14/07/15

O poço sem fundo. A proposta de saída do euro do Antarsya comentada pelo João Bernardo

Numa troca de mensagens sobre a actual conjuntura europeia, o João Bernardo escalpeliza os becos que o grupo de extrema-esquerda Antarsya procura induzir no cenário político grego, com as teses da saída do euro. Com a sua autorização reproduzo as suas palavras. Antes, para se perceber o contexto da sua sagaz reflexão, reproduzo em primeiro lugar a proposta do Antarsya, publicada no Infobref nº394, p.5.

«Si comme Antarsya le préconise, la banque centrale grecque était réquisitionnée il faudrait émettre une nouvelle monnaie inconvertible dont la parité échapperait aux marchés financiers et établir le monopole étatique du commerce extérieur. Si le gouvernement grec émettait, via la banque centrale, une nouvelle monnaie inconvertible : • les dépôts grecs seraient convertis en nouvelle monnaie (appelons là drachme) • les détenteurs de monnaie étrangère (dont l’euro) ne pourraient pas convertir leur monnaie en drachmes, et donc s’approprier les ressources produites en Grèce • Le commerce extérieur serait contrôlé par les autorités publiques. Les exportations grecques permettraient d’obtenir des devises étrangères qui permettraient de financer les importations (payées en devises étrangères). Personne ne dit que ce serait facile car la réaction des autres pays de la zone Euro serait terrible, mais ce pourrait être le début de quelque chose, d’un vrai mouvement d’émancipation et de solidarité internationale entre travailleurs de toute l’Europe. En tout cas c’est la seule voie acceptable du point de vue des travailleurs C’est ça ou l’austérité accrue et la misère assurée pour les grecs».

Num breve comentário às tais propostas, a inconvertibilidade da nova drachma significaria antes de mais 1) que o governo fixaria uma taxa de equivalência entre os depósitos em euro e as drachmas desfavorável aos depositantes; ora, como os grandes capitalistas têm muitas possibilidades de iludir os controlos, isto representaria uma taxa sobre os pequenos depositantes. Por outro lado, 2) como, segundo The Economist, na Grécia cerca de 46 milhares de milhões de euros estão entesourados por particulares fora dos bancos, e admitindo que uma parte considerável está debaixo de colchões e não nas Bahamas, decerto os detentores desses euros entesourados não quereriam trocá-los por drachmas segundo a equivalência espoliadora estabelecida pelo governo. Assim, estaria criada a infra-estrutura financeira necessária para sustentar um mercado paralelo de dimensões colossais. Ora, no mercado paralelo, como em tudo o mais, a existência de oferta não implica a existência de procura, mas a existência de procura acarreta sempre o aparecimento de uma oferta, se o preço for adequado. E o enorme volume de euros entesourados implicaria que esses preços poderiam ser satisfeitos. Nesta situação, 3) o governo seria obrigado a usar uma feroz repressão para combater o mercado paralelo, já que não poderia combatê-lo com medidas económicas, pois haviam sido as suas próprias medidas económicas a fomentá-lo.
Se os estrangeiros não poderiam converter os euros em drachmas, como propõe o segundo ponto, isto significa o fim imediato do turismo, que é na Grécia uma actividade económica muito importante e um dos principais meios de obtenção de divisas estrangeiras. Se, em alternativa, o governo aceitasse turistas com a condição de na fronteira converterem os euros em drachmas consoante a taxa de equivalência fixada pelo governo, esta medida espoliadora seria por si só suficiente para afastar os turistas.
Esta asfixia do turismo dá toda a dimensão ao terceiro ponto, que limita as importações ao volume de euros e dólares conseguido pelas exportações. Dada a baixa competitividade das exportações gregas, além do seu reduzido volume, isto significo o estrangulamento da própria actividade produtiva interna, que necessita de meios de produção e matérias-primas oriundos do estrangeiro.
Uma segunda Coreia do Norte à beira do Mediterrâneo, eis o programa. Como a Antarsya organizou a manifestação de ontem à noite em Atenas e irá provavelmente substituir o Syriza nos amores da extrema-esquerda míope, acho que vale a pena gastar um pouco de tempo com esta questão.

João Bernardo


23 comentários:

Miguel Serras Pereira disse...

