18/03/11

Quando o ridículo mata

Vai para aí grande alarido, nomeadamente no 5dias e Arrastão, sobre a intervenção de países terceiros no conflito líbio. Na tentativa de justificar o efectivo apoio à matança com que Kadhafi se tem deliciado, uma das mais ridículas e incongruentes afirmações é a de que a Líbia é um país soberano. O ridículo desta afirmação recai sobre aqueles que a fazem assumindo no processo que apenas o governo dum dado país tem legitimidade para decidir sobre uma intervenção de terceiros nesse país. É ridícula em geral, porque pressupõe que um grupo de pessoas que se auto-intitula de governo tem mais legitimidade que os governados, o povo, mesmo que claramente submetido a uma ditadura feroz, para decidir, e em particular no caso líbio, porque efectivamente, neste momento existem dois grupos que se auto-intitulam de governo líbio. E o governo no qual não participa Kadhafi apoia a intervenção de terceiros na Líbia. Onde está então, exactamente, a violação de soberania? Estranhamente, estas mesmas pessoas tão preocupadas com questões de soberania, habitualmente não consideram o direito de propriedade, e bem, como algo sacrossanto... Será que defenderiam a não intervenção da polícia numa propriedade de Kadhafi por exemplo em Portugal, onde estivessem a ser torturados uns seus detractores?...

Quanto à incongruência, ela cola-se àqueles que simplesmente defendem, aparentemente, o não-intervencionismo. Mas isso quer dizer exactamente o quê?! Que ninguém, a não ser que tenha passaporte líbio, e/ou viva no país à mais de X anos, e/ou descenda de Y gerações de líbios, tem direito a intervir no conflito? Aconteça o que acontecer? Que a nossa empatia com um outro ser humano deve parar na fronteira?! Vou repetir: numa fronteira?!

Em paralelo, aparece a acusação de hipocrisia das potências ocidentais, e a acusação de interesse no controlo dos recursos naturais líbios. Primeiro, mais do que os hipócritas dizem, o que importa é o que efectivamente fazem. E a destruição do equipamento militar que venderam ao ditador líbio é o que podem fazer para impedir que os seus actos origem ainda maior perda de vidas. Segundo, se as potências ocidentais estivessem efectivamente interessadas em (continuar) a controlar os recursos naturais líbios, bastava fecharem os olhos aos actos de Kadhafi, ou até aproveitarem a ocasião para lhes venderem mais uns aviões e tanques. É que parece que há muita gente que de repente se esqueceu que Kadhafi já se tinha transformado num "lacaio do imperialismo", colocando a exploração dos seus recursos naturais principalmente nas mãos de empresas ocidentais (como a ENI) e fazendo fartos negócios com os países do "arco imperialista" como Portugal.

Finalmente, faltam-me as palavras para aqueles que defendem que uma intervenção de terceiros vai prolongar o conflito na Líbia. Para hipocrisia já basta: digam-no então abertamente - preferimos a calma dos mortos, dos enterrados sob as lagartas dos tanques, à esperança da revolução.

12 comentários:

Ana Cristina Leonardo disse...

O khadafi é que não lê o Teixeira; se lesse, nunca teria cedido vergonhosamente ao ultimatum das forças imperialistas

RedBloc disse...

À tantos anos, melhor...
Há tantos anos oiço este estafado argumento, que justiça seja feita, é bastante válido.
Pena que os tais, somente o achem válido quando lhes dá jeito, que é o mesmo que dizer, quando à (perdão, lá estou eu outra vez), quando há outros interesses tão facilmente descortináveis.
Barheim, Sahara Ocidental,Iémen e tantos outros, onde em alguns casos a actuação da tão preocupada comunidade internacional é precisamente a oposta, com um asqueroso apoio aos regimes ali em vigor.
Que os donos do mundo e do petróleo sejam hipócritas e demagogos na defesa dos seus interesses, consigo entender.
Que tantos tontos, embora bem intencionados, de imediato se perfilem no horizonte a apoiarem tão cretinas teses e actuações, não o posso aceitar, ainda para mais quando o fazem acusando implicitamente outros de falta de humanismo.

RAA disse...

A esquerda soberanista, ah ah!
A patetice bloquista, que não se pode levar a sério; e as moçõezinhas dos funcionários do pc (estas para serem levadas muito a sério): sempre a lenga-lenga do costume, pela paz, a paz dos cemitérios, é claro, no respeito internacionalista pela soberania do povo líbio.

Pedro Viana disse...

RedBloc, pelo que percebo defende a intervenção de terceiros em conflitos ditos "internos", em apoio a povos oprimidos. Clama contra a hipocrisia ocidental que escolhe quem apoiar em função dos seus interesses próprios. Concordo. Mas, como afirmei, mais do que os hipócritas dizem, o que interessa é o que efectivamente fazem. E se o que fazem vai de encontro às aspirações de povos oprimidos então não vejp porque devemos deixar morrer essas aspirações sob as botas de ditadores apenas devido ao desconforto de algumas consciências em se verem, efectivamente, do mesmo lado a quem se habituaram a criticar. Gostava de ver quão desconfortáveis essas consciências se sentiriam por ver um polícia impedir que alguém os assaltasse, ou pior. Será que lhe pediria para não intervir?...

