22/03/11

Iniciar a Luta Final

A minha posição em relação aos ataques em curso é esta: sou contra. Sou contra o ataque do regime líbio aos revoltosos. E sou contra o ataque de outros regimes ao regime líbio. Mais ainda: não sou mais contra um ataque do que sou contra o outro. Isto é, não estabeleço prioridades tácticas com base no pressuposto de que é mais urgente derrubar Khadaffi do que não apoiar Obama ou vice-versa. Não se trata, aqui, de reclamar uma posição pacifista. Trata-se de não escolher entre, por um lado, a oposição do regime líbio ao imperialismo norte-americano e, por outro, a oposição de revolucionários líbios ao regime líbio. É tão urgente acabar com a ditadura de uns como é combater o imperialismo de outros.

Havia um princípio que dizia: “nenhuma guerra entre as choupanas, nenhuma paz com os castelos”. O lema foi actualizado para a época contemporânea na fórmula “nenhuma guerra entre povos, nenhuma paz entre classes”. Em inglês diz-se "no war but class war". Em qualquer dos casos, das choupanas de ontem aos castelos de hoje, eis um excelente ponto de partida para construirmos um programa político para lidar com o que se passa na Líbia como com o que se passa na Conchichina. Por certo que sei (ainda não estou louco) que a guerra civil líbia não é simplesmente uma guerra entre classes e que a guerra da ONU contra o regime líbio não é simplesmente uma guerra entre Estados nacionais. Por certo que sei que provavelmente estamos perante uma situação que nos obrgia a traçar uma diagonal sobre aqueles pares de opostos: a guerra civil líbia tem uma dimensão étnica que a torna impensável enquanto expressão pura do conflito entre classes (ou entre ricos e pobres, ou ditadores e democratas) e a guerra da ONU ao regime líbio tem uma dimensão política que a torna impensável enquanto expressão pura de um conflito entre povos. Este livro seminal ajuda-nos a perceber, aliás, que encontramos sempre mais situações híbridas do que situações facilmente arrumáveis num ou noutro extremo daquela oposição.

Mas se o diagnóstico confronta-nos com o hibridismo entre classe e nação, é também possível encontrar situações de claro antagonismo. Os deputados que recusaram votar em apoio aos créditos de guerra, no contexto da I Guerra Mundial, são a esse respeito, hoje ainda, protagonistas de um gesto exemplar. E mesmo que assim não fosse, diria que qualquer posição política terá que ser fundada na hipótese "no war but class war" (classe ou outro nome qualquer que sinalize uma fractura social entre quem tem e quem não tem, que se diz que pode e quem se diz que não pode, quem é e quem não é).

Isto tudo para dizer que tenho acompanhado os argumentos do Miguel Serras Pereira, do Rui Tavares, do Rui Bebiano, do Pedro Viana e do Daniel Oliveira sobre este assunto. São argumentos diversos, mas que talvez partilhem esta ideia: a guerra da ONU contra o regime é necessária para que na Líbia continue a ser possível o conflito entre a ordem de Khadaffi e a revolução em curso. Quem os critica, como o Nuno Ramos de Almeida, argumenta, entre outras coisas, que o meio necessariamente conduzirá a outro fim. E eu concordo com esta crítica. Uma coisa é abdicarmos de um moralismo pacifista (como o que o Rui e o Daniel por vezes utilizam na hora de criticar os anarco-autónomos que atiram pedras à polícia…) que diz que se queremos a paz teremos que ser sempre pacíficos. Outra coisa é recorrermos à guerra para impormos a paz. Isto é, não sou a favor que deixemos de pensar os meios necessários para chegar aos fins, mas acho que não é admissível uma situação em que os meios contradizem os fins.

É tempo de condenar sem reservas os bombardeamentos em curso. Tanto os bombardeamentos do regime líbio sobre populações, como os bombardeamentos de regimes estrangeiros sobre populações. Quem não condena terá que necessariamente dar início a uma discussão sobre o facto de as 60 ou 600 vítimas provocadas pelos bombardeamentos dos regimes estrangeiros “compensarem” ou não as 600 ou 6000 vítimas provocadas pelos bombardeamentos do regime líbio. Quem for por aqui, não trilhará os mesmos caminhos anteriormente explorados pelos defensores do conceito de “danos colaterais”?

