A vitória do Não no referendo de domingo foi um rude golpe
nos que dominam a Europa através do controlo das instituições outrora
democráticas. Depois de 5 meses de
adiamentos contínuos; de 5 meses de chantagem sobre um governo legitimamente
eleito; de 5 meses a mostrar que a única via para o povo grego era mais
empobrecimento, mais sofrimento, mais desemprego, mais miséria; de 5 meses a
assistir impávidos e serenos a uma colossal fuga de capitais estimulada pelos
sucessivos rumores bufados por Bruxelas; depois de 5 dias em que, todos e cada
um, assumiram uma posição de partido único pró-austeritário no referendo grego,
defendendo o voto no Sim e ameaçando os gregos com a expulsão da Europa, como
fez Martin Schulz, o inqualificável
presidente do Parlamento Europeu; depois de 5 dias em que o BCE estrangulou os
bancos gregos retirando-lhes o necessário apoio para poderem efectuar os
pagamentos de pensões e salários; depois de 5 dias de sondagens que davam a
vitória do Sim como iminente; os
dirigentes europeus reagiram à derrota que lhes foi infligida pelo povo grego
como é suposto reagirem os ditadores.
Ameaçando os gregos pelas opções que tomaram livremente, pensando pelas
suas próprias cabeças e escolhendo o que acham ser melhor para si e para os
seus. Declarando como nunca tinha sido feito na História da Europa que estavam decepcionados com a decisão dos gregos ou que os gregos tinham cometido um grave erro.
Fizeram-no cuspindo e pisando sobre os valores fundadores da
Europa, mostrando que nesta guerra que travam contra os povos da Europa, contra
a própria ideia de Europa, estão dispostos a descer tão baixo quanto possível, a
serem tão anti-democráticos quanto necessário para deixarem claro que eles, os
que mandam na Europa, não admitem que quem pense de maneira diferente possa ter
a veleidade de querer mudar de caminho, escolher uma alternativa política,
seguir uma via reformista e progressita que não a que eles escolheram .
Por isso, nos próximos dias, esta gente sem valores e sem princípios, vai
endurecer a parada, extremar todas as chantagens, jogar o tudo por tudo, mobilizar todos os recursos
mediáticos ao seu dispor - vejam-se os inenarráveis debates no pós-Não nas televisões portuguesas - para criarem as condições favoráveis à saída da Grécia
do Euro e à sua eventual expulsão da União Europeia. O que estabelecem os Tratados pouco importará para quem já mostrou não olhar a meios para atingir os seus inconfessáveis fins. Esta gente sem valores que estimula o crescimento da ameaça nazi por todo o continente europeu. Num post anterior antevi
essa saída como inevitável mesmo no contexto da vitória do Não. É a
intransigência da troika, da EU, que vai ditar esse lamentável epílogo para a
aventura europeia que se iniciou a meio do século passado. No próximo dia 20 se saberá se essa saída forçada dos gregos se consuma ou não. Triste gente esta a
quem calhou cavar a sepultura onde ficará sepultado este projecto político.
06/07/15
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4 comentários:
"das instituições outrora democráticas" Quando é que elas foram democrácticas? Quando reagiram como reagiram ao Referendo na Dinamrca? Ou ao freferendo na França? Ou na Irlanda.
A UE nunca foi "democráctica", sempre se fez nas costas dos povos. Durante um período de prosperidade gozou da aceitação e consentimento dos povos, é verdade, mas isso não a torna "democráctica".
Agora que a "prosperidade" se foi e agora que há quem confronte as "instituições" estas revelam aquilo que sempre foram e escondiam atrás de uma retórica oca de substância.
São mais duas semanas de tensão e desespero multimodo em que o futuro da Grécia se vai jogar num quadro aterrador de roleta e sadismo politico insofismável, com ameaças cruzadas entre as instituições europeias e as autoridades helénicas confortadas pelo " Não " esmagador Entretanto, o processo do Referendo- claro- despoletou comentários e análises nos últimos dias de grande impacto. Assim, Tarik Ali revelou que o programa politico e a topografia da construção do Syriza perfazem mais de 15 anos de deliberação e racionalidade.E mesmo desse modo, revelou ao Le Monde Cohn-Bendit, o antigo lider europeu dos Verdes assegura que o governo de coligação grego não conseguiu construir uma alternativa politica e económica ao " sistema " capitalista em vigor, porque se " trata de um governo nacionalista acima de tudo, aliado à direita extrema e à Igreja Ortodoxa "(sic).E acrescenta: " por outro lado, a UE comporta-se como um monstro tecnocrático que se marimba da decisão do povo e da sua respectiva soberania nacional ". E exara ainda este comentário sibilino e profundo: "As culpas da Grécia em 2015 são bem mais pequenas do que as da Alemanha em 1945". N.
Subscrevo na generalidade o que escreve. A chantagem e a manipulação vão continuar, a selvajaria da media (como Varoufakis a denominou) não acabou. Para mim, com esta gente que dirige os destinos da União Europeia, este é um projecto morto.
Francisco eu sou dos que pensam que assistimos a uma degradação da vida democrática na Europa. Sou dos que pensam que a construção europeia teve momentos importantes do ponto de vista civilizacional. Trata-se de uma importante discussão não resumível num comentário. Recuso-me, em síntese, a minimizar o trabalho de desconstrução do projecto europeu levado a cabo pela última leva de dirigentes. Se o fizesse não faria sentido apoiar o processo grego e ter, apesar de tudo, esperanças no futuro da Europa.
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