Caros João Bernardo e João Valente Aguiar,
penso que tarde e a más horas, o próprio Tsipras intuiu qualquer coisa da catástrofe que o tipo de saída da ZE que o programa da Antarsya propõe acarretaria.
É por isso que declara agora: "El primer ministro de Grecia, Alexis Tsipras, ha reconocido esta noche que se vio obligado el pasado lunes a aceptar un acuerdo con los socios en el que no cree, aunque se ha comprometido a ponerlo en práctica asumiendo “todas las responsabilidades” que ello implica. (…) Asumiendo que se trata de “un mal acuerdo”, negociado “en una mala noche para Europa”, el líder de Syriza aseguró que la posibilidad de una salida del euro era mucho peor que las duras condiciones del acuerdo. “Sería una catástrofe para las clases media y baja”, señaló (…)" ( http://internacional.elpais.com/internacional/2015/07/14/actualidad/1436904563_372067.html ).

Nota à margem: é curioso assinalar que, quase ao mesmo tempo, Schauble, respondendo ao FMI e à sua proposta de alívio da dívida, insista em que o Grexit continua a parecer-lhe preferível: "el ministro alemán de Finanzas, Wolfgang Schäuble, expuso este martes a las claras en Bruselas sus graves diferencias con la canciller Angela Merkel, que el pasado lunes evitó el Grexit en la cumbre del euro. El tercer rescate despierta grandes dudas. Fuentes europeas lo cifraban este martes en un máximo de 50.000 millones, una cifra que puede ser insuficiente: el FMI advierte, en un informe interno demoledor, que la deuda griega está desbocada y que es imprescindible una quita" ( https://www.blogger.com/comment.g?blogID=2525053614363345408&postID=6786990235905586162 ).

Abraços

miguel(sp)

Anónimo disse...

Nada que um qualquer sucedâneo de uma cartilha monetarista não dissesse. Pouco.
MS

Nightwish disse...

Falta de conhecimento económico há na esquerda e na direita, e uma saída do euro assim é tão ridícula como a austeridade.

João Valente Aguiar disse...

Miguel,

o Tsipras cometeu inúmeros erros estratégicos nos últimos meses, o maior dos quais a convocação do referendo. Apesar de ser um estratega relativamente medíocre é bom referir que, aparentemente, ele não escolheu capitular, como a esquerda nacionalista afirma. Ele capitulou porque aparenta ser um tipo com alguma sensatez no que toca à avaliação empírica, e as duas semanas de controlos de capitais serviram-lhe eventualmente como aperitivo do que seria o futuro da Grécia. Portanto, o Tsipras cometeu imensos erros, e erros, com responsabilidades directas dele, que piorarão imensamente a vida da população. Neste aspecto, não tenho hoje simpatia política pela personagem. Mas admito que ele se tenha confrontado com o que seria o futuro absolutamente catastrófico da Grécia fora do euro e, mesmo que muito tarde de mais e até ver, tenha feito marcha-atrás nas manobras suicidárias que vinha levado a cabo. Como nota de rodapé sobre este tópico do Tsipras, gostaria de dizer que é espantoso que os crentes no materialismo dialéctico sejam os mesmos que procurem atribuir fraquezas pessoais a eventos políticos e sociais muito mais vastos...

O que se tem passado na Grécia deveria levar a esquerda europeia a reflectir sobre os inconvenientes de querer armar-se em gestora, mais ainda em contextos abruptos de desvalorização do capital, como é o caso da economia grega. Como se a esquerda fosse capaz de ensinar aos capitalistas que é melhor do que eles a gerir o capitalismo... Porque é disso que se trata. Uma saída do euro não tem nada de alternativo, servindo aliás para desenvolver um modelo assente em salários ainda mais baixos (já escrevi muitíssimo sobre isso, pelo que não me vou repetir). O mais inacreditável nisto tudo é haver ainda quem ache que economias menos abertas e profundamente estatizadas são fonte de progresso... O mundo está cheio de sucessos desse tipo... Só falta vir alguém fazer a elegia da Argentina ou da Venezuela como modelos de "sucesso"... Ou virem com o Keynes, como se ele tivesse sido um economista contrário à internacionalização do capital...

João Valente Aguiar disse...

(cont.)

