23/03/11

A esquerda em Portugal nas próximas eleições

Existindo eleições, talvez não fosse má ideia que CDU e BE reunissem um conjunto de independentes, de sindicalistas a especialistas vários, e conseguissem esgalhar um conjunto de ideias fundamentais (não é preciso ser aquela coisa patética das 365 ideias do Passos Coelho) que poderão servir de base a um programa de governo.

Este pacto incidiria sobretudo nas questões chamadas de económico-sociais, isto é, que se situam no terreno do PEC. É nesse terreno que é necessário hoje mostrar que há uma outra alternativa.

Eu sei que tanto PCP como BE têm várias propostas já elaboradas e que já avançaram inúmeras alternativas, mas tratar-se-ia de chegarem a uma síntese mínima e de darem um novo fôlego à ideia de uma alternativa de esquerda.

Este processo extravasaria, necessariamente, o espaço de ambos os partidos, congregando inúmeros descontentes com o PS e outra tanta esquerda sem-partido. Isto não tinha que se traduzir em listas conjuntas entre ambos os partidos - situação hoje por hoje inviável e nem sequer a mais "lucrativa" em termos eleitorais - mas apenas e só num momento de campanha partilhado pelos dois partidos e por um conjunto de eleitores.

PCP e BE têm perto de 20% de votos reunidos e isso, por si só, é força suficiente para pensar numa futura maioria.

21 comentários:

Miguel Serras Pereira disse...

Receio, Zé, que esse acordo tal como o formulas - nomeadamente, sem se enquadrar numa plataforma mais ampla e com outros participantes explícitos (podiam não ser partidos formais, mas não poderiam ser só duas ou três personalidades) - seria para o BE um suicídio político - a menos que, talvez, uma presença maciça de "renovadores bloquistas" de varias tendências e de independentes (da esquerda social-democrata, tipo João Rodrigues, ou "democratas revolucionários/revolucionários democráticos", como tu próprio) funcionassem como "descozinheiros" de acordos de bastidores entre políticos profissionais. Penso, de resto, que os estragos, que a adopção sem mais de uma solução como a que propões causaria na votação no BE, não se traduziria num proporcional aumento da votação no PCP. Mas, enfim, é o meu modo de ver…

Só quero acrescentar que o período de azáfama eleitoral, e mesmo eleitoralista, que se avizinha é uma boa oportunidade para, caso exista, a gente que tem outra concepção da democracia mostrar que é necessário, para mudar o regime, começar por mudar o "regime da acção política e das lutas".

Abraço grande

miguel (sp)

Fernando disse...

Não esqueçamos que o método de Hondt favorece uma coligação pré-eleitoral e que em princípio há votos a ganhar ao PS (sem os perder à esquerda), pelo que os deputados que já lá estão não têm a temer pelos seus lugares. Até o MRPP com os seus 0,9% seria bem-vindo.

Ricardo Noronha disse...

Se o João Rodrigues sabe que lhe chamas social-democrata não vai gostar nada, Miguel.

VÍTOR DIAS disse...

Registo que, em diferença de outras ideias que andam por sí, seria um «momento».

E também registo sem perceber a, para mim, extraordinária afirmação de que «PCP e BE têm perto de 20% de votos reunidos e isso, por si só, É FORÇA SUFICIENTE PARA PENSAR NUMA FUTURA MAIORIA».

OU JÁ NÃO SEI O QUE É UMA MAIKORIA PARLAMENTAR ou o o «momento» tem uma capacidade agregadora de quase mais 30% de votos.

LAM disse...

A proposta, em termos de uma plataforma comum de entendimento relativamente a matérias economico-financeiras-sociais, parece-me boa, desde que não dilua os partidos o que, a acontecer, ou transparecer que acontece, pode ser mais prejudicial: há franjas (há mesmo) em ambos os partidos que não tolerariam isso.

Ressalvado esse pormenor, penso até que seria bom que essa exigência partisse da esquerda "mais civil".

Miguel Serras Pereira disse...

Ricardo, a coisa nada tem de pejorativo. Mas posso corrigir: reformista radical, continuador do melhor da social-democracia que se distanciou tanto cdo bolchevismo como dos "simples gestores da economia política dominante" - como queiras. Ou melhor: queira o João Rodrigues…

miguel (sp)

Anónimo disse...

Se o Ricardo Noronha sabe que falas da social-democracia em sentido não-pejorativo e que isso significa distanciamento do bolchevismo não vai gostar mesmo nada, miguel. Mesmo sendo ele um eleitor do António Costa. Get the picture, boy?

Zé Neves disse...

miguel, concordo com parte do que afirmas. o modo como o Lam coloca a questão seria a minha achega ao teu comentário.

vítor dias, sim, um "momento". Quanto ao resto, o que pretendo dizer é que chega de ouvir comentadores e jornalistas a dizerem que os partidos do arco do poder são três e só três, PS, PSD e CDS. À esquerda do PS existem quase 20% de votos. É um excelente ponto de partida para um processo de crescimento sustentado. Certo?

abç

Anónimo disse...

