos países "ocidentais" na escravatura, imperialismo, etc. sem defender aquelas ideias de "não podemos criticar o que se passa na Arábia Saudita porque é outro cultura" (é a minha posição, p.ex.); já não são tão frequentes, parece-me, os que acham que não podemos condenar acontecimentos dos séculos passados nem os hábitos de outros povos ou culturas.
16/07/18
A Habitação. A declaração "Cities for Housing" e a denuncia do "pseudo-espaço-público".
por
José Guinote
Hoje, na cimeira das Nações Unidas sobre "Desenvolvimento Sustentável" - um conceito que traz muita água no bico - a autarca de Barcelona, Ada Colau, apresenta a declaração "Cities for Housing". Esta declaração reclama recursos aos Estados para que as Cidades possam assegurar aos seus cidadãos o direito à habitação. Os objectivos são aqueles que já tinham sido enunciados numa declaração conjunta da autarca de Barcelona e do seu colega de Londres.
Ada Colau faz a apresentação na sua condição de Presidente da CGLU - União das Cidades e Governos Locais - que integra cidades como Berlim, Londres, Amesterdão, Paris, Madrid e Cidade do México entre outras. Lisboa, tanto quanto sei, não está associada a esta iniciativa.
A Habitação nas grandes cidades é um direito negado à maioria da população numa base diária e sistemática. A vida das pessoas que trabalham nas grandes cidades - como Lisboa - organiza-se com base na separação espacial entre a função residencial e a função trabalho. A mobilidade das massas trabalhadoras organiza-se, maioritariamente, numa base individual, com todos os problemas que isso acarreta. Mas, mesmo que as pessoas se desloquem utilizando transportes públicos, o consumo de tempo para ligar o local de residência ao local de trabalho representa o desperdicio de uma parte da vida.
A possibilidade de maximizar a captura das mais-valias urbanísticas espandiu para níveis insustentáveis a segregação espacial das populações. Depois da segregação das funções urbanas - que o zonamento legitimara sob um discurso supostamente técnico - o capital especulativo investiu todos os recursos disponíveis na mudança de uso dos solos periurbanos, ao mesmo tempo que a renovação das zonas centrais se fazia impondo preços às casas que expulsam as populações residentes para essas novas periferias. As respostas públicas são frágeis assumindo mesmo o estatuto de uma não-resposta. Os direitos das pessoas são trucidados. O enriquecimento dos especuladores é galopante.
As novas zonas renovadas, são inacessíveis para os cidadãos das classes médias e totalmente inacessíveis para os trabalhadores. É muito comum aparecerem grandes elogios a operações de renovação urbana - não utilizo propositadamente o termo reabilitação, porque não se aplica - em que se glorifica uma aposta no espaço público.
Neste contexto parece-me muito interessante a investigação do The Guardian sobre o pseudo-espaço-público. Espaços supostamente de acesso livre -espaços para todos - espaços integrantes da cidade, que, no entanto, são propriedade privada, estão sob vigilância de empresas privadas, e nos quais os direitos democráticos de manifestação, por exemplo, não se podem concretizar, já que os seguranças dispõem do poder de expulsar quem estiver a "violar" as regras definidas pelos ... proprietários.
Como será por cá?
Ada Colau faz a apresentação na sua condição de Presidente da CGLU - União das Cidades e Governos Locais - que integra cidades como Berlim, Londres, Amesterdão, Paris, Madrid e Cidade do México entre outras. Lisboa, tanto quanto sei, não está associada a esta iniciativa.
A Habitação nas grandes cidades é um direito negado à maioria da população numa base diária e sistemática. A vida das pessoas que trabalham nas grandes cidades - como Lisboa - organiza-se com base na separação espacial entre a função residencial e a função trabalho. A mobilidade das massas trabalhadoras organiza-se, maioritariamente, numa base individual, com todos os problemas que isso acarreta. Mas, mesmo que as pessoas se desloquem utilizando transportes públicos, o consumo de tempo para ligar o local de residência ao local de trabalho representa o desperdicio de uma parte da vida.
A possibilidade de maximizar a captura das mais-valias urbanísticas espandiu para níveis insustentáveis a segregação espacial das populações. Depois da segregação das funções urbanas - que o zonamento legitimara sob um discurso supostamente técnico - o capital especulativo investiu todos os recursos disponíveis na mudança de uso dos solos periurbanos, ao mesmo tempo que a renovação das zonas centrais se fazia impondo preços às casas que expulsam as populações residentes para essas novas periferias. As respostas públicas são frágeis assumindo mesmo o estatuto de uma não-resposta. Os direitos das pessoas são trucidados. O enriquecimento dos especuladores é galopante.
As novas zonas renovadas, são inacessíveis para os cidadãos das classes médias e totalmente inacessíveis para os trabalhadores. É muito comum aparecerem grandes elogios a operações de renovação urbana - não utilizo propositadamente o termo reabilitação, porque não se aplica - em que se glorifica uma aposta no espaço público.
Neste contexto parece-me muito interessante a investigação do The Guardian sobre o pseudo-espaço-público. Espaços supostamente de acesso livre -espaços para todos - espaços integrantes da cidade, que, no entanto, são propriedade privada, estão sob vigilância de empresas privadas, e nos quais os direitos democráticos de manifestação, por exemplo, não se podem concretizar, já que os seguranças dispõem do poder de expulsar quem estiver a "violar" as regras definidas pelos ... proprietários.
Como será por cá?
O sindicalismo alternativo na greve dos professores
por
Miguel Madeira
Algo que tem sido pouco noticiado é o papel que um sindicato minoritário e recém-criado está a ter nas recentes greves dos professores, o S.T.O.P. - "Sindicato de tod@s @s professor@s".
Mais exatamente, as greves às avaliações começaram tendo como suporte jurídico um pré-aviso de greve desse sindicato, tendo obrigado a Fenprof a juntar-se posteriormente à luta, e mesmo depois dos outros sindicatos terem desconvocado a greve esse sindicato tem mantido a greve convocada.
Pelo que ouvi dizer, esse sindicato deve ter para aí umas dezenas de associados, tendo pouca influência direta na organização efetiva das greves, mas o meu ponto é exatamente esse - que, a que sei, esta greve dos professores acaba por ser largamente uma greve autónoma, organizada informalmente a nível das escolas um pouco à margem dos aparelhos sindicais, e que se mantém na legalidade graças à cobertura formal (o pré-aviso de greve) que esse sindicato lhe dá.
E o paradoxo disto (que já se manifestou, p.ex., quando da polémica acerca as avaliações, no tempo da Maria de Lourdes Rodrigues) é a obsessão da direita com a Fenprof e o Mário Nogueira (exemplo), não perdendo uma oportunidade, a respeito da greve, de dizer que a escola pública está nas mãos do Mário Nogueira (no preciso momento em que se assiste ao que é praticamente uma revolta contra a Fenprof e os seus acordos com os governos).
Mais exatamente, as greves às avaliações começaram tendo como suporte jurídico um pré-aviso de greve desse sindicato, tendo obrigado a Fenprof a juntar-se posteriormente à luta, e mesmo depois dos outros sindicatos terem desconvocado a greve esse sindicato tem mantido a greve convocada.
Pelo que ouvi dizer, esse sindicato deve ter para aí umas dezenas de associados, tendo pouca influência direta na organização efetiva das greves, mas o meu ponto é exatamente esse - que, a que sei, esta greve dos professores acaba por ser largamente uma greve autónoma, organizada informalmente a nível das escolas um pouco à margem dos aparelhos sindicais, e que se mantém na legalidade graças à cobertura formal (o pré-aviso de greve) que esse sindicato lhe dá.
E o paradoxo disto (que já se manifestou, p.ex., quando da polémica acerca as avaliações, no tempo da Maria de Lourdes Rodrigues) é a obsessão da direita com a Fenprof e o Mário Nogueira (exemplo), não perdendo uma oportunidade, a respeito da greve, de dizer que a escola pública está nas mãos do Mário Nogueira (no preciso momento em que se assiste ao que é praticamente uma revolta contra a Fenprof e os seus acordos com os governos).
13/07/18
"Colaboradores do Estado"
por
Miguel Madeira
Expressão usada ontem por António Lobo Xavier (suponho que para ser referir aos trabalhadores do Estado).
11/07/18
Brandos Costumes
por
José Guinote
Mesquita Machado, o todo poderoso ex-autarca de Braga, foi condenado por prácticas corruptas. Perdão, não se chama assim. Participação económica em negócio e abuso de poderes - devemos ser rigorosos - num negócio em que, segundo o Tribunal, "teve intenção de favorecer patrimonialmente a filha e o genro, lesando o erário público".
A vida contínua.
