02/04/10

Dois filmes

Trabalhar sobre o passado tem destas coisas: passando horas em arquivos, a ver velhos filmes, fica-se sem tempo para intervir nas inúmeras e acesas discussões do presente e torna-nos em fracos intervenientes na blogosfera. Felizmente posso contar quer com a indulgência quer com a capacidade interventiva dos meus camaradas de redacção...

Perda de tempo? Não creio. Sem conhecer o passado torna-se mais dificil ajuizar o presente. Como não conhecer os países devia aconselhar maior reserva em opinar sobre eles, sejam eles Portugal ou os EUA, Cuba ou a Guiné-Bissau.

Nunca mais esqueci a experiência de visitar países da América Central sobre os quais há muito escrevia notícias baseadas em agências internacionais: logo no primeiro campo de refugiados “comunistas” que visitei, encontrei-os todos juntos numa cerimónia religiosa de “Sexta-Feira Santa”. Procurei em vão retratos de Marx, Lenin, Mao, até de Fidel e Che Guevara: nas tendas que visitei as imagens eram de João Paulo II e do cardeal Romero...

Adiante. Mesmo distraída com filmes antigos, alegro-me com notícias recentes do cinema português. Não, infelizmente, de maiores garantias de apoio ao sector – não são muitos os governantes ou possíveis mecenas a considerar a Cultura parte indispensável do Conceito Estratégico de Defesa Nacional... Mas sim de um prémio – o Grande Prémio do festival Cinéma du Réel – para “48”, de Susana Sousa Dias * , e de uma escolha – Eurochannel Short Films Tour – “Deus não quis”, de António Ferreira **.

Declaração de interesses: tenho respeito, admiração e amizade por ambos os realizadores e um projecto em curso com António Ferreira. Mas não é nenhuma dessas razões que me leva a dizer: por favor, vejam estes filmes; por favor, mostrem-os muitas vezes, abram as salas à sua exibição.

É que são filmes esteticamente cuidados, inteligentes e capazes, para mais – o que para mim não é despiciendo – de nos ensinar mais sobre nós próprios.

Lembro-me de ter pensado, quando vi “Deus não quis” – um olhar sobre a guerra a partir de uma canção popular, “Laurindinha” (“Ó Laurindinha/ Vem à janela/ Ver o teu amor/Ai ai ai que ele vai para a guerra/ Se ele vai para a guerra/ Deixai-o ir/ Ele é rapaz novo/ Ai ai ai ele torna a vir/ Ele torna a vir/ Se Deus quiser/Ainda vem a tempo/ Ai ai ai de arranjar mulher”) – “Como eu gostava de ter sabido fazer este filme!”


Não, não foi inveja, não teve nada a ver com inveja, era um sentimento de fraternidade com um realizador que tinha sabido dizer, em ficção, numa ficção feita certamente com um orçamento pequeno, mas não com menor qualidade, o que tantas vezes me esforcei por contar em documentário, e o tinha dito numa linguagem mais universal (as únicas palavras do filme são as da canção), talvez de recepção mais fácil. Gostar de saber fazer igual não implica inveja, implica admiração. Também gostava de ter escrito “A longa viagem”, de Semprum, “Os passos em volta”, de Herberto Helder, “Super Flumina Babylonis”, de Jorge de Sena, de saber cantar como Billie Holiday ou Colette Magny ou Miriam Makeba, de compor canções como Bob Dylan ou Sérgio Godinho, de descobrir uma vacina que permitisse erradicar a malária. Não sei, tenho pena, não inveja. Alegra-me que outros saibam.


Ao contrário de “Deus não quis”, “48” assenta sobre a palavra – e sobre a força terrível de imagens paradas na tela e no tempo, do uso do negro, dos silêncios. Alegrou-me ver que a Susana, de quem tinha ouvido dúvidas, receios, inquietações, enquanto trabalhava em “48”, tinha feito um filme belíssimo, que tinha provado em absoluto ter razão na sua opção estética (“demasiado radical”, disse um amigo de ambas, no final dessa primeira projecção no DocLisboa do ano passado), que ia certamente conseguir impor o seu filme, com uma forma “difícil” e um tema igualmente difícil, e ia continuar a levar pessoas, em Portugal e no estrangeiro, a olhar com mais atenção a nossa História recente, que tanta gente se esforça por esquecer, propondo pousadas e condomínios de luxo para os locais onde as personagens da Susana sofreram e resistiram, apagando letras inscritas em placas, aligeirando narrativas nos livros escolares.

