22/09/10

Os movimentos sociais e o BE

Andou pelo Spectrum - penso que já terá acalmado - uma discussão que não é da menor importância. Os termos da discussão saíram do eixo, é claro, e eu não pretendo voltar a colocar o debate nesses eixos, apenas dizer que é normal esse descambar e que não há que dramatizar a coisa e deixar escapar o essencial. Aliás, a exaltação e o descambar respectivo não deixam de sinalizar, em parte, que é essencial o que se discute e que é normal falarmos mais alto quando se discutem coisas que dizem respeita à vidinha diária de cada um. E a militância, diga-se, faz parte da vida quotidiana (nuns casos mais, noutros menos, é certo) quer dos escribas do spectrum e seus comentadores quer dos membros da juventude bloquista que replicaram aqueles.

A conclusão mais importante que retiro do debate é esta: 1) todos os militantes de todos os partidos têm tanto direito a participar em qualquer movimento, associação ou outra coisa qualquer que faça parte da sociedade civil (penso que ninguém colocou isso em causa); 2) os funcionários e dirigentes de um partido (e não estou a falar do dirigente da célula do BE de cabeceiras de cima ou do colectivo da faculdade xpto) têm todo o direito a participar activamente em movimentos, associações ou coisas do género, mas era bom que não o fizessem. E sobre isto lamento que não se tenha chegado a acordo. É que nem é preciso haver vontade de controleirismo (e na maior parte das vezes há) para que se perceba uma coisa tão simples como esta: um movimento dinamizado por funcionários de um partido terá sempre no funcionário (que tem a vantagem de ser pago para fazer política) um protagonista principal. Poderá ser que o protagonismo não seja no palco, mas nos bastidores, mas o problema não será menor por causa disso; por exemplo, o panfleto poderá não ter escarrapachado o nome do partido do funcionário, mas o grafismo acabará por falar nas entrelinhas.

O resto dos problemas - o Bloco ir buscar activistas aos movimentos e fazer deles funcionários - é a lei da vida e a esse respeito há que respeitar o mercado. Até porque o caminho inverso também é possível. Ou não conhecemos todos ex-dirigentes do BE (ou dos seus partidos fundadores) que abandonaram ou secundarizaram a actividade partidária em nome de um activismo de base? Já me lamentei, durante algum tempo, por ter feito parte de uma associação em que vários proeminentes activistas foram subitamente (na verdade, no quadro de um resultado eleitoral do BE surpreendentemente positivo) para funcionários daquele partido. Mas, sinceramente, hoje também vejo no horizonte a possibilidade de um movimento inverso.

Louçã na TVI

Ontem vi a entrevista de Francisco Louçã ao canal TVI 24. Brilhante, incisivo, combatente - até aqui, nada de muito novo. De novo, talvez, mas não completamente, a excessiva ênfase em si próprio e na sua opinião e na sua visão e no seu entendimento e por aí adiante. Nada que se compare, ainda, é certo, com Sócrates ou Passos Coelho ou Portas. E nada que o distancie radicalmente de Jerónimo. Mas algo diferente do que era há uns anos atrás. E sobretudo da fase do Bloco liderado por várias caras. Não por acaso, creio, o Bloco de Esquerda não tem líder, nem sequer secretário-geral, mas um coordenador, e não seria má ideia que o espírito do conceito se fizesse sentir mais vezes no discurso de Louçã. O seu brilhantismo retórico poderia, aliás, ser re-orientado nesse sentido, procurando construir um discurso - que não é fácil, bem sei - que não caia nem num "nós" homogeneizante (e, pior, não raras vezes ilusório) nem num "eu" indivdualista. Isto é, há o risco do brilhantismo de Louçã tender a lançar na sombra o resto do partido. (E sim, eu cá prefiro líderes fracos).

Na entrevista de ontem, de novo também, embora também não completamente novo, um certo tom patriótico. Se Manuel Alegre criticou os que colocam a ideologia à frente do interesse nacional, Louçã, presumo, pretenderá ideologizar o interesse nacional que Alegre representa. Mas que não se iluda: esse é um negócio em que não sairá ileso. E Louçã responder, a propósito dos constrangimentos externos à política económica portuguesa, que "isto é um país, Portugal é um país, Portugal tem uma história, etc." (cito de cor), é para mim algo bastante desmoralizador. Um pouco mais de trotsquismo não será pedir de mais.

Nota positiva, e final: de um modo mais claro do que em discursos anteriores, Louçã apresentou um discurso económico ao qual se podem fazer várias críticas a partir de um ponto de vista mais comunista, mais libertário, mais autonomista; mas um discurso que, tendo várias questões em comum com o do PCP, diferencia-se pela ausência de um imaginário tão marcadamente produtivista.

Nem mais nem menos

A propósito do voto contra uma proposta do BE, condenando as deportações ordenadas por Sarkozy, por parte da maior parte dos parlamentares do PS:

Sarkozy é o melhor aliado do governo português em Bruxelas. Foi isto que levou a direcção da bancada socialista a chumbar o voto de protesto pela deportação dos ciganos apresentado pelo Bloco de Esquerda, o que provocou grande divisão na bancada, com o vice-presidente Sérgio Sousa Pinto a votar ao lado do BE.
Entre perder um aliado na mesa do Conselho Europeu e tomar uma decisão que deixou o presidente da comissão de Direitos, Liberdades e Garantias "combalido", a direcção parlamentar do PS optou pela segunda. "Às vezes têm de se fazer coisas chatas", assume um responsável socialista, sob anonimato. "São conveniências políticas que não podem ser sempre entendidas", afirma.

É por aqui que passam a diferença e a oposição irredutíveis entre os que subordinam a liberdade e a igualdade democráticas e os direitos de cidadania ao que consagram como "interesse nacional" e os que não reconhecem legitimidade a interesses políticos que primem sobre a exigência de democracia. Nem mais nem menos: ele há "conveniências políticas que não podem ser sempre entendidas" senão por aqueles que governam os outros e, nessa qualidade, definem os "interesses nacionais" a que todos se devem subordinar, calando a boca, é claro, e respeitando o superior entendimento e a liberdade de acção das autoridades competentes. Exactamente como, há dias, o candidato Francisco Lopes explicou a propósito de Cuba e do modo de acção dos seus dirigentes.