A vida contínua.
10/07/18
Proibir os telemóveis nas escolas?
por
Miguel Madeira
A França proibiu o uso de telemóveis nas escolas; em Portugal já se começa a falar nisso.
Para começar, convém distinguir duas coisas - uso de telemóveis na escola, e uso de telemóveis na sala de aula; é que me parece que às vezes se confunde as duas coisas: é completamente diferente os alunos estarem a usar o telemóvel durante uma aula, ou estarem a usá-lo durante o intervalo (uma analogia - quando tinha 16/17 anos costumava levar o meu tabuleiro de xadrez para a escola, mas não me punha a jogar na sala de aula; ou pelo menos não desde um incidente na aula de filosofia...).
Outros dois assuntos que convém distinguir é a questão "os alunos devem levar telemóveis para a escola?" e "as escolas e/ou o estado devem proibir os alunos de levarem o telemóvel?"; também são coisas diferentes - pode-se argumentar que há razões para os alunos não levarem telemóveis para a escola, mas mesmo assim considerar que quem deve tomar essa decisão são as respetivas famílias e não o Estado ou as escolas (creio que aqui também é relevante o motivo para ser contra os telemóveis - se for prejudicarem terceiros, teremos um argumento para ser a escola a proibir; mas se for só uma questão de se considerar serem prejudiciais ao próprio, fará mais sentido, com alguns limites, serem os pais ou educadores - ou mesmo os alunos, se forem maiores de idade - a tomar essa decisão).
Agora, vamos ver os argumentos a favor da proibição: «As "medidas de desintoxicação" propostas pelo ministro da Educação, Jean-Michel Blanquer, prevêem a diminuição das distracções em salas de aula e a redução de casos de bullying. (...) Apoiantes da lei afirmam ainda que o uso de smartphones entre jovens e crianças tem piorado os casos de cyber-bullying e facilitado o acesso a pornografia, além de dificultar a habilidade de crianças interagir socialmente. Outras justificações negativas dadas pelo ministro para a lei ser aprovada incluíam a obsessão cada vez mais comum com marcas de vestuário e o perigo de roubo dos telemóveis.»
Quanto ao argumento do cyber-bullying, imagino que é bastante provável que as pessoas que usariam um telemóvel para fazer cyber-bullying sejam largamente as mesmas que farão bullying clássico durante os intervalos das aulas, portanto a proibição dos telemóveis possivelmente pouca diferença fará (talvez até se possa argumentar que o cyber-bullying é menos mau que o bullying clássico, já que será mais fácil à vítima "desligar-se" dos bullys - é so cortar os contactos virtuais com eles - enquanto que no mundo físico será mais difícil livrar-se deles).
A respeito do facilitar o acesso a pornografia, isso só é um problema para quem ache que isso é um problema (um aparte na questão da pornografia: quando, em algum país, são anunciadas medidas governamentais para restringir o acesso à pornografia, não é raro promover-se deliberadamente a confusão entre "pornografia vista por menores" e "pornografia de menores" - p.ex,, falando vagamente de "pornografia", "menores", "proteger as nossas crianças", etc. na mesma frase, mas sem entrar em detalhes do que se está a falar - de forma a capitalizar o repúdio geral pela segunda para justificar o combate à primeira).
A respeito da dificuldade das crianças em interagir socialmente - eu diria que é um pau de dois bicos: estarem sempre agarradas ao telemóvel ou à internet pode levar a que algumas crianças desenvolvam dificuldades em interagir no mundo físico, mas por outro lado, para aquelas que já há partida têm dificuldade em interagir e/ou são pouco sociáveis (duas coisas diferentes, mas muitas vezes ligadas com complexas relações ovo-galinha), é possível que tenham mais facilidade em interagir socialmente pelo método virtual do que no mundo físico, até porque dá-me a ideia que essas pessoas frequentemente preferem à escrita à palavra.
O perigo do roubo de telemóveis é algo que afeta essencialmente quem leva o telemóvel para a escola, e não terceiro - logo, se tanto a criança/adolescente como os pais estão dispostos a correr esse risco, porque é que o Estado há de os impedir?
Quanto à obsessão com marcas (na noticia fala em "marcas de vestuário" mas deve ser gralha - o que é que isso tem a ver com telemóveis? Provavelmente no original a referência deve ser a marcas de telemóvel, não de vestuário), parece-me o melhor argumento contra os telemóveis, já que alguém que traz um telemóvel de ultimo modelo para a escola e com isso faz os outros sentirem-se invejosos estará a prejudicar os outros, uma situação em que já se poderia considerar como justificando a intervenção do Estado (no entanto, eu tenho muitas desconfianças face a essa conversa de "obsessão com marcas", que muitas vezes serve de capa para outras coisas; p.ex., já ouvi falar de casos de escolas - imagino que colégios privados - que decidem passar a ter uniformes obrigatórios e justificam em público com o argumento de que é para combater as discriminações por causa de marcas de roupa, mas depois em privado confessam que a ideia é mesmo acabar com as roupas demasiado reveladoras).
Outro argumento que penso não ter sido invocado pelo governo francês, mas já vi usado por defensores dessa proibição, é combater o vício dos jogos, mas isso parece-me mais um preconceito contra os passatempos da nova geração, seja o rock'n'roll nos anos 50 ou os jogos de computador hoje em dia, do que um argumento fundamentado - mesmo há dias estive a ler um livro publicado em 1817 (A Abadia de Northanger, de Jane Austen) em que a dada altura era referido a atitude que então havia contra a leitura de "romances", e hoje em dia incentivar a jovens a ler "literatura" (isto é, "romances") parece ser um desígnio nacional[pdf] para todos os ministérios de educação do mundo desenvolvido; e livros que na altura em que foram escritos eram acusados de causarem suicídios hoje em dia são leitura recomendada[pdf]. A esse respeito chamo a atenção para este meta-estudo sobre os estudos sobre os jogos de computador: pelos vistos, a maioria dos estudos, que não descobrem efeitos negativos dos jogos, raramente são citados pela comunicação social nem por outros estudos; já a minoria de estudos que detetam efeitos negativos são amplamente noticiados e citados em estudos posteriores (mesmo quando os resultados ou a metodologia são menos robustos que os estudos que indicam que os jogos são inofensivos).
Mais uns pontos adicionais:
- os telemóveis (ou melhor, as câmaras fotográficas/de filmar que hoje em dia têm acopladas) permitem aos estudantes denunciar situações como más condições na escola ou comida excessivamente paleo/biológica na cantina; face aos processos disciplinares a que os alunos que denunciam essas situações estão a ser sujeitos, o que deveríamos estar a discutir não era a proibição de telemóveis, mas sim a redução nas proibições de captação de imagens dentro das escolas de forma a criar uma espécie de excepção "fair use" para os casos em que essa captação/divulgação fosse de interesse público (ou talvez simplesmente restringir a proibição aos casos em que aparecem pessoas nas imagens).
- Uma questão mais prática/operacional: irão existir uma espécie de balcão à entrada das escolas em que os alunos possam deixar o telemóvel à entrada e levantá-lo à saída? É que se não for esse o caso, a proibição de usar telemóveis na escola vai significar, na prática, a proibição de usar telemóveis durante quase todo o dia - afinal, os alunos vão ter que deixar o telemóvel em casa, pelo que vão ficar sem telemóvel não apenas durante a escola, mas no caminho de e para a escola; e se após saírem das aulas tiverem que ir a outro sítio sem passarem por casa, também não vão poder levar o dispositivo.
Claro que se pode contra-argumentar que eu (nascido em 1973) passei a minha vida escolar toda sem telemóveis e sobrevivi - mas o mesmo pode ser dito de todas as inovações ao longo da história da humanidade ("Para quê essas ferramentas de ferro? No nosso tempo só tínhamos bronze e nunca deixamos de arar a terra ou cortar ao meio os nossos inimigos por causa disso").
Para começar, convém distinguir duas coisas - uso de telemóveis na escola, e uso de telemóveis na sala de aula; é que me parece que às vezes se confunde as duas coisas: é completamente diferente os alunos estarem a usar o telemóvel durante uma aula, ou estarem a usá-lo durante o intervalo (uma analogia - quando tinha 16/17 anos costumava levar o meu tabuleiro de xadrez para a escola, mas não me punha a jogar na sala de aula; ou pelo menos não desde um incidente na aula de filosofia...).