A falta de humanismo cola-se a quem defende o não-intervencionismo em face do assassínio. É óbvio. Pode-se discutir como intervir, mas nem é isso que vejo ser dito. É mesmo não-intervencionismo, em qualquer circunstância, sempre.

Eu até gostava de tivesse sido possível evitar a intervenção militar directa das forças armadas de países terceiros na Líbia. Armando os rebeldes com material defensivo, como material anti-aéreo e anti-tanque. Mas, infelizmente, é demasiado tarde. Sem o tipo de intervenção acordado na ONU, os esbirros de Kadhafi estariam dentro de dias a escavar uns grandes buracos para encher com a carnificina que preparam para Benghazi.

Diogo disse...

Caro Pedro Viana,

Vejo alguma ingenuidade nas suas palavras. Será absurdo imaginar que existe uma potência estrangeira por detrás dos revoltosos? E, se houver, seria a primeira vez?

Anónimo disse...

Li agora num post de la Rue89 que é a Arábia Saudita que arma os revoltados líbios. Velha animosidade " real ": Khadaffi tinha pago um atentado contra o rei Abbdullah Saoud em 2003...Niet

Miguel Serras Pereira disse...

Post exemplar e corajoso, Pedro.
Grande abraço para ti

miguel (sp)

Pedro Viana disse...

Caro Diogo, não sei se alguns dos revoltosos são apoiados ou foram incitados de algum modo por "potências estrangeiras". Ou pela Al Qaeda. O que sei é que combatem um regime ditatorial, detestado por uma parte muito significativa do povo que oprime, como facilmente se pode constatar pelas imagens de júbilo nas zonas libertadas e pela necessidade que Kadhafi teve de massacrar aqueles que levantavam apenas a sua voz contra ele. Numa situaçao de desespero, de ameaça iminente à integridade física, não se olha a quem nos ajuda. Só mesmo comentadores bem instalados no seu sofá é que se podem dar ao luxo de aconselhar aqueles que se revoltam colocando em perigo a sua vida a rejeitarem ajuda vital para a sua sobrevivência, venha ela de onde vier.

RedBloc disse...

Caro Pedro Viana

Para além de tudo quanto estas sublevações e consequentemente legitimadas intervenções escodem, existe algo ao qual dificilmente um juízo crítico escapará.
A frieza dos números resultantes da contabilidade pós-intervenção, a qual na esmagadora maioria das vezes é substancialmente mais dramática e agoniante.
Vastíssimos exemplos poderiam ser aqui enunciados. Sem esquecer também que na maioria das vezes não é a democracia que se impôem, mas sim outra qualquer coisa que serve para acentuar sentimentos de revolta das populações e nesta região em particular, a eternização de um sentimento de humilhação daqueles povos, relativamente ao mundo ocidental.
Num exercício de mero pragmatismo. Ganharemos todos, enquanto humanidade, com estas cretinas intervenções militares?

joão viegas disse...

De um ponto de vista juridico (que até nem interessa nada, pois não ?) não acho ridiculo afirmar-se que a Libia é um pais soberano.

Em contrapartida, ja acho mais preocupante esquecer que, por definição, a soberania não exclui que um Estado seja obrigado a respeitar o direito internacional...

Sera o BE, por acaso, favoravel a que se mude a constituição para abrogar a norma que diz que o Estado Português aceita o direito internacional, ou aquela que diz que Portugal reconhece o direito dos povos à insurrreição contra todas as formas de opressão ?

Miguel Serras Pereira disse...

Caro Pedro,
lamento dizê-lo, mas o "Diogo" é um negacionista contumaz (basta visitar o blogue da criatura) e o que pretende aqui sugerir é, segundo toda a verosimilhança, que a "judiaria financeira" ou qq. coisa do género se quis desfazer de Kadhafi, por este ser um obstáculo para o seu desígnio.
Não percas o teu fluente latim com interlocutores desta laia.
Claro que, quanto ao fundo da questão, há sempre interesses que tentam aproveitar-se de tudo o que mexe (a Alemanha do Kaiser da Revolução Russa de 1917, por exemplo). E depois? Devemos fiar quietos por tão pouco?
A derrota de Kadhafi será sempre uma derrota de Berlusconi & Cia, ainda que a oligarquia tente agora reciclar a sua hegemonia sob outras formas, que, ao lado de quem quer a liberdade e a luta contra as desigualdades no Médio Oriente, devemos combater aqui - mantendo os actuais governos da UE sob pressão.
Ou será que o facto de em 1974 boa parte das oligarquias liberais dominantes entender que o regime de Marcello Caetano era um anacronismo e um empecilho e ver com bons olhos a sua substituição por um regime do tipo que existia noutros países da Europa Ocidental - será que esse facto justificaria a denúncia do 25 de Abril como um golpe de Estado reaccionário, à semelhança do que sustentou então o MRPP?

Abraço

miguel (sp)

Anónimo disse...

Isto há coisas do Diabo: Alain Juppé, ministro dos Negócios Estrangeiros francês, acaba de
declarar na France/2, Jornal da Noite, que os EUA iriam participar na multi-ofensiva aérea contra a Líbia. Eu tinha percebido- através de jornais reputados, Tv´s e blogues- que o Exército americano tinha ficado de fora do baralho. O Médio Oriente- se Khadaffi vender cara a derrota- vai ficar em muitos maus lençóis e a Primavera Árabe, como é evidente, seriamente enfraquecida. Niet