Não comecem a servir água nesses jantares, não...

Manuel Alegre já se imagina presidente «do país mais velho da Europa». Embalado por este lindo sonho, ilustrou de seguida a importância que concede a alguns pormenores de somenos, parvoíces que só atrapalham quem quer chegar longe. Do alto do seu palanque, o Poeta denunciou os meliantes que «colocam a ideologia e os interesses acima do interesse nacional. É algo muito estranho e nunca visto.»
A ideologia é assim vista como um adereço manhoso, comparável aos interesses e quiçá ao mesmo nível das preferências futebolísticas. É uma bagagem nefasta, algo a descartar de imediato, mal se adivinhe no horizonte o vulto grandioso do Interesse Nacional. O que nos vale é termos o Grande Bardo para nos avisar da chegada de semelhantes momentos.

Uma campanha dos diabos

A Picador resolveu promover o mais recente romance de Bret Easton Ellis com um site que é, no mínimo, diferente. Trata-se de um videojogo para adultos meio tarados: vemo-nos no papel de um produtor que pode manipular, insultar ou explorar uma aspirante a actriz. No final, descobrimos qual a percentagem de diabrete que albergamos na alminha. Vá; experimentem sem vergonha, que é coisa cultural.

Ora aqui está, assim sim, actor e peça a casarem bem



(publicado também aqui)

21/09/10

Sabe o que é a Escola PS?


Clique para acreditar.

Via Alex Silvestre.

"Juden Raus! Auf nach Palästina" - "Judeus fora! Vão para a Palestina"

Slogan nazi dos anos 30 (ainda a propósito disto e disto).

Extremistas que amam Israel

Podem não ser os alucinados da Aryan Brotherhood; mas não deixam de corresponder, em quase todos os quesitos, à minha definição de malucos extremistas de direita. Acreditem ou não, os rebanhos cristãos mais literais nas suas interpretações bíblicas contam com Israel para apressar a segunda vinda de Cristo. E isto não se resume a meia dúzia de ratos de sacristia entretidos em masturbações supersticiosas: o apoio da comunidade evangélica americana a Israel envolve milhões de dólares e um incansável esforço de lobbying.
Se calhar, esta tribo até apoia mais activamente Israel do que muitos judeus americanos, de lealdades já diluídas por incontáveis casamentos com goyim e pela distância a que jaz um pequeno estado belicoso que nada tem a ver com as suas histórias familiares.

Boicote ao Estado de Israel no Festival de cinema Queer Lisboa 14


Na sexta-feira 17 de Setembro, dia da inauguração do festival de cinema Queer Lisboa 14, um grupo de activistas manifestou-se frente ao cinema São Jorge contra o facto de este festival ter aceitado um apoio da embaixada israelita.
Desde 2005, Israel encontra-se sob uma campanha internacional de boicote, à imagem do que aconteceu com a África do Sul no tempo do apartheid. Os êxitos desta campanha são numerosos, sendo um dos mais recentes a decisão do ministro dos Negócios Estrangeiros dos Países Baixos de cancelar a visita de uma delegação de autarcas israelitas, depois de ter descoberto que essa delegação integrava autarcas de vários colonatos da Cisjordânia.
As organizações promotoras* desta acção de protesto reuniram-se com os organizadores do festival, não conseguindo convencê-los a devolver o apoio recebido, como têm feito outros festivais de cinema em vários países. A aceitação do patrocínio de um Estado de ocupação colonial visado pela campanha BDS – Boicote-Desinvestimento-Sanções - é uma atitude política que torna a direcção do festival cúmplice do apartheid israelita.
Ao tomar conhecimento deste facto, o realizador canadiano John Greyson, distinguido no festival do ano passado com o prémio do melhor documentário, retirou o seu novo filme, que deveria ser exibido hoje no âmbito do festival. Abaixo, segue a carta  (traduzida por nós) que Greyson enviou à direcção do Queer Lisboa 14.
*Comité de Solidariedade com a Palestina - UMAR, União Mulheres Alternativa e Resposta - SOS Racismo - Panteras Rosa, Frente de Combate à LesBiGayTransfobia - Pobreza Zero – GCAP - Portugal Audiência Portuguesa do Tribunal Mundial sobre o Iraque - Colectivo Múmia Abu Jamal - Ass. Amizade Portugal-Sahara Ocidenta


Caro João

escrevi-te há uns dias, manifestando as minhas preocupações sobre o financiamento que o vosso excelente festival Queer Lisboa recebe da Embaixada israelita (bilhete de avião, envio de material impresso, etc.). Como sublinharam activistas queer, tanto palestinianos como portugueses, este financiamento viola o apelo de 2005 da sociedade civil palestiniana, que pede aos artistas e académicos para boicotarem o Estado israelita, em protesto contra a ocupação que prossegue.