À esquerda temos que saber construir uma relação mais virtuosa entre meios e fins. Para esta relação, é importante libertarmo-nos de dois tipos de posicionamento, que assim classificaria: o anti-imperialismo dominante, que contra toda e qualquer forma de acção supranacional vem falar da soberania nacional (é aquilo para que tendem muitas posições próximas do PCP, mas também, surpreendentemente, um certo trotsquismo como o dos nossos amigos da Rubra); e um voluntarismo universalista, como o que, para acabar com as nações, propõe simplesmente fazer tudo como se elas não existissem. No caso concreto, o problema do anti-imperialismo dominante é que parece privilegiar o combate à guerra contra o regime líbio em detrimento do combate à guerra do regime líbio contra os revoltosos. No fundo, o que lhe interessa é combater o mal do mundo que são os EUA. O problema do voluntarismo universalista, por sua vez, é que não pondera devidamente os riscos de partilhar o mesmo avião que as forças imperialistas. Para ele, não se deve perder a oportunidade de acabar já com Khadaffi, mesmo que isso implique correr o risco de fortalecer Obama.

Ora, é tão perigoso o socialismo que partilha a linguagem soberanista-patriótica com o centrismo e com a direita (do patriotismo eterno de Alegre ao patriotismo emergente de Louçã, intemediados pelo patriotismo consolidado de Jerónimo e Francisco Lopes), como o internacionalismo que apanha ou dá boleia ao imperialismo. Sendo que aqui para nada nos interessam as intenções; por certo que Louçã e Jerónimo não cairão nunca nos pecados do nacionalismo dominante e por certo que o Rui Tavares e o Miguel Serras Pereira jamais estarão do lado dos imperialistas. Que fazer? Discutir, discutir, discutir, sempre. Do meu ponto de vista, com um pressuposto unitário: do Rui Tavares ao Francisco Louçã, do Daniel Oliveira à Rubra, do Serras Pereira (de cujas posições me encontro mais próximo) ao Jerónimo, existe ainda muito em comum. Trata-se de fazermos deste "ainda" um "já". De preferência sem ser aos gritos. Não que gritar faça mal, mas porque torna-se difícil perceber, nesse registo, se estamos a ter uma discussão simplesmente moral ou se estamos a ter uma discussão moral e política, que é o que interessa.

E, se querem uma acha para a fogueira, diria que precisamos, sim, de um internacionalismo autónomo em relação às dinâmicas estatais, seja dos Estados anti-imperialistas seja dos Estados imperialistas.

Um internacionalismo fiel a um voluntarismo universalista, mas apoiado num movimento político e social de classe (ou multitudinário, ou populista, ou o que queiram que sinalize uma fractura social), autónomo da força dos Estados.

E um anti-imperialismo, sim, mas um anti-imperialismo que sabe que os Estados anti-imperialistas são anti-imperialistas face ao exterior na medida em que são imperialistas em relação às suas sociedades. Que destas emanem revoltas como a que assistimos na Líbia, é muito do que podemos desejar. E já agora que esses ventos cheguem ao norte do Mediterrâneo.

20 comentários:

Luis Rainha disse...

Um problema, Zé: sermos (ruidosamente se preciso) contra esses dois tipos de bombardeamento em curso só poderá ter algum efeito sobre o lado europeu/americano, que será aquele capaz de nos ouvir, enquanto opinião pública incómoda.
Já o Kadafi, esse nem nos ouvirá, quanto mais prestar-nos alguma atenção...

Miguel Serras Pereira disse...

