30/03/10

Roma, cidade fechada


A discussão começou ontem nos comentários a um post que eu julgava inócuo e que deram origem a um texto do Miguel Serras Pereira e a um outro do João Tunes. Tomo-os como ponto de partida, concordando com muito do que ambos dizem, mas tentando abordar a questão de um outro ponto de vista e deixando de lado, pelo menos para já, a questão da pedofilia e de tudo o que lhe está ligado.

Será razoável esperar que a igreja católica enquanto instituição venha a prescindir do poder fortemente centralizado que detém, ou a modificar significativamente as suas características, apesar das declarações cíclicas de descentralização e de autonomias que vai fazendo? Terá isso importância, ou não, na sua contribuição para a construção da democracia dos povos?

A minha resposta à primeira pergunta é negativa e recuo algumas décadas para lá chegar. Durante o Concílio Vaticano II que decorreu na primeira parte dos anos 60, mais exactamente de 1962 a 1965, a grande esperança que alimentou o mundo católico foi precisamente que se estivesse a viver o início de uma nova era em que a primazia do «povo de Deus» vencesse a rigidez de uma estrutura hierárquica, rígida e esclerosada, onde tudo chegava do topo à base em perfeita harmonia, por uma correia de transmissão sem falhas nem desobediências. Ou, por outras palavras em que melhor nos entendemos, para a que a igreja se tornasse uma instituição verdadeiramente «democrática».

Com a ajuda das características pessoais de João23, e com as pressões de teólogos altamente qualificados, quase tudo foi posto em causa e, a páginas tantas, era de crer que não ficaria pedra sobre pedra: desde dogmas nunca postos em causa a modos de actuação com séculos de existência. Esses teólogos (entre os quais Ratzinger…) agruparam-se numa revista internacional de teologia – a Concilium – cuja versão portuguesa foi editada pela Moraes e que teve um papel decisivo, primeiro para a dita esperança e bem depressa para a grande desilusão de muitos que rapidamente bateram com a porta (entre os quais eu). À revista, estava ligada a organização de colóquios e debates e por cá passaram muitos desses eminentes teólogos: dessa vez, apanhámos a primeira carruagem do comboio - com total adversidade de Cerejeira e amigos, como é óbvio, e com a PIDE sempre à espreita.

Em 1966, João Bénard da Costa escreveu um texto que, durante muito tempo, foi uma referência do que acabo de dizer, reflectindo ainda a fase da esperança mas já com uma grande carga de dúvidas: «A Igreja e o fim dos constantinismos». Foi publicado em O Tempo e o Modo (nº 37, Abril de 1966), embora tenha sido preparado precisamente para uma das sessões ligadas à revista Concilium. Coloquei-o hoje online para os mais curiosos. Nele é citado Hans Küng – o mesmo que agora ainda se pronuncia sobre os escândalos da pedofilia -, precisamente a propósito dessa era pós-conciliar: «Será a realização de uma grande esperança ou será uma grande decepção. A realização duma pequena esperança – dada a gravidade da situação mundial e as necessidades da cristandade – seria uma decepção». E foi. Total ou quase total.

Recorro a estes relatos em versão caseira porque, para mim, é desde então absolutamente claro o que em tempos resumi simplisticamente assim: «Com a distância que o tempo cria, parece hoje evidente que o Concílio não desiludiu por acaso ou por engano. O que se passou foi que a Igreja, ao mais alto nível, recuou, num sábio exercício de sobrevivência. A pesada pirâmide sobreviveu a um terramoto – abanou, mas não ruiu. A grande diferença em relação ao que se passou muito mais tarde numa outra pirâmide, a da União Soviética, foi que a Igreja resistiu quando percebeu que estava ameaçada. Durante o Concílio, também ela arriscou uma glasnost, uma abertura à sua maneira. Iniciou então um tímido aggiornamento, mas travou-o a tempo de não deixar que ele se transformasse em perestroika. Por isso se deu a debandada de muitos, com maiores ou menores angústias existenciais. A estrutura não cedeu – cederam eles.»