Respondeste-me (e aprecio o teu esforço, sabendo como certamente estás ocupado!), que este financiamento é usado apenas para apoiar a participação de realizadores de filmes israelitas no vosso festival - não é usado para turismo ou branqueamento, ou para promover de qualquer modo o Estado israelita.
E no entanto ... não é precisamente isso que a PACBI (Palestinian Academic and Cultural Boycott of Israel) identifica como a cortina de fumo da "normalização", a ilusão do business-as-usual -- intercâmbio cultural "inocente" com o Estado israelita como forma de desviar as atenções da sua guerra em Gaza, do seu massacre da flotilha, da sua construção de novos colonatos? Receamos que o Estado israelita continue a proceder como um energúmeno pária, ignorando toda a pressão internacional, enquanto um intercâmbio cultural desse tipo continuar a recompensá-lo, emprestando-lhe verniz à sua alegação de ser um Estado pró-queer.
Dizes tu que simpatizas com as questões levantadas - e, na verdade o Queer Lisboa é a justo título reconhecido como um dos mais respeitados festivais queer do mundo, com a vossa notável programação passada e presente a atestar a vossa esclarecida visão do cinema queer, que destaca as nossas diversas vozes, as lutas globais e as aspirações de activistas.
Dizes que não há tempo para tratar agora desta questão - que a tua equipa se debruçará sobre ela uma vez que tiver acabado o festival deste ano. E, no entanto (embora eu possa certamente imaginar as circunstâncias específicas que vocês vivem), parece-me que do ponto de vista logístico é possível recusar HOJE o patrocínio da Embaixada israelita e encontrar uma fonte alternativa para pagar ainda o bilhete de avião em causa (Tel-Aviv-Lisboa, ida e volta, anda pelos 600 dólares).
Podemos trabalhar juntos para encontrar uma solução. Lembra-te que ninguém te pediu para cancelares a presença do filme ou do realizador - exactamente o contrário. O que te pedimos para cancelares é o financiamento do próprio Estado israelita. Isto é o que Ken Loach pediu ao Festival de Edimburgo em 2007, quando soube que eles tinham aceitado 33 libras do consulado israelita. Depois da devida ponderação, o festival concordou com ele e recusou o financiamento, encontrando outras fontes para cobrir os custos e alojar os seus realizadores israelitas. Não poderás tu fazer a mesma coisa'.
Eu senti-me muito honrado quando o meu filme Fig Trees recebeu o prémio para o melhor documentário no ano passado. Senti-me muito honrado quando vocês escolheram o meu filme Covered para o vosso festival deste ano. E contudo, não posso em boa consciência participar de um festival que (passivamente) ajude a branquear o Estado israelita, mesmo que indirectamente. Se para vocês não é possível recusarem este financiamento da Embaixada, então é com grande tristeza que tenho de retirar o filme Covered do vosso festival.
Este último ano foi palco de uma notável vaga de solidariedade queer para com a Palestina. Activistas queer como Judith Butler, Zackie Achmat, Sarah Shulman e Haneen Maikey pronunciaram-se, juntando as suas vozes às de grupos em Madrid, São Francisco, Toronto, Israel, na Margem Ocidental e agora em Lisboa, todos eles levando a cabo acções em apoio ao movimento de base BDS (boicote, desinvestimento e sanções), que é cada vez mais visto como a nossa maior oportunidade de contribuir para uma paz justa e duradoura na região. Junto com muitos outros, eu tenho a firme convicção de que nós, realizadores queer (e festivais queer) temos de cerrar fileiras e responder ao apelo dos nossos irmãos e irmãs da Palestina, protestando contra a violência de uma ocupação que atinge toda a gente, sejam gays ou heteros. Recusem o financiamento. Façam passar o chapéu para cobrir o preço do bilhete. Juntem-se a nós.
Sinceramente,

John Greyson

A grande bancada plural

O Gulag, em cada versão na sua maneira, de Estaline a Pol Pot mas sem excepção para amostra, foi o único sítio onde os comunismos alçados ao Poder não abdicaram do pluralismo. Pelo contrário, tentaram meter o máximo dele, do pluralismo, lá dentro. Incluindo, em excesso de zelo, muitos comunistas.

(publicado também aqui)

Habemos logo


(publicado também aqui)

Um comentador-candidato?



Está a passar as marcas do ridículo, resvalando já para a paranóia, a obsessão nas exigências múltiplas e constantes, para tentar enterrar o candidato, que este se pronuncie sobre cada pecinha do quotidiano político e partidário, aqui ou no estrangeiro. Aquilo é para eleições presidenciais ou uma prova de casting para concurso televisivo? Vá lá, embirrem mas tenham maneiras.

Serial killers no Afeganistão

Começo a convencer-me de que está mesmo em curso uma guerra civilizacional: a barbárie contra a decência, a sede de sangue contra a civilização, a carnificina contra a vontade de construir. E estamos a perder.
Gente que se droga antes de abater civis em excursões de caça. Malta que colecciona ossos e desmembra cadáveres das suas vítimas. Animais que espantam o tédio planeando crimes sem outros objectivos que não a procura de alguma animação.
Mas atenção, que isto não vem a propósito dos talibãs.

A extrema-direita, os judeus e Israel

Numa discussão nos comentários deste post (e também aqui), Luis Cardoso, escreve que "que nunca vi um partido de extrema-direita que fosse filo-semita, filo-sionista, filo-judaico, etc. O que me leva a tirar a conclusão que o anti-semitismo e a oposição ao estado de Israel é como que a pedra-de-toque do extremismo de direita" e que "julgo que o posicionamento perante os judeus e o estado de Israel é a prova definitiva do extremismo de direita, prova superada com distinção por Wilders".

Há uma certa circularidade nesta opinião (afinal, se um partido que seja pró-Israel ou pró-judeus não pode ser de extrema-direita, claro que nunca se irá encontrar um partido de extrema-direita filo-semita, filo-sionista ou filo-judaico), mas imagino que o raciocinio de LC seja algo como "como no último século os movimentos geralmente considerados de extrema-direita eram normalmente anti-semitas, podemos considerar o anti-semitismo uma marca da extrema-direita" (e aí já não é um raciocinio circular).

Mas será que não há mesmo uma extrema-direita pró-Israel? Eu até não poria o PVV holandês na mesma divisão que outros partidos usualmente chamados de "extrema-direita", como a FN francesa ou o PNR português (o PVV parece-me muito um partido "one-issue" sem grande construção ideológica por detrás), mas o que dizer, p.ex., do BNP britânico (um partido cujos estatutos até há pouco tempo não aceitavam não-brancos, e cujo o lider tem um passado de ligações aos neofascistas italianos), que recentemente também adoptou uma linha pró-Israel? Ou, recuando no tempo, de Xavier Vallat, o "comissário para os assuntos judaicos" do regime de Vichy, que iniciou a implementação das leis anti-semitas, que em 1936 disse que o governo de Leon Blum era os "talmudistas" a governar a França, mas que em 1967 organizou manifestações de apoio a Israel durante a Guerra dos Seis Dias?

Vamos pensar a questão de forma mais aprofundada - porque é que a extrema-direita não gosta dos judeus (afinal, com tantos grupos étnicos que há no mundo, porque é que foram escolher os judeus como objectos de ódio?); a mim parece-me que a resposta é simples: a extrema-direita normalmente é nacionalista, e tem muito a mitologia da "terra e dos antepassados" ("o solo e o sangue") - ora, os judeus, como um grupo espalhado por todo e mundo e com uma grande história de mobilidade (ela própria provocada pelos anti-semitas...) são a antitese disso, são o protótipo dos "cosmopolitas desenraizados".

