03/11/11

Moishe Postone: Anti-semitismo, nacionalismo radical, "guerra sem fim" e eliminacionismo

A 13 de Dezembro de 2009, teve lugar em Hamburgo, na Alemanha, uma manifestação contra o anti-semitismo, à qual Moishe Postone dirigiu a mensagem que aqui transcrevo na íntegra, uma vez que é de bastante relevância para as questões que a publicação pelo Avante! de uma "tribuna" de Jorge Messias nos obriga a levantar. Ficam os agradecimentos à Centelha., que publicou a tradução do texto de Postone.


UM OUTRO OUTONO ALEMÃO

Penso que é politicamente importante que muita gente na esquerda esteja levando a sério as expressões de anti-semitismo generalizadas entre grupos que se consideram anti-imperialistas. Talvez isto também possa levar a alguma clarificação teórica há muito tempo em falta. A questão não é se a política de Israel pode ser criticada. A política de Israel deve ser criticada, especialmente a destinada a socavar qualquer possibilidade de um Estado palestiniano viável na Cisjordânia e em Gaza. No entanto, a crítica do “sionismo” prevalecente em muitos círculos anti-imperialistas vai além de uma crítica da política israelita. Ela atribui a Israel e aos “sionistas” uma maldade única e um poder de conspiração global. Israel não é criticado como outros países são criticados – mas como a encarnação do que é profunda e fundamentalmente o mal. Em suma, a representação de Israel e dos sionistas nesta forma de “anti-sionismo” “anti-imperialista” é essencialmente a mesma que a dos judeus no anti-semitismo virulento que encontrou a sua expressão mais pura do nazismo. Em ambos os casos a “solução” é a mesma – a eliminação em nome da emancipação.

A representação convencional estalinista e social-democrata do nazismo e do fascismo, como meros instrumentos da classe capitalista, utilizados para esmagar as organizações da classe trabalhadora, sempre omitiu uma das suas dimensões centrais: estes movimentos, nos termos de sua própria auto-compreensão e do seu apelo de massas, foram revoltas. O nazismo apresentava-se a si mesmo como uma luta de libertação (e apoiou movimentos “anti-imperialistas” no mundo árabe e na Índia). A base para esse auto-entendimento foi um entendimento fetichizado do capitalismo: a dominação global, abstracta e intangível do capital foi entendida como a dominação global, abstracta e intangível dos judeus. Longe de ser simplesmente um ataque a uma minoria, o anti-semitismo dos nazis entendia-se a si mesmo como anti-hegemónico. O seu objectivo era libertar a humanidade da dominação implacável e omnipresente dos judeus. É por causa do seu carácter anti-hegemónico que o anti-semitismo coloca um problema particular à esquerda. Essa a razão porque, há um século, o anti-semitismo pôde ser caracterizado como o “socialismo dos tolos”. Hoje ele pode ser caracterizado como o “anti-imperialismo dos tolos”.

Esta forma anti-semita de “anti-sionismo”, infelizmente, não é nova. Ela estava no centro dos mediáticos julgamentos estalinistas do início dos anos 1950, principalmente na Checoslováquia, quando os comunistas internacionalistas, muitos dos quais eram judeus, foram acusados de serem “agentes sionistas” e abatidos a tiro. Esta forma codificada de anti-semitismo, cuja origem nada teve a ver com as lutas no Oriente Médio, foi então transportada para lá pela União Soviética e seus aliados durante a Guerra Fria – em especial pelos serviços secretos da RDA trabalhando com seus clientes ocidentais e do Oriente Médio (por exemplo, a RAF e vários grupos “radicais” palestinianos).