Outros dois assuntos que convém distinguir é a questão "os alunos devem levar telemóveis para a escola?" e "as escolas e/ou o estado devem proibir os alunos de levarem o telemóvel?"; também são coisas diferentes - pode-se argumentar que há razões para os alunos não levarem telemóveis para a escola, mas mesmo assim considerar que quem deve tomar essa decisão são as respetivas famílias e não o Estado ou as escolas (creio que aqui também é relevante o motivo para ser contra os telemóveis - se for prejudicarem terceiros, teremos um argumento para ser a escola a proibir; mas se for só uma questão de se considerar serem prejudiciais ao próprio, fará mais sentido, com alguns limites, serem os pais ou educadores - ou mesmo os alunos, se forem maiores de idade - a tomar essa decisão).
Agora, vamos ver os argumentos a favor da proibição: «As "medidas de desintoxicação" propostas pelo ministro da Educação, Jean-Michel Blanquer, prevêem a diminuição das distracções em salas de aula e a redução de casos de bullying. (...) Apoiantes da lei afirmam ainda que o uso de smartphones entre jovens e crianças tem piorado os casos de cyber-bullying e facilitado o acesso a pornografia, além de dificultar a habilidade de crianças interagir socialmente. Outras justificações negativas dadas pelo ministro para a lei ser aprovada incluíam a obsessão cada vez mais comum com marcas de vestuário e o perigo de roubo dos telemóveis.»
Quanto ao argumento do cyber-bullying, imagino que é bastante provável que as pessoas que usariam um telemóvel para fazer cyber-bullying sejam largamente as mesmas que farão bullying clássico durante os intervalos das aulas, portanto a proibição dos telemóveis possivelmente pouca diferença fará (talvez até se possa argumentar que o cyber-bullying é menos mau que o bullying clássico, já que será mais fácil à vítima "desligar-se" dos bullys - é so cortar os contactos virtuais com eles - enquanto que no mundo físico será mais difícil livrar-se deles).
A respeito do facilitar o acesso a pornografia, isso só é um problema para quem ache que isso é um problema (um aparte na questão da pornografia: quando, em algum país, são anunciadas medidas governamentais para restringir o acesso à pornografia, não é raro promover-se deliberadamente a confusão entre "pornografia vista por menores" e "pornografia de menores" - p.ex,, falando vagamente de "pornografia", "menores", "proteger as nossas crianças", etc. na mesma frase, mas sem entrar em detalhes do que se está a falar - de forma a capitalizar o repúdio geral pela segunda para justificar o combate à primeira).
A respeito da dificuldade das crianças em interagir socialmente - eu diria que é um pau de dois bicos: estarem sempre agarradas ao telemóvel ou à internet pode levar a que algumas crianças desenvolvam dificuldades em interagir no mundo físico, mas por outro lado, para aquelas que já há partida têm dificuldade em interagir e/ou são pouco sociáveis (duas coisas diferentes, mas muitas vezes ligadas com complexas relações ovo-galinha), é possível que tenham mais facilidade em interagir socialmente pelo método virtual do que no mundo físico, até porque dá-me a ideia que essas pessoas frequentemente preferem à escrita à palavra.
O perigo do roubo de telemóveis é algo que afeta essencialmente quem leva o telemóvel para a escola, e não terceiro - logo, se tanto a criança/adolescente como os pais estão dispostos a correr esse risco, porque é que o Estado há de os impedir?
Quanto à obsessão com marcas (na noticia fala em "marcas de vestuário" mas deve ser gralha - o que é que isso tem a ver com telemóveis? Provavelmente no original a referência deve ser a marcas de telemóvel, não de vestuário), parece-me o melhor argumento contra os telemóveis, já que alguém que traz um telemóvel de ultimo modelo para a escola e com isso faz os outros sentirem-se invejosos estará a prejudicar os outros, uma situação em que já se poderia considerar como justificando a intervenção do Estado (no entanto, eu tenho muitas desconfianças face a essa conversa de "obsessão com marcas", que muitas vezes serve de capa para outras coisas; p.ex., já ouvi falar de casos de escolas - imagino que colégios privados - que decidem passar a ter uniformes obrigatórios e justificam em público com o argumento de que é para combater as discriminações por causa de marcas de roupa, mas depois em privado confessam que a ideia é mesmo acabar com as roupas demasiado reveladoras).
Outro argumento que penso não ter sido invocado pelo governo francês, mas já vi usado por defensores dessa proibição, é combater o vício dos jogos, mas isso parece-me mais um preconceito contra os passatempos da nova geração, seja o rock'n'roll nos anos 50 ou os jogos de computador hoje em dia, do que um argumento fundamentado - mesmo há dias estive a ler um livro publicado em 1817 (A Abadia de Northanger, de Jane Austen) em que a dada altura era referido a atitude que então havia contra a leitura de "romances", e hoje em dia incentivar a jovens a ler "literatura" (isto é, "romances") parece ser um desígnio nacional[pdf] para todos os ministérios de educação do mundo desenvolvido; e livros que na altura em que foram escritos eram acusados de causarem suicídios hoje em dia são leitura recomendada[pdf]. A esse respeito chamo a atenção para este meta-estudo sobre os estudos sobre os jogos de computador: pelos vistos, a maioria dos estudos, que não descobrem efeitos negativos dos jogos, raramente são citados pela comunicação social nem por outros estudos; já a minoria de estudos que detetam efeitos negativos são amplamente noticiados e citados em estudos posteriores (mesmo quando os resultados ou a metodologia são menos robustos que os estudos que indicam que os jogos são inofensivos).
Mais uns pontos adicionais:
- os telemóveis (ou melhor, as câmaras fotográficas/de filmar que hoje em dia têm acopladas) permitem aos estudantes denunciar situações como más condições na escola ou comida excessivamente paleo/biológica na cantina; face aos processos disciplinares a que os alunos que denunciam essas situações estão a ser sujeitos, o que deveríamos estar a discutir não era a proibição de telemóveis, mas sim a redução nas proibições de captação de imagens dentro das escolas de forma a criar uma espécie de excepção "fair use" para os casos em que essa captação/divulgação fosse de interesse público (ou talvez simplesmente restringir a proibição aos casos em que aparecem pessoas nas imagens).
- Uma questão mais prática/operacional: irão existir uma espécie de balcão à entrada das escolas em que os alunos possam deixar o telemóvel à entrada e levantá-lo à saída? É que se não for esse o caso, a proibição de usar telemóveis na escola vai significar, na prática, a proibição de usar telemóveis durante quase todo o dia - afinal, os alunos vão ter que deixar o telemóvel em casa, pelo que vão ficar sem telemóvel não apenas durante a escola, mas no caminho de e para a escola; e se após saírem das aulas tiverem que ir a outro sítio sem passarem por casa, também não vão poder levar o dispositivo.
Claro que se pode contra-argumentar que eu (nascido em 1973) passei a minha vida escolar toda sem telemóveis e sobrevivi - mas o mesmo pode ser dito de todas as inovações ao longo da história da humanidade ("Para quê essas ferramentas de ferro? No nosso tempo só tínhamos bronze e nunca deixamos de arar a terra ou cortar ao meio os nossos inimigos por causa disso").
06/07/18
A Crise da Habitação: Posição conjunta de Sadiq Khan e de Ada Colau
por
José Guinote
O Presidente da Câmara de Londres, Sadiq Khan, e a Presidente da Câmara de Barcelona, Ada Colau, publicaram um artigo conjunto no jornal "The Guardian", do passado dia 3.06.2018, cujo título é o seguinte:
"City Properties should be homes for people first - not investments".
Eu traduziria este título da seguinte forma: " A propriedade municipal [os solos que são propriedade municipal e as habitações municipais] deve em pimeiro lugar destinar-se a habitação para as pessoas - não para investimentos.
Não sei se a tradução é boa mas julgo perceber a ideia de ambos. Os terrenos municipais - quando as autarquias deles dispõem - são uma oportunidade para concretizar uma verdadeira política de habitação. O artigo é muito interessante porque além de fazer um diagnóstico rigoroso dos desafios que as cidades globais enfrentam, não vacila na caracterização do tipo de intervenção que é exigida e, caso raro, não ignora a magna questão dos recursos necessários para concretizar uma intervenção eficaz. Uma proposta - aliás são duas - que vai para lá da retórica habitual.
Fernando Medina poderia esclarecer se acha que podia assinar este manifesto dos seus colegas.
Como o artigo me parece muito interessante resolvi traduzi-lo. Estou disponível para efectuar as correções que me possam sugerir.
"Como Presidentes da Câmara de Londres e Barcelona, assistimos à chegada de uma emergência. A forma como a política de habitação opera tem que ser alterada.
"City Properties should be homes for people first - not investments".
Eu traduziria este título da seguinte forma: " A propriedade municipal [os solos que são propriedade municipal e as habitações municipais] deve em pimeiro lugar destinar-se a habitação para as pessoas - não para investimentos.