Zé, a honestidade e inspiração radical do teu post são insofismáveis, mas não me parece que estejas a ver bem os diferentes aspectos da coisa.
O que julgo é que confundes demasiado rapidamente as Nações Unidas, que são uma formação de compromisso institucional, com um instrumento puro e simples do imperialismo: dizer que as grandes potências exercem um controle acentuado sobre as Nações Unidas é uma coisa, considerá-las um instrumento que tudo o que pode fazer é consolidar o imperialismo, sem contradições, é outra, muito mais diferente do que pode parecer (De resto, se as coisas fossem tão simples, como poderíamos protestar quando os EUA, por exemplo, boicotam ou não acatam certas resoluções das Nações Unidas? Ou achas que, quando assim protestamos,exigindo o cumprimento das disposições das NU, estamos a fazer o jogo do imperialismo, embora aparentemente o façamos em defesa dos palestinianos ou, há uns anos, contra o regime de apartheid na África do Sul?)
A seguir - e deixando de parte a ideia bizarra de que um tipo é "anti-imperialista" e defensor do igualitarismo e democratização da ordem global a partir do momento em que entra em colisão com os EUA -, não me parece mais contraditório exigir dos governos ocidentais que apoiem uma insurreição como a Líbia, que lhes impôs que deixassem cair o seu polícia Kadhafi, do que exigirmos aos governos que sofremos, e que fazem parte de Estados cuja natureza oligárquica e classista é evidente, que garantam direitos e liberdades, legislem sobre o trabalho, a segurança viária, a assistência médica, a defesa dos recursos naturais, etc., que cumpram a Constituição, e assim por diante.
Não havendo, pois, contradição performativa necessária entre uma posição global anti-oligárquica, apostada na mundialização da igualdade e liberdade, e a reivindicação de uma intervenção de apoio aos insurrectos líbios, sob a égide das Nações Unidas, às quais, de resto, diversas causas justas têm pedido apoio ou sanções contra abusos vários, a minha posição é a de subscrever, uma vez mais, as palavras de Miguel Portas e Marisa Matias, quando disseram: ""que a comunidade internacional impeça, por meios militares, qualquer tentativa de bombardeamento das cidades sublevadas pela força aérea do ditador. Se a situação se degradar e Kadafi optar pelo massacre da insurgência e das populações civis, esta possibilidade não deve ser posta de lado" porque "há momentos em que o pseudo-pacifismo de quem nunca foi pacifista se confunde perigosamente com a defesa do ditador. Esta atitude não é mais nem menos cínica do que a dos governos europeus que, debitando loas aos Direitos Humanos, apoiaram durante anos a clique de Kadafi". Só me afasto deles na medida em que considero que as condições que eles põem, como legitimando o tipo de intervenção a que se referem, já existem e já existiam no momento em que eles as enunciaram.
Sendo assim, o que importa agora é
[1] exigirmos que "o apoio aos insurrectos líbios não exceda o mandato das Nações Unidas e sirva efectivamente para os ajudar a abreviarem os dias da ditadura na Líbia — escapando às perspectivas de entrada no país de forças terrestres de interposição ou (co-)administração "provisória". Assim, uma vez garantida a no fly zone, a intervenção internacional deve limitar-se a manter a vigilância, abstendo-se de outras acções de combate.
"[2] O que não obsta a que nós, aqui, devamos continuar a exigir dos governos da UE e da própria UE que apoiem o campo dos insurrectos na guerra civil em curso (meios logísticos, armamento, assistência médica e sanitária, etc.)" [Cf. http://viasfacto.blogspot.com/2011/03/questao-libia-no-contexto-das-revoltas.html].
[3]Entre outras razões, porque tal me parece o melhor modo de tentarmos contribuir para o reforço da extensão das revoltas em curso no Médio Oriente e para as suas perspectivas de sucesso em termos que evitem a repetição de novas situações como a da Líbia.

Abraço grande para ti

miguel (sp)

Zé Neves disse...

miguel,

valorizo a diferença entre ONU e imperialismo norte-americano; assim como entre imperialismo norte-americano e governo norte-americano e entre governo norte-americano e EUA.

acho também que uma determinada concepção de anti-imperialismo (infelizmente, a que é dominante)tende a agir de acordo com o princípio o inimigo do meu inimigo é meu amigo. por isso tendo a recusar a fórmula "anti-imperialismo" tout court, como avanço no fim do post.

acho que o governo português deve expressar apoio à revolta líbia. mas isso não se traduz necessariamente em apoiar o ataque em curso.

mas o mais importante é que não acho que o nosso apoio deva depender da mediação do nosso governo e da diplomacia e das armas dos Estados. perguntas-me, mas então o quê? Bom, é uma pergunta tramada. Fazer manifs, comunicados, reunir fundos, criar brigadas internacionais. Tudo menos eficiente, seguramente, do que a intervenção militar dos Estados. Mas, ainda assim, uma experiência internacionalista sem mediação nacional.

abç

Pedro Viana disse...

