07/03/11

Versículos Satânicos

Desta vez, o editorial de Serge Halimi no Monde diplomatique acerta em cheio. E, para não dizerem que não falei de flores, esperemos que, em breve, os Versículos Satânicos sejam publicados em folhetim e transformados em script de uma série persa no país, e que mil caricaturas de Maomé possam florescer, impunes, com plena liberdade blasfema, nos jornais e blogues iranianos. Por hoje, apenas alguns excertos do editorial citado supra — já de si satânico q.b.:

Ora, as tensões com Israel e as sanções internacionais permitem ao regime de Teerão, estimulado pelo enfraquecimento dos seus grandes rivais regionais (Egipto e Arábia Saudita), reactivar o discurso nacionalista. Este é tanto mais útil quanto o «movimento verde» de 2009 não foi aniquilado pela repressão que sobre ele se abateu. O Guia Supremo Ali Khamenei esperava que a «vacina» dos enforcamentos e das torturas tivesse destruído os «germes» da contestação. Infelizmente para ele, as sublevações árabes e o contraste humilhante entre uma população instruída e um sistema político medievo minam a legitimidade já abalada do seu regime. Então, o clã religioso no poder, em vez de mandar a aviação metralhar a multidão dos descontentes, como na Líbia, encoraja os clamores assassinos dos seus fanáticos. Foi assim que, no dia a seguir a uma forte mobilização da oposição, 222 dos 290 deputados reclamaram o julgamento de Mehdi Karroubi e Mir Hossein Moussavi, dois antigos dignitários do regime que vivem em prisão domiciliária desde que se viraram contra o Guia Supremo. E, a 18 de Fevereiro, Teerão foi palco de uma manifestação destinada a «exprimir o ódio, a fúria e o nojo pelos crimes selvagens e repugnantes dos líderes da sedição e dos seus aliados hipócritas e monárquicos» […]. «Agentes sionistas» ou «hooligans», sobre eles recaem ameaças de morte.

É o que faz com que não possamos deixar de aprovar Serge Halimi, quando escreve:

As balas que matam podem ser xiitas ou sunitas, moderadas ou radicais, pró-ocidentais ou «anti-imperialistas». As populações que morrem, também. Mas os regimes que disparam assemelham-se. O de Trípoli soube, aliás, substituir o apelo encantatório à revolução mundial pelo serviço de vigilância das fronteiras da União Europeia.

2 comentários:

one hundred trillion dollars disse...

todos os sistemas de poder
são semelhantes
alguns podem dar-se ao luxo de ser um pouquinho mais repressivos em casa

one hundred trillion dollars disse...

agora liberdade de expressão
não impede a liberdade de repressão
mas pode-se sempre ter ilusões