Não sei se a tradução é boa mas julgo perceber a ideia de ambos. Os terrenos municipais - quando as autarquias deles dispõem - são uma oportunidade para concretizar uma verdadeira política de habitação. O artigo é muito interessante porque além de fazer um diagnóstico rigoroso dos desafios que as cidades globais enfrentam, não vacila na caracterização do tipo de intervenção que é exigida e, caso raro, não ignora a magna questão dos recursos necessários para concretizar uma intervenção eficaz. Uma proposta - aliás são duas - que vai para lá da retórica habitual.
Fernando Medina poderia esclarecer se acha que podia assinar este manifesto dos seus colegas.
Como o artigo me parece muito interessante resolvi traduzi-lo. Estou disponível para efectuar as correções que me possam sugerir.
"Como Presidentes da Câmara de Londres e Barcelona, assistimos à chegada de uma emergência. A forma como a política de habitação opera tem que ser alterada.
Há muitos anos que as cidades à volta do mundo têm
estado a enfrentar, nos seus mercados imobiliários, uma agressiva especulação progressivamente global – provocada por especuladores que olham para a habitação
nas nossas cidades como um investimento a partir do qual podem lucrar, mais do
que como casas para os cidadãos que nós representamos.
Em muitos casos, os especuladores tomam decisões a
muitos milhares de quilómetros de distância. No entanto, para nós, o seu impacto
na vida e na alma das nossas cidades faz-se sentir muito próximo de nós. Os centros das
nossas cidades correm o risco de serem esvaziados, uma vez que as comunidades vibrantes
são deslocadas, as lojas do comércio local são encerradas, e o preço das casas
aumenta exorbitantemente.
Os nossos grupos comunitários e as autarquias
locais, como a parte da vida urbana mais próxima das comunidades locais e a
mais sensível aos seus problemas do dia-a-dia, foram muitas vezes os primeiros
a alertar para os riscos que essas prácticas trazem consigo, colocando em causa a
própria sobrevivência das nossas cidades.
Para que os autarcas sejam capazes de enfrentar
este problema, precisam urgentemente de mais recursos e de poderes para ao
mesmo tempo aumentarem os stocks de habitação destinada ao arrendamento social
e de outra habitação genuinamente acessível e para fortalecerem os direitos dos
inquilinos.
As cidades não são apenas uma colecção de edifícios,
ruas e praças. Elas são também o somatório dos seus habitantes. Eles são os
únicos que ajudam a criar laços sociais, a construir comunidades e a evoluir
para os lugares nos quais nos orgulhamos de viver.
É essa a razão pela qual estamos determinados a
mudar a forma como a habitação funciona nas cidades que representamos. Estamos
a construir mais habitação destinada ao arrendamento social e outra habitação genuinamente
acessível, fazendo tudo o possível para fortalecer os direitos dos inquilinos,
e reprimindo as más prácticas dos promotores e dos proprietários onde somos
capazes de o fazer.
Mas enfrentamos um problema complexo e que opera a
um nível global. Ainda não temos os poderes e os recursos que nos permitiriam
regular adequadamente o mercado imobiliário, proteger o direito dos inquilinos
a permanecer nas suas casas, e tornar os sem-abrigo e o dormir na rua coisas do
passado.
Enquanto isso, os nossos governos nacionais, pelo
contrário parecem felizes por abandonarem as cidades ao seu destino. Estamos a
pedir-lhes que enfrentem este problema providenciando os recursos e poderes de
que precisamos para construir toda a habitação necessária para arrendamento social e
outra verdadeiramente acessível, garantindo que os
inquilinos estão seguros nas suas casas.
As cidades globais estão a enfrentar uma emergência
habitacional. Se não garantirmos que o objectivo da construção de habitação é,
primeiro e antes de tudo, fornecer casas para os nossos cidadãos mais do que investimentos
especulativos, teremos dificuldade em construir cidades habitáveis para os
nossos cidadãos nas gerações vindouras.
Presidentes das Câmaras e Autarquias Locais das
cidades do mundo estão a trabalhar em conjunto para partilhar conhecimentos e
encontrar soluções para a crise da habitação. É nosso dever fazer tudo o
possível para que todos os cidadãos melhorem as suas vidas e participem
plenamente nas nossas comunidades. Apenas teremos sucesso se conseguirmos assegurar
que nas nossas cidades todos têm acesso a uma habitação decente, segura e
acessível."
03/07/18
Os Tribunais em defesa do Urbanismo e da Cidade.
por
José Guinote
O Público notícia uma decisão do Tribunal Central Administrativo do Sul que impede a construção de um Projecto de Souto Moura para a Praça das Floes em Lisboa. O argumento utilizado pelo Tribunal é o que resulta de estarmos perante um conjunto classificado - a Praça das Flores - no qual se deve dar prioridade à reabilitação do edificado existente.
Depois de ter sido recusado o "Mono do Rato" é novamente a Justiça que assume a defesa do património urbano como um valor cultural a preservar.
Uma segunda derrota para o vereador do urbanismo, Manuel Salgado, e para Fernando Medina, mas, pelos dados disponíveis - aqui e aqui - uma vitória para a cidade.
Há pouca gente a reflectir sobre o papel da arquitectura e dos grandes arquitectos no processo de edificação/destruição das cidades, que a coberto da renovação urbana, disfarçada de reabilitação, alteram radicalmente a imagem das cidades destruindo parte do seu património histórico e urbano, servindo as dinâmicas próprias da promoção imobiliária internacional.
Destacamos uma afirmação atribuída a um director do pelouro do Urbanismo da autarquia lisboeta. Segundo esse técnico podemos ter sobre a cidade, e sobre uma qualquer intervenção urbanística, "vários olhares e todos eles válidos". Pois podemos, mas, como sabemos, nem todos eles cumprem a lei e, sobretudo, nem todos eles são capazes de, por si só, alterarem a forma como os responsáveis municipais olham para a lei e resolvem aplicá-la. Os promotores com mais recursos sabem disso. Também há uma geografia urbana da desigualdade que se constroi com o apoio dos arquitectos do regime.
Depois de ter sido recusado o "Mono do Rato" é novamente a Justiça que assume a defesa do património urbano como um valor cultural a preservar.
Uma segunda derrota para o vereador do urbanismo, Manuel Salgado, e para Fernando Medina, mas, pelos dados disponíveis - aqui e aqui - uma vitória para a cidade.
Há pouca gente a reflectir sobre o papel da arquitectura e dos grandes arquitectos no processo de edificação/destruição das cidades, que a coberto da renovação urbana, disfarçada de reabilitação, alteram radicalmente a imagem das cidades destruindo parte do seu património histórico e urbano, servindo as dinâmicas próprias da promoção imobiliária internacional.
Destacamos uma afirmação atribuída a um director do pelouro do Urbanismo da autarquia lisboeta. Segundo esse técnico podemos ter sobre a cidade, e sobre uma qualquer intervenção urbanística, "vários olhares e todos eles válidos". Pois podemos, mas, como sabemos, nem todos eles cumprem a lei e, sobretudo, nem todos eles são capazes de, por si só, alterarem a forma como os responsáveis municipais olham para a lei e resolvem aplicá-la. Os promotores com mais recursos sabem disso. Também há uma geografia urbana da desigualdade que se constroi com o apoio dos arquitectos do regime.
02/07/18
Eleições Presidenciais no México: a inédita vitória da esquerda.
por
José Guinote
López Obrador venceu as eleições presidenciais no México. O seu programa político, acusado de populista, coloca o acento tónico no combate às desigualdades. O combate à corrupção é identificado como a principal prioridade para o novo Presidente. A correlação entre corrupção e desigualdade é uma evidência, com base cientifica, que parte da esquerda recusa.
Combater a corrupção e a criminalidade é uma tarefa hercúlea numa sociedade marcada pela corrupção e pela violência extremas. Durante a camapnha eleitoral foram assassinadas mais de uma centena de pessoas e meia centena de candidatos.
A eleição de Obrador tem um significado político muito relevante não apenas para a América Latina. Trata-se de uma explicação que pode ser aplicada aos países europeus, como Portugal, que foram submetidos aos programas austeritários, impostos pela Comissão Europeia, designados por Programas de Resgate. Os Governos da direita política que lideraram o país desde os anos oitenta impuseram uma aproximação às teses neoliberais com uma promessa de um crescimento suficiente para permitir erradicar a pobreza a médio prazo. A velha e relha teoria económica do trickle-down. Os mexicanos cansaram-se de esperar e de ver negadas todas as promessas que lhes fizeram. Ainda bem que optaram por tentar encontrar uma solução política para a vida desgraçada a que têm sido sujeitos na esquerda política.