Além disso, provavelmente como um resquicio da velha oposição entre "terra" e "dinheiro" (aristocracia tradicional vs. burguesia urbana), parte da direita mais radical tende a seguir uma linha de defesa da "propriedade sólida" (terras, fábricas, etc.) contra a "propriedade fluida" (dinheiro, títulos, etc.), com uma distinção entre os "bons capitalistas" (agricultores, industriais...) e os "maus capitalistas" (comerciantes, banqueiros, "especuladores"...). Ora, os judeus (em parte também por culpa dos anti-semitas...) dedicavam-se largamente ao comércio e à finança, ou seja, eram o protótipo dos "maus capitalistas"; além disso, entre os judeus que não eram banqueiros nem comerciantes (suponho que, apesar do mito, os banqueiros judeus fossem uma minoria entre a população judia), também havia uma grande proporção de "intelectuais", grupo também não muito apreciado por muita extrema-direita.

E onde é quero chegar com isso? Muito simples - todas estas razões só se aplicam aos judeus da Diáspora; não há nenhuma razão especial para a extrema-direita odiar os judeus de Israel: os israelitas não são "cosmopolitas desenraizados", não são uma etnia espalhada pelo mundo - pelo contrário, são uma comunidade nacional a viver no seu território supostamente ancestral; ainda por cima, Israel cultiva a imagem de uma potência agricola (e militar), em contraste com a imagem de comerciantes/banqueiros/intelectuais urbanos "decadentes" dos judeus da diáspora. Ou seja, o facto de alguém ser um defensor entusiasta de Israel não significa que não possa ser de extrema-direita; aliás, acho que alguêm até pode detestar os judeus da diáspora e defender Israel exactamente pelas mesmas razões.

Mais sobre a praxe

Agora no Aparelho de Estado.

20/09/10

O vírus da peste (2)

Na caixa de comentários deste post do Luis Rainha, o "anticapitalista" xatoo escreve: "Afinal, se procurarmos bem, encontraremos as raizes comuns dos semitas da peninsula Arábica com a tribo de Israel: são da mesmissima familia" - para explicar em termos raciais tanto as opções bárbaras e teocráticas do regime saudita como a natureza política desse mesmo regime e o seu alinhamento no tabuleiro internacional, ao mesmo tempo que as características e a natureza da "tribo de Israel".

Assim, o combate "anticomunista" e a destruição do capitalismo implica não a destituição de uma classe, mas a supressão fisica dos membros de uma etnia ou grupo de etnias que o seu património genético torna necessariamente agentes do capitalismo e do imperialismo "anticomunista". Como no nacional-socialismo de Hitler, à luta de classes e à transformação social substitui-se a luta das raças e a eugenia política.  São as "raízes comuns dos semitas da península Arábica" e da "tribo de Israel" que explicam que o regime saudita se prepare para ceder o seu espaço aéreo ao capitalismo internacional (comandado, segundo outras e múltiplas intervenções do xatoo por magnatas financeiros judeus).

Se isto não é advogar o exterminacionismo e a "solução final", não sei o que é.

O Tomás das "Novas Oportunidades"

Têm-se falado do caso do rapaz que não completou o secundário, foi para as "novas oportunidades" e acabou por ser o aluno com nota mais alta a entrar para a Universidade.

Quabndo li os primeiros artigos sobre isso, pensei que nas "Novas Oportunidades" lhe tivessem dado equivalência com uma nota altíssimas, e que com essa nota ele tivesse entrado na universidade.

Agora que finalmente tive oportunidade de ler a notícia, vejo que as coisas se passaram de outra maneira: ele, como aluno das "Novas Oportunidades" não teve nota pelo 12º ano, pelo que para a entrada na universidade contou apenas a nota do exame de admissão (onde ele teve 20 valores).

Ora, se ele efectivamente fez o mesmo exame de entrada que os outros alunos candidatos a esse curso ("Tradução"), e nesse exame teve uma nota mais alta que todos os outros alunos candidatos a esse curso (e recorde-se que os exames até costumam ter notas mais baixas que a avaliação interna das escolas), qual é exactamente o grande problema?

Pode-se argumentar que, realmente, um aluno que só esteja sujeito a um momento de avaliação (um exame) tem uma maior probabilidade de obter uma nota muito alta do que um aluno cuja nota é uma média ponderada de vários exames e classificações (pela mesma razão que é mais provável sair 100% de coroas se jogarmos uma moeda ao ar uma vez do que se a jogarmos 10 vezes); mas também há o reverso da medalha - também tem uma maior probabilidade de ter uma nota muito baixa.

Que se passará na terra dos Saudi?

Soube há pouco que a Arábia Saudita, esse oásis das execuções imaginativas, suspendeu a emissão de vistos turísticos para o próximo mês de Outubro. Não encontro explicação alguma em artigos noticiosos. Alguém me saberá explicar o que se passa por aquelas paragens?

Integrar



Coimbra está repleta de estudantes a gritar coisas. Alguns de megafone da mão, outros enfileirados obedecendo a uma ordem. É a estúpida da praxe, outra vez. Todos os anos me convenço que é desta que não me vou indignar. Mas é mais forte do que eu. Aqui deixo um texto que escrevi o ano passado para o blog do MATA.

O QUE EU PENSO DAS PRAXES

Penso que a praxe integra. Integra a crença de que a humilhação e o arbítrio podem dar lugar a formas salutares de relacionamento. Integra os cânticos boçais e a gesticularia grosseira no complexo das “culturas académicas”. Integra rituais de carácter hierárquico ou punitivo que privilegiam a autosuficiência grupal em detrimento do direito à dissidência ou à timidez. Integra as “tradições” como um valor em si, independentemente dos juízos que sobre elas possamos fazer. Integra uma nebulosa de desconhecimento sobre a origem das tais “tradições”, em regra bastante recentes e “impuras”. Integra o machismo e a homofobia no senso comum. Integra os estudantes numa estranha mistura de irresponsabilidade e elitismo social. Integra a ideia de que brincando à obediência se fomenta a liberdade. Integra a noção chantagista de que “tudo é praxe”, mesmo quando muitas práticas efectuadas em território estudantil ocorrem à margem ou contra aquilo que a praxe pretende integrar. É verdade, a praxe integra. Só falta agora desintegrá-la.