A crise do Estado-Providência e do capitalismo tout-court não cria um impasse teórico e prático no tipo de alianças politico-partidárias que propõe o Z. Neves? O BE ,e sobretudo o PCP, não representam cada vez menos os interesses do " comum ", isto é das forças revolucionárias/transformadoras da sociedade que trsnsportam novos valores? O preclaro ZNeves não está a cair no " reformismo " sofisticado, sem o desejar? Niet

Zé Neves disse...

caro niet,
descansemos, que a maior parte das energias políticas não são investidas neste tema!
abç

Miguel Serras Pereira disse...

Pois, Zé, ao contrário do que parece pensar o Niet, não creio que se passe a ser "reformista", no sentido lampedusiano de mudar tudo para que tudo fique na mesma, por se exigirem reformas.
O meu problema é outro: creio que não podemos privilegiar os lugares no governo como via de transformação das relações de poder, que o Estado actual e a sua economia política (ou vice-versa) garantem e reproduzem. Com efeito, se tomarmos o poder político (lato sensu, incluindo as relações de poder que são as relações sociais de produção) sem o transformarmos e transformarmos o seu modo de exercício, mais do que só o seu programa, agenda ou carta de intenções, seremos tomados pelo espírito objectivo desse poder e da sua forma de instituição da sociedade. Sei, de resto, que concordarás comigo em grande medida e daí as objecções que pus mais aos termos talvez um pouco precipitados em que te exprimiste do que à tua ideia de intervenção no plano institucional.
Acabo de republicar um post em que abordo, de certo modo, o mesmo tema (em diálogo com o Pedro Viana e contigo) - por isso, para já, por aqui me fico.

Abrç

miguel (sp)

Post-scriptum: outra maneira de dizer a mesma coisa seria insistir em que, para poderem participar efectivamente na democratização das relações de poder existentes a todos os níveis, as organizações que se reclamam desse propósito ou "objectivo final", têm de o actualizar desde já no seu modo de acção e no regime das lutas que proponham ou animem. É uma longa, muito longa revolução - o que não quer dizer que não possa, em certas condições, ser mais rápida do que pensamos, mais rápida até do que o nosso pensamento. Do qual, seja como for, não podemos nem devemos - nem mesmo nessa feliz eventualidade - abdicar.

Zé Neves disse...

ei, miguel, por certo. é o meu lado "comentadeiro" :)

Anónimo disse...

O MS. Pereira- pese todo o seu virtuosismo e inteligência - costuma ,nestes últimos dias, andar a pensar muito " ao lado ", como dizia o C.Castoriadis... Com todo o meu empenho solidário, sem spleen de espécie algum, deixei bem claro que para se ser reformista é preciso ser-se muito pouco sofisticado. O que, felizmente, não se aplica, de forma alguma, ao nosso libero maestro Z. Neves. Niet

Miguel Serras Pereira disse...

Niet, não foi aquilo a que replicas que eu disse. Mas não estou de acordo, seja como for: pode ser-se reformista e extremamente sofisticado, a sofisticação extrema pode até mesmo ser um ardil do reformismo - ou, em mais erudito, uma astúcia da razão reformista.
Só que estes pormenores correm o risco de nos desviar do tema em debate, não te parece?

E, como cantava o Zeca, "já minha avó me dizia / Olha que a sopa arrefece"

Salut!

msp

Isabel Faria disse...

Zé, aproveitando a deixa...aqui fica o apelo.
É que pelo que conheço das direcções do PCP e do BE (reconheço que muito mais desta última) eles precisam dum empurrãozeco...

Se estiveram de acordo, assinem...se não, pelo menos, continuemos a discutir como criar alternativas e em não nos contentarmos em ser eternamente, já de barbas brancas e bengala, oposição!

http://www.peticaopublica.com/PeticaoListaSignatarios.aspx?pi=P2011N8105

A. disse...

Se a esquerda se juntasse toda seria óptimo.mas duvido muito!
bjs

MAresta disse...

Parece-me uma excelente ideia. No actual contexto deveria pelo menos iniciar-se um processo de diálogo e de aproximação, sem preconceitos nem tabus. Lendo as declarações formais das forças de esquerda sobre o PEC, é evidente que a do PCP reflecte muitos anos de experiência e a existência de um programa concreto de acção - alguns insistem em chamar-lhe "a cassete". Por outro lado, a do Bloco evidencia falta de análise e falta de capacidade para concretizar, ou pelo menos para sintetizar num documento conciso as linhas gerais de uma política económica. Apesar disso, e porque ambos os partidos têm ideias e formas de abordar os problemas diferentes, mas que em certa medida se complementam, criar um cenário de consenso entre as forças de esquerda e os parceiros sociais seria uma forma de dar força a uma alternativa possível, e acima de tudo necessária e diferente.

J disse...

Com mais ou menos dúvidas, assinar a petição é que não será certamente prejudicial.
Por uma alternativa de Esquerda
http://www.peticaopublica.com/PeticaoListaSignatarios.aspx?pi=P2011N8105

Joana Lopes disse...

Realista ou não, são achegas como a do teu post, que são agora necessárias, Zé.

fresquinho disse...

http://rupturafer.org/index.php?option=com_content&view=article&id=212:unidade-da-esquerda-contra-alternancia-ps--psd&catid=86:nacional&Itemid=537

James disse...

Opinião «Fraquinha»: não basta juntarem-se cores e gostos, convibha também ter algumas ideias exequíveis e mobilizadoras...