Combater a corrupção e a criminalidade é uma tarefa hercúlea numa sociedade marcada pela corrupção e pela violência extremas. Durante a camapnha eleitoral foram assassinadas mais de uma centena de pessoas e meia centena de candidatos.
A eleição de Obrador tem um significado político muito relevante não apenas para a América Latina. Trata-se de uma explicação que pode ser aplicada aos países europeus, como Portugal, que foram submetidos aos programas austeritários, impostos pela Comissão Europeia, designados por Programas de Resgate. Os Governos da direita política que lideraram o país desde os anos oitenta impuseram uma aproximação às teses neoliberais com uma promessa de um crescimento suficiente para permitir erradicar a pobreza a médio prazo. A velha e relha teoria económica do trickle-down. Os mexicanos cansaram-se de esperar e de ver negadas todas as promessas que lhes fizeram. Ainda bem que optaram por tentar encontrar uma solução política para a vida desgraçada a que têm sido sujeitos na esquerda política.
28/06/18
Uma dúvida
por
joão viegas
Existe alguma forma
de interpretar o que o Marcelo disse ao Trump, que não implique o nosso presidente estar a
chamar bestas aos eleitores do presidente americano ? Não, pois não ?
27/06/18
A corrupção. A ineficácia do combate quando não queremos ... combater.
por
José Guinote
A corrupção tem uma fortíssima correlação com o nível de desenvolvimento de cada país. Portugal é um país muito marcado pela corrupção. Trata-se de um dos países em que um conjunto de "particularidades" se conjugam: Temos o 4º pior crescimento do PIB por habitante da União Europeia [considerando o período 1997-2017]; temos um dos maiores níveis de desigualdade da União Europeia; temos um dos salários mínimos mais baixos do OCDE; temos uma das percentagens de proprietários da habitação mais elevada da Europa [conseguido com recurso ao crédito bancário, com um endividamento para a vida].
Combater e Diminuir a corrupção é todo um programa político nunca aplicado e nem sequer defendido por qualquer partido político. Obriga o país a mudar de vida e a mudar a forma como os cidadãos olham para a vida política. Obriga a ter uma justiça mais bem preparada, mais eficaz, mais rápida.
A corrupção está generalizada e confunde-se hoje em dia com a normal "actividade económica". Depois de décadas em que o urbanismo foi a grande teta pela qual se sugaram os recursos do país, em benefício de meia-dúzia de figurões, cujas contas estamos hoje a pagar, é na contratação pública que a corrupção atingiu o seu climax na última década.
Um país decente não suportaria que o senhor António ou o senhora Maria, autarcas de reconhecidos méritos, eleitos e reeleitos pelo povo, numa unanimidade e agradecimento comoventes, pudessem ter o poder de adjudicar a obra x ou a prestação de serviços y, à empresa do senhor joaquim ou da senhora manuela, ou a qualquer outra pessoa mesmo que não fossem simpatizantes dos partidos do senhor António ou da Senhora Maria. Adjudicar a partir de um convite decidido pelo senhor António ou pela senhora Maria em que decidiram "ajustar directamente" com as entidades cujas competências eram deles muito bem conhecidos.
Haverá sempre grandes evoluções, como as que resultam das revisões do Código das Contratações Públicas, que nos vão impondo - neste caso a UE - novas regras, mas é enorme a nossa capacidade para - criativamente - nos adaptarmos e continuar a fazer o que sabemos da forma que sempre fizemos.
Os ajustes directos foram uma forma de quem tem o poder dizer alto e bom som: calma malta que aqui apenas trabalha quem nós quisermos.
Um notável incentivo ao "empreendedorismo", está-se mesmo a ver. De certa forma os autarcas fazem o mesmo que as Câmaras Corporativas, nomeadamente a da Indústria, faziam antes do 25 de Abril, recorrendo então à contingentação industrial.
Impedir os ajustes directos - suspendê-los durante 5 anos, para ver como seria - seria um passo de uma política seriamente comprometida com o combate à corrupção.
Quem dará esse primeiro passo?
Combater e Diminuir a corrupção é todo um programa político nunca aplicado e nem sequer defendido por qualquer partido político. Obriga o país a mudar de vida e a mudar a forma como os cidadãos olham para a vida política. Obriga a ter uma justiça mais bem preparada, mais eficaz, mais rápida.
A corrupção está generalizada e confunde-se hoje em dia com a normal "actividade económica". Depois de décadas em que o urbanismo foi a grande teta pela qual se sugaram os recursos do país, em benefício de meia-dúzia de figurões, cujas contas estamos hoje a pagar, é na contratação pública que a corrupção atingiu o seu climax na última década.
Um país decente não suportaria que o senhor António ou o senhora Maria, autarcas de reconhecidos méritos, eleitos e reeleitos pelo povo, numa unanimidade e agradecimento comoventes, pudessem ter o poder de adjudicar a obra x ou a prestação de serviços y, à empresa do senhor joaquim ou da senhora manuela, ou a qualquer outra pessoa mesmo que não fossem simpatizantes dos partidos do senhor António ou da Senhora Maria. Adjudicar a partir de um convite decidido pelo senhor António ou pela senhora Maria em que decidiram "ajustar directamente" com as entidades cujas competências eram deles muito bem conhecidos.
Haverá sempre grandes evoluções, como as que resultam das revisões do Código das Contratações Públicas, que nos vão impondo - neste caso a UE - novas regras, mas é enorme a nossa capacidade para - criativamente - nos adaptarmos e continuar a fazer o que sabemos da forma que sempre fizemos.
Os ajustes directos foram uma forma de quem tem o poder dizer alto e bom som: calma malta que aqui apenas trabalha quem nós quisermos.
Um notável incentivo ao "empreendedorismo", está-se mesmo a ver. De certa forma os autarcas fazem o mesmo que as Câmaras Corporativas, nomeadamente a da Indústria, faziam antes do 25 de Abril, recorrendo então à contingentação industrial.
Impedir os ajustes directos - suspendê-los durante 5 anos, para ver como seria - seria um passo de uma política seriamente comprometida com o combate à corrupção.
Quem dará esse primeiro passo?
26/06/18
Ler os Outros: "E se Sousa Tavares lesse antes de escrever?"
por
José Guinote
No Público, Paulo Guinote, escreve em resposta a uma opinião de Miguel Sousa Tavares em que mais uma vez - a enésima vez - elege os professores como o seu inimigo de estimação. A tese de MST - um inimigo confesso dos professores, pelo menos daqueles que lutam pelos seus direitos e que não desistem de ter uma voz activa nas questões da Educação - é a de que os professores nunca estiveram do lado da paixão pela educação, que, segundo ele, ascendeu a política nacional com António Guterres. Essa paixão pela educação, como se sabe, anda por aí, mas os seus efeitos prácticos são escassos, contrariamente às prácticas que todos os dias a negam.
Paulo Guinote analisa o mito de que a Educação funciona como uma garantia de mobilidade social. Mito muito estimado por todos aqueles que não estão minimamente interessados em remover agora (!!!) as condições profundas em que se baseia a desigualdade estrutural. A Educação leva o seu tempo, é preciso paciência, diria MST.
Paulo Guinote analisa o mito de que a Educação funciona como uma garantia de mobilidade social. Mito muito estimado por todos aqueles que não estão minimamente interessados em remover agora (!!!) as condições profundas em que se baseia a desigualdade estrutural. A Educação leva o seu tempo, é preciso paciência, diria MST.
24/06/18
A Internacional Islamita-Islamofóbica
por
Miguel Madeira
É interessante a lista de membros da Aliança dos Conservadores e Reformistas na Europa, a que pertence o Partido da Justiça e Desenvolvimento turco, do presidente quase-ditador Erdogan; entre eles temos:
- o referido Partido da Justiça e Desenvolvimento
- o Partido Conservador britânico (o principal partido da aliança, e se calhar o mais moderado)
- o Partido da Lei e Justiça da Polónia
- a Aliança Nacional da Letónia
- o Likud israelita (creio que é apenas observador, não membro)
E no grupo parlamentar da ACRE no Parlamento Europeu (ainda que sem pertencer à organização em sí) temos também entidades como o Partido do Povo Dinamarquês ou o Partido Finlandês.
O que é interessante aqui é a aliança (direta ou indireta) entre islamitas conservadores do Médio Oriente e partidos islamofóbicos (como a Lei e Justiça polaca e outros similares) na Europa (para não falar do Likud israelita).
Mas se calhar até se reforçam mutuamente - sobretudo, quanto mais força tiver o islamismo político no mundo muçulmano, mais força tem o nacionalismo islamofóbico anti-imigração e anti-refugiados na Europa.
E faz-me lembrar um pouco isto.