Grupo sócio-profissional de psicólogos internacionalistas chilenos solidário com a candidatura patriótica de Francisco Lopes?

Como se pode ler neste aterrador post do nosso camarada e espelho de libertários Miguel Madeira, a equipa de psicólogos incumbida de apoiar e defender o equilíbrio mental dos mineiros chilenos soterrados tem-se visto obrigada, dado o estado mental perturbado dos pacientes, a impor-lhes o tratamento mais adequado condicionando o seu acesso à televisão, a revistas, a imagens do mundo exterior, à aceitação da terapia — ou a puni-los, privando-os dessas recompensas, quando recusam o tratamento que, no seu próprio interesse, lhes é oferecido.

Será demasiado aventuroso pensar que os psicólogos talvez sejam um grupo sócio-profissional chileno de solidariedade internacional com a candidatura patriótica de Francisco Lopes? Pelo menos, a lógica é a mesma. Com efeito, se "«os dirigentes cubanos têm todo o direito de pensar em cada momento quais são as formas de organização do seu Estado e dar resposta aos interesses do povo» — e, por conseguinte, "todo o direito de se substituírem ao povo na defesa dos seus interesses" —, por que não hão-de os psicólogos, conhecedores dos verdadeiros interesses dos mineiros, impor-lhes a resposta que decidam ser a mais conveniente perante os seus problemas?

A lógica de classe dos legítimos defensores dos "interesses do povo"

Apesar de todas as desavenças recentes que me têm oposto à Joana Lopes e a certas posições que ela tem defendido no Brumas — a propósito, por exemplo, da candidatura "pró-governamental" e pouco democrática de Manuel Alegre —, este continua a ser um dos meus blogues de referência cuja leitura só posso recomendar como indispensável.

Este post sobre o PCP não podia ser nem mais oportuno nem mais certeiro na formulação do que nas concepções organizativas mais intimamente inseparáveis da sua prática política reproduz e consolida o modelo hierárquico de uma sociedade classista, legitimando a distinção estrutural e permanente entre governantes e governados e/ou a necessidade de "legítimos superiores" que governem e comandem a massa maioritária dos que não podem nem devem — do ponto de vista do PCP — fazer outra coisa que não seja confiar nos chefes, líderes, representantes ou "defensores" de uma vanguarda, investida de poderes absolutos, e obedecer-lhes.

Através de uma leitura tão convincente como clara das afirmações de Francisco Lopes por ocasião de uma entrevista ao DN, a Joana sublinha o modo como quando a direcção do PCP, num comunicado recente, afirma que «é ao povo cubano que compete, soberanamente, tomar as decisões que considere mais adequadas para prosseguir a construção do socialismo (…)», devemos entender que isso significa, na autorizada e não contestada interpretação de FL, que «os dirigentes cubanos têm todo o direito de pensar em cada momento quais são as formas de organização do seu Estado e dar resposta aos interesses do povo». O mesmo é dizer, como a Joana assinala, que o candidato "atribui «aos dirigentes cubanos» todo o direito de se substituírem ao povo na defesa dos seus interesses".

Seria difícil caracterizar melhor e mais sucintamente o modo como o candidato do PCP entende os direitos superiores de direcção a exercer pelo Partido sobre os trabalhadores e o conjunto dos cidadãos, bem como o modo como os dirigentes do PCP concebem os seus direitos "governantes" no âmbito interno e/ou sobre a sua área de influência política. Também não parece mais difícil compreender que modo de de produção, tipo de relações de poder  e modelo de sociedade estas concepções da acção política pressupõem, actualizam ou prefiguram, quando reclamam, nos termos em que o fazem,  a direcção e comando absolutos — não vinculados a outro critério ou, na realidade, interesse, que não seja o dos dirigentes esclarecidos, detentores, à maneira do Papa, do monopólio da verdade e de todo o seu esplendor — da vida social e das suas instâncias de deliberação e decisão.

A nova aldrabice de Portas

Paulo Portas, o justiceiro, anda agora a tentar impingir-nos uma rede de câmaras de videovigilância, feito caixeiro-viajante da paranóia securitária. Nada de novo aqui: como bom demagogo, convém-lhe ter sempre no bolso mais uma solução milagrosa para o crime, as malfeitorias dos emigrantes, etc.
De forma que lhe deve parecer muito subtil, o parlapatão do PP chama-lhes câmaras de «videoprotecção». O objectivo é evidente: vender esta tecnologia como a solução final para a criminalidade; encham as esquinas de câmaras e todos iremos viver protegidos.
O problema, claro está, é algo pouco relevante para o bando de gafanhotos disfarçado de partido em que se transformou o PP: a realidade.
Na realidade, estes sistemas não impedem o crime, tendo demonstrado um efeito quase nulo nesse campo. Mais: no Reino Unido, onde já milhões destes dispositivos foram instalados, já se coloca em causa até a sua eficácia como auxiliar na identificação dos criminosos.
«According to a British Home Office review of dozens of studies analyzing the cameras' value at reducing crime, half showed a negative or negligible effect and the other half showed a negligible decrease of 4 percent at most. Researchers found that crime in Glasgow, Scotland, actually increased by 9 percent after cameras were installed there.
In the United States, one of the most prominent examples was Tampa's use of facial recognition technology in 2001. But the city's police department dropped the technology two years later when it failed to result in a single arrest.»
Mas quem é que nos protege destes protectores da treta?

Gerar e gerir alternativas económicas a partir de baixo - post scriptum

Acrescentado ao meu artigo, há alguns casos de moedas locais em Portugal, como na Granja do Ulmeiro e em São Brás de Alportel (informação do camarada viandante Miguel Cardina).

Já agora, remeto também para um post meu do Vento Sueste também a analisar a economia das moedas locais.