Mesmo de um ponto de vista classista e substantivo é notável que a maioria da esquerda que defende essa via da saída do euro considere que:
1) por partilhar o mesmo programa estratégico da extrema-direita e dos tecnocratas mais conservadores, isso seria irrelevante e que a mudança de cor das camisolas seria factor decisivo para alterar a substância do projecto. Para os que têm acima de 25 anos de idade e que sempre cresceram a ouvir que os programas da esquerda e da direita seriam antagónicos, não deixa de ser curioso que o objectivo estratégico e que as medidas fundamentais preconizadas (nacionalizações/estatizações, utilização de défices excessivos financiados pela emissão monetária, etc.) sejam amplamente partilhadas por pólos distintos do espectro político. Serão assim tão distintos? A esquerda parece conviver bem com o facto de partilhar o mesmo objectivo estratégico da Marine Le Pen e, no que toca à Grécia, do Schauble.;
2) ter um programa alternativo é simplesmente dizer não. Isto é, o discurso político hoje à esquerda resume-se em boa medida em dizer não à dívida, não à austeridade, não ao euro, não à UE, etc. Independentemente de nominalmente ter alguma razão na crítica às medidas draconianas da troika e dos programas de ajustamento, a questão que se coloca está noutro patamar. Alguém acha mesmo que basta fazer um discurso de negação e de rejeição (mesmo que justificada no caso da austeridade) é um programa alternativo? Mesmo as modulações nacional-desenvolvimentistas não passam de uma cópia mal amanhada de temas formulados por países periféricos nas décadas de 30 e 40, curiosamente ressuscitando temas que, por exemplo, criaram um nacionalismo económico no Brasil do Vargas ou da Argentina do Péron. E isto num contexto de uma depressão económica avassaladora e num contexto político em que os fascismos reinavam.
Em boa verdade, nunca a humanidade, pelo menos nos últimos séculos, conseguiu desenhar modelos económicos mais dinâmicos e menos desiguais a partir do resgate de temas e problemáticas passadas... Mas ainda há quem acredite que utilizando fórmulas passadas se pode responder a problemas novos... E, neste capítulo, faz todo o sentido que as pessoas se questionem sobre os modelos reais e alternativos à austeridade;

João Valente Aguiar disse...

(cont.)

3) o Estado nacional emita moeda própria e isso seria sintoma de um controlo da vida económica "pelo povo"... Ou seja, a tese é a de que um banco central supranacional é mau porque está em Frankfurt e porque o Banco de Portugal, ou da Grécia, não têm poder de decisão. O que, por sua vez, significaria um afastamento dos cidadãos dos mecanismos de decisão... Como se alguma vez o cidadão comum tivesse sido e achado quando o Banco de Portugal, por exemplo, decidia desvalorizar sistematicamente o escudo e com isso comer grande parte dos salários... Como se alguma vez houvesse algum tipo de influência do cidadão comum na tomada de decisão em instituições controladas por tecnocratas, sejam eles portugueses ou estrangeiros. Em vez de se analisar a dimensão classista do exercício do poder, a esquerda que se diz defensora dos trabalhadores constrói uma mundivisão completamente afastada dos mecanismos de produção da vida social, política e económica, substituindo-os pela cisão nacional/exterior. Neste procedimento os que assim procedem não colocam em causa a organização interna das instituições e de como estas determinam políticas e decisões. Dentro deste procedimento, o problema seria a localização geográfica dos mecanismos de decisão e não a cisão de classe entre as instituições capitalistas e a maioria da população. O que no marxismo era visto fundamentalmente como uma discussão sobre os modos e os processos de controlo do tempo de trabalho e da vida, para a esquerda actual, inclusive a que de alguma maneira se reivindica do marxismo, a discussão define-se literalmente no plano das latitudes. Em suma, se nos bancos centrais estivessem patriotas e cidadãos nacionais não colaboracionistas a situação já seria aceitável... E fazendo aqui a ponte com a questão do modelo alternativo, é bom lembrar que a grande inovação política da esquerda no passado foi a capacidade para atribuir causas sociais a fenómenos políticos. Hoje a situação inverteu-se a atribuem-se causas políticas a fenómenos sociais que ultrapassam a discussão inflamada dos alemães malévolos e dos gregos preguiçosos. Os nacionalismos vivem sempre em função de uma geometria geográfica e físico-iconoclasta. Geográfica, porque transformam a complexidade do real numa batalha de nações. E físico-iconoclasta porque nessa batalha de queimar bandeiras nacionais e de emitir comentários xenófobos aos gregos e alemães, tece-se a construção de imagens impactantes e relativamente perenes do que se acha sobre o carácter do povo A ou do povo B.
Se as palavras contam alguma coisa, é instrutivo que à esquerda se tenha criticado a assinatura do acordo de segunda-feira na base das personagens individualmente consideradas e das menções aos "gregos", aos "alemães" e nunca colocando a determinação desses eventos nos Estados e nas fricções entre elementos capitalistas e tecnocratas europeístas e conservadores. O nacionalismo não é apenas um slogan. É a transformação da forma de pensar a partir de slogans ("a Grécia", "a Alemanha") e é a transformação total da forma de raciocinar em termos geoestratégicos, abandonando o pressusposto da distinção classista. Ou alguém acha que só por ser patriótico e de esquerda um administrador do Banco de Portugal se tornaria num trabalhador? Nestas contorções vocabulares, a cisão classista entre governantes e governados mantém-se e aprofunda-se.