- o referido Partido da Justiça e Desenvolvimento
- o Partido Conservador britânico (o principal partido da aliança, e se calhar o mais moderado)
- o Partido da Lei e Justiça da Polónia
- a Aliança Nacional da Letónia
- o Likud israelita (creio que é apenas observador, não membro)
E no grupo parlamentar da ACRE no Parlamento Europeu (ainda que sem pertencer à organização em sí) temos também entidades como o Partido do Povo Dinamarquês ou o Partido Finlandês.
O que é interessante aqui é a aliança (direta ou indireta) entre islamitas conservadores do Médio Oriente e partidos islamofóbicos (como a Lei e Justiça polaca e outros similares) na Europa (para não falar do Likud israelita).
Mas se calhar até se reforçam mutuamente - sobretudo, quanto mais força tiver o islamismo político no mundo muçulmano, mais força tem o nacionalismo islamofóbico anti-imigração e anti-refugiados na Europa.
E faz-me lembrar um pouco isto.
23/06/18
Acerca das relações estreitas entre populismo e futebol
por
José Guinote
A situação existente no Sporting Clube de Portugal, clube centenário fundado em Lisboa em 1906, é hoje discutida fundamentalmente do ponto de vista que mais interessa aos canais televisivos por cabo. Uma discussão infinita, infintamente repetida, entre os bons e os maus, diariamente alimentada por novos episódios quase sempre originados pela fértil imaginação do actual Presidente, Bruno de Carvalho, e pela sua singular concepção da democracia.
Talvez por isso valha a pena ler esta peça do "Político", que estabelece uma relação entre aquilo que se passa no clube de Alvalade e a existência de um populismo larvar na sociedade portuguesa. Não será a única análise mas merece uma leitura atenta, até pelos que não se interessam por estas coisas. A escensão de Bruno Carvalho ao poder baseou-se numa promessa simples e facilmente entendivel por todos: devolver o Sporting aos sócios.
A analogia entre Bruno de Carvalho e Trump, salvaguardadas as devidas distâncias, faz todo o sentido. Tal como o presidente americano, Bruno de Carvalho apelou aos "excluídos". às "vitímas das elites", ao povo anónimo, que tem acesso à redenção através da eleição do "seu líder" que vai governar em seu nome, devolvendo-lhes o país ou o clube.
A base para o sucesso de um programa tão rudimentar tinha sido construída por aqueles que Bruno de Carvalho derrotou: uma pseudo-aristocracia ligada à banca e aos negócios do imobiliário. Essas sucessivas gerações dos chamados "croquetes", instalaram-se no clube, depois do consulado de João Rocha, sob a liderança de José Roquette, um capitalista muito relevante na fase da abertura da banca aos privados e da entrada em força da banca privada no negócio do imobiliário.
A famigerada "Sociedade de Construções e Planeamento" - uma antecessora do que viriam a ser as Sociedade Anónimas Desportivas - foi a arma utilizada por Roquete para, segundo declarações da altura, "tornar o Sporting independente da bola que bate na trave e não entra".
Foi um objectivo totalmente conseguido já que, nas décadas seguintes, o Sporting remeteu-se a um plano de uma progressiva irrelevância desportiva e, paradoxalmente, alienou a quase totalidade do património imobiliário que possuía - terrenos na área urbana da cidade de Lisboa, em torno do antigo estádio José de Alvalade - sem que o clube tivesse qualquer benefício da colossal mais-valia gerada com a sua alienação. Pelo contrário, o Sporting, a cada ano que passou, foi ficando cada vez mais endividado, através de uma ligação preversa com a banca que se constituiu como um sumidouro para os recursos próprios do clube.
Roquete exerceu uma influência tutelar sobre o clube mesmo depois de se retirar. Teve influência na designação dos seus sucessores: Santana Lopes terá sido o caso em que essa influência mais se fez sentir. Santana foi apresentado como o delfim de José Roquete e o seu herdeiro natural. Essa sucessão de dirigentes culminou com Godinho Lopes, talvez o mais detestado Presidente da história do clube. Tempo ideal para lançar uma candidatura, fortemente apoiada pelas claques - organizações que representam um "clube dentro do clube", que em muitos clubes abrigam núcleos dominados pelas ideologias extremistas, com comportamentos nazis - que aproveitou as redes sociais para mobilizar os "excluídos".
Não pode surpreender ninguém que o actual presidente do Sporting queira manter o poder que tem a todo o custo. Não pode surpreender ninguém que Bruno Carvalho - o sobrinho-neto do almirante Pinheiro de Azevedo - entenda mandar à bardamerda quem lhe faz frente e não se verga ao seu poder pessoal. Estatutos do clube? Separação de poderes entre orgãos sociais e respeito pelos poderes de cada um? Respeito pelos orgãos da República, nomeadamente pelas decisões dos Tribunais? A tudo isso BC diz ... nada.
Trata-se de um poder quase absoluto, que ele tem tentado transformar num poder absoluto. Bruno Carvalho gostaria de se eternizar no poder como Pinto da Costa e Luís Filipe Vieira. Está mesmo disposto a fazer do exercício da presidência do clube um modo de vida, construindo uma longa carreira. Uma enorme trabalheira para devolver o clube aos sócios, recorde-se.
O populismo é assim: serve-se do descontentamento existente, utiliza as armas da democracia para ascender ao poder e, uma vez instalado, começa a criar as condições para que aqueles que o elegeram não tenham qualquer possibilidade de o desapossar do poder. A comparação com Trump é justa mas aquela que mais me agrada é a comparação com Maduro, o ditador venezuelano. O que se está a passar no Sporting é um exemplo de que na sociedade portuguesa, cujos "brandos costumes" são tantas vezes enaltecidos, existem tensões que criam condições propícias para a emergência do populismo de base anti-democrática.
O futebol tornou-se ao longo de décadas uma das áreas de negócio preferidas pelo capital especulativo para realizar chorudas mais-valias e para proceder a operações massivas de lavagem de dinheiro, das mais tenebrosas origens. A superestrutura que comanda esta "organização" estabeleceu um modus operandi fundado e sustentado na corrupção. Recentemente foi necessário decapitar a super-estrutura que liderava esta "máfia" para tentar manter o essencial da "indústria". Blatter, o decrépito e poderoso suiço foi a imagem mais mediática desse lifting facial. Mas as rugas estão lá, impressas, e o modo de funcionamento permanece, inalterado. Uma das expressões desta cultura da corrupção é a subversão da verdade desportiva, uma cada vez maior clivagem entre países pobres e ricos e entre clubes pobres e poderosos, sobretudo na escala europeia, de que a actual Liga dos Campeões é a maior expressão. Recentemente foi necessário - face à pressão popular mediatizada nas redes sociais - fazer cedências no sentido da verdade desportiva, de que a introdução do vídeo-árbitro é o melhor exemplo.
O futebol não se autoregula. A autoregulação fomenta a corrupção, fomenta a desigualdade, afasta os cidadãos deste espaço de confraternização e afectividade. O futebol tem que ser regulado e isso passa pela assumpção da responsabilidade política de quem tem o dever de tutelar o desporto. Em Portugal os clubes desenvolvem uma actividade complementar do Estado e beneficiam de verbas públicas. A sua actividade tem que ser regulada e as prácticas de natureza violenta como a invasão de Alcochete, devem ser severamente reprimidas e determinar consequências para os responsáveis dos clubes. Tal como o envolvimento em esquemas corruptos que visem obter resultados por todos os meios.
Declaração de interesses: sou sportinguista desde pequenino, influência do meu pai e dos meus familiares. Influência do João Martins, natural de Sines, como eu, o sportinguista que marcou o primeiro golo na antiga Taça dos Campeões Europeus, de que ouvi contar muitas vezes as suas proezas desportivas, antes de ter tido o prazer de o conhecer, e que ouvi falar várias vezes, quando ele regressava de França para as férias no Verão, e se juntava a conviver com os seus amigos de infância. Transferido por cem escudos para o Sporting, uma transferência brutal para a época.
Outros tempos em que os craques, pobres na sua origem social, regressavam à pobreza terminada a carreira e lutavam dia a dia para sobreviver. Tempos em que o futebol era mais humano do que actualmente, com as superestrelas elevadas ao estatuto de deuses acima dos homens e das leis, mesmo que sejam as, supostamente implacáveis, leis fiscais.
Mas também sou sportinguista, ou será essa a principal razão?, porque quando comecei no meu bairro, a jogar com os meus amigos, no Bairro Mrítimo onde cresci, nos imensos campos de areia, nesses tempos de fraca urbanização, na ditadura salazarista, o Benfica era já o todo poderoso. Certamente a minha opção pelo Sporting resulta dessa tendência congénita para contrariar os mais fortes, aqui referida e que partilho. A maioria dos meus amigos era benfiquista e Eusébio rivalizava com Amália na admiração dos portugueses.