Gerar e gerir alternativas económicas a partir de baixo

O meu artigo publicado na edição portuguesa do Le Monde Diplomatique de Julho:


Gerar e gerir alternativas económicas a partir de baixo

As crises repetem-se e, com elas, as declarações de que elas podem ser uma oportunidade para corrigir problemas sistémicos que afectam as economias e as sociedades. Mas pouco ou nada se faz, mesmo ao nível da tão anunciada regulação dos mercados e do sistema financeiro. No entanto, por muito que isso não agrade ao pensamento único neoliberal, olhar para as crises passadas pode fornecer elementos úteis para juntar às medidas económicas a partir de cima, que tardam em chegar, esboços de alternativas criadas a partir de baixo. É o caso das «moedas locais» e das empresas «recuperadas», como aconteceu até no Norte de Portugal. Experiências locais e parciais, por certo, mas cujo êxito abre caminhos que importa conhecer e aprofundar.

19/09/10

«Vocês têm um problema e precisam de falar connosco sobre isso, mesmo que não queiram»

Parece que os tais mineiros chilenos por vezes têm se recusado a falar com a equipe de psicólogos que foi destacada para os acompanhar, argumentando que não têm problema psicológico nenhum; a reacção dos psicólogos tem sido cortar-lhes o acesso à televisão quando os mineiros não querem falar com eles.

We know best: doctors tussle with miners:
Monitoring the mental health of the miners is itself a challenge. For the initial two weeks after they were found alive, the miners assented to daily hour-long conference calls, in which psychologists peppered them with questions in an attempt to build a profile of the group and the individual members.

As the miners regained weight and strength, however, their antagonism to the daily sessions increased. ''If there is one group that is not exactly disposed to psychologists it is miners,'' said Dr Rodrigo Figueroa, a psychiatrist with Chile's Catholic University who was hired by the Chilean government to monitor the mental health treatment.

(...)


In an effort to dominate the miners, the team of psychologists led by Mr Iturra has instituted a series of prizes and punishments. When the miners behave well, they are given TV and mood music. Other treats - like images of the outside world are being held in reserve, as either a carrot or a stick should the miners become unduly feisty.

In a show of strength, the miners have at times refused to listen to the psychologists, insisting that they are well. ''When that happens, we have to say, 'OK, you don't want to speak with psychologists? Perfect. That day you get no TV, there is no music - because we administer these things,''' said Dr Diaz. ''And if they want magazines? Well, then they have to speak to us. This is a daily arm wrestle.''
 [Via Marginal Revolution]

Paul Hampton sobre a revolução iraniana e a contra-revolução islamita. Quarta e última parte

Ligação directa e imperiosa para o Passa Palavra e para Os islamistas contra as mulheres, quarta última parte do ensaio de Paul Hampton, que aqui tenho vindo a referir ao longo das últimas semanas (links para as partes anteriores no Passa Palavra ).

Alegre e as expulsões de ciganos em França

O candidato presidencial Manuel Alegre manifestou-se hoje, sábado, "preocupado" com as recentes expulsões de ciganos em França, dizendo tratar-se de "um mau sinal" de "xenofobia" e da tentativa de se encontrar "um bode expiatório".

Das desvantagens e da necessidade de um tom adorniano



Calma, não se trata propriamente de um post sobre Adorno. No máximo, umas notas sobre a necessidade de um certo pessimismo. (Diz-se que Adorno era pessimista – e até não é falso, dependendo do que por isso se entender –, daí o título do post.)
Pelo cartoon é que vamos lá. Nada de extravagante: acrescentar um post aos muitos que se têm escrito aqui e acolá – entre a perplexidade, o susto e a consciência do escândalo –, sobre o que se vai passando em França, nos dias que correm. É que só pode mesmo assustar e escandalizar. Assustar, pelas subterrâneas mas nítidas parecenças com o que passou nas décadas que precederam o que se veio a revelar o acontecimento – dir-me-ão se exagero na escolha do adjectivo – monstruoso do séc. XX; escandalizar, pela estupefacção que causa que um autoritarismo que cada vez menos se disfarça e que mina o que – assim – não se pode chamar democracia; escandalizar, ainda, pela percepção de como inércia, comodismo e impotência se conjugam para que se permita que isto vá continuando.
Se é preciso dizer basta, é preciso ter consciência do escândalo: pintar bem escuro o quadro... Ser pessimista? Depende do que por isso se entender. Eu gostaria apenas de distinguir entre o pessimismo de quem procura ser rigoroso num diagnóstico negativo, e o “pessimismo” de quem acha que já nada se pode fazer para alterar uma situação. O segundo não nos interessa, de todo. Um pessimismo que hipostasia o conteúdo negativo do seu diagnóstico é um niilismo (e não vou discorrer aqui sobre o abismo que separa Schopenhauer de Adorno).
No meu pessimismo, eu – e não me julgo só – gostaria apenas que não me tirassem isto: a consciência insofismável de que, em França, há hoje um escândalo que se avoluma. Só a consciência do escândalo permite dizer basta. Digo “insofismável” porque – convenhamos – eu não me vou pôr aqui a discutir jurisprudência ou, no extremo oposto, a argumentar com pessoas que escrevem (como na caixa de comentários do arrastão) que isto ou aquilo (e não interessa o quê) está-lhes na massa do sangue – dos ciganos.
Em certos casos, é mesmo necessário ser-se pessimista no diagnóstico. Quanto às desvantagens – um tom sisudo? –, procurei prevenir-me de antemão com um cartoon bem humorado.

18/09/10

Quando Zapatero imita Alegre…

A Joana Lopes publica no Brumas o seguinte post, que vale a pena divulgar na íntegra:

Ainda a propósito da expulsão de ciganos: embora as posições de Sócrates e de Zapatero tenham sido mais ou menos semelhantes em Bruxelas, o mesmo não se deu com as dos deputados dos seus respectivos partidos. Para mais tarde recordar.
«Mientras el presidente del Gobierno, José Luis Rodríguez Zapatero, defendía a Nicolas Sarkozy en Bruselas , el Grupo Socialista registraba en el Congreso una proposición no de ley en la que se afirma que "las expulsiones colectivas son contrarias al derecho comunitario, a los valores y principios europeos"».