Esta forma de anti-sionismo “de esquerda” convergiu com o nacionalismo árabe radical e com o islamismo radical – que não são mais progressistas do que qualquer outra forma de nacionalismo radical, como o nacionalismo radical albanês ou croata, e para quem o impulso eliminacionista em relação aos judeus em Israel é justificado como sendo dirigido contra os “europeus” colonizadores. Sempre que o impulso eliminacionista em relação aos judeus em Israel é mais forte, tanto mais a legitimidade de Israel é posta em causa – com argumentos que vão desde a alegação de que os judeus europeus na sua maioria não são biologicamente do Oriente Médio (uma reclamação feita em 1947 pelo Alto Comité Árabe e agora reciclada como uma “nova descoberta” por Shlomo Sand) até à ideia de que eles são simplesmente colonizadores europeus que, como os pieds noirs [designação dada aos franceses originários da Argélia, N.T.], devem ser enviados para casa. É lamentável, se não surpreendente, que os nacionalistas radicais no Oriente Médio vejam a situação nestes termos. Torna-se perverso, no entanto, quando europeus – principalmente alemães – identificam os judeus, o grupo mais perseguido e massacrado pelos europeus durante um milénio, precisamente com aqueles mesmos europeus. Ao identificar os judeus com seu próprio passado criminoso, tais europeus conseguem fugir a lidar com essa pesada herança. O resultado é uma modalidade que pretende lutar contra o passado, mas na realidade continua-o e estende-o.
Esta forma de anti-sionismo é parte de uma campanha para eliminar Israel que vem ganhando força desde o início da segunda Intifada. O facto de se focar na fraqueza dos palestinianos esconde aquela intenção final. Essa forma de anti-sionismo é parte do problema, não é parte da solução. Longe de ser progressista, ela alia-se com nacionalistas e islamistas árabes radicais, isto é, com a direita radical no Médio Oriente e, ao fazê-lo, reforça a direita em Israel. É constitutiva de uma guerra cada vez mais definida em termos de soma zero, que socava qualquer possível solução política, a receita para uma guerra sem fim. O ódio manifestado por este anti-sionismo explode os limites da política, pois é tão ilimitado como o seu objecto imaginado. Tal ausência de limites aponta para o sonho da eliminação. Os alemães, juntamente com muitos outros europeus, conhecem este sonho eliminacionista muito bem. É tempo de, finalmente, acordar
.

15 comentários:

Anónimo disse...

Na verdade a Centelha copiou e colou o texto visto neste site: http://obeco.planetaclix.pt/

Miguel Serras Pereira disse...

OK e obrigado, caro Anónimo, fica o esclarecimento.
Cordiais saudações democráticas

msp

é uma crise demográfica disse...

com extremismos religiosos de parte a parte

de resto os filhos de shem têm características étnicas que não jogam muito com os colonizadores europeus das terras da Palestina

ser anti-semita é ser contra os povos semita-hamitas colonizados pelos hamitas vindos em vagas sucessivas das redondezas

ou ser anti-semita é ser contra
os habastat e os ageezi
que são hoje a maioria dos povos semitas de semítica linguagem

de resto israel tem 200 mil destes párias
são cidadãos de israel mas são cafres kaffir schwarz'es

yo devo ser hamita disse...

ma num falo cabila nem rif

nin soy Masai ou cushita

nin hausa ô haussâ

Anónimo disse...

Os Protocolos foram traduzidos em árabe em 1950, no Cairo. Estão traduzidos em todos os grandes dialectos regionais e são citados na propaganda ideológica do F-I.S. argelino e do Hamas. Só em 1992 se consegue descobrir na Biblioteca de Leninegrado(hoje St.Petersburgo) o " autor " dos protocolos- um plágio total a 99% de um panfleto anti-napoleónico intitulado " Diálogo nos Infernos entre Maquiavel e Montesquieu, da autoria de Maurice Joly. O aristocrata russo,Mathieu Golovinski, cujo progenitor e tios eram amigos de Dostoievski e do pai de Lénine,esteve em Paris, no dealbar do séc XIX, nos serviços de Contra-Informação de Nicolas II e lá redigiu os Protocolos, substituindo tão-só França por Mundo e Napoleão III por Judeu. Tudo isso é relatado( e confirmado) pelo historiador anti-negacionista, Pierre-André Taguieff, e pelas revelações do jornalista Eric Conan colhidas junto do bibliotecário russo, Mikhail Lépekine, no final dos anos 90 em St. Petersburg. Pormenor curioso: Golovinski obteve diplomas falsos de médico e " seduziu " Trotski, no inicio da Revolução Russa, criando o modelo dos " Pioneiros " para o enquadramento ideológico da Juventude; e aconselha Léon Bronstein para o lançamento do Ensino Militar. Niet

Anónimo disse...

http://www.dailymotion.com/video/x5kxn4_1-3-protocoles-des-sages-de-sion_news#rel-page-3
doc baseado no livro do taguieff.


o termo anti-semitismo nada tem a ver com semitas. foi um termo criado por um anti-semita para dar um ar científico ao preconceito anti-judeu.

os judeus são semitas disse...