Vou à Assembleia Geral do Sporting, amanhã dia 23 de Junho, votar a favor da democracia, contra o populismo.
Talvez por isso valha a pena ler esta peça do "Político", que estabelece uma relação entre aquilo que se passa no clube de Alvalade e a existência de um populismo larvar na sociedade portuguesa. Não será a única análise mas merece uma leitura atenta, até pelos que não se interessam por estas coisas. A escensão de Bruno Carvalho ao poder baseou-se numa promessa simples e facilmente entendivel por todos: devolver o Sporting aos sócios.
A analogia entre Bruno de Carvalho e Trump, salvaguardadas as devidas distâncias, faz todo o sentido. Tal como o presidente americano, Bruno de Carvalho apelou aos "excluídos". às "vitímas das elites", ao povo anónimo, que tem acesso à redenção através da eleição do "seu líder" que vai governar em seu nome, devolvendo-lhes o país ou o clube.
A base para o sucesso de um programa tão rudimentar tinha sido construída por aqueles que Bruno de Carvalho derrotou: uma pseudo-aristocracia ligada à banca e aos negócios do imobiliário. Essas sucessivas gerações dos chamados "croquetes", instalaram-se no clube, depois do consulado de João Rocha, sob a liderança de José Roquette, um capitalista muito relevante na fase da abertura da banca aos privados e da entrada em força da banca privada no negócio do imobiliário.
A famigerada "Sociedade de Construções e Planeamento" - uma antecessora do que viriam a ser as Sociedade Anónimas Desportivas - foi a arma utilizada por Roquete para, segundo declarações da altura, "tornar o Sporting independente da bola que bate na trave e não entra".
Foi um objectivo totalmente conseguido já que, nas décadas seguintes, o Sporting remeteu-se a um plano de uma progressiva irrelevância desportiva e, paradoxalmente, alienou a quase totalidade do património imobiliário que possuía - terrenos na área urbana da cidade de Lisboa, em torno do antigo estádio José de Alvalade - sem que o clube tivesse qualquer benefício da colossal mais-valia gerada com a sua alienação. Pelo contrário, o Sporting, a cada ano que passou, foi ficando cada vez mais endividado, através de uma ligação preversa com a banca que se constituiu como um sumidouro para os recursos próprios do clube.
Roquete exerceu uma influência tutelar sobre o clube mesmo depois de se retirar. Teve influência na designação dos seus sucessores: Santana Lopes terá sido o caso em que essa influência mais se fez sentir. Santana foi apresentado como o delfim de José Roquete e o seu herdeiro natural. Essa sucessão de dirigentes culminou com Godinho Lopes, talvez o mais detestado Presidente da história do clube. Tempo ideal para lançar uma candidatura, fortemente apoiada pelas claques - organizações que representam um "clube dentro do clube", que em muitos clubes abrigam núcleos dominados pelas ideologias extremistas, com comportamentos nazis - que aproveitou as redes sociais para mobilizar os "excluídos".
Não pode surpreender ninguém que o actual presidente do Sporting queira manter o poder que tem a todo o custo. Não pode surpreender ninguém que Bruno Carvalho - o sobrinho-neto do almirante Pinheiro de Azevedo - entenda mandar à bardamerda quem lhe faz frente e não se verga ao seu poder pessoal. Estatutos do clube? Separação de poderes entre orgãos sociais e respeito pelos poderes de cada um? Respeito pelos orgãos da República, nomeadamente pelas decisões dos Tribunais? A tudo isso BC diz ... nada.
Trata-se de um poder quase absoluto, que ele tem tentado transformar num poder absoluto. Bruno Carvalho gostaria de se eternizar no poder como Pinto da Costa e Luís Filipe Vieira. Está mesmo disposto a fazer do exercício da presidência do clube um modo de vida, construindo uma longa carreira. Uma enorme trabalheira para devolver o clube aos sócios, recorde-se.
O populismo é assim: serve-se do descontentamento existente, utiliza as armas da democracia para ascender ao poder e, uma vez instalado, começa a criar as condições para que aqueles que o elegeram não tenham qualquer possibilidade de o desapossar do poder. A comparação com Trump é justa mas aquela que mais me agrada é a comparação com Maduro, o ditador venezuelano. O que se está a passar no Sporting é um exemplo de que na sociedade portuguesa, cujos "brandos costumes" são tantas vezes enaltecidos, existem tensões que criam condições propícias para a emergência do populismo de base anti-democrática.
O futebol tornou-se ao longo de décadas uma das áreas de negócio preferidas pelo capital especulativo para realizar chorudas mais-valias e para proceder a operações massivas de lavagem de dinheiro, das mais tenebrosas origens. A superestrutura que comanda esta "organização" estabeleceu um modus operandi fundado e sustentado na corrupção. Recentemente foi necessário decapitar a super-estrutura que liderava esta "máfia" para tentar manter o essencial da "indústria". Blatter, o decrépito e poderoso suiço foi a imagem mais mediática desse lifting facial. Mas as rugas estão lá, impressas, e o modo de funcionamento permanece, inalterado. Uma das expressões desta cultura da corrupção é a subversão da verdade desportiva, uma cada vez maior clivagem entre países pobres e ricos e entre clubes pobres e poderosos, sobretudo na escala europeia, de que a actual Liga dos Campeões é a maior expressão. Recentemente foi necessário - face à pressão popular mediatizada nas redes sociais - fazer cedências no sentido da verdade desportiva, de que a introdução do vídeo-árbitro é o melhor exemplo.
O futebol não se autoregula. A autoregulação fomenta a corrupção, fomenta a desigualdade, afasta os cidadãos deste espaço de confraternização e afectividade. O futebol tem que ser regulado e isso passa pela assumpção da responsabilidade política de quem tem o dever de tutelar o desporto. Em Portugal os clubes desenvolvem uma actividade complementar do Estado e beneficiam de verbas públicas. A sua actividade tem que ser regulada e as prácticas de natureza violenta como a invasão de Alcochete, devem ser severamente reprimidas e determinar consequências para os responsáveis dos clubes. Tal como o envolvimento em esquemas corruptos que visem obter resultados por todos os meios.
Declaração de interesses: sou sportinguista desde pequenino, influência do meu pai e dos meus familiares. Influência do João Martins, natural de Sines, como eu, o sportinguista que marcou o primeiro golo na antiga Taça dos Campeões Europeus, de que ouvi contar muitas vezes as suas proezas desportivas, antes de ter tido o prazer de o conhecer, e que ouvi falar várias vezes, quando ele regressava de França para as férias no Verão, e se juntava a conviver com os seus amigos de infância. Transferido por cem escudos para o Sporting, uma transferência brutal para a época.
Outros tempos em que os craques, pobres na sua origem social, regressavam à pobreza terminada a carreira e lutavam dia a dia para sobreviver. Tempos em que o futebol era mais humano do que actualmente, com as superestrelas elevadas ao estatuto de deuses acima dos homens e das leis, mesmo que sejam as, supostamente implacáveis, leis fiscais.
Mas também sou sportinguista, ou será essa a principal razão?, porque quando comecei no meu bairro, a jogar com os meus amigos, no Bairro Mrítimo onde cresci, nos imensos campos de areia, nesses tempos de fraca urbanização, na ditadura salazarista, o Benfica era já o todo poderoso. Certamente a minha opção pelo Sporting resulta dessa tendência congénita para contrariar os mais fortes, aqui referida e que partilho. A maioria dos meus amigos era benfiquista e Eusébio rivalizava com Amália na admiração dos portugueses.
Vou à Assembleia Geral do Sporting, amanhã dia 23 de Junho, votar a favor da democracia, contra o populismo.
22/06/18
A revolta dos trabalhadores das novas tecnologias contra a cooperação com o complexo militar-policial
por
Miguel Madeira
21/06/18
Este post vai ser ilegal
por
Miguel Madeira
Eurodeputados avançam com directiva para criar filtros online (Publico)
Porquê? Porque estou a linkar para notícias de orgãos de comunicação social, e no link aparece uma parte da notícia (mais exatamente, o título), o que será ilegal (a menos que pague à organização que publica a notícia) de acordo com a proposta que está em processo de aprovação no Parlamento Europeu.
Sabemos bem ganhar tão pouco.
por
José Guinote
Nível de vida dos portugueses está a regredir há 15 anos.
Todos os Governos desde 2000 mostraram, em diferentes momentos, o seu agradecimento às portuguesas e aos portugueses pela dedicação ao País e pelo elevado espírito de sacrifício manifestados. Paulo Portas, no fim da intervenção da Troika, António Costa-Mário Centeno, na altura de elogiar a histórica diminuição do défice.
