11/07/10

Da "técnica da masturbação" segundo João dos Santos à "educação sentimental" segundo David Mourão-Ferreira

Num dos seus livros, que parafraseio de memória (deve ser O Falar das Letras), João dos Santos evoca a resposta do Miúdo, a quem o Adulto pergunta, depois de to ter ouvido declarar que já sabia o que tinha de fazer para ficar com a pilinha grande:
- Então como é que fazes?
- Penso - responde o Miúdo.

Talvez boa parte do desempenho ideologicamente deprimente dos partidários de não menos boa parte dos actuais combates fracturantes e politicamente correctos em curso no campo "sexual" tenha a ver com a ignorância, défice ou recalcamento, do pensamento sem o qual, diria João dos Santos,  não há técnica  de masturbação, para já não falarmos de relação erótica ou amorosa, que não seja pelo menos tão frustrante como a frustração da abstinência - furor que todavia não habites, como nos diz o último verso deste soneto de David, que aqui deixo à laia de até amanhã e boa noite para todos (perdão, tod@s).

EDUCAÇÃO SENTIMENTAL

Na janela mais alta de Lisboa,
és a ave chamada Todavia:
a que posta no céu não se desvia,
mas que perto do rio já não voa...


Hei-de ensinar-te, devagar (perdoa!),
a pressa com que Amor se pronuncia
e a conjugares a noite com o dia
quando o corpo do corpo se condoa...


Fecha os olhos, e voa! Mas não queiras
ao inferno do céu traçar fronteiras
nem ao céu do inferno pôr limites:


voar só vale a pena enquanto for
uma forma de amar além do amor,
furor que todavia não habites...

David Mourão-Ferreira

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