O Luis Rainha resume bem a situação. Concordo com o teu post, mas na realidade só temos (muito limitada, mas temos) capacidade para influenciar os acontecimentos como terceiros, como membros da opinião pública dos países ocidentais. Na posse dessa capacidade apenas, advogar nada fazer (e efectivamente a única acção que teria e tem efeitos reais é o envolvimento militar dos países ocidentais) equivale sob o ponto de vista dos resultados a apoiar a repressão de Kadhafi. É que não há volta a dar. E se os fins, os resultados não podem justificar os meios, também o contrário é verdade: não podemos ignorar os fins que resultam de optarmos apenas por certos meios.

Mencionas o trabalho de Immanuel Wallerstein. Suponho que conheces este artigo recentemente publicado no esquerda.net:

http://www.esquerda.net/opiniao/l%C3%ADbia-e-esquerda-mundial

Já está um pouco datado, porque foi escrito antes da resolução da ONU, mas as conclusões mantêm-se. E o extracto fundamental é:

"A questão, portanto, não é uma intervenção militar ocidental ou não. A questão são as consequências para a segunda revolta árabe da tentativa de Khadafi de suprimir toda a oposição da forma mais brutal. A Líbia está abalada por causa das revoltas vitoriosas na Tunísia e no Egipto. E, se há alguma conspiração, é entre Khadafi e o Ocidente para desacelerar, até mesmo anular, a revolta árabe. Se Khadafi for bem-sucedido, estará a enviar uma mensagem a todos os outros déspotas ameaçados da região, dizendo que o caminho a seguir é a dura repressão, em vez de concessões."

Miguel Serras Pereira disse...

Zé,
1. também eu não pretendo que o tipo de intervenção - uma vez que o ultimato não foi suficiente -, implicando meios militares definidos, que se destinava a garantir a "exclusão aérea", substitua ou dispense outras e mais democráticas, ou autónomas, e menos prisioneiras da lógica "nacional", que citas. O que estava em jogo era o que o Miguel Portas, a Marisa Matias e, também, o Rui Tavares compreenderam e enunciaram. E tratava-se ainda de impedir que os interesses oligárquicos em estado puro deixassem Kadhafi liquidar a revolta, sair vitorioso da sua guerra civil, para criar uma situação na Líbia que poderia servir para uma intervenção bem mais conveniente ao imperialismo. Daí a importância que dou ao reconhecimento de um "governo provisório" do campo insurrecto e à declaração por essa "organização transitória" de um programa político mínimo para o país - passos que retirariam a representação da Líbia a Kadhafi.

2. Tanto as formas de lutas de que falas como as linhas a seguir que eu proponho pressupõem que a intervenção em curso seja, de facto, pontual e limitada e se limite a um exercício de vigilância depois de conseguida a instalação da "exclusão aérea" - mas pressupõem também o desenvolvimento de acções políticas aqui, dotadas de objectivos mais ambiciosos e menos "imparciais" do que os da operação desencadeada pelas Nações Unidas.

3. O nosso camarada Pedro, no seu comentário a este post, enuncia a outra grande questão, que eu próprio também indiquei. Por uma vez - digamos assim porque nem sempre concordo com tudo o que ele diz -, o argumento do Wallerstein é certeiro e merece ser ponderado passo a passo: "A questão, portanto, não é uma intervenção militar ocidental ou não. A questão são as consequências para a segunda revolta árabe da tentativa de Khadafi de suprimir toda a oposição da forma mais brutal. A Líbia está abalada por causa das revoltas vitoriosas na Tunísia e no Egipto. E, se há alguma conspiração, é entre Khadafi e o Ocidente para desacelerar, até mesmo anular, a revolta árabe. Se Khadafi for bem-sucedido, estará a enviar uma mensagem a todos os outros déspotas ameaçados da região, dizendo que o caminho a seguir é a dura repressão, em vez de concessões". Que é assim está à vista nas notícias que nos chegam do Iémen, onde o ditador ameaça os seus adversários com uma guerra civil - à semelhança do que outros se preparam para fazer noutros países.

Abraço

miguel (sp)

Ricardo Noronha disse...

Pedro, penso que os factos são suficientemente teimosos para desmentir esta parte do texto de Wallerstein:"E, se há alguma conspiração, é entre Khadafi e o Ocidente para desacelerar, até mesmo anular, a revolta árabe."
Parece-me que à boleia da revolta árabe se estão a bombardear várias cidades onde vivem árabes, não?
Tudo isto é muito mais complexo e temo que essa complexidade - que é no fundo a complexidade da formação social líbia e da natureza do regime que ali vigora - esteja a ser descartada em muitos dos argumentos que se elevam de um lado e de outro da barricada.