Apenas com a dedicação insuperável das portuguesas e dos portugueses, com o seu espíríto de sacrifício, foi possível construir um país tão desigual e criar as condições para que a desigualdade aumente constantemente.
Mais tarde - dia de São Nunca à tarde, mais precisamente - todos beneficiarão deste esforço colossal.
18/06/18
O Costismo de Costas voltadas para a social-democracia
por
José Guinote
A deriva de Costa na direcção do centro vai de vento em popa. Foi assinado com pompa e circunstância o acordo laboral recusado pela CGTP e pelos parceiros da Geringonça.
Refere-se o desconforto que este compromisso causa na bancada parlamentar socialista.
Seria interessante perceber o que pensa o socialista que mais pugnou pela viragem do PS à esquerda, aquele que criticou a vertigem neoliberal dos defensores da terceira-via. Refiro-me a Pedro Nuno Santos, o dirigente socialista e actual secretário de estado dos assuntos parlamentares.
Aquilo que está em causa no acordo agora assinado e aquilo que afasta os parceiros da Geringonça do PS está aqui bem resumido.
Parece evidente que Costa aposta tudo numa maioria absoluta ganha ao centro. Caso ganhe as eleições sem maioria absoluta é cada vez mais claro que Costa abandonará a actual coligação e negociará com Rui Rio a manutenção do poder.
A ideia de maioria absoluta parece esboroar-se a cada dia que passa e os fantasmas do passado que assolam o PS dão o seu contributo para essa erosão. Na verdade o combate à corrupção - mais exactamente a sua ausência - a falta de transparência na gestão da coisa pública, uma obstinada insistência em acentuar o tratamento diferencial entre o trabalho e o capital - acentuando os factores da desigualdade estrutural na sociedade portuguesa - impedem a extensão social da base de apoio do PS para a sua esquerda. Estas características não impedem por outro lado uma capitalização dos votos à direita.
No entanto, com a sólida concorrência de Marcelo - o maior zelador pelos interesses da direita política - essa expansão fica muito aquém das expectativas de Costa e do seu aparelho. Aquilo que Costa faz de bom para a direita - limitar a reposição de direitos dos trabalhadores e a reabilitação do estado social, sobretudo na saúde e na educação, resistindo à pressão dos seus parceiros - é percebido pelos que aplaudem como resultado da pressão política do Presidente, que negoceia dia-a-dia o seu apoio a Costa, e do centrismo e conservadorismo de Centeno, o todo poderoso líder do Eurogrupo.
Há no entanto um capital que Costa está a alienar, com as sucessivas guerras que "compra" à sua esquerda: os que acreditam e pugnam por uma sociedade mais democrática e mais equitativa já cortaram as amarras que em dado momento estabeleceram com a actual liderança socialista: parece-lhes hoje evidente que a opção pela Geringonça foi acima de tudo uma manifestação de oportunismo político mais do que a consequência de uma opção política e de uma visão para Portugal e para a Europa. Costa é um adepto indefectível da Terceira Via, mesmo que em determinado momento tenho virado à esquerda focado que estava na "conquista" do lugar de primeiro.ministro.
Talvez não seja assim, mas é assim que parece ser.
Refere-se o desconforto que este compromisso causa na bancada parlamentar socialista.
Seria interessante perceber o que pensa o socialista que mais pugnou pela viragem do PS à esquerda, aquele que criticou a vertigem neoliberal dos defensores da terceira-via. Refiro-me a Pedro Nuno Santos, o dirigente socialista e actual secretário de estado dos assuntos parlamentares.
Aquilo que está em causa no acordo agora assinado e aquilo que afasta os parceiros da Geringonça do PS está aqui bem resumido.
Parece evidente que Costa aposta tudo numa maioria absoluta ganha ao centro. Caso ganhe as eleições sem maioria absoluta é cada vez mais claro que Costa abandonará a actual coligação e negociará com Rui Rio a manutenção do poder.
A ideia de maioria absoluta parece esboroar-se a cada dia que passa e os fantasmas do passado que assolam o PS dão o seu contributo para essa erosão. Na verdade o combate à corrupção - mais exactamente a sua ausência - a falta de transparência na gestão da coisa pública, uma obstinada insistência em acentuar o tratamento diferencial entre o trabalho e o capital - acentuando os factores da desigualdade estrutural na sociedade portuguesa - impedem a extensão social da base de apoio do PS para a sua esquerda. Estas características não impedem por outro lado uma capitalização dos votos à direita.
No entanto, com a sólida concorrência de Marcelo - o maior zelador pelos interesses da direita política - essa expansão fica muito aquém das expectativas de Costa e do seu aparelho. Aquilo que Costa faz de bom para a direita - limitar a reposição de direitos dos trabalhadores e a reabilitação do estado social, sobretudo na saúde e na educação, resistindo à pressão dos seus parceiros - é percebido pelos que aplaudem como resultado da pressão política do Presidente, que negoceia dia-a-dia o seu apoio a Costa, e do centrismo e conservadorismo de Centeno, o todo poderoso líder do Eurogrupo.
Há no entanto um capital que Costa está a alienar, com as sucessivas guerras que "compra" à sua esquerda: os que acreditam e pugnam por uma sociedade mais democrática e mais equitativa já cortaram as amarras que em dado momento estabeleceram com a actual liderança socialista: parece-lhes hoje evidente que a opção pela Geringonça foi acima de tudo uma manifestação de oportunismo político mais do que a consequência de uma opção política e de uma visão para Portugal e para a Europa. Costa é um adepto indefectível da Terceira Via, mesmo que em determinado momento tenho virado à esquerda focado que estava na "conquista" do lugar de primeiro.ministro.
Talvez não seja assim, mas é assim que parece ser.
14/06/18
Vistos Gold. O fim da medida?
por
José Guinote
O Expresso noticia uma iniciativa do BE que, resumidamente, defende a extinção do "programa" dos chamados "Vistos Gold".
O argumento, escreve o jornal, será o facto de "em 5717 vistos concedidos só nove serviram para criar postos de trabalho". Esta é a razão que terá justificado a inicitiva do BE.
Depois aparece a explicação mais fundamentada da posição do BE. Os vistos Gold são, segundo os bloquistas, uma fonte de corrupção, tráfico de influências, peculato, branqueamento de capitais, ílicitos fiscais e criminias.
São e sempre foram, digo eu. Eram antes deste Governo entrar em funções e continuaram a ser em cada dia em que este governo tem estado em funções. Mas, quer antes quer depois, os Vistos Gold foram uma Política do Estado Português destinada a atrair capitais, fosse qual fosse a sua origem, seja a sua origem corrupta, criminosa ou seja lá qual for. Desde que invista pelo menos 500 mil euros o cidadão do mundo tem as portas abertas e a concessão de cidadania portuguesa agilizada.
Por isso, o argumento do BE de que apenas foram criados nove postos de trabalho é um péssimo argumento. Mesmo que tivessem sido criados 5717 postos de trabalhos, ou muitos mais, o argumento seria sempre péssimo.
Num estado de direito, numa democracia que se leva a sério, a tolerância com a corrupção, o tráfico de influências, o peculato, o branqueamento de capitais, os ilícitos fiscais e criminais não podem ser negociáveis. Não podem ter preço.
O argumento, escreve o jornal, será o facto de "em 5717 vistos concedidos só nove serviram para criar postos de trabalho". Esta é a razão que terá justificado a inicitiva do BE.
Depois aparece a explicação mais fundamentada da posição do BE. Os vistos Gold são, segundo os bloquistas, uma fonte de corrupção, tráfico de influências, peculato, branqueamento de capitais, ílicitos fiscais e criminias.
São e sempre foram, digo eu. Eram antes deste Governo entrar em funções e continuaram a ser em cada dia em que este governo tem estado em funções. Mas, quer antes quer depois, os Vistos Gold foram uma Política do Estado Português destinada a atrair capitais, fosse qual fosse a sua origem, seja a sua origem corrupta, criminosa ou seja lá qual for. Desde que invista pelo menos 500 mil euros o cidadão do mundo tem as portas abertas e a concessão de cidadania portuguesa agilizada.
Por isso, o argumento do BE de que apenas foram criados nove postos de trabalho é um péssimo argumento. Mesmo que tivessem sido criados 5717 postos de trabalhos, ou muitos mais, o argumento seria sempre péssimo.
Num estado de direito, numa democracia que se leva a sério, a tolerância com a corrupção, o tráfico de influências, o peculato, o branqueamento de capitais, os ilícitos fiscais e criminais não podem ser negociáveis. Não podem ter preço.
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