15/03/11

Um post do Rui Tavares em torno da questão das "vias" que têm vindo a ser debatidas no Vias e não só: "Ainda os reformulocionários"

Quando há uns tempos, o Zé Neves aqui publicou um post em que discutia, entre outras coisas, as propostas reformulocionárias que o Rui Tavares expusera numa crónica do Público, levando a que se esboçasse um debate, que infelizmente não teve continuidade, em que o Vítor Dias e eu próprio também interviemos, resolvi desafiar o Rui a escrever um texto para o Vias, abordando algumas questões de fundo levantadas pelo post do Zé e pelos comentários a que deu lugar.
Embora com algum atraso — devido a razões ponderosas que me apresentou, mas não vale a pena aqui referir - e já depois de publicada nova crónica no Público sobre o mesmo tema, o Rui acaba de me enviar o seguinte texto, que, funcionando como introdução e resumo dos pressupostos das suas posições, continuam a poder servir de ponto de partida.

Ainda os reformulocionários

Escrevi a crónica aqui abaixo [ler aqui] a pensar numa conversa entre o Zé Neves, aqui no Vias de Facto, e o Vítor Dias no Tempo das Cerejas. Imodestamente, acho que ela (como a anterior, que se chama simplesmente "Os reformulocionários" e que está no meu blogue) toca em alguns pontos importantes para a esquerda de hoje em dia, que precisa de se reencontrar com a sua natureza de "aliança dos muitos" ou "aliança das pessoas comuns" — aquelas que não são ricas nem poderosas, enfim. Pontos esses: os laços de solidariedade entre trabalhadores, gerações, indivíduos diferentes; a constituição de alternativas concretas à "maneira como as coisas se fazem"; a superação da dicotomia entre um reformismo que está, por agora, falido, e um revolucionarismo que tem dado, com alguma frequência, frutos autoritários; a identificação de que ambos (reformismo e revolucionarismo) prometem austeridade e autoridade agora para emancipação depois; e a grande questão: como colocar a emancipação na agenda desde o início? — etc.

Entre estas várias coisas (que para o incauto correm o risco de parecer gasosas) há uma muito concreta. E essa, parecendo comezinha ao incauto, tem muito de idealista e quase espiritual. Como pode a esquerda reconstituir a base de apoio que estabeleceu na viragem entre o século XIX e o século XX e que ainda é a que lhe vai dando algum gás hoje, em particular nos sindicatos? Mas como pode fazê-lo em condições que são hoje muito diferentes, de precariado, globalização, e redes sociais assentes na internet? Resposta: pode fazê-lo como fez então: dando razões às pessoas para acreditar. Essas razões são, de forma não exaustiva: soluções concretas, laços de solidariedade, vitórias. E dou exemplos concretos, uns macro, outros micro.

Espero que gostem [da crónica] e tenho esperanças de que isto possa fazer debate.

Uma nota: o Vítor Dias, que é habitualmente um blogger atento e perspicaz, anda completamente obcecado com um tema menor nesta conversa, a saber: se eu trato bem ou mal o PCP. Na primeira crónica era porque havia uma expressão como "...todos os partidos, da esquerda à direita, devem estar a consultar o comité central ou a agência de imagem". Uma figura de estilo, evidentemente, e muito mais cruel para a direita do que para o PCP, a não ser que o Vítor Dias tenha problemas com o Comité Central (coisa que não lhe desejo!). Na segunda crónica porque descrevi, com rigor, que os iniciadores da manifestação a convocaram sem pedir licença aos partidos, sindicatos e associações. O Vítor Dias interrompe para dizer "o PCP é diferente!", "o PCP é estruturalmente democrático!" (parafraseio). Caro Vítor, isso são opiniões, e também tenho as minhas, mas tem mesmo vontade de ter a discussão em termos tão estreitos? Se eu escrever aqui sobre o Japão, vai dizer-me que o PCP não provocou o sismo?


8 comentários:

João Valente Aguiar disse...

Rui Tavares,

você é um tipo inteligente e o debate que diz querer promover parece-me salutar. Contudo, quando você equipara o directório dos partidos da direita (PS, PSD e CDS) com o Comité Central isso é estar a querer dizer que as instâncias de poder do capital são mto aproximadas das do PCP. Ora, para quem diz querer um debate das esquerdas isso é um contra-senso. Esperemos é que isso não se torne num senso, num sentido do contra o debate com o PCP para a construção de alternativas à esquerda do poder dominante.

Cumprimentos

Niet disse...

Os textos do Rui Tavares marcam uma enorme diferença face ao síndroma de politiquice profissional em que se embrenharam os líderes em colectivo do BE.
A emancipação e a solidariedade de todas as classes em luta - leitmotv central da argumentação de R. Tavares- constroem-se sobretudo e também denunciando a estrutura burocrática/piramidal dos partidos tradicionais da esfera politica,incentivando, com rigor e audácia a destruição da separação entre políticos e eleitores, governados e lideres que, implacavelmente, se insinua e irá adaptar no correr do tempo os partidos à ordem da dominação capitalista mais implacável e destruidora. De qualquer modo, a reflexão de Rui Tavares ainda está longe de suscitar grande entusiamo nas franjas autonomistas, pois isso implicará que se perfile contra a lógica real da instituição da sociedade interclassista em que vegetamos. Niet

Anónimo disse...