Miguel Serras Pereira disse...

Ricardo,
é de recear que o mandato das Nações Unidas esteja a ultrapassar a garantia da "exclusão aérea". No entanto, a esse respeito, as informações são pouco claras. O que parece certo é que, além de exigirmos que os termos da decisão das Naçoes Unidas sejam respeitados,nós, aqui - em Portugal e na UE - deveríamos bater-nos por algo mais do que soluções puramente negativas e pressionar os governos - não só os governos, mas também - nesse sentido. Alias, sem isso, o argumento do Wallerstein que, quanto a mim, mantém a sua pertinência, não teria grande sentiido. Seja como for, uma vez mais - e nisso creio concordar com o Zé -, a questão não se pode pôr em termos nacionais ou értnico-culturais. Claro que, excedam ou não as forças militares implicadas na intervenção o seu mandato - ao que devemos opor-nos, sem dúvida, sem hesitações -, a extensão e aprofundamento da "revolta árabe", ou, como prefiro, "mediterrânica", lançará sempre "árabes" contra "árabes", ou ranianos contra iranianos, ou… contra…
Bom, registo, à laia de magra consolação (mas é a que resta), que, no Vias, estamos a conseguir discutir o assunto sem "guerra civil".

Abraço

miguel (sp)

Anónimo disse...

"Em prol de um internacionalismo autónomo das dinâmicas estatais ", apoio incondicionalmente esta sua tese. A lógica da " super-operação " militar contra a Líbia vai " envenenar " todas as " revoltas " populares no Médio Oriente, Golfo e Irão.Quem disser o contrário,está a delirar... Os " insurrectos " libios são muito difíceis de caracterizar, sendo armados pelos egipcios e pagos pela Arábia Saudita, segundo relatos avalizados pela Imprensa mundial. E " rezemos " para que o comando das operações não caia nas garras da NATO, como tudo o indica, mais dias menos dia...Niet

Ricardo Noronha disse...

Bom Miguel, mas parece que neste caso em concreto a coisa começa a opor F16 a populações civis.
Acho que vai ser um equilíbrio difícil esse que tu sugeres.
Um abraço para ti também.

Miguel Serras Pereira disse...

De acordo, Ricardo. Independentemente do juízo que façamos sobre a decisão inicial e aprovada pelas NU, concordamos os dois que há riscos de a intervenção degenerar excedendo os termos do mandato.
Por isso mesmo, desde o início, sempre defendi que deveríamos exigir o apoio dos governos da UE, à margem da NATO, aos revoltosos. E acresce que a imposição pela NATO de um bloqueio naval - para além da exclusão aérea - impedirá o apoio tanto a Kadhafi como aos insurrectos, e invibializará que estes últimos - depois de garantida a "exclusão aérea" - possam ser apoiados como aliados "iguais" e não como dependentes ou súbditos.
Mas concordarás que organizar manifestações ou acções que se limitam a proclamar "Não ao bombardeamento da Líbia" ou "Não à agressão imperialista contra a Líbia" em nada ajudam as causas da liberdade e da revolta na região, servindo, quando muito, para "segurar" um Kadhafi promovido a combatente "anti-imperialista" e ao reconhecimento da sua legitimidade enquanto representante da Líbia.

miguel (sp)

Anónimo disse...

Santa ingenuidade Sr Miguel pseudo-democrata

http://www.rupturafer.org/index.php?option=com_content&view=article&id=211:abaixo-a-intervencao-imperialista-no-oriente-medio-e-norte-da-africa-abaixo-kadafi-e-todas-as-ditaduras-arabes-viva-a-revolucao-arabe&catid=106:medio-oriente&Itemid=546

Miguel Serras Pereira disse...