Gostava que as televisões dessem a essas vitórias – e ao da reportagem "Eu e os meus irmãos", da Cândida Pinto e do Jorge Pelicano, premiada no Festival Internacional de Grande Reportagem de Actualidade e Documentário, FIGRA, 2010 – a mesma atenção que dedicam às equipas de futebol portuguesas em competições internacionais. E que repetissem e repetissem momentos desses filmes, como fazem tantas vezes, até à náusea, com os dos jogos.

Mas também gostava de ter asas e voar.

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* O Grande Prémio do festival Cinéma du Réel é de "48"
Público, 29.03.2010 - por Vanessa Rato

«Não foi o filme a vencer cá o DocLisboa, o grande evento português para o
documentário, mas foi o filme a ir "lá fora" e a voltar a casa com o Grande Prémio do festival Cinéma du Réel (Paris), um dos mais importantes do mundo. Estamos a falar de "48", de Susana de Sousa Dias, uma aproximação de 93 minutos ao que foram os anos da ditadura fascista portuguesa e ao que esta implicou para os que lhe resistiram.»
Estamos a falar, também, daquele que foi "provavelmente o mais ousado e vanguardista" objecto cinematográfico a passar pela edição de 2009 do Doc (palavras de Novembro último de Sérgio Tréfaut, o director do festival).
No Cinema du Réel, o prémio é de oito mil euros, mas, como sempre, há um mundo para lá do retorno financeiro - a começar pelo reconhecimento e a visibilidade acrescida.
"O que é que posso dizer? Estou muito contente. É isso, basicamente", dizia ontem ao P2 a realizadora. "Posso acrescentar que fiquei muito surpreendida com a muito boa adesão não só de profissionais -o júri, claro, outros realizadores... - mas também do público, em geral. Não é um filme, à partida, muito fácil."
Com dezenas de entrevistas a antigos prisioneiros da polícia do regime, a PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado), em "48" Susana de Sousa Dias optou por uma montagem livre do seu material, uma montagem mais poética e de estrutura mais minimalista do que a norma tradicional do cinema directo: usou apenas a voz das entrevistas, sobrepondo-a à imagem do desfilar das fotografias tiradas pela PIDE aos seus prisioneiros - preto e branco, frontal e perfil.
Um dos momentos: o rosto de uma mulher de sorriso aberto; um estalo de resistência num lugar de sofrimento - "Nunca lhes daria o gosto de me verem com cara de sofrimento", diz uma das vozes off.
"Os anos passam, mas as fotografias permanecem inalteradas, todas no mesmo formato. Por detrás destas imagens monocromáticas e monótonas, tristes e inertes, as vozes daqueles que, em tempos, foram fotografados relembram as suas memórias, os seus medos, as suas cicatrizes, as suas prisões e o abuso físico, a tortura, humilhações e prisão", "não se trata apenas da história secreta destas imagens, mas também do confronto entre o perpetrador e a sua vítima congelado para a eternidade", lê-se no texto assinado pelo realizador e crítico de cinema Yann Lardeau (Cahiers du Cinéma) com que o filme é divulgado no site do Cinéma du Réel.
Em Paris, a última sessão - de quatro - foi na sexta-feira. Mas uma exposição assim abre portas. Brasil, com o festival É Tudo Verdade (8 a 18 de Abril, no Rio e em São Paulo), estava já agendado desde o Doc, mas Paris trouxe convites, por exemplo, para Turim e a Nova Caledónia.
"Fico muito feliz também pelo filme: trata a nossa história recente, que não tem sido bem tratada e onde há muito trabalho a fazer", dizia ontem a realizadora.