Abraços

João Bernardo disse...

João Valente Aguiar,
A derrocada da extrema-esquerda, a submissão aos temas que até há algum tempo atrás haviam caracterizado os outros pólos da geometria política, ilustra-se em Portugal quando um partido de extrema-esquerda divulga o lema «Um país não está à venda». O que tem sido dito e escrito acerca da Grécia afina pelo mesmo diapasão. O Miguel Serras Pereira observou há dias que se trata de um terceiro-mundismo reciclado. Eu acrescento que o terceiro-mundismo foi, por sua vez, um fascismo reciclado. E enquanto proclamam que «um país não está à venda» vão deixando que a força de trabalho continue à venda.
O nacionalismo substituiu a luta contra a exploração. E o mito fascista das «nações proletárias» e das «nações plutocráticas» substituiu a luta de classes.

Miguel Serras Pereira disse...

João Bernardo,

na mouche. E, já agora, se o que dizes é a cartilha monetarista a que se refere um comentador anónimo, vou adoptá-la para os meus netos.

miguel(sp)

Anónimo disse...

curioso, seguindo o raciocínio, as antigas colónias (ou províncias ultramarinas para o msp) nunca se poderiam ter tornado independentes, dado o pendor nacionalista dos movimentos de libertação (fascistas, descubro agora).
ninguém diga que está bem, principalmente no que toca à sua saúde mental.
fique bem.
MS

Miguel Serras Pereira disse...

MS,
a captura ideológica pelo nacional(ismo) das revoltas contra o colonialismo e o racismo teve, de facto, resultados materiais tão progressistas, antifascistas e anti-imperialistas como regimes em que, à sombra de um chefe ou presidente carismático desta ou daquela espécie, uma estreita camada dotada de poderes sem lei, se pôde dedicar à opressão e à exploração mais extremas da enome maioria dos elementos da população reduzidos à condição de servos. Nunca ouviu falar?

Conversa acabada. Boa tarde.

msp

miguel disse...

Outro europeísta, Vitor Cunha, gasta muito menos largura de banda para dizer a mesma coisa:

"A Grécia tem que optar: quer cortar retribuições em forma de salários, pensões, despesa geral e futura e basófia olímpica mantendo-se no euro ou cortar exactamente as mesmas coisas através de desvalorização interna com uma moeda fixolas lá na terra deles mas incapaz de comprar uma sopa de cebola em França. Quem diz que não há alternativas? Há, pois."

http://blasfemias.net/2015/07/09/a-direita-nao-empurra-ninguem-isso-e-a-esquerda-em-bando/

Há uma 'certa esquerda' que é igual a uma certa direita: ambas apostam no medo, na incerteza e na dúvida como tática para esconder a incapacidade de iniciativa política própria.

Anónimo disse...

os nexos de causalidade que se , o nepotismo e a cleptocracia dos regimes africanos advém directamente do nacionalismo dos seus lideres.
Pobre Lópold Sédar Senghor, provavelmente também um racista por ter desenvolvido a Négritude.
Boa tarde.
MS

João Bernardo disse...