Só é pena que a Joana não se tenha dado conta — ou, dando-se embora conta, tenha preferido não o fazer notar e não incitar os seus leitores a reflectir sobre o assunto — de que Zapatero, compreendendo Sarkozy, mais não fez do que imitar o "sentido de Estado" de que Manuel Alegre deu provas ao "compreender" as medidas do PEC, ainda que lamentando a sua necessidade.  Dir-me-ão que o principal motivo que justifica o apoio à candidatura de Alegre é derrotar Cavaco. Mas não será isso justificar que os deputados socialistas espanhóis deveriam ter-se calado, apoiando Zapatero, num momento em que este sofre a séria ameaça de Rajoy? Ou que as deportações de Sarkozy se justificam na medida em que se destinam a travar o passo à extrema-direita de Le Pen, roubando eleitores ao Front national?

Defensor de Moura é o único voto possível de uma esquerda verdadeiramente responsável

Sou sensível ao argumento segundo o qual é importante para as gentes da esquerda (seja lá isto o que for) não reeleger Cavaco Silva. Mas a importância que reconheço em tal desígnio continua a ser idêntica à importância que dou à possibilidade de não premiar com o voto nem Nobre nem Alegre nem Lopes. A solução para o dilema chama-se Defensor de Moura. Impede-nos o risco de votar em Alegre, Nobre ou Lopes, o que poderia ajudar a minorar os efeitos de um mau resultado de qualquer um dos três (mau resultado que não posso deixar de não desejar) mas pelo caminho contribui de igual modo para que o Cavaco Silva veja dificultada a tarefa de ganhar à primeira volta. De modo que só votarei em Alegre, Nobre ou Lopes se for para derrotar Cavaco e esta questão coloca-se apenas e só se houver uma segunda volta. Graças a Defensor de Moura, não estamos, pois, entre a espada e a parede. Com efeito, qual o risco de votar em Defensor de Moura. O que poderá ele capitalizar com o nosso voto? Nada de mais, talvez uma subida na hierarquia do aparelho do PS, talvez uma estátua na localidade onde habita, mas nada de muito sério para o futuro da humanidade. (Sobretudo, é claro, se formos poucos a votar no tipo, sendo que eu, creio, sou o primeiro a chegar; a partir dos 1%, a quota de eleitores fecha!). Na segunda volta, então, votarei no que passar à final com Cavaco Silva.

O vírus da peste

Vai sendo tempo de nos darmos conta de que o vírus da peste da década de 1930,nas vésperas da Segunda Guerra Mundial, reaparece na Europa. Com efeito, como nos lembram os sobreviventes e regista a história, foi assim que a catástrofe se anunciou e instalou:

"El gobierno de Vichy está resurgiendo a la superficie, porque, entonces, todo arrancó así, igual que hoy. Con la aplicación de decretos como el de 1912, con el decreto de 1940 para internarnos. Esto da miedo, mucho miedo, y por eso la pelea va a ser importante". La voz es firme al teléfono. Es el hilo de voz de un anciano: se llama Raymond Gurene, es romaní de la gran periferia sur de París, tiene 85 años y fue uno de los miles de internados por el régimen fascista de Vichy. Él logró escapar a varios campos de internamiento, y participó, con otros miles de gitanos, en las tareas de la Resistencia bajo la ocupación.

Os que então subestimaram a gravidade do mal, exortando à confiança na solidez e estabilidade das garantias constitucionais e menorizando ou justificando como atípicas, transitórias ou excepcionais as suas manifestações, estavam, sabendo-o ou não, a abrir as portas às tiranias totalitárias e à "solução final".

17/09/10

Manuel Alegre e "o silêncio dos cobardes"

O Daniel Oliveira publica esta notícia, limitando-se, mas com suficiente eloquência, a comentá-la no título que lhe antepõe: O Silêncio dos Cobardes:

O Parlamento rejeitou hoje um voto de condenação ao Governo francês pela expulsão de cidadãos ciganos do país, apresentado pelo Bloco de Esquerda, mas o sentido de voto dividiu as bancadas, em especial a do PS. Rejeitada com os votos do PSD, PS e CDS, o voto de condenação contou com 15 abstenções de deputados socialistas e de um social-democrata. O vice-presidente da bancada socialista Sérgio Sousa Pinto votou a favor da resolução.

Solidarizando-me eu com o comentário do Daniel e, neste caso preciso, com a proposta apresentada pelos deputados do BE, a minha pergunta é simples: Que dizer do silêncio de Manuel Alegre e da sua candidatura, supondo que este se mantém? Que dizer de uma eventual quebra desse silêncio que diga que lamenta a derrota do voto proposto pelo BE, mas compreende a posição do PS? Que dizer, também, de tudo o que não seja uma intervenção que retome, no essencial, os argumentos da proposta hoje derrotada, por parte de um candidato à Presidência da República, que não pode obviamente ignorar assuntos desta gravidade no que diz respeito às orientações políticas da União Europeia?

E será, enfim, possível que o BE e os cidadãos que, em nome do combate à ameaça da direita, apoiaram até agora a candidatura de Manuel Alegre, continuem a fazê-lo como se nada fosse, acatando sem condições seja o que for que o candidato anti-Cavaco queira fazê-los engolir - da "compreensão" manifestada perante o PEC ao silêncio cúmplice com o apoio de José Sócrates a um Sarkozy responsável pelo reactivar de uma política de deportações nesta Europa de começos do século XXI?