de origem

tal como o fino-hungárico é huno como Átila

Az eurozónában nem sikerült gyors és hatékony
megoldásokat találni a periféria országok
adósságproblémáira. Az eurozónabeli kormányok
nagymértékű deficitcsökkentési tervekkel és az
európai stabilizációs mechanizmus létrehozásával
igyekeztek a piac bizalmát megerősíteni, mindez
azonban elégtelennek bizonyult (2.ábra). Írország és
Portugália megmentése után 2011 nyarán újból
Görögországot kellett megsegíteni. Az elhúzódó
politikai viták és bizonytalanság közepette végül
július végén sikerült megállapodni a második görög
mentőcsomagról.

logo dizer que anti-semita nada tem a ver com semitas é falacioso

e anti-semita-hamita-camita

Anónimo disse...

caro anónimo, se lê em inglês veja isto:
http://en.wikipedia.org/wiki/Antisemitism#Etymology

no contexto em que se formou a palavra e no qual se usou, semita queria dizer simplesmente judeu. além disso, o anti-semitismo medieval nada tinha a ver com pretensas raças biológicas, e o moderno, ao contrário do racismo mais comum, baseia-se na ideia da existencia de uma cabala poderosa dos judeus que dominariam ou tentariam dominar o mundo através dum suposto monopólio da finança, dos jornais, etc. Não tem nada a ver com considerar os árabes e judeus, conjuntamente, como uma mesma raça.

joão viegas disse...

Muito bem caro Miguel,

Permito-me acrescentar umas considerações que, muito provavelmente, parecerão "provocatorias" a muitos leitores deste blogue (e até admito que o sejam, espero que no bom sentido da palavra) :

Aqueles que combatem o sionismo como se combate o Mal por excelência, são os mesmos que combatem o capitalismo por considerarem que é o "Mal" em absoluto.

Ora bem, tenho muita pena, mas o capitalismo não é o "Mal" em absoluto. Muito pelo contrario, é parte do caminho para o melhor... Não satisfaz nem leva a porto seguro, ou sequer sofrivel, mas é parte do caminho para o bem e, com certeza absoluta, parte do caminho para uma sociedade justa, ou para uma sociedade socialista como se queira.

Quem não percebe isto pode andar constantemente com Marx e Lenine na boca mas, no fundo, usa-os apenas como ladainhas.

Saudações democraticas, progressistas e socialistas

Diogo disse...

Quem tem nas mãos o monopólio do poder financeiro mundial?

Henry Ford (1863 – 1947) foi o americano fundador da Ford Motor Campany e pai das modernas linhas de montagem e da produção em massa. Ford foi um inventor prolífico e registou 161 patentes. Na qualidade de dono da Companhia Ford tornou-se um dos homens mais ricos e mais conhecidos do mundo.

Em 1918, Ford comprou um pouco conhecido semanário: «The Dearborn Independent».
Segue-se um excerto do primeiro artigo [The Dearborn Independent, 22 Maio de 1920]:

Existe no mundo de hoje, ao que tudo indica, uma força financeira centralizada que está a levar a cabo um jogo gigantesco e secretamente organizado, tendo o mundo como tabuleiro e o controlo universal como aposta. As populações dos países civilizados perderam toda a confiança na explicação de que «as condições económicas» são responsáveis por todas as mudanças que ocorrem. Sob a camuflagem da «lei económica» muitíssimos fenómenos foram justificados, os quais não se deveram a nenhuma lei económica a não ser a do desejo egoísta humano operado por meia dúzia de homens que têm o objectivo e o poder de trabalhar a uma vasta escala com nações como vassalas.

Embora qualquer coisa possa ser nacional, hoje ninguém acredita que a finança seja nacional. Ninguém acredita hoje que a finança internacional esteja em competição. Existem algumas instituições bancárias independentes, mas poucas verdadeiramente autónomas. Os grandes senhores, os poucos cujos espíritos abarcam claramente o plano em toda a sua extensão, controlam numerosos bancos e companhias fiduciárias, e um é usado para isto e outro usado para aquilo, mas não existe antagonismo entre eles, não sancionam os métodos uns dos outros, não há competição nos interesses do mundo dos negócios. Existe tanta concordância nas políticas das principais instituições bancárias de cada país como existe nas várias secções do Serviço Postal dos Estados Unidos – e pela mesma razão, são operadas pelas mesmas fontes e com os mesmos objectivos.

(CONTINUA)

Diogo disse...