Num comentário publicado há dois ou três dias chamei a atenção para o facto de não estar a haver ocupações de empresas na Grécia. Numa economia em profunda recessão e asfixiada pelo encerramento dos bancos e pelas restrições à circulação de dinheiro, os trabalhadores não iriam ocupar empresas que não dispõem de matérias-primas nem iriam produzir por conta própria bens e serviços para um mercado que mal os pode adquirir. Esta situação dita a debilidade de uma alternativa específica da classe trabalhadora e faz com que não existam agora movimentos sociais de base, reduzidos ao título de que se ufanam alguns nostálgicos.
Por outro lado, o número de migrantes ilegais chegados à Grécia no primeiro trimestre deste ano aumentou nove vezes relativamente a igual período do ano passado, atingindo a média diária de mil pessoas. A migração de massas é o internacionalismo proletário afirmado na prática. Mas como fica esse internacionalismo quando chegam mil pessoas por dia a um país em que as condições de saúde e de alimentação são cada vez mais precárias para os nativos?
Aqueles que querem conduzir a Grécia para a autarcia ou que consideram um perigo o desenvolvimento económico deveriam talvez pensar nestas questões.

João Bernardo disse...

Peço desculpa, mas vejo agora que por lapso escrevi trimestre onde deveria ter escrito semestre. O número de imigrantes ilegais na Grécia aumentou nove vezes no primeiro semestre deste ano relativamente a igual período do ano anterior.

Miguel Madeira disse...

A respeito da ausência de ocupações - a atual crise grega é muito parecida com a Argentina do principio do século (nomeadamente com o fecho dos bancos), e aí houve uma vaga de ocupações.

Será que a explicação não poderá ter mais a ver com as empresas gregas serem em larga maioria PMEs (em que muitas vezes existe uma grande relação pessoal entre o patrão e os empregados)?

João Bernardo disse...

Miguel Madeira,
A semelhança entre as crises argentina e grega é muito limitada 1) pelos contextos, já que a Grécia está inserida numa união monetária; é certo que a circulação de dólares era muito elevada na argentina, mas tratava-se de um processo diferente; 2) pelas características da economia de cada um dos países, pois a Argentina é uma importante exportadora de commodities. Parece-me muito arriscado transferir conclusões da crise argentina para a grega, como frequentemente se faz.
Quanto à ausência de ocupações, à primeira vista o seu argumento da relação pessoal entre patrões e empregados é sedutor. Todavia, em Portugal, durante a revolução, as duas primeiras empresas a praticarem a autogestão foram a Sogantal e a Charminha, que eram empresas diminutas. O mesmo se passou com a Sousa Abreu e muitas outras.
Seja como for, a ausência de um movimento de ocupação de empresas na Grécia, pelo menos até ao dia de hoje, impede que se fale de movimentos sociais como uma realidade prática. Precisamente por isso os protestos contra a crise têm-se limitado a atribuir as responsabilidades a países estrangeiros e instituições internacionais, como se os capitalistas gregos, tanto patrões como tecnocratas, não se contassem entre os principais responsáveis pela situação económica da população.

Miguel Madeira disse...

No caso argentino, o peso tinha um cambio fixo com o dólar (de 1 para 1) e para cada peso em circulação tinha que haver um dólar nos cofres do banco central; isso para quase todos os efeitos é uma união monetário (no fundo o peso era como as fichas dos casinos ou as que no liceu onde eu andei eram usadas para pagar no bar).

A única diferença (que talvez não seja tão pequena como isso) face ao euro é que quando romperam a união monetária não precisaram de imprimir à pressa notas novas.

João Bernardo disse...

Miguel Madeira,
O objectivo daquele meu comentário era chamar a atenção para o facto de não estarem a ocorrer ocupações de empresa na Grécia e não gostaria de me afastar muito disso. No entanto, no caso da Argentina (ou do Equador, sempre esquecido a este respeito, não sei porquê, ou talvez saiba...) tratou-se não de uma união monetária mas da adopção de uma moeda de outro país, sem que as autoridades argentinas ou equatorianas tivessem ou tenham alguma representação no Fed. Na zona euro, pelo contrário, existem instituições centrais de carácter federal, e a forma como Draghi tem conseguido impor a sua orientação no Banco Central Europeu contra a posição defendida pelo representante do Bundesbank e por Schäuble mostra que se trata efectivamente de uma instituição supranacional. Mas, como disse, o meu objectivo era o de salientar que enquanto as lutas na Grécia não seguirem uma clivagem de classe contra os próprios patrões gregos, continuarão a fomentar-se nacionalismos de um lado e do outro.