Eu gostei muito do post. Repesquem a ideia do Miguel Madeira no artigo do Le Monde (sobre a criação de moedas locais) e tragam a debate ideias sobre mutualismos vários. E quem diz debates diz discursos de megafone na mão, nas ruas, durante as próximas manifestações laicas, apartidárias e pacíficas. Repesco o que disse ontem: os partidos de esquerda não o farão, e se o fizerem haverá muita gente a não se identificar com essas causas, automaticamente.

VÍTOR DIAS disse...

Sobre a nota de Rui Tavares:

1. Eu tenho o direito de nos textos dos outros escolher as partes ou temas que mais me interessam e se R. Tavares acha que escolhi uma questão menor eu respondo-lhe que escolhi uma questão que considero grossíssima do ponto de vista de cultura democrática.

2.O Rui Tavares, em vez de me citar, resolve parafrasear-me, como caminho mais directo (e mais indecente, diria eu) para deturpar o que realmente escrevi.
Se eu algum dia, por absurdo,eu lhe fizesse o mesmo calculo quanto ele gostaria e apreciaria.

3. Por mim, confio que os leitores que releiam os meus «posts» recentes sobre afirmações de Rui Tavares e os compaginem com esta nota do mesmo autor rapidamente recenseiem a quantas coisas ele não respondeu e em quantas precipitações e ligeirezas não foi capaz de dar a mão à palmatória.

rui tavares disse...

Caro Vítor,

Não pensei causar-lhe tal agastamento. O Vítor não me disse que as paráfrases fossem incorretas. Quanto ao resto, já algumas vezes comentei no seu blogue "dando a mão à palmatória" sobre erros que acertadamente me apontou. Não terá sido de todas as vezes, porque o tempo não dá para tudo, mas enfim.

O que lhe quero dizer é o seguinte. Quando estamos a falar de precariado, emancipação e democracia, parece-me estreito ficar a discutir só PCP, PCP e PCP. Ainda por cima quando, na verdade verdadinha, eu nem sequer ataquei o PCP (uma referência ao comité central e outra aos partidos não me parece grande coisa por aí além). Vai desculpar-me mas parece um daqueles casos em que quem quer ver porcos até as moitas lhes roncam.

VÍTOR DIAS disse...

Caro Rui Tavares:

Pensei que se intuia, mas se não, então digo-lhe agora: as suas paráfrases são totalmente incorrectas, sem fundamento e objectivamente deturpadoras do que eu escrevi.

Pela mesma razão que não faz nenhum sentido que tenha agora vindo afirmar que « Quando estamos a falar de precariado, emancipação e democracia, parece-me estreito ficar a discutir só PCP, PCP e PCP.»

É QUE, CARO RUI TAVARES E CAROS LEITORES, NO CORPO DO MEU SEGUNDO POST SOBRE A SUA SEGUNDA CRÓNICA NEM UMA FEZ FALEI DO PCP.
É ver ou tirar as dúvidas aqui em http://tempodascerejas.blogspot.com/2011/03/desculpem-la-outra-vez-rui-tavares.html

Miguel Serras Pereira disse...

Vítor Dias,
claro que você é livre de privilegiar e ler em voz alta preferencialmente as passagens que entender dos autores que entender. Reconhecendo-lhe, contudo, esse direito, gostaria de lhe fazer notar que se tem limitado nas suas intervenções de hoje a discutir uma nota do texto do Rui Tavares, uma observação feita en passant e à margem do essencial da sua (dele, Rui Tavares) proposta "reformulocionária", bem como das questões importantes e afins sobre as quais V. há tempos interpelava o Zé Neves.
m linguagem clássica, se o objectivo é a democratização revolucionária do poder político (sob as suas formas governamental e económica, etc.) e, por conseguinte, um regime de exercício do poder igualitário e igualitariamente participado, que supere a sociedade de classes, qual o papel dos partidos, quais as suas relações com a auto-organização dos trabalhadores e movimentos populares? As organizações de militantes deverão ter por vocação o exercício do poder político, a tomada do poder, ou antes a proposta e a intervenção nas acções em vista da construção de outro tipo de poder? Bem vê, são questões fundamentais e que podem e devem ser discutidas desde o início se não quisermos avançar ao acaso ou apostar no movimento pelo movimento.

Seu leitor compenetrado

msp

joão viegas disse...

Enfim,

Mais uma conversa que começou interessante e que se perdeu no diz-que-disse polémico em detrimento do essencial.

Quanto a mim (que sou mais da casta reformadeira dos Tavares, admitindo embora que esta postura tem limites), gosto da ideia da reformuloção, e o que gosto particularmente nessa ideia é que a acho perfeitamente adaptada aos tempos que correm porquanto :

1/ O nucleo da esquerda, que é o realismo, exige que as propostas politicas se afiram pelos resultados que alcançam. Revolucionarios e reformistas de esquerda não discutem objectivos, discutem meios.

2/ A alternativa entre reforma e revolução é uma alternativa, e não um dilema. O reformismo sem pressão popular perde o rumo. A revolução sem clareza acerca dos objectivos a atingir e a consolidar não pode ter nenhuma eficacia.

3/ A crise politica, a de hoje, as de ontem, as de amanhã, revelam isso mesmo : se existirem objectivos concretos num protesto (exemplos meramente hipotéticos : regularização retroactiva dos falsos recibos verdes com reconstituição dos seus direitos sociais, penalização das fraudes ao fisco e à segurança social praticada pelas empresas) tornando visivel e palpavel a alternativa, então o poder - o nacional, mas também o europeu - é que se vê confrontado com um dilema : ou vai a bem (reforma), ou vai a mal (revolução).

As melhoras...