Difícil acesso às salas
Trabalho a fazer, pois. Como o sugerido pelos momentos em que a imagem do filme se afunda num negro total - os arquivos de África da PIDE desapareceram, deixando sem rosto, por exemplo, os negros que foram presos e torturados.
Mas, de regresso à vitória: "Estou radiante", dizia ontem ao P2 Sérgio Tréfaut, falando em nome do Doc mas em nome, também, da Associação pelo Documentário (Apordoc), de que é membro fundador e cuja direcção integra actualmente. "Deve ser um combate difícil lançar "48" em sala, mas espero que consigamos, provavelmente com acordos e pontes entre o Instituto do Cinema e Audiovisual e o Ministério da Educação."
Esta ligação é, neste caso, para Tréfaut, fundamental: "É um filme que deveria ser visto por todos os alunos do secundário. É um filme de construção extremamente elaborada do ponto de vista artístico. O seu conteúdo histórico é extremamente importante e rico, uma razão suplementar para que esteja em sala. Deveria ser de visionamento obrigatório para as cadeiras de História."
"48" é a segunda longa-metragem de Susana de Sousa Dias, depois do também premiado Natureza-Morta, realizado a partir de imagens de guerra, documentários de propaganda e fotografias de prisioneiros políticos também do Estado Novo.
Aos 48 anos, e professora do curso de Arte Multimédia da Faculdade de Belas- Artes da Universidade de Lisboa, Susana de Sousa Dias é também autora da curta "Processo-Crime 141/53 - Enfermeiras do Estado Novo" (2000). Está actualmente em fase de montagem de "Luz Obscura".
"48" foi premiado por um júri constituído pelos realizadores Sólveig Anspach (Finlândia/EUA), Sepideh Farsi (Irão), Michaël Gaumnitz (França) e Bruno Muel (França) e, por fim, pelo director do festival Shadow, Stefan Mayakovsky (Holanda).

** A curta metragem de António Ferreira "Deus não Quis", premiada internacionalmente, foi escolhida pelo Eurochannel para representar Portugal numa selecção de filmes de curta duração europeus que vão circular por salas de cinema da Europa, foi hoje anunciado.
Segundo uma nota da produtora Zed Filmes Curtas e Longas, a obra sobre a guerra colonial vai representar Portugal no "Eurochannel Short Films Tour" e será também exibida no âmbito da programação do canal dedicada àquela selecção de curtas metragens europeias que circularão pelo 'Velho Continente".
"Os grandes festivais nacionais ignoraram o filme, que lá fora tem sido reconhecido", disse hoje o cineasta de Coimbra à agência Lusa, ao destacar, entre os vários prémios que a obra arrebatou a nível internacional, os galardões obtidos no Cyprus International Short Film Festival (Grande Prémio para Melhor Filme de Ficção e Prémio de Melhor Actriz, atribuído a Catarina Lacerda).
De acordo com António Ferreira, a selecção do Eurochannel incidiu em perto de quatro dezenas de obras representativas da cultura de cada um dos países europeus escolhidos.
"Talvez seja uma mais-valia ser um filme sem palavras, o que o torna mais compreensível e permite uma linguagem mais universal", adiantou o realizador.
A curta metragem produzida e realizada por António Ferreira em 2007 é baseada na dramatização dos versos da canção popular "Laurindinha". Conta a história de Ramiro, um jovem que parte para a guerra e que, ao regressar, enfrenta o desencontro com o amor da sua vida, Laurinda.
António Ferreira disse ainda à agência Lusa que "Deus não Quis" vai ser exibido no próximo dia 25 de Abril pela RTP2, no programa "Onda Curta".
Além de Catarina Lacerda, o elenco da curta metragem, que esteve recentemente em exibição nas salas portuguesas, integra os actores Fernando Delfim Duarte e Armando Ladeira.
O Eurochannel tem o objectivo de promover a cultura e o estilo de vida da Europa pelo mundo. A sua programação é integralmente europeia e está disponível em mais de 200 operadores de televisão por assinatura.

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