Ratzinger foi um dos que mais rapidamente percebeu tudo isto e que tomou em mão, com outros, as rédeas do recuo. Talvez para evitar uma implosão. E assim chegou a papa.

É à luz do que acabo de resumir que vejo sempre a realidade presente: a pompa do Vaticano, as viagens dos papas, o regresso parcial ao latim, a «reconciliação» com os herdeiros do Marcel Lefebvre, a intransigência e a sobranceria moralista em termos de costumes e, agora, o que se sabe sobe o encobrimento dos crimes de pedofilia durante décadas. Nada é por acaso, tudo faz sentido. A estrutura hierárquica desenha e defende uma estratégia rígida, mesmo que disfarçada, que é condição de sobrevivência e de conservação do poder. Percebeu-o há quarenta anos e não vai ceder.

Os escândalos recentemente conhecidos são apenas epifenómenos. Mas tão importantes, porque de tal maneira chocantes, que devemos não só denunciá-los com toda a veemência como explicar todos os contextos acima enunciados, que os tornaram e tornam possíveis.

Quanto à democracia, ela será construída e a humanidade progredirá apesar do Vaticano. Mas não deve, de modo algum, contar-se com o seu contributo positivo. Muito pelo contrário.

7 comentários:

MC disse...

Joana,

como alguém diz sabiamente no meu blogue: os tempos são outros. Na aparência tudo parece estar igual. Mas a sociedade mudou e isso reflecte-se na Igreja.

Estou a referir-me ao Continente Europeu (sempre a mania de olharmos para o umbigo). Mas a força da Igreja está na América Latina e África E Roma não tem assim o braço tão comprido. Embora aja como se tivesse.

Joana Lopes disse...

MC,
Já aqui chegou - bem-vinda...

Repare que eu não falei da igreja em geral, mas apenas da hierarquia ao mais alto nível: Vaticano, E aí, se algo mudou durante o reinado de Bento16, não foi para melhor na minha opinião. Usam Youtube e outras modernices mas o conservadorismo piorou.
O mesmo se aplica ao que diz sobre a América Latina. Força? Que força, ou mesmo personalidade, se opõe à de Roma, em termos públicos e institucionais?

Anónimo disse...

Ao ler este post, lembrei-me de uma passagem desse grande livro "1984":

"The Party seeks power entirely for its own sake. We are not interested in the good of others; we are interested solely in power. Not wealth or luxury or long life or happiness: only power, pure power. (...) We know that no one ever seizes power with the intention of relinquishing it. Power is not a means, it is an end. One does not establish a dictatorship in order to safeguard a revolution; one makes the revolution in order to establish the dictatorship. (...)".

Até a estrutura "piramidal" da hierarquia da igreja faz lembrar o "partido" de 1984... Curioso, nunca me tinha lembrado de "comparar" as duas instituições. Mas houve algo no post que me fez automaticamente lembrar do livro. A sede do poder. O poder por si só. O imenso poder que as religiões (qualquer uma) representam sobre os seus fiéis.

É assustador.

MC disse...

Obrigada, Joana.

E seguirei com a atenão possível este novo projecto. Espero aprender muito por aqui.

Percebo o que a Joana quer dizer. Mas a realidade é mais do que aquilo que vemos.
Eu faço parte do grupo de católicos que ficaram desalentadíssimos com a eleição deste Papa. E do pontificado dele, vai ficando uma desilusão ainda maior. Mas que se esperava?

Mas existem surpresas: repare que, precismante no final do inominável "ano sacerdotal", está a cair em Roma esta hecatombe informativa e contestatária sobre temas que a Igreja Magisterial tinha como certos e seguros. Por esta não esperava o Papa e demais Cúria.

Mas eu prefiro olhar a Igreja Católica como um todo. Sou uma católica de base que se sente muito longe de Roma. E isso ameniza alguma amargura pela forma de governo e outras questões latentes da instituição Igreja.