Tomando do sol a altura e compassando a universal pintura


Negri esteve em Lisboa, a convite da Fundação EDP e a propósito da exposição dedicada ao tema do Povo, organizada, entre outros, pelo José Neves e pelo Bruno Dias. Coube-me a tarefa da tradução simultânea, da qual outros disseram não ter corrido nada mal. E embora eu prefira outros azimutes e textos da lavra do cattivo maestro, devo dizer que ele me pareceu extremamente sólido na defesa dos seus pontos de vista. Não teve esta palestra o brilho daquela que o mesmo proferiu há alguns anos atrás, num auditório da FCSH, onde veio à baila a sua fama de agente secreto (sanguinetti et all) e outros temas de evidente pertinência. Desta vez Negri falou sobretudo dos mundos possíveis que contém este mundo, de como o comunismo é jovem e bem-parecido (apesar do cancro estalinista que o corrói), pairando como um espectro sobre o modo de produção capitalista, latente nos comportamentos do trabalho vivo, ameaçador nas formas de luta que percorrem o mundo.
E se isto escrevo, é sobretudo porque noto que Carlos Vidal continua a fazer das suas, invocando agora Anselm Jappe em seu auxílio a propósito deste evento. Ora Jappe, que escreveu sobre Debord uma admirável biografia, tem a respeito de Negri e do operaísmo italiano um ponto de vista assaz menos informado. A comparação de Mário Tronti, Sergio Bologna e Antonio Negri (apenas para citar uns quantos) à social-democracia alemã de finais do século XIX, revela apenas  o seu desconhecimento tanto de uma coisa como da outra. E não será porventura casual que - discorrendo com autoridade e rigor filológico acerca de quase tudo - não tenha Jappe avançado a este respeito uma única demonstração daquilo que afirma. Ou poderá alguém com o mínimo de honestidade intelectual afirmar que a ideia mais forte do operaísmo - a de que são as lutas sociais da classe trabalhadora a moldar o desenvolvimento do modo de produção capitalista e não o contrário - se encontra já nos escritos de Engels, Kautsky ou outra eminência parda, dessas em que a II Internacional era prodigiosamente fértil?
Tudo isto vai por isso arrumado no capítulo daquelas querelas e rivalidades mesquinhas, que tão comuns se mostram ser entre diferentes correntes políticas radicais que disputam terrenos contíguos. É preciso dar a isso a importância que merece (que é pouca) e encontrar, nas diferenças efectivamente existentes entre esses  filões teóricos, aquilo que pode ser relevante para um debate político carregado de actualidade. Parece-me que - a esse respeito - Jappe e o grupo Krisis se esgotam numa crítica da economia política que se encarrega sobretudo de renovar e actualizar um património antigo (que inclui, naturalmente, a II Internacional...) e que Negri e as pessoas agrupadas em torno da revista Multitudes se dedicam à equação de estratégias para pôr fim a essa economia política. Cada uma dessas perspectivas tem, naturalmente, virtudes e defeitos. Há em Jappe uma carga moralista a propósito da decadência cultural cujo tom adorniano (desculpa João Pedro, estás à vontade para demonstrar o meu equívoco) pouco ou nada me diz. E há em Negri uma vontade programática que amiúde se revela precipitada nos seus juízos (o mesmo para o Zé Neves).
A questão será aqui delinear um percurso intelectual e político próprio, à medida dos nossos princípios como dos nossos fins, uma passagem do Noroeste que nos conduza na direcção desejada, uma carta de marear para navegar em tão tormentosas águas. Um pouco como quem procura uma outra rota para a Índia e assim mesmo acaba por encontrar um continente desconhecido. E agora Carlos, venha de lá esse Kacem.

A extrema-esquerda maoísta na fase final do Estado Novo [PUB]

Amanhã, na Biblioteca-Museu República e Resistência, pelas 16 horas.

[clicar na imagem para ver o programa]

A sociedade das nações débeis

No Blasfémias, descobriu-se uma relação mágica entre o vigor da famosa sociedade civil e o descontrolo do despesismo: «nos países onde a sociedade civil é fraca e excessivamente dependente do estado, não conseguindo (ou não querendo), por isso, impor restrições severas ao despesismo governamental, a contenção orçamental é dificilmente compatível com o sufrágio universal».
Ora se formos investigar onde moram os Estados europeus mais gastadores, em termos de percentagens dos respectivos PIB, descobrimos entre essas anémicas sociedades, incapazes de restringir os seus monstrinhos estatais, países alérgicos ao sufrágio universal, albergues de gente recidivamente incapaz de fazer pela vidinha. Nações falhadas como o Reino Unido, a Suécia, a Áustria, a Holanda, etc. Estamos na companhia dos madraços e dos condenados, confirma-se.

Nota: a versão integral do gráfico jaz aqui.

Pub.

Uma excelente forma de passar um fim de semana: na companhia de Idalina Conde e de uma caterva de grandes artistas.

A festa de paredes de vidro

A propósito da suposta opacidade do PCP, uma história edificante: um militante de décadas pergunta ao seu partido se pode inquirir os visitantes da festa do Avante!, dentro do âmbito de um mestrado. Os resultados, mesmo aqueles que não coubessem na tese, seriam entregues ao partido, que ficaria assim com uma útil caracterização dos públicos do seu grande evento. Reposta imediata dos crânios que detêm a responsabilidade da festa: «não é conveniente».

Fernanda Câncio encontra almas gémeas

No Diário do Regime, a Fernanda comunica ao país uma descoberta tremenda: há gente sectária, capaz de tapar um ou dois olhos ao que se passa no mundo, malta que insiste nas teorias mais esdrúxulas, nas conspirações mais alucinadas, sempre em defesa do indefensável. Claro que o Avante! é mesmo assim. E claro que blogues como o Jugular representam a mesmíssima fauna, nesse caso arregimentada em torno do intocável e puríssimo quase-engenheiro Sócrates; dos procuradores aos jornalistas, todos em Portugal conspiram contra a inocente criatura. A triste figura é igual. Mas ela só se torna risível quando detectada nos outros.

PS: Partido Sarkozy?

O Parlamento rejeitou hoje um voto de condenação do governo francês pela expulsão de cidadãos ciganos do país.

O Bloco de Esquerda apresentou esta sexta-feira, em sessão plenária, um Voto de condenação pelas acções desencadeadas pelo Governo francês, mas o sentido de voto dividiu as bancadas, em especial a do PS.

Rejeitada com os votos do PSD, PS e CDS, o voto de condenação contou com 15 abstenções de deputados socialistas e de um social-democrata.


Ou seja: há a esquerda que é esquerda; a esquerda que deixou de ser esquerda; e a esquerda que tem vergonha de pertencer a um partido que se diz de esquerda mas que tem desses valores uma concepção puramente instrumental.

É feio andar por aí a ameaçar







Os capítulos mais importantes da história do PCP estão ainda por escrever.

(Aurélio Santos, dirigente do PCP que estagiou largos anos como revolucionário profissional na Roménia dirigida por Ceaucescu)




(publicado também aqui)