(CONTINUAÇÃO)

Certamente, as razões económicas já não conseguem explicar as condições em que o mundo se encontra hoje em dia. Nem sequer a explicação usual da "crueldade do capital". O capital tem-se esforçado como nunca para ir ao encontro das exigências do trabalho, e o trabalho chegou ao extremo de obrigar o capital a novas concessões – mas qual é a vantagem para cada um deles? O trabalho tem até agora acreditado que o capital era o céu por cima dele, e tem feito o céu recuar, mas vejam, existe um céu ainda mais alto que nem o capital nem o trabalho se deram conta nas suas lutas um com o outro. Esse céu ainda não recuou até agora.

Aquilo a que chamamos capital aqui na América é normalmente dinheiro usado na produção, e referimo-nos de forma errada ao fabricante, ao gerente do trabalho, ao fornecedor de ferramentas e empregos – referimo-nos a ele como o “capitalista”. Mas não. Ele não é o capitalista no verdadeiro sentido do termo. Porque, ele próprio tem de ir ao capitalista pedir o dinheiro que precisa para financiar os seus projectos. Existe um poder acima dele – um poder que o trata muito mais duramente e o controla de uma maneira mais implacável que ele alguma vez se atreveria a fazer com o trabalho. Essa, na verdade, é uma das tragédias dos nossos tempos, que o "trabalho" e o "capital" lutem um com o outro, quando as condições contra as quais cada um deles protesta, e com as quais cada um deles sofre, não está ao seu alcance o poder para o remediar, a não ser que arranjassem uma forma de arrancar à força o controlo mundial de um grupo de financeiros internacionais que forjam e controlam estas condições.

Existe um super-capitalismo que é totalmente sustentado pela ficção de que o ouro é riqueza. Existe um super-governo que não é aliado de governo nenhum, que é independente de todos eles, e que, no entanto, tem as suas mãos em todos eles. Existe uma raça, uma parte da humanidade, que ainda nunca foi recebida como uma parte bem-vinda, e que teve sucesso em alcandorar-se a um lugar de poder que a mais orgulhosa raça de gentios nunca reivindicou – nem sequer em Roma nos tempos do seu mais poder orgulhoso. Há uma convicção crescente nos homens de todo o mundo de que a questão laboral, a questão dos salários e a questão da terra não pode ser solucionada antes deste assunto de um governo super-capitalista internacional estar resolvido.

"Os despojos pertencem ao vencedor" diz um velho ditado. E, de certo modo, é verdade que se todo este poder de controlo foi adquirido e mantido por uns poucos homens de raça judia, então ou eles são super-homens contra quem é inútil resistir, ou são homens comuns a quem o resto do mundo tem permitido obter um grau de poder indevido e perigoso. A não ser que os Judeus sejam super-homens, os Gentios devem culpar-se a si mesmos pelo que tem sucedido, e devem procurar uma rectificação com uma análise da situação e um exame justo das experiências de outros países.

Miguel Serras Pereira disse...

II Aviso à Navegação

O negacionista DIOGO insiste e escreve dois comentários que exemplificam ainda melhor do que aquilo que escreveu ontem o que é um anti-semita racista e eliminacionista.

A "raça judia" exerce uma força superior à do capital e do trabalho, subjugando um e outro e distorcendo o seu funcionamento e os seus interesses normais. Conclusão: acima da luta de classes está a luta pela sobrevivência a travar pelos gentios contra os judeus: "…se todo este poder de controlo foi adquirido e mantido por uns poucos homens de raça judia, então ou eles são super-homens contra quem é inútil resistir, ou são homens comuns a quem o resto do mundo tem permitido obter um grau de poder indevido e perigoso. A não ser que os Judeus sejam super-homens, os Gentios devem culpar-se a si mesmos pelo que tem sucedido, e devem procurar uma rectificação com uma análise da situação e um exame justo das experiências de outros países".

Ora, o primado da luta de raças ou das nações sobre a luta de classes é um dos traços distintivos do nazi e de outros tipos de fascismo. Por isso, estes comentários do DIOGO ficam aqui para ilustrar um perigo e uma ameaça que faremos mal em subestimar, por maior que seja o justificado desprezo que as ideias do indivíduo DIOGO nos mereçam. Mas não vou permitir mais propaganda desta. Caso o DIOGO reincida com outros comentários nazi-fascistas, irão para o lixo.

msp

Diogo disse...
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Diogo disse...
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Diogo disse...

Caro Miguel,

Os comentários nem sequer são meus. São de Eça de Queirós e de Henry Ford. Respectivamente, o melhor escritor português de todos os tempos e um dos maiores industriais (e inventor tecnológico) de sempre.

Estarei eu, ou você, à altura deles?