A Igreja é uma realidade complexa. Por mais que Roma dite e determine o seu poder, e seja a face mais vísivel, há muita Igreja para além disso.

Referia-me à América Latina no sentido de que a percentagem de católicos nas Américas quase duplica a da Europa. E apesar da sanha de Ratzinger e de Roma contra a Teologia da Libertação ela continua válida. Não se calaram muitos profetas da mesma. E a semente mantém-se viva.

A situação é, contudo, preocupante. Os teólogos que enfrentam Roma são já de idade avançada. Quem irá substitui-los?

Mas a Igreja não é estanque. E recebe infuências da sociedade. Confio que esta continuará a fazer o seu papel.

Jorgec Conceição disse...

Bom texto, Joana, apoiado numa excelente retrospectiva factual. Mas concordo com a MC: a Igreja não é estanque à sociedade em que se insere, hierarquia incluída. Por isso, embora não seja profeta, prevejo uma evolução sua com pelo menos uma destas destas consequências, mas talvez com ambas: o seu enquistamento numa cada vez mais pequena organização fechada e reaccionária equadrando grupos de fiéis virados para um misticismo individualista, ou a sua democratização real, seguida duma pulverização descentralizada, com algum peso social, mas também quantitativamente muito mais reduzida, porque exigente no respeitante às práticas sociais.

Convenhamos que a importância da Igreja no Mundo se reduziu substancialmente de há uns séculos para cá, com particular intensidade desde meados do Século20. Dantes era impensável o uso do poder nos estados europeus sem o patrocínio de Roma e as leis eram cozinhadas sempre na sua óptica. Depois, com a Reforma, alguns estados tornaram-se independentes deste poder político-religioso, enquanto outros se tornaram ainda mais dependentes com a Inquisição. Mas a pouco e pouco, com o evoluir das sociedades democráticas, com a sua oganização em governos e instituições laicisados, com a constituição de organizações internacionais e ecuménicas, onde o Cristianismo Romano não é hegemónico, a Igreja foi diminuindo a sua importância enquanto centro de poder, mantendo-e apenas como factor influente, mas cada vez com menor força, à medida que os tradicionais estados europeus de maioria católica vão envelhecendo e esvaziando-se de fiéis (cegos pela autoridade da Igreja). Hoje Portugal e também Espanha, não são os mesmos que há 50 anos. A Polónia continua a ser conservadora e obediente. Mas por quanto mais tempo, no seu progressivo convívio europeu?

Teremos os países ACP. Mas aí as religiosidades rituais são também exploradas por instituições "religiosas" arrivistas, que até exportam essas práicas para países mais evoluídos economicamente.

A Teologia da Libertação? Não sei qual o seu actual impacto na América Latina. Mas, tendo expressão, é uma das duas "saídas" para que poderá evoluir a Igreja, aí desaparecendo a estrutura hierárquica vaticana.

A informação globalizada, independente Cúria Romana, será o pior inimigo que a hierarquia católica terá pela frente e, julgo, por muito treino que tenham em "golpes de rins", a sociedade que lhes dá sustento terá cada vez menor peso. E, consequentemente, o seu poder confinar-se-á aos tais pequenos núcleos monolíticos.

Joana Lopes disse...

MC,
Lê-me há tanto tempo que sabe certamente que não pretendo, de modo algum, atingir o caso de católicos como o seu. Embora tenha muita dificuldade em perceber, como já tenho escrito mil vezes. como conseguem continuar numa «casa» tão pouco recomendável...

Por isso não fico nada admirada quando diz «Os teólogos que enfrentam Roma são já de idade avançada. Quem irá substitui-los?»
Talvez «Ninguém!», como disse o Romeiro... :-)

MC disse...

Joana, só hoje dei por me ter "respondido".

Não, nunca levaria uma questão consigo, por muito q discordemos, para qualquer posição pessoal. Sei que a Joana sabe separar.

Mas não concordo consigo: Ninguém, veremos... :)