Anónimo das 20 e 34

não vejo por que razão me chama você "sr." e "pseudo-democrata".
1. Aceito a ideia de que é necessário combater tanto Kadhafi como o imperialismo. Leia com atenção os posts e comentários que aqui deixei sobre o assunto e verá que assim é.
2. Você eu discordamos na medida em que eu penso que devemos reivindicar o apoio dos revoltosos contra Kadhafi em termos que respeitem a sua independência e objectivos próprios (conquista de liberdade, direitos sociais, etc.) e que não devemos recuar - nos termos precisos em que o formulam Miguel Portas e Marisa Matias - perante a perspectiva de reclamar o uso de meios miliatres definidos e precisos, nos termos em que os revoltosos os aceitem, para impedir o seu esmagamento pela ditadura. Note que as potências ocidentais tentaram inicialmente defender Kadhafi (o nosso embaixador declarou que a situação não era comparável com a que se vivia no Egipto e afirmou que Kadhafi tinha o apoio da população, etc.) e só consideraram intervir quando a repressão deu lugar a uma guerra civil e a uma situação que tornou claro que Kadhafi já não podia controlar o país e a servir-lhes de polícia. Essas mesmas potências preparam-se agora para, se as deixarmos, não aplicar a decisão das NU, mas distorcê-la, de modo a tentarem controlar a sucessão do ditador. E é contra isso que devemos lutar - não contra a ideia de exigirmos aos nossos governos que apoiem com armamento, víveres e outros meios, os insurrectos, impondo-lhes que os reconheçam como "governo transitório" legítimo do país. Enfim, não vou repetir tudo o que disse hoje, ontem e nos dias anteriores sobre o assunto. Mas se V. quer discutir a minha posição, talvez seja melhor tentar compreendê-la em vez de me insultar. Não lhe parece?

Saudações democráticas

msp

rui disse...

muita parra. pouca uva.
queremos que a porra da ditadura do kadhaffi caia? ou NÃO? O resto, francamente, são os pés pelas mãos. Paleio burocrático.

Ricardo Noronha disse...

A questão, Rui, talvez seja para que lado cai. Até ver tudo indica que vai cair em cima da população.

Miguel Serras Pereira disse...

Bom, acabo de visitar pela primeira vez o blogue "Bidão vil" [ http://bidaovil.blogspot.com/ ] do bastante assíduo (sobretudo nos últimos tempos) comentador que aqui - e lá, no blogue dele - assina "rui".
E não me parece que venha a despropósito citar aqui excertos de um seu post sobre o que estamos a discutir:

"(…) dizem cobras e lagartos de um ditador e incensam qualquer movimento que se lhe oponha, mas desde que este seja "pacífico" e, sobretudo, desarmado e que conte com a benevolência do exército daquele para sobreviver.
No momento em que os opositores ao ditador pegam em armas, ai Jesus! assustam-se os prolixos produtores de "exigências" e proclamações inflamadas e é escrutinada ao milímetro a composição político ideológica dos grupos opositores para aquilatar se merecem realmente o generoso apoio que lhes prestam a partir da blogosfera ou se será preferível manter o ditador no seu posto.
Os revolucionários por correspondência exigem que a oposição ao ditador respeite escrupulosamente a "legalidade"! Querem revoltas armadas sim, mas desarmadas, e que o ditador seja "expulso" mas pelo seu pé, e quando achar conveniente!
Entre "anti-imperialismo", nem que seja nominal e mera palavra passe da ditadura para ganhar respeitabilidade internacional e a brutalidade que o regime corrupto exerce sobre os seus cidadãos, prevalece sempre o putativo "anti-imperialismo". A populaça que se lixe em nome da "luta mais geral".
Numa demonstração de inominável hipocrisia, ou no mínimo estupidez, "exigem" as condições mais absurdamente irrealizáveis para que se concretizem as suas próprias "exigências".
"No fly zone", sim, desde que nada se faça para a impõr, apesar de se saber que por definição, não há forma de impôr uma "no fly zone" sem utilização efectiva de força militar.
Esta gente pretende do conforto da civilização decadente a que dizem opôr-se, mas de que são produto acabado e fora da qual seriam incapazes de sobreviver, manter intacta a sua ridícula boa consciência, indiferente às consequências inevitáveis da revolta.
Querem-se em paz com a sua consciência "apoiando" os revoltosos e até apoiando medidas militares que os protejam.
Querem-se em paz com as suas conscienciazinhas opondo-se a qualquer acção que torne essas medidas efectivas, que só querem "efectivas" no papel". [http://bidaovil.blogspot.com/2011/03/doenca-infantil-da-estupidez.html].

Não se segue, parece-me, do que o rui diz que haja só duas posições pré-formatadas entre as quais todos tenhamos que escolher, sem mais deliberação ou debate. Mas segue-se que um juízo político, sendo contíguo e/ou interno à acção, deve definir uma posição que seja deste mundo, da qual se siga uma proposta de acção sobre as condições existentes, e não uma posição que só é possível na condição de espectador que entende não sair dessa condição.