Sérgio Pinto disse...

pois a Argentina é uma importante exportadora de commodities

Apenas 12% do crescimento argentino entre 2002-08 (o principal periodo de expansao) se deveu as exportacoes - e, dentro dessas, exportacoes de commodities foram uma clara minoria. Na verdade, a principal componente de exportacoes veio de produtos manufacturados de cariz industrial. Na verdade, os motores do crescimento argentino foram o consumo (45% do crescimento total nesse periodo) e o investimento (26% do crescimento total). Fonte: http://www.cepr.net/documents/publications/argentina-success-2011-10.pdf, paginas 5 e 6.

Mas, como ja' se viu aqui diversas, ha' gente que nao esta' disposta a deixar que os factos se intrometam numa boa historia.

João Valente Aguiar disse...

Aqui (http://www.indec.mecon.ar/uploads/informesdeprensa/i_argent_02_15.pdf) pode-se ver a partir de dados estatísticos oficiais como, em 2014, 27.7% das exportações argentinas eram soja e produtos de soja, 7,8% eram cereais, 3,8% frutas e vegetais e todos os outros (maioritariamente provenientes da agroindústria) representavam outros 25,6%. Cerca de 65% das exportações são de produtos agrícolas ou aproximados mas o comentador anterior acha que não. De uma clara minoria a quase dois terços, alguma coisa bate mal. Para esta esquerda, a Argentina seria um exemplo político e económico a seguir, com excepção dos seus serviços estatísticos...

Sobre os dados que o comentador anterior expressa e quando diz que as exportações não contariam assim grande coisa para o crescimento económico só fico com sincera pena que o comentador não tenha citado a seguinte passagem: «However, this measure of real (inflation-adjusted) contributions to growth does not measure the full impact of exports when there are significant price increases for exports. In this case, if the price increase is large enough and the affected exports are a big enough share of the economy, the increased income can contribute to growth and to living standards (through the consumption of imports that do not add directly to GDP) in other ways, that do not show up in the real contributions to GDP growth measured above». Afinal os autores do estudo que o comentador anterior traz à baila são bem mais cautelosos e menos taxativos do que esse senhor, lembrando os efeitos multiplicadores das exportações no investimento e na elevação do nível de vida. Ou seja, tomando as exportações como variável relevante e implícita na determinação de outras.

Portanto, pelo que mostrei nos dois parágrafos anteriores, e citando um "génio" perdido da blogosfera, é caso para dizer que «ha' gente que nao esta' disposta a deixar que os factos se intrometam numa boa historia».

Mas o inacreditável nos raciocínios desta esquerda é querer apresentar a Argentina, ou noutros casos a Venezuela, como exemplos ou modelos a seguir... Só isso dá um carácter absurdo à discussão...

Miguel Madeira disse...

Ainda a respeito do contributo das exportações para o crescimento, recordo que o ponto de ter uma moeda própria (ou, já a tendo, de alterar a sua paridade face ao dólar) é largamente estimular as exportações (e, é verdade, também reduzir as exportações).

Logo, se se considerar que a desvalorização argentina contribuiu para o crescimento económico, creio que tal só faz sentido se se considerar que mesmo o aumento do consumo e do investimento teve na sua raiz um efeito "multiplicador" provocado por mais exportações (algo do género - mais exportações, logo mais rendimentos dos trabalhadores e empresários no setor exportador, logo gastam mais, logo maior consumo interno)

João Valente Aguiar disse...

Ao comentador Sérgio Pinto,
Eu apresentei dados oficiais do Estado argentino sobre o peso da soja, etc. nas exportações argentinas e você continua a repetir dados do mesmo estudo só para tentar provar que o modelo argentino seria um novo sol na terra. Como o resultado das discussões neste blog com este comentador resultam sempre em eternas discussões circulares e de constante encanzinamento, e ao abrigo do ponto 4, e na verdade também ao abrigo do ponto 1, que rege a aprovação de comentários só posso dizer que escusa de comentar mais nos meus posts. Pelo menos enquanto não cumprir as regras que este blog definiu explicitamente.

Ricardo Noronha disse...

João Valente Aguiar, acho que seria pertinente fazer dos teus comentários (os que foram publicados à 1h03 de 15 de Julho) um post, uma vez que acabam por ter vários dos principais pontos relevantes em discussão.
Aproveito para te dizer que discordo da tua apreciação sobre a estratégia negocial de Tsipras e a opção pelo referendo, sendo que no fundo isso tudo acabou por ser irrelevante face à intransigência negocial com que se deparou.