Boa noite a todos

msp

Aldo Luiz disse...

O Texto é excelente, mas...
O fato é que eles, os banqueiros financiam um dos lados até que esteja suficientemente forte e pronto para uma guerra, depois financiam o lado oposto e deixam ambos se destruírem até ficarem sem recursos. A solução para ambos os oponentes saírem do fundo do poço em que são atirados é criar mais e mais impostos para satisfazer a ganância e a usura dos dominadores no cume da pirâmide de onde nos oprimem e exploram milenarmente.
"O mundo já está preparado para se submeter a um governo mundial. A soberania supranacional de uma elite de intelectuais e de banqueiros mundiais, seguramente é preferível à autodeterminação nacional.
Palavras de David Rockfeller em 1991.
POLÍTICOS ESTÃO AÍ PARA NOS DAR A ILUSÃO QUE TEMOS ESCOLHAS neste escravismo travestido de democracia.
Sinto muito, sou grato.

Pedro Viana disse...

Ricardo, é verdade que a parte do texto do Wallerstein que mencionas ficou entretanto desactualizada. Mas não afecta a posição fundamental de Wallerstein, sintetizada no parágrafo que mencionei. E devia dar que pensar a quem na Esquerda saca da etiqueta imperialista a propósito de qualquer acção dos EUA. Um império clássico, digamos do tipo Genghis Khan, nunca teria deixado cair um seu estado satélite quando para impedir tal bastaria nada fazer. Se os EUA fossem um império clássico, como o Wallerstein supôs no seu texto, teriam efectivamente se aliado a Kadhafi para manterem e estenderem o controlo que as empresas ocidentais detêm sobre os recursos líbios, para além de com isso enviarem um claro sinal a todos os seus estados satélites pelo mundo fora: podem usar dos meios que acharem necessários para esmagar qualquer dissensão interna, que nós nada faremos. Porque é que isso não aconteceu? Esta pergunta necessita de resposta, porque a resposta é crucial para compreender que tipo de império são os EUA. E um inimigo só se derrota quando o conhecemos em detalhe, pois é fundamental prever como vai reagir quando fôr confrontado. Mas infelizmente, muitos à Esquerda continuam presos a caricaturas fáceis daqueles que exercem o Poder. E por isso estão condenados a repetir sempre os mesmos erros.

"Parece-me que à boleia da revolta árabe se estão a bombardear várias cidades onde vivem árabes, não?"

Ricardo, não custa nada ser um pouco mais rigoroso. Quando se fala em bombardeamento de cidades, a imagem que automaticamente nos surge é de um bombardeamento indiscriminado, como o que por exemplo Kadhafi tem desencadeado sobre as cidades que se revoltaram. É realmente isso que achas que os EUA estão a fazer na Líbia? Eu diria que os EUA estão a bombardear alvos militares em "várias cidades onde vivem árabes", que não por acaso são cidades sob o controlo de Kadhafi.

"a complexidade da formação social líbia e da natureza do regime que ali vigora"

Bom aqui não percebo. Qual é exactamente a complexidade do regime libio que nos deve fazer pensar duas vezes? É uma ditadura que escolheu massacrar os que se decidiram a expressar contra ela. Parece-me irrelevante quais são exactamente as estruturas fictícias que utiliza para tentar esconder a sua natureza, sejam elas assembleias representativas, populares, tribais ou democracia directa. Talvez estejas a pensar no subitamente célebre tribalismo líbio. Não vejo qual pode ser a hesitação daí decorrente. Não me parece que um sistema ditatorial possa ser justificado como sendo o único meio de manter coesa uma sociedade tribal. Mesmo que efectivamente o fosse.

P.A. Lerma disse...

livro seminal?

semi-anal?

P.A. Lerma disse...

iniciar a luta final

a guerra para acabar com todas as guerras

Ricardo Noronha disse...

Parece-me que na citação do "Rui" e na resposta do Pedro se encontra precisamente aquele tipo de assertividade com pés de barro. Aliás, o texto do "Rui" é mais um sintoma de má-disposição do que qualquer outra coisa.
Enquanto estivermos a debater nestes termos, o debate permanecerá desinteressante.